Ovídio em Ruanda

Enquanto aqui na Zona Sul carioca podemos nos ater a uma espécie de catolicismo burguês e satisfeito consigo, outras pessoas passam por situações extremas e fica a pergunta: o que dizer a elas? Não acredito por um segundo que o mal questione a possibilidade do cristianismo, mas me pergunto, sim, que exemplo ou que palavra eu poderia oferecer às mulheres estupradas de Ruanda.

Clique no link, e veja que, apesar da história de horror que envolve um sacerdote, a filha que nasceu dos estupros em série, praticados por vários homens, usa uma cruz. O que também é um grande exemplo para as pessoas que se julgam puras demais para pertencer a uma igreja.

Ovídio no Terceiro Reich
Geoffrey Hill
Tradução de Pedro Sette-Câmara; ver outra tradução

non peccat, quaecumque poteste peccasse negare,
solaque famosam culpa professa facit.
(AMORES, III, xiv)

Gosto do meu trabalho e de meus filhos. Deus
é distante, difícil. Dão-se coisas.
Perto assim das antigas tinas de sangue
a inocência não é arma terrena.

Uma coisa aprendi: a não desprezar tanto
os condenados. Eles, em seu plano próprio,
têm estranha harmonia com o amor
de Deus. Já eu, no meu, festejo seu coral.

Ovid in the Third Reich
Geoffrey Hill

non peccat, quaecumque poteste peccasse negare,
solaque famosam culpa professa facit.
(AMORES, III, xiv)

I love my work and my children. God
Is distant, difficult. Things happen.
Too near the ancient troughs of blood
Innocence is no earthly weapon.

I have learned one thing: not to look down
So much upon the damned. They, in their sphere,
Harmonize strangely with the divine
Love. I, in mine, celebrate the love-choir.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com