Cordel liberal para acompanhar as eleições

Nos primeiros dias de 2003, um romance então recém-lançado captou exatamente o meu estado de espírito diante da chegada do PT à presidência: Brás, Quincas & Cia, de Antonio Fernando Borges. Creio que o romance estava “certo” (aspas porque um romance não é um ensaio que propõe uma tese) ao falar de como a sutileza perde prestígio para a superficialidade. Parece a coisa mais banal do mundo, a coisa que só acontece com os outros por excelência, até que você percebe que em 2003 não seria tão fácil confundir a direita mesma com um antipetismo tão epidérmico e gratuito que não enxerga nem mesmo que José Serra não é nem conservador, nem liberal, mas apenas o adversário viável do partido que se espera derrotar.

Recebi de Martim Cardoso o poema abaixo e me lembrei da experiência de ler aquele romance em 2003. Alguém está dizendo o que eu queria dizer. A linguagem, é claro, é outra; aqui temos uma poesia ligeira (ligeira no melhor sentido possível, para ler e guardar imediatamente, para repassar e repetir) e relevante, um cordel urbano e liberal.

Obrigado, Martim, por ter escrito isto.

Cidadão, não companheiro
Martim Cardoso

Prefiro cidadão a companheiro
Salvo se escolho acompanhar
Prefiro por opção e por inteiro
Não por alguém me obrigar

Prefiro igualdade na lei
Que igualdade em tudo mais
Dispenso veleidades de rei
Mantenho veleidades reais

Reais até na ilusão
Que se possa acalentar
Meu direito à decepção
Ninguém ouse roubar

Prefiro iniciativa privada
Com certa dose de risco
A uma vida empatada
Encalacrada no Fisco

No sustento do impostor
(Daí o nome imposto)
Na falta de pudor
De quem assume um posto

E trabalha em causa própria
Como se dele fosse o Estado
São cenas muito impróprias
Para as quais sou tributado

Prefiro que a sacanagem
Seja restrita à cama
Nada a ver com vantagens
Estranhas a quem ama

A quem ama seu semelhante
Por mais que declare fazê-lo
O Estado, quando gigante,
Ninguém consegue detê-lo

Prima pela voracidade
De olho em todos os ganhos
Minguando-os à vontade
Conforme seu tamanho

Dando pouco em troca
Mas com que estardalhaço
Uma bola para a foca
Um nariz para o palhaço

Prefiro cidadão a companheiro
Salvo se escolho acompanhar
Prefiro por opção e por inteiro
Não por alguém me obrigar

As horas de Katharina

Nas livrarias, dia 30, já em pré-venda na Cultura, As horas de Katharina.

E com comentários de Juliana Perez e notas de Jessé Primo. Conheço os dois e acho que não haveria ninguém melhor para trabalhar no livro. Juliana tem uma percepção muito aguda da obra de Bruno Tolentino, e Jessé, prestem bastante atenção, tem o melhor ouvido para poesia do Brasil.

Por ora, estando eu aqui exausto e atarefado, só poderia dizer que, num tempo remoto e distante, a peça finalmente publicada neste volume foi lida na Casa da Gávea, com Júlia Lemmertz no papel de Katharina. Foi uma noite memorável.

Este aqui é o segundo poema do livro:

Noturno
Bruno Tolentino

I.

Porque o amor não entende
que tudo quer passar,
nunca, nunca consente,
a nada o seu lugar.

Planta presa, de alpendre,
sacudindo no ar
braços impenitentes,
tenazes, em lugar

de aceitar que não prende
nada, o amor quer dar
apaixonadamente
laços à luz solar

e é noite de repente.

II.

Se ainda te iluminar
com um olhar novamente,
sei que não vais estar
tão perto; a alma entende,

o corpo quer gritar!
Porque o olhar apreende
mais do que alcança dar,
à distância, na mente,

de que vale um olhar
com a noite pela frente?
Essa noite que tende
a unir e separar

inapelavelmente…

Inovações técnicas (iminentes) na poesia

O assunto me interessa demais e o tempo para elaborá-lo é de menos (diversas coisas têm-me afastado do blog), mas preciso fazer algumas observações sobre o que diz o Érico:

1. Creio que o próprio Mattoso Câmara, com a teoria do grupo de força, aponta o caminho para a criação de um novo pé métrico em português. Poderíamos experimentar com versos em que se contam primariamente o número de vezes em que as intensidades se repetem, e não o número de sílabas métricas. Mas isso é só o começo. Como os estudos prosódicos ainda são relativamente incipientes no Brasil, pode ser que estejamos numa posição semelhante à dos pintores renascentistas, com mundos a descobrir.

2. Já apresentei a questão do “v’rão” europeu a uma professora minha de fonética e fonologia, que me disse que um espectrograma ainda acusaria a presença da vogal que nos parece perdida. Creio que aí há um problema de dar à máquina a primazia sobre o ouvido, que é um problema porque não falamos com máquinas, e sim com pessoas. O ouvido acusa que um verso como “por mares nunca dantes navegados” tem na Europa no máximo 9 sílabas: “por mares nunca dantes nav’gados”. Digo no máximo porque me parece possível comer outras sílabas de maneira realista, mas prefiro parar por aqui porque nunca sequer pisei em Portugal…

Falei há pouco de pintores renascentistas de propósito. Há muito mais na poesia do que a simples formação da sensibilidade pessoal. Há em qualquer arte a necessidade de pesquisa, e boa parte das obras que mais valorizamos está em busca de inovações técnicas. O esquema poundiano de inventores, mestres e imitadores segue a lógica de fazer uma descoberta técnica, explorar as possibilidades abertas pela descoberta e depois apenas repetir aquilo que já foi esgotado. O poeta que, hoje, não tem nenhum interesse pela grande área da fonética, está condenando a si próprio a nunca testar os limites do seu material.

Joaquim Nabuco fala da poesia brasileira dos séculos XX e XXI

Tenho lido Minha formação, de Joaquim Nabuco. Livro sensacional, que me impressiona por sua atualidade, isto é, por sua pertinência. Nabuco, por exemplo, não teve pruridos nacionalistas ao tratar de questões como a existência de uma classe culta no Brasil cujas referências estão na Europa.

Há alguns anos iniciei uma série de posts chamada “Minha formação”, numa alusão irônica ao título deste livro — as Celias Brookes não captaram a ironia, porque ela não veio em neon rosa, nem cercada de emoticons piscantes que avisassem: “oi, sou uma ironia!” Porém, mal sabia eu que provavelmente terei de incluí-lo na série, caso venha a retomá-la. Nesse momento, tenho pensado que pouca coisa seria mais proveitosa ao Brasil do que retornar ao pensamento do século XIX.

Abaixo, um dos vários trechos do livro que tenho vontade de reproduzir, e que demonstram a sua pertinência.

***

Renan me dera o conselho, que transmito à nova geração de literatos, de entregar-me a estudos históricos. Não há em regra nada mais ingrato, mais fútil, do que a produção que o indivíduo tira toda de si, e é o que acontece quando o talento não tem uma profissão literária séria. Há estudos, como as humanidades, que são apenas a habilitação do espírito para a carreira das letras; quem os tem pode dizer que possui a ferramenta do seu ofício; além da ferramente, há, porém, que escolher o material. O material em que trabalham os nossos homens de letras são os costumes, a sociedade, quando são romancistas ou dramaturgos; as leituras, quando são críticos; a própria vida ou impressões, quando são poetas.

O material preferido é, como se vê, todo ele pouco consistente, efêmero, em parte grosseiro, em parte imprestável ou insuficiente, e assim a produção é quase toda fácil, improvisada, sem trabalho anterior, sem investigações, sem esforço, sem tempo, sem nenhum elemento que revele continuidade, ambição. Faltando a disciplina e a emulação de uma especialidade, que acontece? A inteligência contrai o hábito da dissipação, da indolência, do parasitismo; o talento relaxa-se, perde todo o peso específico. Temos por isso uma literatura desocupada; o nosso campo literário é composto de flâneurs… A verdade e que vai aumentando consideravelmente em nosso tempo o que Matthew Arnold traduziu por inacessibilidade às idéias, e que esse novo filistinismo reduzirá a arte dos nossos banquetes literários a um só gênero de iguarias, o gênero nature. O público, o protetor moderno das letras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não passa de uma mecenas de meia cultura, mesmo em França e na Inglaterra. Aconselhar a jovens brasileiros que se dediquem a estudos históricos desinteressados é aconselhar-lhes a miséria; mas as leis da inteligência são inflexíveis e a produção do espírito que não se alimenta senão de sua própria imaginação tem que ser cada dia mais frívola e sem valor.

O cânone acidental

Quarta-feira, 17 de março, na É Realizações, será lançado O cânone acidental, de Marco Catalão. Livro excelente. E o prefácio de Érico Nogueira não fica atrás. Aproveitai, ó, paulistas, e comparecei.

Escrevi sobre um dos poemas para a última Dicta, como também, vejam só, fiz a orelha do livro. Vocês podem lê-la abaixo.

***

O cânone acidental é o elo perdido entre a poesia consagrada, a vida cotidiana e o humor. Por que perdido? Porque seria natural esperar que um certo espírito paródico e galhofeiro nos freqüentasse mais. Não aquele espírito meramente irreverente que, bravamente apoiado pela academia e pela imprensa, ousasse afetar nojinho pelos tabus da mítica sociedade conservadora, mas um espírito que viesse nos ajudar a purgar, ou purificar, os sentimentos que nos dificultam estar aqui-e-agora (com o perdão do heideggerianismo), isto é, ser brasileiros, falantes de português, escolarizados, com essa poesia que mais nos pesa do que nos ajuda. Aí entra o humor.

Um momento. O professor empertigado em sua solenidade estética e estrambótica certamente já se horroriza com a sugestão de que a poesia, ainda mais humorística, pode ter um efeito terapêutico (heideggerianos, excavem metafisicamente essa última palavra para me entender). “A poesia não serve para nada”. Uns dizem isso para fazer troça dela, e outros para se orgulhar, como se o serviço fosse uma coisa indigna. Pois toda poesia serve para alguma coisa. Se o senhor não tivesse alma, talvez ela não servisse; mas, como tem, ela serve. Portanto, caro professor, continuemos.

Marco Catalão combina a linguagem e os temas contemporâneos com os ritmos dos poemas consagrados. A geração que era obrigada a decorar Camões na escola — e diversas pessoas acima de uma certa idade podem despejar sonetos e mais sonetos como um iPod sem stop — pode recuperar, por exemplo, os “Sete anos de pastor” depois de rir da paródia que lhe é dedicada. Claro que para as gerações mais novas é preciso uma nota de rodapé para explicar quem é Jacó etc. Os (que se julgam) românticos inveterados, aqueles amantes de MPB para quem o “Soneto de fidelidade” é “aquela parada linda que tem no fim de ‘Eu sei que vou te amar’ do Tom Jobim” podem, após conhecer — para usar uma palavra da moda — a releitura que lhe faz Catalão, talvez até descubram as benesses de se abrir um livro. Dentro de uma biblioteca. E aqueles que foram oprimidos na escola pelas promessas de uma vida de classe média que Dirceu já prometia à Marília em priscas eras verão que, pós-modernamente, contemporaneamente, no século XXI e no alvorecer de uma nova era da comunicação um neo-Dirceu ressentido lhe garante que o sonho dourado da classe média não se tornará realidade para ela: não será famosa.

O leitor há de se reconhecer nisto tudo. Nem que seja no seu desejo inconfessado de ser famoso também (“Quem? Eu? Eu não!”). Ou na fingida indiferença com que, já pai de família, olha as adolescentes saindo da escola… Depois dessa, só falta ressaltar novamente o caráter terapêutico da poesia e deste livro em particular. Leia-o. Rápido. Reconheça-se nas situações descritas e, com uma boa gargalhada, expulse os maus sentimentos de você. Depois, plenamente acalmado, retorne àquela poesia em que esta se baseia, para redescobri-la, límpida, sem a poeira de um cânone aparentemente alheio e distante.

O estilo baço

Enquanto não encontro o tempo devido para retomar as discussões do momento, deixo aqui um trecho de um ensaio de Auden que diz respeito a uma antiga preocupação minha, e que também vai como um acréscimo a um antigo post de Érico Nogueira. Interessante é observar que Érico fala em “poesia dramática”, que Ezra Pound decerto diferenciaria de “teatro em versos”. O encontro entre a poesia e o drama, senhores, é mais raro do que se imagina (ou quiçá impossível).

Uma outra observação, lamentando que no momento eu só possa mesmo fazer observações, é que a solenidade parece ter-se tornado inviável. As tragédias contemporâneas — penso em Tennessee Williams e Nelson Rodrigues — não têm personagens “elevados”, mas pessoas comuns. Creio que isso se deva à própria dessacralização da política. Hoje é impossível não imaginar uma aula de literatura em que não se diga que a promessa feita por Édipo no início de Édipo Rei de livrar a cidade da peste é uma espécie de “populismo”. Não esqueçamos ainda de que é mais fácil um rico entrar no Reino dos Céus do que um comentarista conseguir não reduzir Antígona a uma espécie de dissidente política. Sempre tenho a impressão de que ainda vão querer julgar Creonte na Corte de Haia por violações de direitos humanos. Se você acha que estou exagerando, pode ficar sabendo que o nobelizado Seamus Heaney, ao ser convidado para fazer uma versão de Antígona , declarou ter encontrado a motivação para o trabalho em George Bush

(Não digo isso para reclamar da dessacralização da política, pelo contrário. Prefiro mil vezes o Lula a um sujeito que se ache descendente dos deuses ou ungido por Deus. O que não posso é fingir que isso não tenha conseqüências para a literatura.)

Agora que escrevo, percebo que essa versão de Heaney provavelmente encarna tudo aquilo a que Auden se refere; e que provavelmente os tragediógrafos gregos já evidenciam essa dessacralização, ao menos em suas atitudes (Ésquilo sendo “mais sacro” e Eurípides menos). Mas a arte é longa, a vida é curta, e vou deixar vocês com Auden.

A julgar pelos poemas que escreveram, todos os poetas modernos que admiro parecem compartilhar minha convicção de que, na época atual, a poesia que pretende ser falada ou lida não pode mais ser escrita em estilo elevado, nem precioso, mas apenas em estilo baço [drab], usando esses termos no sentido com que C. S. Lewis os usava. Por estilo baço refiro um tom de voz calmo, que deliberadamente evita atrair atenção para si, enquanto Poesia com P maiúsculo, e uma certa modéstia nos gestos. Sempre que um poeta moderno levanta a voz, ele, como se fosse um homem usando peruca ou sapatos de plataforma, me causa um certo desconforto.

Tenho as minhas teorias — e imagino que meus colegas também tenham as deles — sobre por que as coisas são assim, mas não vou entediá-los infligindo-as a vocês. Para a poesia não-dramática, isso não cria nenhum problema; mas, para o drama em versos, cria. Ao escrever suas peças em versos, Eliot tomou, creio, o único caminho possível. Excetuando alguns momentos peculiares, manteve baço o estilo. Não consigo acreditar, porém, que ele tenha ficado muito feliz por ter de fazer isso, pois atuar em público é, como dizemos, “fazer cena”; isso é coisa que um estilo elevado pode fazer despudoradamente, mas um estilo baço é obrigado a fingir que não está “fazendo cena”. O que tentei mostrar foi que, enquanto forma de arte que inclui palavras, a ópera é o último refúgio do estilo elevado, a única arte para a qual um poeta nostálgico daquelas épocas passadas, em que os poetas podiam escrever de modo grandiloqüente por si próprios, ainda pode contribuir, desde que se dê ao trabalho de estudar o métier e tenha a sorte de encontrar um compositor em quem acredite.

W. H. Auden, “The World of Opera”. Secondary Worlds. Faber and Faber: Londres, 1968. p. 102

Leia o trecho no original.

Para um breve resumo do que C. S. Lewis quis dizer com drab style, ver este trecho do livro de Arana sobre Auden.

Canção do Narciso maduro

Qual Narciso maduro prestes a vingar-se,
abre os olhos, enxerga nada além do espelho,
e pergunta ao chão, teu destino e teu disfarce,
se aquilo na parede é um escaravelho.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

Coisas há que apenas se praticam, jamais
são mencionadas; nem são feitas escondidas,
mas sempre à plena luz, e sem quaisquer sinais
que as apontem, perpetuamente protegidas.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

Eis que vai sumindo a cidade na distância;
o caminho, somos nós que o vamos inventando;
nós podemos; sim; não queremos ambulância;
a certeza, somos nós que a vamos inventando.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.