Explicando a direita para a esquerda (e vice-versa)

Outro dia no Twitter apareceu-me uma dessas distinções mordazes de que revelam uma verdade com um clarão: “história cultural” é estudar o que outras pessoas pensavam; “história intelectual” é você mesmo tentar discutir com outros pensadores do passado. Esses dois tipos de história nascem de duas atitudes diferentes, claro. A primeira cataloga e guarda pensadores, sem deixar de lado a possibilidade de eventual consumo. A segunda se deixa questionar pelos pensadores. É a banalíssima distinção entre tratar alguém como objeto e tratar alguém como sujeito.

Essa é a questão que reaparece em todo o debate em torno de Jordan Peterson*, dessa vez de maneira mais clara do que da vez em que apareceu na eleição de Trump.

A New York Magazine vem com um artigo que tenta explicar “Por que eles dão ouvidos a Jordan Peterson”, que ainda aparece na deliciosa tag “O que a direita está lendo”. E pronto: o artigo segue pela mesma linha, admitindo que Peterson é um homem razoável quando diz algo com que o autor concorda, e simplesmente descartando as partes que desagradam ao autor.

Sim, é claro, a direita faz a mesma coisa, e trata seus adversários como objetos a serem explicados. E então a esquerda — atualmente desnorteada — redobra o ataque com novos rótulos, sendo “direita xucra” a etiqueta du jour.

No entanto, como falei, é essencialmente a esquerda quem passa por um momento de perplexidade. (A direita não deve se enganar: ela ascenderá e decairá, e ficará igualmente tonta.) Essa perplexidade nasce dessa atitude que já foi institucionalizada: reduzir o outro lado a um objeto a ser explicado. O catálogo de rótulos da esquerda é infinitamente mais variado e complexo que o da direita, que recentemente apenas conseguiu passar de “comunista” para “neo-marxista”, mas sua própria complexidade só faz aumentar o assombro impotente diante daqueles que, numa abominável demonstração de vontade própria, não seguiram o plano que lhes tinha sido traçado.

Fazer história cultural pode ser uma conveniência, e reduzir pode ser muitas vezes tão inevitável quanto necessário. Porém, nesse momento de crise, a atitude de descartar por meio de rótulos nunca me pareceu uma estratégia tão suicida.

* Se admiro o estoicismo e a capacidade argumentativa de Jordan Peterson, especialmente em pessoa, meu interesse por René Girard me impede de acompanhá-lo em suas considerações junguianas sobre mitos como “mapas de sentido”. Isto mereceria um post à parte, talvez no blog Miméticos, mas por ora limito-me a admitir que tomar mitos arcaicos como chaves para o entendimento da própria vida pode até surtir efeitos positivos, ou trazer uma sensação de bem-estar, mas a interpretação dos mitos utilizada para esse fim é simplesmente falsa.

Vinte anos esta manhã

Vinte anos atrás, em 19 de novembro de 1997, O Indivíduo foi publicado em papel na PUC do Rio de Janeiro, provocando uma tentativa de linchamento imediata por parte dos alunos. Eu, Sergio de Biasi, e Alvaro Velloso fomos salvos pela rápida intervenção da segurança, que não conseguiu conter algumas cusparadas e um soco no lado direito do meu rosto — nunca sequer vi quem foi o autor. Fizemos boletim de ocorrência contra os alunos, que foram investigados; e a justiça brasileira proibiu a PUC de tomar qualquer medida contra nós. O motivo de tudo pode ser consultado pelo menu; deixo ao leitor o trabalho de informar-se.

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Passei a dizer que O Indivíduo foi nossa banda de rock. A vida intelectual brasileira dos anos 1990 era um tédio infinito. Sem a publicação de O Imbecil Coletivo ou dos livros de Bruno Tolentino, teria sido necessário abandonar o país e fazer do português a segunda língua. Ou você entrava no movimento punk da época, ou ficava comendo sanduíches de pepino. Ao menos se você fosse carioca e esquentado.

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A confusão na PUC aconteceu na verdade por causa do texto de Cláudio Lévi’s Lee (eu) sobre o “Coletivo Cultural” (vinte anos depois, ainda é muito difícil não rir do nome “Coletivo Cultural”), mas o motivo alegado foi o texto sobre a Semana de Consciência Negra. Vinte anos depois, colorir uma consciência ainda me parece altamente sospechoso, mas admito que o movimento liberal do qual vim a fazer parte deveria ter tratado o assunto com mais seriedade.

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Talvez eu tenha tido a ilusão de que, nesses vinte anos, uma bolha foi estourada, o mainstream se tornou mais amplo. De um lado, sim. De outro, não. As affirmative actions copiadas dos EUA foram apenas uma das modas que passaram a vir mais rápido, e com mais força, graças à internet. A grande imprensa pode ter-se aberto para algumas vozes conservadoras e liberais, mas nesses vinte anos ainda não vi um debate começar: o debate é sempre abortado pelas acusações.

O efeito é um tanto deprimente. Se você quer escrever, está condenado a só falar para quem já concorda com você, para pavonear sua capacidade de expressar melhor aquilo que as pessoas nem sabem que pensam, ou pode dialogar com pessoas que realmente discordam de você?

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Em 1997, eu, Sergio, e Alvaro brincávamos: há mais discordâncias entre nós do que entre nós e nossos linchadores.

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Desde criança, uma atitude sempre me causou repulsa e me pareceu um sinal inequívoco de que o desejo de segurança psicológica era maior do que a curiosidade: o pavoneamento do menoscabo, aquela dismissive attitude de quem enfia um sanduíche de pepino na goela, te dá um tapinha nas costas e diz que não precisamos ouvir os bárbaros. Uma espécie de predestinação intelectual: se uma ideia é mainstream, então é porque é boa; se é marginal, como ousa ter se aproximado da margem? Vamos varrê-la de uma vez.

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Outro equívoco meu foi ter achado que, nesses vinte anos, a bolha tivesse sido estourada por pessoas como nós de O Indivíduo — mas parece que a bolha diminuiu, recuou, enrijeceu. O menoscabo hoje não consegue nem mais parecer um menoscabo, mas já se tornou um desespero histérico, martelado todos os dias, com o estudo de novas poses, de novas expressões.

No entanto, é apenas uma bolha.

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Ou quem dera fosse apenas uma bolha. Algumas linhas atrás falei do dilema: vou agora escrever só para quem pensa como eu? É o caso de desesperar da possibilidade de contato com os famosos outros lados e desistir?

Claro que não. É apenas uma bolha.

Contra o pagamento de mensalidades em universidades públicas

Parece ter-se tornado um consenso, até entre parte dos liberais, que os alunos mais abastados das universidades públicas deveriam pagar mensalidades para ajudar a custeá-las. Sou totalmente contrário.

Primeiro, pelo lado prático. Lembro do caso da USP: a folha de pagamento tornou-se maior do que a universidade. Dê a USP uma nova fonte de renda, e essa folha de pagamentos vai crescer mais ainda. Aí serão todos, abastados e não abastados, que vão pagar mensalidades.

Segundo, porque a universidade já é paga com impostos. Poucas coisas são mais abjetas do que ficar falando em serviços “gratuitos” prestados pelo Estado. Eles são gratuitos apenas no momento do recebimento do serviço.

Terceiro, porque é totalmente absurda a ideia de que, se o Estado presta bem algum serviço, nós que pagamos impostos devemos pagar ainda mais só para que esse serviço continue existindo.

Quarto, em 100% dos casos, sou a favor de que qualquer falta de verba do Estado seja resolvida primeiro com o remanejamento da verba para outras áreas. Se a USP aumentar sua própria folha de pagamento além de sua dotação orçamentária, os responsáveis por isso devem saber que vão reduzir os serviços prestados pelo Estado em algum outro setor.

Lembro de ver um ex-presidente do BNDES rir de dois jovens que ele teria visto abraçados numa passeata: o cartaz da menina dizia “mais educação”, e o do menino, “menos impostos”. Para aquela ébria voz de gralha, aquilo era um contrassenso. Infelizmente, o tempo para intervenções da plateia acabou antes que eu pudesse dizer que era só transferir o dinheiro do bolsa-empresário para a educação.

O primeiro passo para a sanidade da discussão política brasileira é cortar as possibilidades de aumento da arrecadação. Depois que o Estado mostrar que consegue lidar muito bem, em todas as suas esferas, com 38% do PIB, aí, quem sabe, talvez, quiçá, o Brasil pode discutir se é mesmo capaz de ser uma social-democracia europeia, como essas que estão implodindo.

Sim. Eu sei que o problema orçamentário esbarra em direitos adquiridos. Sou a favor de que acabem com os direitos adquiridos antes de aumentar em um centavo a arrecadação.

Se não for assim, é como dizem os americanos: throwing money at the problem, jogar dinheiro no problema.

Sobre novidades de gênero no português

Até onde me lembro, não existe neutro em português. Você pode acrescentar um X no lugar da desinência, outra letra, um emoji de elefante, vá lá; porém, se você trabalha com o idioma, pensa numa escala de séculos, entende que o neutro do latim foi absorvido pelo masculino do português, e sabe que isso não tem nada a ver com língua politicamente correta, porque em latim (ou em grego) não se formava plural unissex tascando um neutro.

Em latim, por exemplo, homem, ser do sexo masculino, não é homo, mas vir; homo é o “humano”. O mesmo vale em grego para anthropos (o humano) e o andros (o homem do sexo masculino).

Ao contrário do outrora famoso cantor Chico César, eu nunca fui mulher, mas entendo perfeitamente que se possa ter uma bronca porque o plural de homens e mulheres é masculino. (Quer dizer, eu acho que teria, se fosse mulher.) Como tradutor, sempre tentei minimizar isso, e sempre foi fácil, porque o português conta com gêneros diferentes para designar os sexos: a criança, a pessoa, o indivíduo – os pronomes referentes vão seguindo os nomes que antecedem.

Por outro lado, principalmente em inglês, está difícil achar um livro contemporâneo que não nos surpreenda com um gênero feminino que designe os dois sexos. Traduzindo, isso é chato, porque o autor pode falar, por exemplo, “the student”, “the student”, “the student”por páginas e páginas, e depois tascar um“she”. Vejam que no caso do inglês nós só ficamos sabendo da opção pelo feminino “sem sexo” depois; em português, essa opção teria de ficar clara desde o começo, com “a estudante”, e o risco de criar, para o leitor, um mal-entendido.

Vejam ainda que eu escrevi a frase anterior de propósito. Se eu dissesse que há um risco de criar para a leitora um mal-entendido, uma leitora poderia pensar que estou menosprezando sua capacidade de leitura.

Daí eu concluo recordando que na maior parte das vezes escrever é uma atividade conservadora. Uma linguagem que fere algumas sensibilidades mas que funciona é preferível a uma linguagem que não fere essas sensibilidades mas que começa a criar confusões. Isso não é exatamente uma opinião minha; é uma decorrência da noção de padrão. Que vantagem existe num padrão além de poder ser usado pelo maior número de pessoas, na maior escala de tempo? A cada vez que tentamos incorporar quaisquer novidades ao idioma, fazemos o passado parecer um pouco mais datado, fazemos os demais falantes ficarem um pouco mais antiquados, ou pouco mais distantes.

Dez anos sem Bruno Tolentino

Entre um momento de tradução e outro, passei este dia em que se completa uma década da morte do Bruno Tolentino relendo Os sapos de ontem… E pensando em como, em grande medida, todos nós caímos no culto de personalidade que ele criava em torno de si. Sim, eu o acho um grande poeta etc., mas ele estava o tempo inteiro gozando da cara de todos nós.

E não digo apenas de nós brasileiros, porque entre as várias invencionices dele, há uma, antiga, de sua década de 1980 passada principalmente em Oxford, que ele trouxe ao Brasil e que foi reproduzida na Veja sem que ninguém contestasse ou verificasse uma informação pública: a de que Martine, sua mulher (sem casamento civil ou religioso, porém), era neta do poeta René Char.

René Char não teve filhos. Porém, foi só em 2014, quando comecei a trabalhar em sua biografia, que descobri isso.

No entanto, se o caso sem dúvida não era aceitar tudo, também não era de duvidar de tudo. O próprio Bruno um dia me mostrou um cartão de Natal enviado por Samuel Beckett. Em 2014, em Paris, perguntei a Yves Bonnefoy: “Mas ele conheceu mesmo o Beckett?”. E Bonnefoy deu a resposta mais pé-no-chão: “Qual o problema? Se você frequentasse o meio literário de Paris naquela época, provavelmente conheceria Samuel Beckett.” (Em seu sotaque francês, Samuel Bekét, claro.)

Eu me pergunto até que ponto a mística que Bruno Tolentino criou em torno de si poderia ter colocado sua obra em segundo plano. Já conheci muitos escritores, de ficção e de poesia, e nenhum tinha 1% da exuberância pessoal tolentiniana (o que não significa que não tivessem um talento extraordinário). Às vezes também me parece que o estilo ensaístico brasileiro mais celebrado tem mais understatement do que toda a Inglaterra; e que se Tolentino tivesse chegado aqui exalando a civilidade blasé que esperavam que ele tivesse aprendido na Inglaterra (segundo a nossa visão brasileira — BBC period drama dos ingleses), em vez de ser uma espécie de Super-Homem Cordial buarquiano, sua “poética classicizante” (na expressão de Érico Nogueira) teria sido vista como marca de um saudável ecletismo da poesia brasileira.

(Mas claro que as coisas não são tão simples. Além de tudo, tendo passado trinta anos fora do Brasil, Tolentino construiu uma poesia com temas totalmente alheios à poesia brasileira que encontrou, sem que com isso eu pretenda desmerecer a produção da época. Todavia, este é um dos comecinhos do problema.)

De minha parte, resta o mesmo assombro da primeira vez que o li. Gostamos de poesia por causa da força com que algo é dito, da maneira como as palavras se impõem. Podemos apreciar o virtuosismo depois. Mas virtuosismo sem força são os trinta modelos de cartas de apreço ao sr. diretor.

Memórias

Um dia desses, pediram sugestões de livros de memórias no Facebook. Fiquei pensando nos meus preferidos para recomendar para o conhecido e acabei me dando conta de uma curiosidade. Em cada um, alguns lidos há quase vinte anos, há uma passagem que me ficou, bem…, na memória. Um episódio que levei pelo resto da vida, de que me lembrei nos momentos mais improváveis, que contei para amigos – “e daí, quando o fulano era pequeno, o pai dele…” – esse tipo de coisa.

Nesse espírito, fiz uma lista de alguns livros de memórias e dos trechos que me marcaram. Os que estão por perto, até tirei da estante para dar uma olhada, outros já se foram em algumas das muitas mudanças. É provável que os detalhes não sejam os mais exatos, mas a ideia é justamente ver o que ficou. A eles:

1) O afeto que se encerra – Paulo Francis.

Neste primeiro volume de suas memórias, Francis conta como acabou entrando meio de carona numa trupe de teatro que ia fazer uma turnê pelo
“Nordeste profundo”, no fim dos anos 50 ou começo dos 60 (mais ou menos como o grupo “La Barraca”, com Lorca, havia feito na Espanha trinta anos antes). O ponto que me marcou foi a descrição que o jovem jornalista e intelectual faz da experiência de estar em cima de um palco pela primeira vez, diante de uma platéia. Segundo ele, trata-se de uma coisa tão inebriante, uma sensação de se sentir tão superior aos mortais que o assistem de um patamar inferior, que ele entendeu hora como um ser humano normal se transforma numa diva, numa Norma Desmond, em alguém completamente desajustado para a vida num estágio inferior àquele do palco. Esse trecho foi uma revelação para mim e me ajudou a entender muitas coisas ao longo dos anos.

2) An Autobiographical Essay – Jorge Luís Borges.

Esse texto, escrito diretamente em inglês para sua primeira coletânea de contos publicada na Inglaterra, tem várias passagens excelentes, narradas naquele estilo “understated” do Borges. A passagem que ficou comigo ao longo dos anos (faz tempo que li isso pela primeira vez), no entanto, está em um curto parágrafo, que cheguei a pensar em traduzir aqui, mas não tive coragem. Fiquem com o inglês criollo de JLB.

Another pleasure came to me the very next year, when I was named to the professorship of English and American Literature at the University of Buenos Aires. Other candidates had sent in painstaking lists of the translations, papers, lectures, and other achievements. I limited myself to the following statement: “Quite unwittingly, I have been qualifying myself for this position throughout my life.” My plain approach gained the day. I was hired, and spent 10 or 12 happy years at the University.

Não importa que na época ele já fosse famoso, que o país fosse governado por uma ditadura militar que ele apoiava, essas ninharias idiotas que possivelmente ajudaram-no a conseguir o emprego. A questão é que a frase Quite unwittingly, I have been qualifying myself for this position throughout my life. não saiu da minha cabeça por um só dia nos vinte anos desde que a li. E faz faz vinte anos que levo pensando: “para o que eu mesmo venho me preparando ao longo da vida?”.

3) Errata, an examined life – George Steiner.

Este livro tem uma passagem que me marcou tanto quanto a anterior. Criado numa família de judeus eruditos como só os judeus do começo do século XX podiam ser, Steiner aprendeu grego aos 5 anos de idade. O que, em si, é menos impressionante do que maneira como isso aconteceu. Àquela altura, o menino já era trilíngue, e seu pai, depois de ter lhe contado em linhas gerais a história da Ilíada, resolveu ler para ele o livro 21 em alemão, na tradução de Johann Heinrich Voss. Em uma passagem cheia de tensão, Licáone se humilha perante Aquiles, que, em surto destrói, os exércitos troianos vingando-se pela morte de Pátroclo. Ao chegar nos versos que Licáone pronuncia agarrado em súplica às pernas de Aquiles – “[não] me mates; não sou de Hector irmão uterino; foi ele que abateu o caro e forte Pátroclo.” (trad. Haroldo de Campos) -, o pai de George Steiner se transforma no modelo de todos os pais do mundo (eu li o livro em uma bela edição espanhola da Siruela, mas na internet só encontrei a passagem em inglês):

At which line, my father stopped with an air of considered helplessness. What, in God’s name, happens next? I must have been shaking with excited frustration, shaking. Ah, said Papa, there was a gap in Voss’s translation, indeed in all available translations. To be sure, there was the original, Homers’ Greek, which lay open on the table, together with the lexicon and introductory grammar. Should we try and decipher the burning passage for ourselves? It was not, my father said, difficult Greek. Perhaps we could manage Achilles’ reply. And he took my finger, placing it on the appropriate Greek words. (…)

Whereupon, Achilles slaughters the kneeling Lycaon. My father read the Greek several times over he made me mouth the syllables after him. Dictionary and grammar flew open. Like the lineaments of a brightly colored mosaic lying under sand when you pour water on it, the words, the formulaic phrases, took on form and meaning for me. Word by sung word, verse by verse. (…)

Tapping my excitement (it would be sometime before I discovered that translations of Homer did not omit the most thrilling bits), Papa made a further proposal, as in passing: “shall we learn some lines from this episode by heart?”

4) Autobiographical Reflections – Eric Voegelin

Você vai lendo capítulo após capítulo da típica autobiografia de um intelectual centro-europeu do começo do século XX: o estudo, a disciplina, as aulas e amizades com pessoas cujos livros temos na estante, a capacidade ilimitada de absorver e processar conhecimento. Depois, a guerra, o medo, a tragédia do exílio, o recomeço nos EUA numa posição ridiculamente inferior aos seus méritos. Ou seja, uma biografia como centenas de outras. Aí, de repente, o sujeito, já nos casa dos cinquenta anos, dando aulas numa cidadezinha no sul profundo dos EUA, vai procurar o rabino da sinagoga local para “aperfeiçoar o seu hebraico” porque o domínio da língua é fundamental no seu grande projeto “Ordem e História”. É nesse momento que você se dá conta de que a vida do cara acontece em dois planos, esse mesmo que você leu acima e outro, superior, que você só vislumbra.

5) The Memory Chalet – Tony Judt.

O livro recolhe uma série de ensaios escritos para a New York Review of Books no período em que o historiador já tinha sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica. Todos são bons, bem-escritos e valem a pena. Há um, no entanto, que está em outro nível. Uma crise de meia idade leva o autor – contra os conselhos de todos os seus conhecidos – a aprender tcheco. Uma coisa leva a outra, e quando Tony Judt se dá conta, ele está envolvido com a dissidência na Tchecoeslováquia que levou à queda do comunismo e à Revolução de Veludo. A partir daí, uma porta inesperada se abre em sua carreira quando ele passa a poder estudar a história da Europa Central a partir de outro ponto de vista e, de acadêmico especializado na história das ideias francesas, Judt se transforma num superstar ao publicar “Postwar”, um dos primeiros livros que abarcam a história da Europa a partir de uma perspectiva genuinamente continental. Muito impressionante.

6) Una vida presente – Julián Marías.

O primeiro volume da trilogia do Marías talvez seja o melhor livro de memórias que já li. Há tanta coisa naqueles vinte e poucos, talvez trinta, anos. A passagem que me marcou, no entanto foi a seguinte: fim da Guerra Civil Espanhola. Madri, que resistiu até o fim, com uma bravura de arrepiar a despeito das atrocidades e baixezas que se cometeram na capital, estava prestes a cair perante o exército “nacional”. Sendo políticos, todos os políticos do primeiro escalão – covardes, canalhas, ladrões e filhos da mãe – já tinham fugido fazia um bom tempo, primeiro para Valencia, depois para Paris e para a Cidade do México. Apenas uma figura de destaque escolheu ficar, o que, naquela circunstância, era uma sentença de morte. Esse senhor se chamava Julián Besteiro – professor, político socialista e, tudo indica, um dos poucos homens honrados em toda a República. Marías era seu assessor direto, e as páginas cheias de admiração e assombro diante daquele ato de hombridade e dignidade são emocionantes. Valeriam o livro, se ele todo não fosse uma obra-prima.

7) O tabuleiro de damas – Fernando Sabino.

Eu gosto muito de andar, de dar longas caminhadas, principalmente de manhã cedo e à noite. Mas quando eu era jovem, com tempo para essas caminhadas, não tinha Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino para atravessar Curitiba ao meu lado conversando (eles cruzavam Belo Horizonte, mas ok) até amanhecer. Gostaria de ter tido, e sinto inveja do Fernando Sabino.

A pós-verdade de uma anedota

Antigamente, no Brasil, além da possibilidade de uma pessoa escravizada tornar-se livre, havia a possibilidade de uma pessoa negra tornar-se branca. Juro. Bastava que um simples alvará, devidamente lavrado em cartório, assim o declarasse. Quanto a isso, Henri Koster, um aventureiro inglês que viajou pelos sertões nos idos de 1810, deixou-nos o seguinte testemunho:

Um mulato entra para as ordens religiosas ou é nomeado para a magistratura desde que seus papéis digam que ele é branco, embora seu todo demonstre plenamente o contrário. Conversando numa ocasião com um homem de cor que estava ao meu serviço, perguntei-lhe se certo capitão-mor era mulato. Respondeu-me: “Era, porém já não é!” E como lhe pedisse eu uma explicação, concluiu: “Pois, senhor, um capitão-mor pode ser mulato?

O tom anedótico desse relato encontra respaldo num documento que, por acaso, eu achei no arquivo público estadual, mais precisamente no livro de ofícios das prefeituras e comarcas da província de Pernambuco na década de 1830. Nele, consta uma carta do Sr. Zeferino dos Anjos, prefeito e major de uma tal Aldeia Velha, que, remetendo-se ao Ouvidor de Olinda, faz queixa contra outros oficiais, gente de sua parentela, que o desacatam com a alcunha de “major nego Zefo”.

São dois testemunhos de como os documentos podiam e deviam sobrepor-se à realidade objetiva – ou, kantianamente falando, à percepção dos fenômenos. Ora, em tempos de pós-verdade, urge perguntar qual a melhor narrativa para tais ocorrências? Minha dúvida é honesta: seria o caso de reconhecer que a sociedade escravocrata não fora assim tão segregadora e daí, tal como Gilberto Freyre, deduzir indícios de uma democracia racial, atuando através de um frouxo sistema de cotas? Ou, ao invés disso, dizer que seriam casos exemplares de como as pessoas socialmente vulneráveis precisavam compactuar com política racistas?

Antes, porém, de aderir a qualquer dessas narrativas, talvez fosse bom confrontá-las com o entendimento atual de que o conceito de raça não se sustenta cientificamente. Diz-se que raça, tal como gênero, é só um critério de discriminação política, uma invenção, um construto social. E do ponto de vista antropológico, sociológico, quiçá fenomenológico, o que vale mesmo é a “autodeclaração”. Aqui seria oportuno lembrar que há pouco tempo um rapaz branco de olhos verdes foi aprovado na primeira fase do concurso do Itamaraty declarando-se cotista negro. Parece que houve objeções, que impetraram recursos, mas algum tribunal acatou o entendimento antropológico-sociológico-fenomenológico de que a autodeclaração documental sobrepõe-se à aparência, admitindo o sentimento de “negritude” e, consequentemente, a validade da candidatura.

Assumindo então esta perspectiva, deveríamos considerar que a alcunha de major nego Zefo não contradizia de fato a aparência do queixoso sertanejo, mas sim um presumível sentimento de “branquitude”? Ah, mas que absurdo! – protestará alguém – as circunstâncias históricas eram absolutamente distintas!… Sem dúvidas, mas nos dois casos a percepção de um arrivismo oportunista permanece. Tanto que alguns movimentos de luta pela igualdade dos direitos raciais reivindicaram do Ministério do Planejamento a criação de uma “banca para aferição da autodeclaração”. E o critério aferidor de tal banca se apoiaria no argumento de que não se deve conceder direito à cota pela presunção de um genótipo, mas unicamente pela evidência do fenótipo.

Noutros termos, de nada adiantaria apresentar fotos de avós ou bisavós negros: sendo branco, você não sofre discriminação e, portanto, não pode ser cotista! Esse critério, por si só discriminatório, além de não fazer concessões aos brancos pobres, seria igualmente intransigente com os fenótipos postiços – ou seja, de nada serviria encaracolar os cabelos e realçar artificialmente a melanina. Não sei se tal banca funcionou, funciona ou funcionará, só sei que fiquei com a impressão de que os escravocratas do século XIX, talvez, fossem mais brandos do que os burocratas modernos. Naquela época, pelo menos, as “ações afirmativas” (me vem à mente, agora, certo estudo de Thomas Sowell) comprometiam menos a mobilidade social.

Mas eis que novamente as dúvidas se atropelam: como o fenótipo pode ser tão decisivo se o conceito de raça é cientificamente nulo? E esse conceito de fenótipo postiço não poderia desacreditar o discurso da militância trans?… Aliás, se a autodeclaração é bastante para garantir às pessoas trans um “nome social”, por que não o seria para surtir uma “cor social”?… Acudam! O entrechoque das narrativas me faz divagar. Desconfio que, para além dessa barafunda de ditos e contraditos, pretende-se tão somente legitimar uma cota de rancor? Será?!… E se imaginássemos o Henry Koster, redivivo, compondo uma banca para aferir a autodeclaração de casos como aquele do Itamaraty…“Conversando numa ocasião com um homem que estava ao meu lado na banca, perguntei-lhe se certo diplomata cotista era branco. Respondeu-me: ‘Era, porém já não é!’ E como lhe pedisse eu uma explicação, concluiu: ‘Pois senhor, um cotista pode ser branco?…

Tá bom, parei. Em tempos de pós-verdades, parece que até as narrativas anedóticas perderam a graça.