Tercinas sobre a fugacidade de tudo

De Hugo von Hofmannsthal, com tradução de Vasco Graça Moura.

I

Inda lhes sinto o hálito na face:
pode lá ser que este correr de dias
para sempre e de todo assim passasse?

Ninguém entende coisa tão estranha,
cruel demais pra queixas e agonias:
que deslizando, nada se detenha.

E que o meu próprio eu, imperturbado,
de um menino pequeno até mim venha,
cão de estranheza inquieto e tão calado.

Mais: que eu fosse há cem anos, e sabê-lo,
que cada avô dos meus, amortalhado,
esteja tanto em mim como o cabelo,

sendo um comigo como o meu cabelo.

II

As horas! Onde nós o azul claro
do mar vemos e a morte se nos fez
leve e sem medo, em festa e sem reparo,

como meninas só de palidez
e grandes olhos sempre se resfriam,
e à tarde olham perdidas, na mudez

de ver que a vida, enquanto adormeciam
seus membros, lhes fluiu silente e langue
em árvore e erva, e tímidas sorriam,

como uma santa enquanto verte o sangue.

III

Nossa matéria aos sonhos é igual
e os sonhos abrem olhos à maneira
de umas crianças sob o cerejal.

Das copas, ouro pálido se esgueira
da lua-cheia e a vasta noite alcança…
senão, sonhos não há à nossa beira.

Vivem aí qual riso de criança,
e como a lua-cheia sobem, descem,
quando desperta sobre a fronde avança.

O mais íntimo se abre a quanto tecem;
quais mãos-fantasma sempre num tristonho
espaço estão em nós e vida oferecem.

E os três são um: homem e coisa e sonho.

Poemas psicografados

Ressuscitando um clássico de 1999…

Não fui eu mais que um instrumento:
a mão de algum fantasma oculto
rende, dos silêncios do além,
esta homenagem às avessas.

1. Manoel de Barros – “Sapiência dos vagalumes”

I. Ode à filosofia das plantas

O sonho de todo girino é ser nuvem.
Os olhos das pedras cheiram a manhã.
Os besouros enobrecem a terra.

Se uma pedra se pergunta “quando nasci?”
então os céus enfolham e deságuam
em vertigens e delicadezas minerais.

*

II. Compreensão da clorofila

Hoje meu pâncreas fez fotossíntese.

*

III. Legalize Santo Daime

Conheci ontem Lucélia Santos.
Ela me passou uma paz de libélula,
dessas que nem os tuiuiús conhecem.

Então o céu enluarou.
Meus olhos de capivara arderam em flor.

***

2. Elisa Lucinda – “Sonhos de batedeira”, inspirada em Isaac Asimov

A vida da batedeira é só bater, brum brum brum ou então ficar desligada
Ela só existe para fazer bolo, pudim, essas coisas gostosas que agradam os maridos
E dificultam a vida das empregadas domésticas que só querem ver novela.
Quando passa novela a televisão fica apaixonada
E todos os móveis da casa passam a gemer de amor e ficam só gemendo
A noite inteira e a louça que está na máquina também fica cheia de amor
Mas a batedeira que só bate brum brum brum fica toda enciumada
Porque sempre que há amor ela está muito cansada de ter ficado o dia inteiro
Batendo aqueles bolos e pudins que ela nunca vai comer.
Então ela tem um dilema: “Desligar ou não desligar?”
Porque se é para sempre perder a festa dos amigos e nunca namorar
Talvez seja melhor nem existir, pois é melhor não existir do que viver só pra escangalhar.

***

3. Chacal

a vida é assim, é assim mesmo
às vezes beber, as vezes não
o que importa é ter o pé no chão
que é pra nunca andar a esmo

é preciso liberdade, meu irmão
é preciso que todo mundo seja feliz
e ande por aí cantando essa canção
que eu compus com meu nariz

a festa não pode acabar

***

4. Paulo Leminski, “Variações sobre um tema de Chacal”

não sei se a vida é assim mesmo
ou se assim mesmo é que é a vida
só sei que é vida e é vida mesmo
vida vida mesmo vida mesmo mesmo vida

onde é que está o mesmo da vida?
ou não está?
quem procura acha?
e se eu morrer atropelado no próximo cruzamento…
ainda assim é vida mesmo?

a cidade… as pessoas… tudo me olha

como

Kiss and tell, tudo mentira

Isto tudo é verdade verdadeira:

O ponto é: ensina-se poesia, aqui, como uma justificada sucessão de assassinatos, até que, finalmente, se chegue ao modernismo mais chinfrim, do tipo “amor: humor”, como se chega ao paraíso. Imaginem um professor italiano dizendo que Ungaretti, sim, é que é bom, e aquele almofadinha do Carducci faz muito bem em ficar na penumbra; ou um francês dizendo que Apollinaire salvou a França do rendilhado de Gautier; um alemão afirmando que Celan estirpou a praga de Rilke… — seria caso de polícia, acreditem. No Brasil não; e a criançada continua aprendendo que “amor: humor” é ‘a’ poesia brasileira de verdade, enquanto “Ora o surdo rumor de mármores partidos” não passa de afetação…

Em meu último semestre na Faculdade de Letras falei algo semelhante para a professora da matéria de Literatura Brasileira II: “Por que se ensina que o modernismo veio em 1922 para nos salvar dos almofadinhas? Não tínhamos Machado, Augusto dos Anjos? Quem precisava de salvação?” A professora disse que havia Coelho Neto. Façamos pois um movimento literário contra a Hebe Camargo.

Dito de outro modo, a história da poesia brasileira ensinada nas escolas é um kiss and tell cujo kiss nunca aconteceu e cujo tell é prá lá de chinfrim. Agora, a mulher que foi difamada pelo idiota que diz que a beijou volta de panela na mão para arrebentar o safado.

Dicta&Contradicta, #06

Minha contribuição é mais uma “Anatomia do Poema”, continuando a exploração da idéia de estilo baço.

E, para dizer a verdade, essa é a Dicta que eu mais tenho vontade de ler! Ainda que, admitamos, o título “O caminho para a Casa-Grande” não seja propriamente auspicioso. O autor, porém, escreveu uma tese que parece muito interessante: Nos sertões do poente: conquista e colonização do Brasil Central.

Ovídio em Ruanda

Enquanto aqui na Zona Sul carioca podemos nos ater a uma espécie de catolicismo burguês e satisfeito consigo, outras pessoas passam por situações extremas e fica a pergunta: o que dizer a elas? Não acredito por um segundo que o mal questione a possibilidade do cristianismo, mas me pergunto, sim, que exemplo ou que palavra eu poderia oferecer às mulheres estupradas de Ruanda.

Clique no link, e veja que, apesar da história de horror que envolve um sacerdote, a filha que nasceu dos estupros em série, praticados por vários homens, usa uma cruz. O que também é um grande exemplo para as pessoas que se julgam puras demais para pertencer a uma igreja.

Ovídio no Terceiro Reich
Geoffrey Hill
Tradução de Pedro Sette-Câmara; ver outra tradução

non peccat, quaecumque poteste peccasse negare,
solaque famosam culpa professa facit.
(AMORES, III, xiv)

Gosto do meu trabalho e de meus filhos. Deus
é distante, difícil. Dão-se coisas.
Perto assim das antigas tinas de sangue
a inocência não é arma terrena.

Uma coisa aprendi: a não desprezar tanto
os condenados. Eles, em seu plano próprio,
têm estranha harmonia com o amor
de Deus. Já eu, no meu, festejo seu coral.

Ovid in the Third Reich
Geoffrey Hill

non peccat, quaecumque poteste peccasse negare,
solaque famosam culpa professa facit.
(AMORES, III, xiv)

I love my work and my children. God
Is distant, difficult. Things happen.
Too near the ancient troughs of blood
Innocence is no earthly weapon.

I have learned one thing: not to look down
So much upon the damned. They, in their sphere,
Harmonize strangely with the divine
Love. I, in mine, celebrate the love-choir.

Cordel liberal para acompanhar as eleições

Nos primeiros dias de 2003, um romance então recém-lançado captou exatamente o meu estado de espírito diante da chegada do PT à presidência: Brás, Quincas & Cia, de Antonio Fernando Borges. Creio que o romance estava “certo” (aspas porque um romance não é um ensaio que propõe uma tese) ao falar de como a sutileza perde prestígio para a superficialidade. Parece a coisa mais banal do mundo, a coisa que só acontece com os outros por excelência, até que você percebe que em 2003 não seria tão fácil confundir a direita mesma com um antipetismo tão epidérmico e gratuito que não enxerga nem mesmo que José Serra não é nem conservador, nem liberal, mas apenas o adversário viável do partido que se espera derrotar.

Recebi de Martim Cardoso o poema abaixo e me lembrei da experiência de ler aquele romance em 2003. Alguém está dizendo o que eu queria dizer. A linguagem, é claro, é outra; aqui temos uma poesia ligeira (ligeira no melhor sentido possível, para ler e guardar imediatamente, para repassar e repetir) e relevante, um cordel urbano e liberal.

Obrigado, Martim, por ter escrito isto.

Cidadão, não companheiro
Martim Cardoso

Prefiro cidadão a companheiro
Salvo se escolho acompanhar
Prefiro por opção e por inteiro
Não por alguém me obrigar

Prefiro igualdade na lei
Que igualdade em tudo mais
Dispenso veleidades de rei
Mantenho veleidades reais

Reais até na ilusão
Que se possa acalentar
Meu direito à decepção
Ninguém ouse roubar

Prefiro iniciativa privada
Com certa dose de risco
A uma vida empatada
Encalacrada no Fisco

No sustento do impostor
(Daí o nome imposto)
Na falta de pudor
De quem assume um posto

E trabalha em causa própria
Como se dele fosse o Estado
São cenas muito impróprias
Para as quais sou tributado

Prefiro que a sacanagem
Seja restrita à cama
Nada a ver com vantagens
Estranhas a quem ama

A quem ama seu semelhante
Por mais que declare fazê-lo
O Estado, quando gigante,
Ninguém consegue detê-lo

Prima pela voracidade
De olho em todos os ganhos
Minguando-os à vontade
Conforme seu tamanho

Dando pouco em troca
Mas com que estardalhaço
Uma bola para a foca
Um nariz para o palhaço

Prefiro cidadão a companheiro
Salvo se escolho acompanhar
Prefiro por opção e por inteiro
Não por alguém me obrigar

As horas de Katharina

Nas livrarias, dia 30, já em pré-venda na Cultura, As horas de Katharina.

E com comentários de Juliana Perez e notas de Jessé Primo. Conheço os dois e acho que não haveria ninguém melhor para trabalhar no livro. Juliana tem uma percepção muito aguda da obra de Bruno Tolentino, e Jessé, prestem bastante atenção, tem o melhor ouvido para poesia do Brasil.

Por ora, estando eu aqui exausto e atarefado, só poderia dizer que, num tempo remoto e distante, a peça finalmente publicada neste volume foi lida na Casa da Gávea, com Júlia Lemmertz no papel de Katharina. Foi uma noite memorável.

Este aqui é o segundo poema do livro:

Noturno
Bruno Tolentino

I.

Porque o amor não entende
que tudo quer passar,
nunca, nunca consente,
a nada o seu lugar.

Planta presa, de alpendre,
sacudindo no ar
braços impenitentes,
tenazes, em lugar

de aceitar que não prende
nada, o amor quer dar
apaixonadamente
laços à luz solar

e é noite de repente.

II.

Se ainda te iluminar
com um olhar novamente,
sei que não vais estar
tão perto; a alma entende,

o corpo quer gritar!
Porque o olhar apreende
mais do que alcança dar,
à distância, na mente,

de que vale um olhar
com a noite pela frente?
Essa noite que tende
a unir e separar

inapelavelmente…