E se o Papa Francisco levar uma ovada?

Com o clima atual de animosidades e de promessas de manifestações contra o Papa Francisco, que dispensou o papamóvel com vidro blindado usado após o atentado a João Paulo II, pergunto-me se não vão tentar ao menos lançar alguma coisa contra suas vestes brancas aqui no Rio de Janeiro.

Aí me vem imediatamente uma cena do filme de Rossellini sobre São Francisco, baseada numa página célebre do próprio, em que São Francisco explica onde encontrar “a perfeita alegria”.

O santo dos pobrezinhos

Para o santo, a perfeita alegria não consiste em converter todo o mundo, nem em prever todos os acontecimentos futuros, mas em apanhar em nome de Cristo. Por isso ele convida o irmão Leone a bater na casa de um homem para convidá-lo a servir Cristo, e é escorraçado para fora, jogado na lama, debaixo da neve.

O Papa também virá aqui convidar-nos à mesma coisa. O dono da casa, no filme, manda um “Não perturbe!”. Pois o Papa Francisco vai perturbar bastante a cidade (e eu moro em Copacabana, o bairro que provavelmente será o mais perturbado de todos).

Então, se o Papa levar uma ovada ou qualquer coisa, eu saberei que ele está conhecendo a perfeita alegria. Ou, como vocês podem ver no trecho do filme, logo abaixo, la perfetta letizia (e italiano não é nada difícil de entender).

Antiga Sé & adjacências: Centro do Rio, 23 de junho de 2013

Hoje é domingo. Fui à missa no rito extraordinário na Antiga Sé do Rio de Janeiro, na rua Primeiro de Março, em frente ao Paço Imperial. Tirei essas fotos com o celular na saída da missa. (Sou um péssimo fotógrafo, claro.)

De frente para a igreja, assim estão as janelas à esquerda:

Antiga Sé, primeira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, primeira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, segunda janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, segunda janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, terceira janela à esquerda a partir da porta

Uma visão do outro lado da rua:

Antiga Sé, janelas à esquerda a partir da porta
Antiga Sé, janelas à esquerda a partir da porta

Aqui, a entrada do prédio da Receita Federal (tentei esconder meu reflexo no centro, um amigo saiu ao lado):

Receita Federal, Rua Primeiro de Março, Centro do Rio de Janeiro
Receita Federal, Rua Primeiro de Março, Centro do Rio de Janeiro

E apenas uma das janelas apedrejadas do Paço Imperial:

Paço Imperial, Rio de Janeiro
Paço Imperial, Rio de Janeiro

Credo in sodales qui progrediunt et virgam sustinent flammarum

Tendo um amigo chamado a atenção para o inacreditável “Credo” que uma obra publicada pelas Edições CNB do B (apud José Osvaldo de Meira Penna), e divulgado pelo indispensável Fratres in Unum, julguei por bem encomendar uma sua tradução latina a um artesão que, como seus antecessores medievais, prefere o anonimato.

Até quando, eminências, julgareis que desprezar um mínimo de bom gosto é sinal de apreço pelo povo? Até quando crereis poder competir com o Faustão sem tornar-se igual a ele? Que a evangelização pode ou deve ser imiscuída como mensagem subreptícia em meio ao vil entretenimento, como merchandising divino?

Ecce novum Credo Iuventutis a CNBB editum, quod ab eis favetur confiturum in saecula saeculorum.

Credo in iuventutem quae nova quaerit, qui melius cras sperat et somniat somnos infantium.
Credo in puerum puellamque qui scit quod vult, qui pugnam firmiter confrontat, qui non a via currendi fugit.
Credo in sodales qui progrediunt et virgam sustinent flammarum.
Credo in puerum qui valorem reperit vivendi sicut fratres et sorores, necnon quaerit communitatem.
Credo omnes pueros omnesque puellas scire ‘sic’ dicere et etiam ‘non’ dicere.
Credo in iuventutem qui semper convenit ad vitam fruendam.
Credo in pueros et puellas Communitatis, ruris, scholae, vicinitatis, qui in sua realitate amorem vivere sciunt.
Credo in gradationem nostram ad novam societatem, ubi omnes fratres et sorores erimus.
Credo in vim pueri et puellae qui ridet, canit, saltat, flet, connubialiter diligit, expectat et novum cras facit.
Credo in Deum Patrem et Matrem, Liberatorem, et in omnem puerum omnemque puellam qui somniat Regnum Amoris eius.
Credo in Puerum Christum, qui voluntatem Dei cumplevit et copioso amore vixit.
Credo in Spiritum Sanctum, qui igne amoris excitat iuventutem omnem ad Liberatorem quaerendum.
Credo in Mariam, mulierem doloris et laetitiae, matrem dilectam nobis, omnium puerorum puellarumque qui in vita valorem suum reperiunt.
Credimus nos solum fide, vi et confidentia inituros in Regnum Dei et Populi.
Amen.

Um pouco sobre Bergoglio; as acusações contra ele

Quisera eu poder parar e ler tudo sobre o novo papa. Mas as traduções estão aí, e ainda tenho um compromisso hoje à tarde.

A ler:

1. Os dois artigos antigos de Sandro Magister sobre o cardeal Bergoglio: um perfil dele feito em 2002, e um texto sobre a igreja na Argentina.

2. O que John Thavis, o vaticanista da hora (bom, foi o único que disse: “olhem o cardeal Bergoglio” antes da eleição), disser sobre os primeiros dias do novo papa. Aliás, para quem estiver na “arma de distração em massa” (apud Bill Valicella) que é o Twitter, lá está também John Thavis.

3. O Catholic Herald.

4. Um texto simples da First Things que coloca os pés no chão.

Agora, as acusações a Bergoglio surgiram no e-mail de alguns amigos meus nada menos do que DEZ MINUTOS depois da eleição. Francamente, “acusado de” já virou epíteto de muita gente. E a coisa mais banal do universo hoje são acusações. Chega a parecer que, se você não for acusado de nada, aí é que você deve ser suspeito mesmo.

Acho interessante que as acusações contra Bergoglio que li são ainda vagas. “Conviveu pacificamente com a ditadura”. A luta armada comunista não me parece nem obrigação moral, nem critério para medir o resto da humanidade. “Responsável pela prisão de dois padres”. Como? Ele chegou na polícia e os denunciou? Realmente, se alguém tiver um texto detalhado de fonte razoável, pode me mandar.

Esse clima acusatório todo serve para diferenciar as pessoas que querem falar com responsabilidade daquelas que não querem. Se você fica repetindo que fulano é acusado disso, acusado daquilo, sem ter prova nenhuma, sem que o assunto tenha sido decidido pela justiça ou algo assim, você está contribuindo para difamar uma pessoa e está indo contra o princípio da presunção de inocência. Aliás, São Francisco de Sales disse que o maior bem terreno que possuímos (ou o segundo maior, preciso achar o livrinho aqui) é o bom nome. Se você achar que não, e que não há problema em ficar dizendo “fulano, acusado de” enquanto desconhece provas da acusação, podia ao menos imaginar esse tratamento dispensado a você mesmo.

E lembrar deste poeminha de Yeats: The Leaders of the Crowd.

O papa Francisco e o conclave

Desde a renúncia de Bento XVI, minha vida parece estar em suspenso, como num sonho.

Naquele dia, lembro que acordei, peguei o celular e vi o Twitter. Alguém tinha acabado de repassar alguma coisa do Guardian dizendo que o papa tinha renunciado. Pulei da cama, corri para o computador, mandei e-mails para todos os meus amigos: e aí, alguém está sabendo?

Poucos minutos depois eu já via que era de verdade. Acho que em meia hora já tínhamos o vídeo da renúncia.

Agora os cardeais elegeram o cardeal Bergoglio. Que sei eu dele? Nada, vou descobrir junto com todo mundo.

Hoje de manhã a Tanja Krämer (que não é um fake meu, não é a minha namorada, e que eu nunca sequer vi pessoalmente) me mandou um e-mail apenas com um link para um texto de John Thavis falando em Bergoglio. Vou confessar que nem cliquei. Não por despeito: hoje eu também entreguei mais uma tradução e precisava me concentrar.

Fica então o reconhecimento à Tanja, e mais uma rasteira: agora é acompanhar John Thavis também.

Sobre o conclave, algumas especulações:

1. Diz a lenda – é lenda na medida em que nunca teremos confirmações oficiais, só declarações em off de cardeais que vão querer permanecer anônimos, mas não quer dizer que não seja verdade – que Bergoglio foi o segundo colocado no conclave de 2005, pegando os votos do cardeal Martini.

2. Logo, parece razoável imaginar Bergoglio deve ter tido os votos de antes, dos cardeais criados por João Paulo II, mais alguns votos de alguns cardeais criados por Ratzinger.

3. Parece ainda não muito louco supor que os cardeais teriam pensado, diante da renúncia: “devíamos ter eleito Bergoglio”.

4. Thavis diz que Bergoglio causou boa impressão na congregação pré-conclave.

O que é mais lindo é que tudo isso poderia ter sido cogitado por qualquer um, mas não foi. Foram listas e mais listas de papáveis, Scherer, Dolan, O’Malley… E eu não vi ninguém falar do cardeal Bergoglio. (Mas eu também não estava prestando atenção no John Thavis.)

Outra coisa interessante – e até bela – é ver como a eleição de Bergoglio, ao menos inicialmente, vai contra a narrativa recente de cúria malvada x papa em estado de choque + cardeais que querem limpeza.

O erro dessa avaliação pode ter estado no óbvio. Nós, o mundo, estamos sempre olhando para o futuro. Agora eu poderia dizer que a Igreja está olhando para a eternidade, tudo bem, mas depois de olhar para a eternidade a Igreja olha para o passado. No caso, um passado que é quase presente: apenas oito anos atrás. Quem parecia boa opção na época continuará parecendo, a menos que surjam novas informações.

Porém, se realmente Bergoglio ficou com os votos de Martini, sendo visto como um modo de bloquear Ratzinger, pode ser que haja sim um embate de posturas vagamente na linha de conservadorismo x progressismo. Digo “pode ser” porque, afinal, onde estão as obras e as declarações progressistas do cardeal Bergoglio? As do cardeal Martini estão por toda parte.

O que não exclui a hipótese (que já é uma hipótese sobre uma hipótese sobre uma hipótese…) de que esses progressistas tenham votado em Bergoglio com o mesmo gosto com que teriam votado em Martini.

Um detalhe bem interessante nessas disputas é que elas podem ser muito relevantes e totalmente irrelevantes. Para o católico comum, distante da Cúria, mais vale o contato com um bom padre, uma liturgia cuidadosa, do que as opiniões de um cardeal. No entanto, discutir as grandes personalidades é ótimo; rezar que é bom, fazer o bem sem que a esquerda saiba o que a direita faz… E eu digo isso como um puxão de orelhas em mim mesmo.

Porém, minha sensação agora é, antes de tudo, de alívio. Depois, de grande alegria (annuntio vobis gaudium magnum, “anuncio-vos uma grande alegria”). A sé não está mais vacante.

Hoje, antes de dormir, rezarei pelo papa Francisco – e, pela segunda vez no dia, rezarei pelo papa emérito Bento XVI.

Um grão de mostarda

Todos esses dias eu venho pensando em escrever um texto sobre Bento XVI. Fico esperando a disposição interior correta. Ela não vem. E começo a pensar que é preciso fazer as coisas com ou sem a disposição. Fazendo, a disposição vem. Logo acabarei usando esse método.

Robert Moynihan conta que encontrou um cardeal na rua e que ele, quase chorando, diz que Bento XVI nunca deveria ter renunciado. Minhas simpatias, cardeal. Há um misto de estarrecimento e de apego à figura de Ratzinger. Aliás, não importando quem o conclave eleja, Ratzinger vai dar o perfil teológico da Igreja pelos próximos 100 anos. Esse tipo de coisa funciona assim: você esbarra num problema, e se lembra, ou alguém lembra, que Ratzinger tinha dito que…

Contudo, se o cardeal na rua estava ainda abalado, o cardeal Arinze, que conviveu com Ratzinger na Cúria, parecia ter uma fé imensa.


O cardeal Arinze fala inglês claro – e é impossível não gostar dele.

E agora que o conclave começa, tento pensar nessa fé. Se o gesto de Ratzinger não nos convida a ter fé não nele, não num homem, mas no Espírito Santo.

Mesmo assim, a primeira coisa que ouço em meu coração é: reelejam Ratzinger.

Mas, como o conclave é misterioso, vou tentando ver os rostos dos cardeais, pensando que um deles será o novo papa. Posso torcer por Ranjith e O’Malley, posso não ter grande simpatia por outros. E daí?

Robert Moynihan também diz que encontrou uma velhinha – eu muitas vezes acho que ele conta umas coisas como fábulas – que falou bem de Schönborn – logo aquele que eu disse que não poderia ser eleito. Seria uma bela lição para mim, o único exemplo que eu dei de “esse aqui não” ser o escolhido.

Quando se tenta ser cristão, é preciso conviver com essas rasteiras amigas que o Espírito Santo dá. Não se aprende a humildade sem comer um pouco de pó.

Agora, pela lógica da velhinha – três papas da Europa Central, falta um – o cardeal Erdo também seria papável. Com o detalhe de se chamar Peter e agradar aos devotos das profecias de São Malaquias.

Vamos rezar que ainda é tempo.

E confesso que na quinta à tarde eu tenho um compromisso. Quero muito que já tenhamos um papa até lá!