Estoicismo diante da guerra cultural

Uma das vantagens da língua inglesa é a facilidade com que qualquer substantivo vira verbo, e o verbo inglês que tem andado na minha cabeça é o (horrendo) to weaponize, “transformar em arma”, weapon.

Tenho pensado nisso porque hoje em dia a nossa direita (à qual pertenço: não sou limpinho nem puro) fala muito em guerra cultural. Que é uma guerra travada aparentemente na esfera da cultura. Com argumentos ou com proposições que parecem argumentos.

Isso me incomoda porque nunca gostei da ideia de que “todo ato, até acordar de manhã, é político”, isto é, todo ato indica uma preferência numa disputa, quer o sujeito que o pratica queira ou não. Não gostar de uma ideia, é claro, não é provar sua falsidade. Porém, meu não gostar baseia-se apenas em esperar que todos possamos participar de um mesmo debate, e disso depende, por exemplo, que algumas regras sejam pacíficas. As regras da gramática, para começar.

Porém, uma das lições que se pode tirar de Rematar Clausewitz, de René Girard e Benoît Chantre, é que, para quem está de fora, toda paz parece suspeita; quem busca a guerra quer instaurar uma nova paz, a verdadeira paz. Uma guerra cultural seria então o esforço de fazer as ideias certas e verdadeiras ocuparem o lugar das ideias erradas e falsas — e, ainda por cima, usurpadoras. Afinal, nenhuma violência é gratuita na cabeça do violento; a violência é sempre uma reação.

(Um dos efeitos mais curiosos disso é que você sempre declara guerra por causa de uma violência efetiva ou presumida; o outro reage, e a declaração de guerra vira uma profecia autorrealizável. Já estamos na milionésima fase dessa profecia.)

Toda guerra também tem suas baixas. Na “guerra cultural”, a primeira baixa é o próprio esforço intelectual de descoberta. Não é o caso de fazer o elogio da liberdade intelectual contra os dogs of war, mas de fazer uma distinção importante.

Não sou eu que farei a distinção. Vou resumi-la, um tanto grosseiramente, a partir do árido artigo “Sobre o sentido e a referência”, de Gottlob Frege, contando o que nela há de intuitivo. A palavra “carro” tem um sentido, tem ideias associadas a ela etc. Mas ela também se refere a carros específicos, individuais. Carro é o que o dicionário diz que é (sentido), mas também é aquilo que está parado na rua, na frente da casa onde agora escrevo este texto, em Buenos Aires.

Quando você tem um questionamento, você estuda o sentido, mas o que você realmente quer captar é a referência. A vida inteira tive momentos assim: “ah, então era disto que Fulano estava falando”.

Pode ser mais fácil explicar isso em termos de experiências práticas, como ler sobre dirigir um carro, ser capaz de explicar o movimento do carro, e efetivamente dirigir o carro. (E a primeira coisa a observar é que é impossível dirigir um carro e ao mesmo tempo tentar captar intelectualmente cada gesto realizado ao dirigi-lo. Ou você dirige, ou você pensa a respeito de dirigir.)

É preciso transpor essa experiência para a vida intelectual. Por exemplo: São Tomás de Aquino fala que a acídia é o desespero (a falta de esperança, que pode ser tranquila) de obter os bens celestes. Você consegue identificar isso em você mesmo? Como algo que motiva seus atos? Consegue captar essa motivação nos outros? Já tentou usar a acídia como instrumento para explicar algo, viu que deu errado, e tentou outro instrumento?

Isto é um esforço intelectual que não envolve apenas o intelecto, mas um senso moral, e até uma certa capacidade estética. “Guerra cultural”, na melhor das hipóteses, é uma comparação de sentidos, em que se presume que a incompatibilidade vale por uma refutação. Fulano disse X, mas o autor de que gosto diz Y, portanto X é falso.

Como a guerra cultural existe, mesmo que seja na forma de uma profecia autorrealizável, é preciso escapar dela, e realizar investigações apesar e a despeito dessa guerra cultural. Uns dirão que você é um idiota útil ou inútil; mas esses são os que não param de weaponize todas as ideias.

Outros ainda entenderão que a sua investigação é uma batalha da guerra, tomando as suas conclusões como armas, mesmo que seu objetivo nunca tenha sido obliterar ninguém. Esses outros também ficam weaponizando tudo, mesmo que façam questão de deixar claro que acordar de manhã não é um ato político.

Porém, a única coisa a fazer é seguir em frente — torcendo para não levar uma bala perdida, isto é, para não ser contagiado pela guerra cultural.

Caipirice & ironia

Acabo de ver um texto em que um sujeito – deliberadamente ocultarei sua identidade, mas é um professor universitário de fora do Brasil, e não é René Girard – promete que vai dar a verdadeira interpretação da Epístola de São Paulo aos Hebreus. Pasmo, pergunto-me: mas o senhor já leu os padres da Igreja? Os principais teólogos? O senhor está ciente de que existem dois mil anos de interpretação da Epístola aos Hebreus na sua frente?

Poderiam objetar: qual o problema de alguém dar a sua interpretação? Ora, o problema é justamente que essa interpretação já deve ter sido dada, e provavelmente impugnada… O que se apresenta como inédito provavelmente nada tem de inédito. Se eu chegasse aqui e dissesse que inventei o verso decassílabo, as calças compridas ou os números de páginas, o que vocês pensariam de mim?

Essa costuma ser a minha bronca com a imprensa. Assuntos complexos tratados por gente que não sabe nada, e que acha, sinceramente (porque a ingenuidade é necessariamente sincera), que é possível varrer para o lado tudo que não estiver de acordo com um consenso.

Eu sei que um dos paradoxos de hoje é que a verdade consiste em denunciar “verdades”. Mas como não perceber que o consenso da denúncia é também um consenso? Daí que eu fale em ingenuidade, em caipirice mesmo: trata-se de uma ausência de ironia. Ironia, aliás, que nada mais é do que olhar a si mesmo desde fora. Então o senhor realmente acha que, após dois mil anos, vai dar a explicação definitiva da Epístola aos Hebreus, e, mais ainda, sem fazer menção a ninguém?

Podem falar também de humildade. Mas agora vou ser forçado a ignorar o passado e tratar cada um que aparecer como a reinvenção da roda? É esse mesmo o critério? E não é Satanás quem está propondo?

“Autores perigosos”

Muitos católicos já ouviram o alerta, acompanhado daquela expressão de benevolente preocupação: “Esse autor é perigoso.” “Esse livro é perigoso.” O pobre fiel ouve isso e já se pergunta se não está no caminho da perdição. Parece até que um Eric Voegelin – digamos – é na verdade uma espécie de Hugh Hefner intelectual, trazendo coelhinhas teóricas que perverterão a mente.

Quem não é católico (ou mesmo quem é) e vive num ambiente (quase todos) de exaltação da liberdade de pensamento, há de achar esse alerta “a coisa mais retrógrada do mundo”. Mas essa resposta é só um reflexo condicionado. Qualquer pessoa vai concordar que os livros podem ter efeitos na alma. E, se podem ter efeitos, esses efeitos podem ser bons ou maus. “Mas perigosos? Depende.”

Aí eu concordo com meu interlocutor imaginário. Se depende, depende do quê? Recordo um post recente de Bill Valicella, o Maverick Philosopher, que dizia que as pessoas são engabeladas por causa de seus próprios vícios. Você acha que é especial, por isso acredita no sedutor que lhe transmite essa mensagem. Você se deixa atiçar porque acha que seu desejo será satisfeito. E você pode ser “pervertido” por um “autor perigoso” porque o seu desejo de se achar inteligente, de encontrar alguma justificativa para alguma vontade sua, é maior do que o seu amor pela verdade.

Daí se segue algo tremendamente óbvio: de que adianta o exame das obras sem o auto-exame? De que adianta fazer uma pergunta sem saber (ou sem ao menos tentar saber) por que se faz essa pergunta? O espírito crítico direcionado apenas para fora permanece na adolescência.

Segue-se também outra conclusão, mais radical: sem esse auto-exame, qualquer autor ou livro pode ser perigoso. Quem quer uma sã doutrina para viver há de encontrá-la na primeira versão conveniente. Você é envergonhado, tímido? Cuidado com a sã doutrina moralista que te coloca na promotoria do Juízo Final. Você é descolado, um hedonista nato? Cuidado com a sã doutrina que te dispensa de examinar o que parece superior. Se, ao ler alguma coisa, você vê que o desdém que você julga sentir por esferas inteiras da experiência humana parece inteiramente justificado, olha aí o seu “autor perigoso” à espreita. Está te seduzindo.

Não custa observar, como complemento, que entre um desinteresse genuíno e uma afetação de indiferença há uma distância já compreendida no Ocidente desde a fábula de Esopo sobre a raposa e as uvas.

Tornando ao caso católico específico, é bom lembrar ainda que São Tomás de Aquino foi um autor perigoso. Após sua morte em 1274, sua obra foi proibida pelo Arcebispo de Paris. Desde o Concílio de Trento, quase trezentos anos depois, a influência de São Tomás no catolicismo só é comparável à de Santo Agostinho. E como São Tomás teria refutado tantas teses contrárias à verdade e/ou à fé sem conhecê-las? Sem tomar conhecimento de “autores perigosos”? Lembro ainda um outro autor perigosíssimo – Martinho Lutero. Quem é um grande especialista em Lutero? O Papa Bento XVI.

Ou, em uma frase, as tentações existem no mundo, mas só são vencidas dentro de cada um.

Um ano de calcário

Hoje faz um ano do suicídio do Sergio de Biasi. A lembrança me veio de súbito, ontem. Nesse último ano eu acabei não escrevendo diversas coisas porque tentava imaginar o que o Sergio ia responder e agora isso não adianta mais. Eu não gostei de certas respostas que ele me deu; achei despropositadas e injustas. Mas e daí? Certamente eu já dei também respostas despropositadas e injustas, e se tem algo que faria bem a todo mundo é, como se diz em inglês, desenvolver a thicker skin, ou não ser tão sensível.

Recordo o Sergio pelo seu aspecto talvez mais evidente, ou talvez porque eu venha pensando um bocado nesse assunto, que é o fato de que ele sempre pareceu estar intensamente em busca de algo. Ou, para abreviarmos, “na busca”, sem complemento. Viver é buscar algo; é entender que os atos têm consequências; é não esquecer que, querendo ou não, há uma certa seriedade nas coisas: a seriedade de existirem em vez de não existirem; e, no caso de nós, que não somos só coisas, a seriedade de fazer algo com os talentos que recebemos.

Uns vão dizer que “os que não levam a vida tão a sério” são mais felizes, e eu digo que isso é mentira. É mentira porque tranquilidade é uma coisa e felicidade é outra. Não levar algo tão a sério é não dar tanto valor a algo; se você não dá valor a algo, pouca diferença faz perder ou ganhar esse algo e por isso você fica tranquilo. Outros podem dizer que levar a vida tão a sério pode ser vaidade. E eu digo que a vaidade pode se imiscuir em rigorosamente tudo, mas permanece o fato: temos essa vida e ela pode ser melhor ou pior. A vida não-examinada realmente não vale a pena de ser vivida.

Na última vez em que nos falamos, mandei-lhe duas gravações de Auden lendo o poema “In Praise of Limestone”, do qual vem a atual “tagline” que o WordPress me pede para colocar no blog. Tenho a impressão, mas posso estar totalmente equivocado, que esse poema veio a ser importante para o Sergio. Parafrasear o poema me parece inútil; ele já é claro o suficiente, ao menos para quem souber lê-lo, olhando as próprias cicatrizes.

Obras de arte: alimento, remédio ou veneno

Este texto foi parcialmente inspirado por isto.

Quero falar sobre a questão do julgamento moral das obras de arte, mas antes preciso confessar que não sei se entendo bem a ideia de moral. Claro que entendo a ideia de moralismo, que seria o estabelecimento de um limite aparentemente arbitrário para as ações humanas. “Daqui não passarás.” Mas por quê? O que há do outro lado? O mundo mágico das pessoas esclarecidas? É fácil ver que o moralismo e o antimoralismo são duas posições igualmente pueris. Agora, isso não ajuda muito em relação à moral.

Pelo pouco que consigo vislumbrar, a moral está relacionada a certas concepções antropológicas, cosmológicas e teológicas, que todos temos; lembrando que o ateísmo é uma concepção teológica. Dado que o homem é x, que o cosmos é y, e que Deus (ou qualquer instância sobrenatural) é z, segue-se que a melhor maneira de agir é w. E no entanto não consigo não enxergar um certo aspecto utilitarista na ideia de moral. Se o tabuleiro é de um jeito, há um jeito de jogar que é vencedor, e outro que é perdedor. Claro que você pode questionar o sentido de vencedor e de perdedor, mas acho que não haveria disputa quanto a essa formulação, que pode ser expressada tanto na forma de “se o cristianismo é verdadeiro, é bom que nos sacrifiquemos pelos outros” e “se Deus não existe, o prazer, sensível ou intelectual, é o melhor bem a que podemos aspirar”.

Pior ainda, mesmo os dez mandamentos parecem-me ter um caráter utilitário. Por favor, não me condenem por dizer isso: vejam que digo que me parecem. Como entender algo como “não roubarás” sem um caráter utilitário se não consigo ver um fundamento metafísico da propriedade? Nada me liga a meu computador além de um complexo aparato social que gera nas pessoas a expectativa de sofrer violências se entrarem na minha casa e tirarem meu computador. Entendo que em última instância se chega a um fundamento metafísico: sofrer a violência é um mal, porque sobreviver, de modo saudável, é um bem; daí decorre que tudo que concorra para a sobrevivência saudável das pessoas é um bem. Mas isso não cria um elo metafísico entre mim e meu computador. Se ele fosse destruído, eu continuaria igual. Tanto é que já dei e já vendi computadores sem que nada me acontecesse.

Creio que minha inteligência é, ou tornou-se, de tipo trágico. Fico me perguntando o que acontecerá se fizermos isso ou aquilo, e tenho interesse por desejos paradoxais. Um desejo paradoxal, por exemplo, é o desejo de manter a atual estrutura jurídica e proibir o casamento gay. Uma vez que o Estado brasileiro liga o casamento a diversas interferências no direito de propriedade (como a inclusão de dependentes para fins tributários, as modalidades de pagamentos de planos de saúde etc.), não dá para defender a lei tal como ela existe, e também defender o mandamento que diz “não roubarás”, e ser contra o casamento gay. Ele decorre da lei. Ele é uma interpretação mais justa da lei do que subordinar o direito de propriedade à heterossexualidade. Agora, muitos gays também não querem aquilo que resolveria a disputa de maneira pacífica, que seria retirar o Estado da questão do casamento. Essa solução seria o equivalente a um pai retirar de cena um brinquedo que é motivo de briga entre seus filhos, porque os gays militantes querem aquilo que os heterossexuais têm, ou que eles imaginam que os heterossexuais têm, e por isso não querem que o brinquedo saia de cena a fim de garantir a paz. Eles querem o brinquedo para si, porque sabem que, para um heterossexual conservador, o casamento fica maculado se os gays agora têm acesso a ele. Daí eu volto ao que dizia: minha inteligência funciona de modo trágico, voltando-se para os aspectos insolúveis das disputas, ou insolúveis porque os dois lados aceitariam todas as soluções, exceto a única que funciona, que é sacrificar aquilo que define sua identidade.

Mas bem. Falemos de obras de arte. Diante da questão “devemos julgar moralmente as obras de arte?”, é preciso fazer várias distinções e observações. A primeira delas é: todo mundo julga “moralmente” todas as obras de arte. A pessoa que cria uma obra blasfema contra o cristianismo provavelmente considera nojentas as catedrais medievais, símbolos da dominação blá blá blá. A segunda é que essa ideia de “moral” é mítica, e se eu desmistifiquei a minha própria “moral” nos parágrafos anteriores, não vou poupar a “moral” do leitor. Observo que as pessoas chamam de moral ou de imoral aquilo de que elas gostam ou não gostam, e só. Você gostaria de trair seu cônjuge sem sentir vergonha, “culpa”, sem sofrer consequências? Então você aprovará filmes cujos protagonistas fazem isso, porque vai se identificar com eles. E depois você vai falar no direito de amar, de ser feliz, e que as situações são complicadas etc. Aquilo de que você gosta é complexo e cheio de nuances. Aquilo de que você não gosta é simples e grosseiro.

Assim como antes falei da expectativa de punição violenta que garante os direitos, também observo que há uma relação de causa e efeito no consumo de obras de arte. Já observei que ninguém discorda de que a ingestão de certos alimentos tem certos efeitos sobre o corpo (também tem sobre a alma, mas não falemos disso), e eu mesmo tomo a culinária como modelo para as artes, mas por alguma razão as pessoas acham que podem passar relativamente incólumes pelo consumo de obras de arte. E é particularmente engraçado que seja possível defender isso no mesmo momento em que vemos a maioria das pessoas de classe média urbana agir e falar cada vez mais como personagens de séries americanas. O ponto de vista irônico e cáustico das séries americanas é tão onipresente que chega a ser cansativo, sobretudo porque as pessoas acreditam que isso veio delas mesmas, não do canal da Warner ou de trezentos mil episódios de House.

Esse é um dos efeitos das obras de arte, reconhecido desde Aristóteles, que sugeriu na Poética que as plateias poderiam evitar a tentação de imitar a hybris dos protagonistas observando seus efeitos. Nelson Rodrigues também disse que mostrava horrores no palco para que não houvesse horrores na sociedade. O fato de que todos nós temos algo de Emma Bovary, querendo imitar o que vemos nas obras de arte, é um segredo protegido apenas pela teimosia de achar que somos nós os inventores de nossas atitudes, forjando destemidamente nossas personalidades, como protagonistas de livros de Ayn Rand.

Assim, diante da questão da conveniência de julgar moralmente as obras de arte, só posso observar que, se toda obra de arte tem algum efeito na alma, é razoável levar esse efeito em conta na hora de consumi-la, porque quem quer a causa vai levar o efeito no pacote, querendo ou não. Pior ainda, não existe bulimia artística, você não pode ver um filme e botar o dedo na garganta para vomitá-lo, nem pode pode suprimir totalmente uma melodia etc. Você pode, é claro, fazer uma nova digestão do que vê, ouve, lê etc., como que trabalhando seu aparelho digestivo intelectual. O que, naturalmente, não deixa de ser uma espécie de conversão, ao menos da inteligência.

É por isso tudo que a questão do julgamento moral das obras de arte no sentido de “se eu vir esse filme, irei para o inferno?” só faz sentido de maneira muito metafórica. Uma formulação mais razoável levaria em conta que toda e qualquer obra de arte depende de alguma identificação e de alguma abertura para ser apreciada. A criança que recebe goela abaixo uma colherada de uma comida qualquer não está disposta a gostar daquela comida. A pessoa que se senta para ver um filme sem aceitar as sugestões que vêm da tela, sem permitir que seja criada empatia, dificilmente gostará do filme, e estou falando de gostar, não de apreciar intelectualmente, de respeitar as qualidades etc. Como ninguém se julga eminentemente imoral em sentido negativo, ninguém vai dar empatia a algo que considere “imoral” ou ruim. Toda obra de arte depende desse elemento identificador e trabalha com ele em algum sentido, seja tentando purgar a plateia dele, como no caso da tragédia grega, seja tentando reforçá-lo, como no caso de Lost in Translation.

Uma outra maneira, talvez, de formular a questão, e que, essa sim, me interessa sumamente, é: de que maneira a obra trabalha seu elo de identificação com a plateia, e o que isso diz sobre a obra e sobre a plateia? E quais as implicações sociais disso (sempre no plano de “o que vai acontecer”, não de “o que deveria acontecer”. Nada mais fácil e simplório do que comparar algo real com algo ideal e censurar o real por não ser o ideal)?

E agora, para encerrar, vejo que poderia sintetizar essas reflexões todas reformulando a pergunta de maneira metafórica: dado o espectador x, a obra y tem para ele o efeito de alimento, de remédio ou de veneno?

“Culpa”, o nome de guerra da inveja

Hoje no jornal — é verdade, quase tudo que eu escrevo é mera reação a algo que leio por aí — leio que Karen Tannhauser, a moça que se escondeu dentro do próprio prédio por alguns dias, tinha deixado um bilhete para a família, dizendo: “Eu não me acho no direito de ser feliz. Mas não levo ninguém junto. Vivam suas vidas e nunca se culpem.”

A culpa é a grande culpada. Em todos os jornais, em diversos blogs, todos os dias, alguém fala contra a culpa. Eu não vou fazer um elogio da culpa. Eu vou é me perguntar: como é que eu, que sou católico sim, e que tenho sentimento de culpa sim, pareço estar menos oprimido pela culpa do que pessoas que 1. fazem questão de dizer que não são religiosas, não creem em inferno etc. e 2. têm uma vida geralmente tão inofensiva quanto a minha, isso é, não assassinamos, contamos no máximo mentirinhas para preservar certas aparências, e, se roubamos algo, é aquele irresistível pedaço de bolo que o outro está demorando a comer. Terei eu uma grande deformidade moral? Será que estou escrevendo isto para demonstrar a minha própria superioridade? Será que na verdade minha alma é mesquinha e eu, que não sou kantiano, não percebo que roubar um bolo é tão grave quanto roubar o sustento de uma família?

Mas é um mistério. Por que as pessoas estão assim tão preocupadas em não se sentir culpadas? Será que vivemos uma época em que a consciência moral pulsa e palpita no coração de cada ser humano?

Não vou fazer julgamentos sobre a consciência moral alheia. Mas vou arriscar uma hipótese sobre a culpa que é atribuída à culpa.

Se você não está atormentado por algum ato particular, não sente culpa. Se a sua culpa é genérica, difusa, permanente, ela não é efetivamente uma culpa, é um mal-estar, é uma insatisfação insaciável; é, suspeito eu, um ressentimento. Contra quem? Contra você mesmo. Não porque você tenha uma forte consciência moral, mas porque você tem uma forte consciência de que a vida dos outros parece melhor do que a sua, e você está com inveja. Culpa é o nome social da inveja, porque a inveja é o maior tabu de todos, isso é, ninguém, jamais, de jeito nenhum, vai admitir sua própria inveja, provavelmente nem para si mesmo. As pessoas podem admitir qualquer coisa, menos que invejam as pessoas que afetam desprezar.

Não admira que seja assim. O guru do momento diz que devemos ter Deus como modelo, e isso no que diz respeito à capacidade de criar, de chegar a uma originalidade absoluta, o que é uma pretensão tão absurda e autossabotadora (minha tradução pessoal para self-defeating) que só pode mesmo ser reprimida e recalcada: verbalizada, a veracidade da percepção de que você não é Deus tem força suficiente para fazer-se sentir por uma vida inteira. Não que isso vá vender jornal ou atrair anunciantes. Mas você sempre pode culpar o capitalismo por não ter escolhido essa mensagem. Não culpar a si próprio é que é importante, não é?

A pretensão de inventar a própria vida só vai gerar inveja e ressentimento porque sempre temos a impressão de que os outros fazem isso. Os outros parecem espontâneos; desde que não sejam muito bizarros, parecem resolvidos; nós é que parecemos contraditórios, estranhos, inacabados. Você jura que nunca se perguntou porque Fernando Pessoa é tão popular?

Chega a hora, é claro, de falar em “soluções”. Mas a solução é óbvia e pouco estilosa. Não é cool, mesmo. É apenas pensar mais nos outros e esforçar-se para amá-los. É tentar imitar a Deus no sentido de sacrificar-se pelos outros em vez de tentar criar o mundo em seis dias. Pronto, foi mal, a mensagem de sabedoria é só essa mesmo. Você queria que eu citasse o Dalai Lama, ou que eu falasse de neuroplasticidade, mas algo me diz que essa tecnologia óbvia é mais avançada.

E nada contra o Dalai Lama, nem contra a neuroplasticidade. Para parodiar um pouquinho o jeito inglês de falar, eu acho, de verdade, que ambos são forces for good. E se você quiser pegar o caminho longo, ok também.