Diários (e, por favor, leiam o Pedro Mexia)

Gosto muito de diários, o que não chega a ser uma excentricidade. É sabido que, quando o autor atinge a nota certa, diários podem ser obras-primas de pleno direito. O ótimo texto do Rodrigo de Lemos publicado esses dias no Estado da Arte me deixou com vontade de ler os de Renaud Camus. Outro que anda na minha mira é o volume de diários do padre e teólogo ortodoxo Alexander Schmemann (que gênio, meus amigos).

Em língua portuguesa, estou convencido de que o mais talentoso escritor vivo é o Pedro Mexia, justamente pela reinvenção radical que ele vem fazendo da forma “diarística” (palavrinha feia…) há muitos anos. Confesso que sou meio obcecado com o Mexia, pois tenho a impressão que ele não recebe o crédito devido. Tenho vontade de pegar as pessoas pelo colarinho, sacudi-las e gritar: “Leiam o Mexia, porra! Vocês não veem que o homem é brilhante?”

Voltarei a escrever sobre diários nos próximos posts. Por enquanto, como a editora Tinta-da-China está publicando o novo volume do Mexia em Portugal, aproveito para colar aqui um trecho de um perfil mais longo dele que escrevi para a revista Café Colombo, que, aliás, recomendo muito.

“O momento da explosão dos blogs, por volta do início do milênio, coincidiu nos dois lados do Atlântico e contribuiu para aproximar uma nova geração de escritores portugueses e brasileiros, que voltaram a ler-se mutuamente em tempo real. Para Pedro Mexia, tratou-se de um ponto decisivo em sua carreira. Nos blogs nasceram o estilo e a persona que o tornariam um caso único na literatura contemporânea em língua portuguesa. Partindo de um início corriqueiro, em que reagia aos fatos políticos do dia e comentava assuntos diversos, Mexia aos poucos desenvolveu um eu lírico personalíssimo, transformando efêmeros registros na internet numa prosa compacta e evocativa que não apenas parava em pé sozinha, mas que ganhava insuspeitos matizes nas páginas impressas dos diversos livros que se seguiram ao fim de cada um de seus blogs. A forma do texto é breve – frequentemente reduzida ao epigrama – o registro, o “hermetismo confessional”. Numa tensão entre o passado e o presente, o trabalho de Pedro Mexia consistiu em resgatar a tradição dos diários de escritores – Amiel, Kafka, Pavese, Green, Eliade – reinventando-a de acordo com os tempos e vertendo nela sua própria personalidade melancólica, cética e erudita. Ao lermos seus blogs e livros, somos confrontados com uma voz pessimista e autodepreciativa, que dialoga com o mundo por meio de suas monumentais leituras e de seu extenso conhecimento sobre cinema e música pop. Um post intitulado ÉTICA BLOGUISTA, dá o tom ao leitor recém-chegado: These fragments I have shored against my ruins (T.S. Eliot, “The Waste Land”). Os aforismos, aliás, são a melhor introdução a sua visão de mundo, glosando alguns de seus temas recorrentes, tais como a decepção (O dia da esperança é a véspera da decepção), a esterilidade (Tácito escreveu que não devemos chamar paz ao que é apenas deserto), a incomunicabilidade (“Conheci uma pessoa”, eis uma expressão que nalguns casos implica dois evidentes exageros) e o cinismo (O cinismo é a cicatriz da inteligência).

Tal visão de mundo, tão bem capturada nos aforismos, chega ao leitor filtrada através de um subjetivismo radical: Reconheço em Citizen Kane todos os méritos que a crítica há décadas tem apontado. Mas não há nada em Citizen Kane que me comova como o começo e o final de Touch of Evil, do mesmo Orson Welles. Nada que me tenha tocado como esse plano-sequência que parece prolongar-se pela nossa vida adentro, essa cena na ponte tão desesperada, tão negra, tão irremediável. Para mim, Touch of Evil é maior que Citizen Kane. E esse para mim é o único critério que (me) interessa. Como se vê, toda uma declaração de princípios enxertada num post sobre cinema. Princípios esses, aliás, que se aplicam ao seu declarado conservadorismo: Esquerda e direita são sensibilidades. Não são apenas maneiras de votar em eleições.

Sob certo aspecto, aqueles que atingiram a maturidade no fim do século passado reconhecerão algo do Diário da Corte do finado Paulo Francis nos diários de Mexia. Nos dois casos, os autores criam um “eu narrativo” homônimo que comenta o mundo através de suas leituras e idiossincrasias, apresentando ao leitor incontáveis recomendações valiosas de livros, música, artes plásticas, todas elas conectadas antes de tudo por uma sensibilidade. A diferença, no caso, está no temperamento dos diaristas: no lugar da cólera vituperativa e da certeza trotskista de Francis, Pedro Mexia lê o mundo pelas lentes de uma melancolia confessional e autodepreciativa.”

Duas notas sobre Submissão – e uma palavrinha sobre mim

O Pedro, ainda mais escrevendo n’O Indivíduo, dispensa apresentação e explicação. Já eu, nem tanto. Algumas palavras, pois. Aos 41 anos, sou neurodiverso (*), diletante e autodidata. Nenhuma das três circunstâncias foi escolha minha, mas a vida é assim e tive bastante tempo para me acostumar a elas. Novidade mesmo foi a descoberta de que meu antigo desconforto em publicar na internet vem desses traços. Porque um texto é um negócio que carrega uma certa autoridade, e eu não sou autoridade em nada.

Agora, por outro lado, sou, sim, um sujeito muito curioso e gosto de conversas informadas, com outros diletantes autodidatas ou com especialistas cheios de paciência. Então, como, como me comunicar com o mundo? Esse sempre foi o meu dilema.

A gentileza do Pedro em me convidar para participar dessa nova encarnação do Indivíduo vai me permitir testar um novo modelo. A ideia é que meus posts sejam uma amostra dos meus interesses, mas amostra bruta, não formatada sob a aparência de texto especializado. Conversas com amigos, ideias que me ocorrem à noite, fragmentos de leituras, anotações à margem de livros, respostas ao que me irrita, tudo vai virar post. Quem se sentir afinado ou contrariado, entre em contato comigo. Estou no Facebook, twitter (@diogo76) e meu gmail é diogo76.

Para começar em estilo, seguem trechos editados de um e-mail que escrevi a um amigo sobre “Submissão”, do Houellebecq. Digo em estilo porque o editor deste site é doutorando em literatura comparada e fã do autor. Se for para expor nosso autodidatismo diante dos especialistas, comecemos em casa.

(*) ou “autista”, ou “asperger”. O nome é menos importante do que a ideia.

***

Duas notas sobre “Submissão”.

Duas questões interessantes, que não vi mencionadas dessa forma em nenhum outro lugar. A primeira é ler o romance como uma alegoria. O protagonista – personagem tipicamente houellebecquiano, um homenzinho sem força, sem tesão vital e sem motivação, flutuando nas ondas da sociedade pós-capitalista, vivendo de sexo e comida congelada – é uma imagem alegórica da França contemporânea. Mas não só isso. Ao contrário dos protagonistas dos romances anteriores do autor, esse tem uma profissão intelectual, professor universitário de literatura, especialista no escritor J.K. Huysman, um decadentista convertido ao catolicismo no século XIX. A questão que se coloca aqui é: a França contemporânea (o protagonista) seguirá os passos de Huysman no século XXI?

Como todos sabem, o livro se passa no futuro próximo, e o cenário é a França em estado de ebulição. Em meio a uma apatia paralisante, o país derrete enquanto combates entre milícias islamistas e “identitários” ardem pelas ruas sem que ninguém tenha coragem de prestar atenção neles. Um partido islâmico se opõe ao Front National na primeira eleição desde a Segunda Guerra em que a direita e a esquerda tradicional não participam do segundo turno. No dia da votação, o protagonista entra no carro e sai sem destino “pela estrada afora”, retomando a alegoria da França sem rumo, à deriva. Apenas sob essa lente é possível aceitar uma daquelas “coincidências” que seriam risíveis em qualquer outro romance, sua parada exatamente no ponto de uma batalha importantíssima, em que um rei franco derrota os muçulmanos que avançavam pelos Pirineus, o que permitiu à França permanecer cristã na Idade Média. Alegoria mais clara do que essa, só no teatro popular daquele período. Em seguida, ele se dá conta que está próximo do santuário da Virgem de Rocamadour, onde se encontra uma imagem românica de Maria com o menino Jesus, talvez a mais importante da França medieval. O narrador recorda ao leitor todos os personagens históricos (reis, santos, cruzados) que peregrinaram até o santuário de Rocamadour e para lá se dirige o protagonista. No entanto, seu encontro com a estátua da Virgem Maria que tanto animou a cristandade medieval francesa é anticlimático, ele não sente nada: sua alma (como a da França) está morta e fechada à Encarnação do Verbo. Esse é o ponto chave do romance, o momento em que se torna claro que o professor não seguirá – porque não consegue – os passos de seu ídolo Huysman. No fundo, essa era sua única saída. A partir de agora, o que lhe resta é se “submeter” à religião do invasor. De certa forma, o livro termina aqui, antes da metade de sua extensão total.

A segunda questão diz respeito ao que vem depois. À essa altura, todos sabem que a França se islamiza. O que não vi comentado foi o brilhantismo no retrato de como isso acontece, jogando com a ambiguidade do título do romance e de sua parte final. Como é sabido, “Islã” significa, literalmente, “submissão” a Deus e, obviamente, o livro de Houellebecq é a narrativa da “submissão” da França ao islamismo. Mas, em nossa linguagem corrente, o substantivo “submissão” tem uma conotação negativa, de alguém que se humilha e rebaixa, o que até seria meritório fazer diante de Deus, mas nunca diante de outros homens. E a impressão que “Submissão”, o romance, deixa no leitor é que a França, assim como o protagonista, se submeteu no segundo sentido, não no primeiro. Últimos homens nietzscheanos até o fim, os franceses não se converteram verdadeiramente ao islamismo, mas sim se entregaram praticamente sem reação a invasores pacíficos que lhes ofereciam pleno emprego, segurança nas ruas e satisfação sexual.

Velho do Restelo 1 x 0 Dilma Rousseff

lusiadas

Abro o Diário do Balneário e me deparo com a informação de que nossa presidente Dilma Rousseff ontem chamou a oposição de “Velho do Restelo” (vai o link para o Estadão porque achei primeiro). Confesso, não sou de rir sozinho diante de notícias, dou no máximo um sorrisinho, até porque o riso é mimético e demanda a presença de outras pessoas, mas essa mancada me fez gargalhar.

O Velho do Restelo é um personagem que aparece nos Lusíadas após a partida das naus de Vasco da Gama. Se é verdade que Vasco da Gama é o herói dos Lusíadas, também é verdade que Camões, que conheceu a colonização portuguesa onde ela acontecia, na África e na Ásia, e não apenas na metrópole, inseriu esse personagem para fazer um contraponto à euforia das navegações. O Velho do Restelo observa que sem as mãos jovens os velhos e as crianças ficam desprotegidos (contra invasões) e descuidados. Diz que as navegações são fruto da “glória de mandar” e da “vã cobiça”. Na verdade, o Velho do Restelo confirma avant la lettre toda a ideia de que as navegações eram uma forma maldosa de exploração, toda a narrativa da esquerda contemporânea.

Mais ainda, Os Lusíadas pode ser uma obra de ficção, mas é uma obra baseada em fatos reais, e que adquire ainda mais relevância quando colocada em seu contexto histórico e político, e não apenas literário. Se ela foi publicada em 1572, apenas seis anos depois Portugal sofreria a maior derrota de sua história, causada justamente pela euforia de Dom Sebastião, jovem monarca que se julgou capaz de enfrentar sozinho os mouros e cujo corpo desapareceu no Alcácer. Se o Velho do Restelo tivesse sido ouvido, não teria havido sebastianismo, nem União Ibérica, e o mundo hoje seria muito diferente. Nunca conheci um professor de literatura portuguesa que não observasse isso e que não demonstrasse simpatia pelo Velho do Restelo. Até por amor a Portugal.

Se quiserem me taxar de ideológico pelo que vou dizer, sei lá, mas o que eu espero de um presidente é que dê ouvidos ao Velho do Restelo. Que aja com prudência e que evite o excesso de confiança em suas políticas. E também gostaria, já que estou falando disso, que a própria oposição pudesse ser vagamente comparável àquele “velho de aspecto venerando”. Isso mostra as duas mancadas da presidente: não só ela não é Vasco da Gama nem deveria tentar ser, como falta muito fubá à oposição para merecer a comparação com o Velho.

É verdade também que Camões pode ter tido uma pequenina participação na débacle portuguesa de 1578. Afinal, foi ele quem disse, ao fim dos Lusíadas, que Dom Sebastião realizaria feitos ainda mais esplendorosos do que seus antecessores. Mas, vejam a ironia: Camões provavelmente disse isso, uma inserção considerada tardia, para ver se conseguia algo com o governo. Outra sugestão de que os poderosos não deveriam permitir que os bajuladores os deixassem cheios de si mesmos e antes procurassem a companhia dos críticos.

Estilo brasileiro x anglo

Não é bonito citar exemplos dos livros que já traduzi, por isso vou contar com a cultura do leitor ao compartilhar esta pequena observação: se um dos defeitos mais comuns da prosa do português brasileiro, seja na ficção, no ensaio ou no jornalismo, é a pobreza vocabular, muitas vezes associada a uma pobreza de estrutura, uma incompreensão da subordinação e a um tempero de termos pomposos, um dos defeitos mais comuns da prosa de língua inglesa, nos mesmos gêneros, é a transformação da riqueza vocabular num valor em si. Sim, isso dá cor ao texto. Mas isso também serve de sinal para que o leitor perceba que entrou no terreno da ambição literária, e que o autor, mesmo que esteja escrevendo algo essencialmente informativo, está implorando para ser julgado por seu estilo. Sim, é melhor que haja uma preocupação com estilo. Só que, já diziam os romanos, há medida nas coisas. Ir ao dicionário de quando em quando é parte de qualquer leitura vagamente mais séria. Ir ao dicionário o tempo todo já começa a inviabilizar a fluência. Sem contar que começa a se formar uma sensação de barroquismo carnavalesco, de excesso de ornamentação. Auden dizia que na obra de arte (e tudo pode ser obra de arte, é só você fazer com arte) o que vem em primeiro lugar é seu objeto, seu assunto. Um lugar-comum que serve, talvez, como antídoto aos defeitos de brasileiros e de anglos: deixar que o objeto guie o estilo, até porque, no caso específico das artes da palavra, há que lembrar que a linguagem também tem função referencial, e que é preciso perguntar-se se é necessário referir (chamar a atenção para) tantas coisas.

Jogralidade infinita

De Camilo Castelo Branco, “Gracejos que matam”, no começo das Novelas do Minho:

Ordinariamente, chamam-se á franceza — espirituosos — uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d’aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro — tregeiteador — arlequim — palhaço — proxinella — polichinello — maninêllo — truão — jogral — goliardo — histrião — farcista — farçola — végete — bobo — pierrot — momo — bufão — folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n’estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

As dicas dos parentes e amigos de Jane Austen

W.H. Auden escreveu em algum ensaio que não entendia “por que as pessoas que não sabiam o que fazer da vida decidiam tornar-se escritores. Por que não advogados ou dentistas?” Por que, caro senhor Auden, a todos parece fácil escrever. Também parece fácil traduzir. Outro dia, como eu comentasse alguma dificuldade com um termo, e acrescentasse que já tinha procurado alguns dos tradutores que mais respeito, ouvi um inocente “E por que você não consulta alguma pessoa americana? Eu conheço alguns americanos.” Felizmente não precisei responder; mas o leitor pode ficar sabendo que eu apenas diria que, assim como eu mesmo não sei mais do que o Dicionário Houaiss ou o Caldas Aulete, o americano médio não sabe mais do que o Oxford ou o Merriam-Webster.

Encerro o desabafo e volto à literatura. A todos parece fácil escrever. Sentar-se no computador, despejar um romance, possuído como Cassandra; se o público gostar, isso é aleatório e imprevisível, como se a diferença na qualidade entre uma lanchonete de aeroporto e o melhor restaurante fosse aleatória e não o fruto de cuidado. E isso tem a ver com algo que, de modo geral, é muito difícil para as pessoas, não apenas brasileiras: a dificuldade extrema em descrever para si as razões de gostar ou de desgostar de algo. Se elas tivessem uma pequena ideia do trabalho que dá descrever para si as próprias preferências, a razão destas preferências, e, após a descrição, tentar modificar algumas dessas preferências, elas teriam uma apreciação melhor do trabalho do artista.

Jane Austen teve o bom humor de reunir essas dicas todas e redigir um pequenino projeto de romance, o que dá uma boa ideia da distância entre aquilo que as pessoas imaginam gostar e aquilo de que elas efetivamente gostam. As dicas só fazem pensar na criança que imagina que todas as coberturas juntas em cima do sorvete produzirão algo que seja não apenas palatável, mas a suma delícia.

O projeto foi escrito em 1816, Jane Austen já tinha publicado quatro romances que lhe deram fama e sustento (não exatamente fortuna): Orgulho e Preconceito (essa tradução, de Alexandre Barbosa de Souza, é excelente), Razão e sensibilidade, Mansfield Park e aquele que deve ser o maior de todos, Emma (diz a lenda que Ivo Barroso traduziu, só não foi ainda publicado). (Os outros dois romances conhecidos, Persuasão e A abadia de Northanger, foram publicados após sua morte.)

Leia o original.

Cenário rural, Heroína filha de clérigo, alguém que após viver muito tempo no mundo retirou-se dele para um vicariato, com uma pequena fortuna. – Ele, o melhor homem que se pode imaginar, perfeito de caráter, temperamento e maneiras – sem a mais mínima mácula ou peculiaridade a impedir que ele seja a companhia mais agradável possível a sua filha o ano inteiro. – Heroína também personagem sem mácula, – perfeitamente boa, com muita ternura e sentimento, e, claro, muito espirituosa – prendadíssima, compreende as línguas modernas e (de modo geral) tudo que as moças mais prendadas aprendem, mas com um dote especial para a Música – seu passatempo favorito – e toca igualmente bem o piano e a harpa – e canta maravilhosamente. Sua aparência é muito bonita – olhos escuros e rosto rechonchudo [essa era a descrição da própria Jane Austen]. – O livro deve começar descrevendo pai e filha – que, ao conversar, terão falas longas e linguajar elegante – num tom de emoção séria e sublime. – O pai será induzido, diante do fervoroso pedido da filha – a relatar-lhe os acontecimentos pregressos de sua vida. Essa narrativa tomará a maior parte do primeiro volume – e também todas as circunstâncias de seu apego à mãe dela e seu casamento, e compreenderá suas viagens marítimas como Capelão de um distinto personagem naval da Corte, e sua própria ida posterior à Corte, o que o levou a conhecer diversos personagens e colocou-o em diversas situações interessantes, concluindo com suas opiniões sobre o desperdício das rendas dos dízimos, e com o fato de ter enterrado suas própria mãe (a tão chorada avó da Heroína) como consequência de o Sumo Sacerdote da Paróquia em que ela morreu ter-se recusado a oferecer a seus restos as devidas condolências. O pai será bastante literato, Entusiasta da Literatura, inimigo de ninguém exceto de si mesmo – ao mesmo tempo em que é zelosíssimo no cuidado de seus deveres pastorais, um modelo de sacerdote exemplar. – A amizade da Heroína será procurada por uma moça da vizinhança, de talentos e malícia, com olhos e pele clara, mas, tendo um grau considerável de argúcia, a Heroína evitará sua convivência.

Desse cenário procederá a história, que conterá uma impressionante variedade de aventuras. A Heroína e seu pai nunca passam mais de quinze dias no mesmo lugar, porque ele é expulso de seu vicariato pelas vis artes de um rapaz sem princípios nem coração, desesperadamente apaixonado pela Heroína, que a persegue com paixão incansável. – Mal assentam-se num país da Europa e precisam deixá-lo e ir a outro – sempre travando novas amizades, sempre obrigados a deixá-las. – Isso, é claro, exibirá uma grande variedade de personagens – mas não haverá mistura; a cena sempre mudará de um grupo de pessoas para outro – mas tudo que é bom será imaculado sob todos os aspectos – e não haverá qualquer fraqueza ou defeito, exceto nos maus, que serão completamente depravados e infames, sem que reste neles praticamente nenhum indício de humanidade. – No início da trama, durante seus primeiros deslocamentos, a Heroína tem de conhecer o Herói – alguém obviamente perfeito – , que só será impedido de dirigir-se a ela por algum excesso de polidez. – Onde quer que ela vá, alguém se apaixona por ela, e ela recebe repetidas propostas de casamento – que ela repassa integralmente ao pai, muitíssimo zangado porque ele não foi procurado primeiro. – Muitas vezes raptada pelo Anti-Herói, mas resgatada por seu pai ou pelo Herói – muitas vezes obrigada a sustentar a si e ao pai com seus talentos, e a trabalhar pelo pão; continuamente enganada e ludibriada em seu trabalho, reduzida a pele e ossos, e volta e meia à inanição. – Por fim, expulsos da sociedade civilizada, tendo o pobre abrigo do mais humilde casebre recusados, são forçados a retirar-se para Kamchatka, onde seu pobre pai, absolutamente desgastado, vendo o fim aproximar-se, jogar-se no chão, e após quatro ou cinco horas de ternos conselhos e admoestações a sua triste filha, expira, numa bela efusão de entusiasmo literário, entremeada de invectivas contra os controladores dos dízimos. – A Heroína permanece inconsolável por algum tempo – mas depois lentamente se dirige para sua terra natal – estando por pelo menos vinte vezes prestes a cair nas mãos do Anti-Herói – e, finalmente, no exato instante em que vira uma esquina para evitá-lo, cai nos braços de ninguém menos do que o Herói, que, despojando-se dos escrúpulos que outrora o impediam, estava naquele momento partindo em busca dela. – Dá-se o mais terno e completo esclarecimento, e eles ficam juntos e felizes. – Ao longo de toda a obra, a Heroína gozará das companhias mais elegantes e viverá em grande estilo. O nome da obra não será Emma, mas algo do mesmo estilo de Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.

Projeto de romance segundo sugestões de diversas pessoas, 1816

O fim do mundo segundo Bruno Tolentino, ou: Prometeu já não furta o relâmpago

Hoje Bruno Tolentino completaria 70 anos, e eu estou traduzindo Achever Clausewitz, de René Girard.

Logo, só existe um poema no qual eu consigo pensar.

A imitação da música, 98
Bruno Tolentino. O mundo como Ideia, p. 441.

Prometeu já não furta o relâmpago.
Ícaro não aspira a um céu invinto.
Anteu não quer a terra nem o Olimpo.
Há um pretenso heroísmo cujo pântano

é um mundo aleatório como o instinto.
Vai surgindo outro sonho, outro esperanto
em Babel, uma torre confiscando
as altitudes que não vão subindo,

vão-se encolhendo e se resignando
às superposições do gesto ímpio.
Nem há mais, assombrados pelos campos,

um enigma, uma esfinge, um deus surgindo
sob as conjurações dos pirilampos.
Não: há um vazio, um lento labirinto.