Por que "pessoas esclarecidas" só falam bobagem sobre religião?

Tenho 31 anos e acho que há uns bons 21 percebo que a norma entre quem escreve por profissão ou hábito é negar à religião qualquer complexidade. Já perdi um bocado da paciência de explicar que “Igreja Católica” é um termo equívoco, podendo significar 1. o magistério da Igreja, 2. a instituição materialmente existente, 3. todos aqueles que se dizem católicos, 4. todos aqueles que se disseram católicos em toda a história, 5. muitas coisas além disso e 6. tudo isso junto. Antes eu ficava indignado; a idade só me deixa um bocado curioso, com perguntas do tipo “Farão isso por burrice ou má vontade? Ou os dois?”

Já é mesmo o caso de procurar explicações psicológicas. Quatro coisas são constantes nos detratores da religião. Outras também, mas aqui me interessam quatro.

A primeira é um horror absoluto à idéia de que algo não mude. O curioso é que isso é mais moderno do que a própria modernidade. Todas as revoluções até o século XX foram feitas a partir da idéia de que a humanidade tinha traído seu propósito, de que era preciso voltar às origens, restaurar alguma verdade perdida — isto é, fazer uma revolução mesmo, uma volta ao ponto original depois de um longo desvio. Até mesmo um Rousseau disse que “o homem nasce livre, e está acorrentado por toda parte”, querendo dizer que o seu estado original é de liberdade. Concorde você ou não, até Rousseau queria uma volta à verdade, não a criação de algo novo. A idéia de ruptura total, da criação de uma nova humanidade, talvez não esteja presente — apenas semi-presente — nem mesmo nos socialismos alemão e soviético. O nazismo tinha um modelo um tanto espartano, e Otto Maria Carpeaux sugere o “conservadorismo” de Lênin nesse sentido que uso. Hoje em dia tudo seria novo, porque… Francamente não sei. Dirão que por causa dos avanços tecnológicos. Mas estes avanços dizem respeito apenas a meios e não a fins. Curar doenças, conhecer o mundo físico, comunicar-se, sentir prazer — não há nada de novo sob o Sol. E isso é que escandaliza as pessoas hoje: lamento, não me comovi, não há nada de novo sob o Sol, e os fins não passaram a justificar os meios só porque estes se tornaram maravilhosos.

A segunda coisa é um desejo, que também não tem nada de novo, de que nenhum ato tenha uma conseqüência indesejável. A idéia de que sorvete engorda provoca um ressentimento cósmico. A idéia de que o sexo gere bebês, também. Essa finalidade perene da humanidade também encontra nos avanços tecnológicos muitas oportunidades de satisfação, e continua mascarando o mesmo problema psicológico, um infantilismo tremens: a recusa em admitir que o mundo tem autonomia em relação ao sujeito.

A terceira coisa é o uso constante de eufemismos tolos e totalitários. Já sabemos que quando alguém diz que é preciso “discutir” algo, isso significa “mudar a legislação”. “Discutir o aborto” = “legalizar o aborto”. “Discutir as drogas” = “legalizar o uso de drogas”. E olha que eu sou contra o aborto e a favor da legalização, mas não a favor dessa retórica desonesta.

A quarta coisa, que talvez resuma tudo, é aquilo que em meu vocabulário particularíssimo chamo de “mentalidade vitoriana” (sim, eu sei que o nazismo veio depois da Rainha Vitória; estou usando uma abstração pessoal), que é o desejo de mostrar-se uma “pessoa esclarecida”, sempre acima do resto da humanidade, uma pessoa “humanizada” por idiossincrasias charmosas e por concessões à vulgaridade quando há aprovação coletiva. Aqui no Indivíduo volta e meia uso eventos da minha vida pessoal, mas prefiro resguardá-la. Assim, você já soube que eu gosto de música “erudita” e freqüento a Sala Cecília Meireles; que eu acho a Ana Beatriz Barros bonita; que eu moro em Copacabana; que eu conheci Bruno Tolentino; que eu leio poesia. Se meus textos em defesa da Igreja, em defesa de um certo conservadorismo e sobre coisas associadas à “alta cultura” fossem contrabalanceadas por uma confissão de amor a blocos de carnaval, ao Big Brother Brasil e se, em vez de colocar fotos de uma loura de olhos claros de cinco metros de altura (pior ainda, de algumas atrizes inglesas semi-conhecidas) eu colocasse fotos de alguma mulher-jaca com cinco metros de quadril, e ainda tivesse sido amigo de um obscuro sambista, eu me tornaria mais “amável” e “humano” segundo um padrão cultural. Ou melhor, segundo um mero preconceito.

Os neo-vitorianos, que são boa parte dos letrados que dominam a imprensa, fazem sua identidade reverberar. Não é uma conspiração: é um simples efeito de sua atividade profissional. Quem ler um grande jornal brasileiro pode ter a impressão de estar numa convenção do Partido Democrata americano, com todo mundo competindo para ver quem consegue reunir o máximo de progressismo com o máximo de jeitinho de quem é CDF. É mesmo tudo pose; isso é demonstrado pelo fato de que o tom de indignação é o “argumento” mais comum: “ENTÃO VOCÊ ESTÁ DIZENDO ISSO?” “NÃO POSSO ADMITIR…”

Agora, se eu digo que perdi a paciência de discutir bobagens sobre religião, também perdi a crença de que seu locus e participantes tenham importância. A paciência eu perdi por causa da idade. A crença eu perdi por ter percebido que — e aí não vai nenhuma ofensa, só uma mera constatação — a imprensa e os blogs são quantitativamente irrelevantes. Aliás, completamente irrelevantes. Podem ter algum efeito em denúncias de corrupção, mas não em termos de debate de “idéias” (ou de choque de identidades, ou de competição de poses). Mil capas da Veja parecem não ter o mínimo impacto sobre a oposição ao aborto da maioria dos brasileiros. Por isso, meu tempo é melhor empregado fora dessa confusão.

Aliás, fosse eu jornalista, e tivesse de me perguntar sobre o futuro da profissão no Brasil etc, simplesmente levantaria as seguintes questões. 1. Ninguém mais atribui neutralidade ou imparcialidade à mídia. De que modo isso afeta a credibilidade? Será que o jornalismo se tornou apenas um reforçador da identidade ideológica dos leitores? 2. Não será a hora de parar de não perceber que existe uma identidade de grupo entre jornalistas, que quem está de fora percebe? Como isso afeta a relação entre o público e os jornalistas? 3. Por mais padronizada que seja a linguagem jornalística, não será melhor abdicar do padrão em nome da informação, isto é, da complexidade? Ou isso inviabilizaria o jornalismo enquanto negócio? Se inviabilizar, em que o jornalismo difere moralmente do tráfico de heroína? 4. Serei eu mesmo uma pessoa tão esclarecida a ponto de poder tornar meus preconceitos padrões universais de julgamento? Será que não estou deslumbrado demais com meus diplomas?

Mas eu não sou jornalista, nem fico atacando as religiões, nem acho que vivemos uma era totalmente nova. Meus problemas são diversos.

A cultura não precisa de ministro etc

Trecho de uma pequena palestra de Leopoldo Serran em 1986 (vejam bem: 1986):

O hábito da passividade vem aos poucos atingindo a todos, inclusive aos artistas, e nós tivemos um bom exemplo disso quando foi criado o “Ministério da Cultura”. Como não podemos ou sabemos resolver nossos problemas, copiamos as soluções externas americanas ou francesas. E da França, normalmente o que ela tem de mais “pedante”, como o “cinema d’auteur”, a “Academia de Letras” e o “Ministério da Cultura”. Sobre o último, Jean Paul Sartre falou claramente: “A cultura não precisa de ministro”. Se é verdade que nenhum artista aceitou ocupar este posto, nenhum também chegou a contestá-lo, isto é, a cumplicidade com o poder e o dinheiro público vivida durante a ditadura, ensinou-nos a ficar “em cima do muro”. Assistimos em silêncio e nada foi dito.

E eu posso complementar com o seguinte: generalizando mesmo, um problema sério do Brasil é o excesso de incentivos para a imoralidade. Óbvio que não estou falando de libertinagem sexual. Estou falando do tamanho do governo mesmo. Onde há burocracia, há propinas. Onde há excesso de leis, há excesso de gente burlando as leis. Onde há a possibilidade de pertencer a uma elite burocrática com emprego estável e regalias (em comparação com o setor privado), há o incentivo para que os mais educados (aqueles que têm o mais forte sentido de entitlement, de que têm direito a privilégios que os distingam da massa proletária ignara) convenientemente ignorem que sua renda vem do blood money arrancado do povo. Onde o Estado administra tudo, as pessoas acham que justiça é obter algum privilégio às custas de alguém já que é impossível não ser roubado para dar privilégios a outros.

Para onde se olha, há governo. Para onde se olha, há nonsense. Mas o mais difícil é perceber as pessoas preferem um vasto, ineficiente e corrupto sistema de garantias meramente nominais à liberdade. Elas querem, como disse Alexander Herzen, “uma tirania que esteja do lado delas”. Até que ponto isso confere legitimidade a esse sistema? Tendo a achar que se ele fosse realmente voluntário não haveria tanta informalidade. Mas há uma diferença entre discurso e prática. Mesmo quem vive à margem do Leviatã quer suas benesses, acrescentando uma imoralidade à outra. Todos querem privilégios.

Mais um divisor

No Brasil, a “elite cultural” acompanha com mais interesse a campanha presidencial americana, e está muito melhor informada sobre ela, do que as campanhas brasileiras. Coloco “elite cultural” entre aspas não para dar-lhe um sentido pejorativo, mas para dar-lhe uma definição peculiar: “elite cultural” é quem 1. sabe inglês o suficiente para ler notícias na internet e 2. tem tempo para isso.

Para nós, brasileiros, a questão do patriotismo se coloca de maneira muito diferente da maneira como se coloca para os americanos, então não acho que seja o caso de descrever esse interesse pela campanha gringa como mero desprezo pela terra varonil, o que é reforçado pelo fato de que até pessoas mais à esquerda, que têm tentado monopolizar o amor pindorâmico e até atribuir a nossa direita blogueira um anti-brasileirismo visceral (no meu caso, só digo que não conheço o Brasil; mas conheço a cidade onde moro, e gosto dela; não está bom? “Ninguém ama aquilo que não conhece.”), parece ser acometida de mais frêmitos por Barack Obama do que por, sei lá, Fernando Gabeira.

É o caso, porém, de descrever este interesse pela campanha gringa como mera decorrência de ter ido à escola e ter uma mínima capacidade de juntar a com b, porque, por mais que haja mentiras lá, boa parte dos políticos ainda se parece com gente que se poderia convidar para a própria casa de classe média, típicamente orgulhosa – e aí proponho até uma característica definidora – de que seus saberes e “gostares” (ok, infinitivo substantivado no plural é provocação) lhes são mais caros que as posses materiais. Ser de classe média é ter a imaginação mas não os meios dos ricos. Não digo isso como um rico que varre os farelos da camisa: meu maior luxo é usar Mac em vez de Windows.

Voltando: os políticos brasileiros são excessivamente grotescos, e não tenho um só amigo que não se refira a eles sempre em tom de (justo) escárnio, para contar a última bizarrice desarticulada que a propaganda eleitoral proporcionou. Os políticos brasileiros definitivamente não estão falando com as pessoas que tiveram alguma educação, e não são elas que estão pedindo votos.

Isso, é claro, levanta a questão da própria educação como fator de desagregação e descolamento imaginário. Não é nem o caso de falar de superioridade ou inferioridade de culturas, sugerindo que quem estudou volta-se para uma cultura superior, mas de produtos dirigidos a certas pessoas. Essa elite cultural brasileira está mais interessada em consumir produtos culturais populares da Inglaterra ou dos EUA porque chegou a este nível apenas com sua educação escolar e aulas de inglês. Eu mesmo vou baixar hoje o primeiro episódio da nova temporada de House, e lembro perfeitamente de que aos 12 anos percebi que todas as novelas eram idênticas e desisti de assisti-las. Algo me diz, na verdade, que tudo isso se deve unicamente àquelas pessoas que, diante daquilo que você tem a propor de melhor, começam a fazer um sermão sobre a incapacidade do público de consumir produtos melhores, dizendo que tudo é difícil. Não temos um discurso político melhor, nem uma televisão melhor, porque os responsáveis por isso querem sempre apostar no pior. E é isso que impressiona aqueles que vão morar nos EUA: o fato de que lá as pessoas tendem a apoiar aquilo que acham bom, não aquilo que presume a idiotice universal.