Poemas psicografados

Ressuscitando um clássico de 1999…

Não fui eu mais que um instrumento:
a mão de algum fantasma oculto
rende, dos silêncios do além,
esta homenagem às avessas.

1. Manoel de Barros – “Sapiência dos vagalumes”

I. Ode à filosofia das plantas

O sonho de todo girino é ser nuvem.
Os olhos das pedras cheiram a manhã.
Os besouros enobrecem a terra.

Se uma pedra se pergunta “quando nasci?”
então os céus enfolham e deságuam
em vertigens e delicadezas minerais.

*

II. Compreensão da clorofila

Hoje meu pâncreas fez fotossíntese.

*

III. Legalize Santo Daime

Conheci ontem Lucélia Santos.
Ela me passou uma paz de libélula,
dessas que nem os tuiuiús conhecem.

Então o céu enluarou.
Meus olhos de capivara arderam em flor.

***

2. Elisa Lucinda – “Sonhos de batedeira”, inspirada em Isaac Asimov

A vida da batedeira é só bater, brum brum brum ou então ficar desligada
Ela só existe para fazer bolo, pudim, essas coisas gostosas que agradam os maridos
E dificultam a vida das empregadas domésticas que só querem ver novela.
Quando passa novela a televisão fica apaixonada
E todos os móveis da casa passam a gemer de amor e ficam só gemendo
A noite inteira e a louça que está na máquina também fica cheia de amor
Mas a batedeira que só bate brum brum brum fica toda enciumada
Porque sempre que há amor ela está muito cansada de ter ficado o dia inteiro
Batendo aqueles bolos e pudins que ela nunca vai comer.
Então ela tem um dilema: “Desligar ou não desligar?”
Porque se é para sempre perder a festa dos amigos e nunca namorar
Talvez seja melhor nem existir, pois é melhor não existir do que viver só pra escangalhar.

***

3. Chacal

a vida é assim, é assim mesmo
às vezes beber, as vezes não
o que importa é ter o pé no chão
que é pra nunca andar a esmo

é preciso liberdade, meu irmão
é preciso que todo mundo seja feliz
e ande por aí cantando essa canção
que eu compus com meu nariz

a festa não pode acabar

***

4. Paulo Leminski, “Variações sobre um tema de Chacal”

não sei se a vida é assim mesmo
ou se assim mesmo é que é a vida
só sei que é vida e é vida mesmo
vida vida mesmo vida mesmo mesmo vida

onde é que está o mesmo da vida?
ou não está?
quem procura acha?
e se eu morrer atropelado no próximo cruzamento…
ainda assim é vida mesmo?

a cidade… as pessoas… tudo me olha

como

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com