Inovações técnicas (iminentes) na poesia

O assunto me interessa demais e o tempo para elaborá-lo é de menos (diversas coisas têm-me afastado do blog), mas preciso fazer algumas observações sobre o que diz o Érico:

1. Creio que o próprio Mattoso Câmara, com a teoria do grupo de força, aponta o caminho para a criação de um novo pé métrico em português. Poderíamos experimentar com versos em que se contam primariamente o número de vezes em que as intensidades se repetem, e não o número de sílabas métricas. Mas isso é só o começo. Como os estudos prosódicos ainda são relativamente incipientes no Brasil, pode ser que estejamos numa posição semelhante à dos pintores renascentistas, com mundos a descobrir.

2. Já apresentei a questão do “v’rão” europeu a uma professora minha de fonética e fonologia, que me disse que um espectrograma ainda acusaria a presença da vogal que nos parece perdida. Creio que aí há um problema de dar à máquina a primazia sobre o ouvido, que é um problema porque não falamos com máquinas, e sim com pessoas. O ouvido acusa que um verso como “por mares nunca dantes navegados” tem na Europa no máximo 9 sílabas: “por mares nunca dantes nav’gados”. Digo no máximo porque me parece possível comer outras sílabas de maneira realista, mas prefiro parar por aqui porque nunca sequer pisei em Portugal…

Falei há pouco de pintores renascentistas de propósito. Há muito mais na poesia do que a simples formação da sensibilidade pessoal. Há em qualquer arte a necessidade de pesquisa, e boa parte das obras que mais valorizamos está em busca de inovações técnicas. O esquema poundiano de inventores, mestres e imitadores segue a lógica de fazer uma descoberta técnica, explorar as possibilidades abertas pela descoberta e depois apenas repetir aquilo que já foi esgotado. O poeta que, hoje, não tem nenhum interesse pela grande área da fonética, está condenando a si próprio a nunca testar os limites do seu material.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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