A visão de Eros

Forewords and Afterwords

W. H. Auden. Trad. Pedro Sette Câmara. “The Protestant Mystics”, Forewords and Afterwords. New York: Vintage Books, 1974. pp 63-69

Metade da literatura erudita e popular produzida no Ocidente durante os últimos quatro séculos baseou-se na falsa premissa de que se uma experiência é excepcional ela também é, ou deveria ser, uma experiência universal. Sob sua influência, tantos milhões de pessoas persuadiram-se de que estavam “apaixonadas” (1), quando suas experiências poderiam ser completa e precisamente descritas pelos palavrões mais brutais, que às vezes surge a tentação de duvidar de sua autenticidade, mesmo quando, ou especialmente quando, parece que foi a nós que ela aconteceu. No entanto, é impossível ler certos documentos, como La Vita Nuova, muitos dos sonetos de Shakespeare ou o Banquete e simplesmente descartá-los como se fossem falsificações. Todos os relatos da experiência estão de acordo quanto aos pontos essenciais. Como a visão da Dame Kind (2), a visão de Eros é uma revelação da glória das criaturas, mas se na primeira é a glória de uma multiplicidade de criaturas não-humanas que é revelada, na segunda é a glória de um único ser humano. Mais uma vez, enquanto na visão da Natureza a consciência da sexualidade não está presente, na visão erótica ela sempre está – ela não pode ser experimentada por eunucos (mas pode ocorrer antes da puberdade), e ninguém nunca jamais se apaixonou por alguém que não achasse sexualmente atraente – mas o desejo físico fica sempre, e sem qualquer esforço da vontade, subordinado ao sentimento de maravilha e reverência diante da presença de um ser sagrado: por maior que seja seu desejo, o amante sempre se sente indigno de consideração pelo amado. É impossível considerar que estes relatos sejam poetizações sofisticadas de qualquer um dos três tipos de experiências eróticas não-místicas que conhecemos. Não se trata de luxúria pura e simples, o reconhecimento desinteressado de alguém como um objeto sexual desejável, pois sempre que alguém enxerga outra pessoa como um objeto, sente-se superior a ela, e o amante se sente inferior ao amado. Também não se trata de obsessão sexual, a experiência de Vénus toute entière à sa proie atachée (3), em que o desejo invadiu e possuiu a pessoa inteira até fazer com que ela deseje não a satisfação sexual, mas a completa absorção da outra pessoa, corpo e alma, em si mesma (4); neste estado, o sentimento dominante não é de indignidade, mas de angústia, fúria e desespero pela incapacidade de se conseguir aquilo que se deseja. Não se trata, ainda, daquela saudável mistura de atração física mútua e filia, um gostar pessoal e recíproco baseado em interesses e valores comuns, que é a base mais segura para um casamento feliz, pois neste estado o sentimento dominante é de respeito mútuo entre iguais.

Além disso, todos os relatos concordam que a Visão de Eros não pode sobreviver por muito tempo se as partes tiverem uma relação sexual efetiva. Não foram apenas as condições sociais de uma era em que os casamentos eram arranjados pelos pais que fizeram com que os poetas provençais afirmassem que casais casados não podem estar apaixonados. Isto não significa uma pessoa não deve de jeito nenhum casar com a outra pessoa cuja glória lhe foi revelada, mas o risco de fazê-lo é proporcional à intensidade da visão. É difícil viver dia após dia, ano após ano, com um ser humano comum, nem muito melhor nem muito pior do que você mesmo, depois de tê-lo visto transfigurado, sem sentir que o esmaecer da visão é culpa dele. A Visão de Eros parece ser muito mais influenciada por condições sociais do que qualquer uma das outras. É essencial ter tempo livre e não estar ansioso por causa de constrangimentos financeiros; um homem que precisa trabalhar dez horas por dia para não morrer de fome tem outros assuntos com que se preocupar: ele está ocupado demais com as necessidades práticas para pensar em algo mais que sua necessidade sexual de uma mulher e sua necessidade econômica de uma boa mãe e dona-de-casa. E parece que o amado deve pertencer à classe de pessoas a que o amante, em sua criação, foi acostumado a considerar iguais ou superiores. Não se pode, aparentemente, apaixonar-se por alguém considerado inferior, mais uma coisa do que uma pessoa. Assim Platão, apesar de ter passado a reprovar a homossexualidade na velhice, só pôde conceber o amado como um homem em sua adolescência ou juventude porque, na Atenas do seu tempo, as mulheres eram consideradas seres essencialmente inferiores.
O efeito da visão sobre a conduta do amante não se restringe a seu comportamento em relação ao ser amado. Mesmo em suas relações com outros, a conduta que antes de apaixonar-se parecia natural e adequada agora parece vil e ignóbil. Mais ainda, na maior parte dos casos, a experiência não leva, como poder-se-ia esperar, a uma espécie de quietismo erótico, uma contemplação extática do amado acompanhada da exclusão dos outros e do mundo. Pelo contrário, ela normalmente libera uma torrente de energia psíquica para ações que não estão de modo algum diretamente relacionadas ao amado. Quando está apaixonado, o soldado luta com mais bravura, o pensador pensa com mais clareza, o carpinteiro trabalha com mais habilidade.

A Igreja, cuja preocupação intelectual e institucional em relação aos assuntos sexuais é, e deve ser, primariamente com o casamento e a família, sempre viu com o máximo de suspeita a Visão de Eros, o que é compreensível. Ou ela a descartou como a uma fantasia, ou a condenou diretamente, sem tentar entendê-la primeiro, como idolatria da criatura e paródia blasfema do amor cristão por Deus. Sabendo que o casamento e a visão são incompatíveis, a Igreja temeu que ela fosse usada como desculpa para o adultério – como de fato é freqüentemente. Todavia, a condenação sem compreensão raramente funciona. Se o amante idolatra o amado, não se trata daquilo que comumente referimos por idolatria, em que o adorador torna seu ídolo responsável por sua existência. Este tipo de idolatria certamente pode acontecer na relação entre os sexos. Casos de homens e mulheres que matam a si e ao outro porque o objeto de sua afeição não a retribui, ou ama outra pessoa, podem ser lidos quase diariamente nos jornais, mas sabemos que eles não podiam estar verdadeiramente apaixonados. O verdadeiro amante naturalmente preferiria que sua amada retribuísse seu amor em vez de recusá-lo, e preferiria que ela estivesse viva e visível a morta e invisível; mas, se ela não pode retribuir o seu amor, ele não tenta obrigá-la por meio da força ou de chantagem emocional, e se ela morre ele não comete suicídio, mas continua a amá-la.

As duas tentativas mais sérias de analisar a Visão de Eros e dar-lhe uma significação teológica foram feitas por Platão e Dante. Ambos concordam em três pontos: 1. a experiência é uma revelação genuína, não uma ilusão; 2. o modo erótico da visão prefigura um tipo de amor em que o elemento sexual é transformado e transcendido; 3. uma vez que alguém chegou a ver a glória do Incriado revelada indiretamente na glória de uma criatura, depois desta experiência só ficará completamente satisfeito com um encontro direto com o primeiro. A respeito de tudo mais, eles discordam radicalmente. Uma das diferenças mais importantes entre eles é nublada pela inadequação do nosso vocabulário. Quando eu digo “Fulano tem uma bela figura”, e quando eu digo “Elizabeth tem um belo rosto” ou “era bela a expressão no rosto do Mary”, tenho que usar o mesmo adjetivo, ainda que eu queira dizer duas coisas totalmente diferentes. A beleza na primeira afirmação é uma certa qualidade pública de um objeto; estou falando a respeito de uma qualidade que o objeto tem, não a respeito do que ele é. Se (mas somente se) um número de objetos pertence à mesma classe, posso compará-los e colocá-los em ordem de acordo com o grau de beleza que eles possuem, do mais belo ao menos belo. É por isso que, mesmo entre seres humanos, é possível fazer concursos de beleza para eleger a Miss América, e é possível para um escultor experiente descrever em termos matemáticos as proporções da figura masculina ou feminina ideal. A beleza neste sentido é um dom da Natureza ou da Sorte, e pode ser tomado. Para se tornar Miss América, uma garota precisa ter herdado uma certa combinação de genes e ter conseguido escapar de doenças desfigurantes ou acidentes que a aleijassem, e, por mais que ela faça dieta, não pode sonhar que vai ser Miss América para sempre. A emoção despertada por este tipo de beleza é uma admiração impessoal; no caso de um ser humano, também pode ser um desejo sexual impessoal. Posso querer dormir com a Miss América, mas não tenho nenhuma vontade de ouvi-la falar sobre si mesma e sua família.

Quando digo “Elizabeth tem um belo rosto”, quero dizer algo completamente diferente. Ainda estou me referindo a algo físico – não poderia fazer tal afirmação se fosse cego – mas esta qualidade física não é uma dádiva da Natureza, mas um criação pessoal cuja autoria atribuo a Elizabeth. A beleza física me parece uma revelação de algo imaterial, da pessoa que eu não posso ver. Neste sentido, a beleza é sempre única: não posso comparar Mary e Elizabeth e dizer qual das duas tem um rosto mais belo. A emoção provocada é o amor pessoal, e, mais uma vez, este é sempre único. Na medida em que eu ame tanto Elizabeth quanto Mary, não posso dizer qual das duas amo mais. Finalmente, dizer que alguém é belo neste sentido também é sempre um julgamento moral favorável. Posso dizer: “X tem uma bela figura, mas é um monstro”. Não posso dizer: “Elizabeth tem um belo rosto, mas é um monstro”.

Sendo criaturas, os seres humanos têm uma natureza dupla. Como membros de uma espécie mamífera que se reproduz sexualmente, cada um de nós nasce macho ou fêmea, e com uma necessidade impessoal de acasalar-se com uma pessoa do sexo oposto (5); todo membro da espécie viverá com isto, a menos que seja imaturo ou senil. Como somos pessoas únicas, somos capazes – mas não somos obrigados – de entrar em relações amorosas únicas com outras pessoas. Portanto, a Visão de Eros é também dupla. O amado sempre possui algum grau daquela beleza que é uma dádiva da Natureza. Uma garota que pese 100 quilos e uma mulher que pese 40 podem ambas ter belos rostos no sentido pessoal, mas os homens não se apaixonam por elas. O amante, é claro, tem consciência disto, mas para ele a beleza do amado como pessoa é infinitamente mais importante. Ou, ao menos, é o que diz Dante. Para nós, é muito curioso que Platão, em sua descrição, pareça desconhecer aquilo que chamamos de “pessoa”. Ao falar de beleza ele sempre parece se referir à beleza impessoal, e ao falar de amor à admiração impessoal.

[O amante] deve principiar amando coisas terrenas por sua absoluta amabilidade, subindo a ela como que por degraus ou passos, do primeiro ao segundo, e daí para todas as formas belas; e das formas belas para a bela conduta, e da bela conduta para os belos princípios, até que dos belos princípios chegue ao princípio último de tudo, e descubra o que é a Beleza absoluta. (6)

Quanto mais estudo esta passagem, mais confuso fico, e me ponho a conversar com o fantasma de Platão, dizendo:

“(1) No que diz respeito às coisas terrenas, concordo que posso comparar dois cavalos, ou dois homens, ou duas provas do mesmo teorema matemático, e dizer qual dos dois é mais belo, mas você pode por favor me dizer como é possível comparar um cavalo, um homem e uma prova matemática e dizer qual deles é mais belo? (7)

“(2) Se, como você diz, existem graus de beleza e o mais belo deve ser o mais amado, então, no nível humano, todos deveríamos ter o dever moral de nos apaixonarmos pelo ser humano mais belo que conhecêssemos. Com certeza é uma grande felicidade para todos os envolvidos que todos falhemos no cumprimento do nosso dever.

“(3) É bem verdade, como você diz, que um belo princípio (8) não fica careca ou gordo, nem foge com outra pessoa. Por outro lado, um belo princípio não pode sorrir para mim ou me dizer olá quando eu chego a algum lugar. O amor de um ser humano pode ser, como você diz, uma forma inferior do amor a um princípio, mas você tem que admitir que é muito mais interessante.”

Quão diferente, e mais compreensível, é o relato de Dante. Ele vê Beatriz, e uma voz diz: “Agora você viu sua beatitude” (9). Dante certamente acha que Beatriz é bela no sentido público de que qualquer estranho diria que ela é bela, mas jamais passaria por sua cabeça perguntar se ela é mais ou menos bela do que outras meninas florentinas da mesma idade. Ela é Beatriz e pronto. E a coisa essencial a respeito dela é que ela é – Dante está absolutamente certo disto – uma pessoa “agraciada” (10), e portanto Dante, como cristão, está convencido de que sua alma está entre os redimidos no Paraíso, e não entre os perdidos no Inferno. Ele não conta exatamente quais foram os erros e pecados que quase o levaram à perdição, nem os conta Beatriz quando os dois se reencontram, mas ambos falam deles como atos de infidelidade a ela, isto é, se ele tivesse permanecido fiel a sua visão de uma criatura humana, Beatriz, ele não teria cometido ofensas contra seu Criador comum. Apesar de ter sido infiel a sua imagem, ele, porém, jamais a esqueceu completamente (a ascensão platônica torna o esquecimento de uma imagem de um grau inferior uma obrigação moral), e é esta lembrança, o fato de que ele nunca deixou completamente de amá-la, que torna possível que Beatriz intervenha do Céu para salvar sua alma. Quando, por fim, eles se reencontram no paraíso terrestre, ele re-experimenta, de modo infinitamente mais intenso, a visão que teve da primeira vez que se viram na terra, e ela fica com ele até o último momento, quando ele se volta para “a fonte eterna”, e mesmo assim ele sabe que os olhos dela estão voltados para a mesma direção. A Visão de Eros não é, de acordo com Dante, o primeiro degrau de uma longa escada: só há um passo a dar, da criatura pessoal que pode amar e ser amada até o Criador pessoal que é Amor. E nesta visão final, Eros é transfigurado mas não aniquilado. Na terra colocamos o “amor” acima do desejo sexual e da amizade assexuada porque ele envolve todo o nosso ser; não, como estes, só uma parte dele. Não importa o que mais seja afirmado pela doutrina da ressurreição do corpo, ela afirma a importância sacra do corpo. Como diz Silesius, temos uma vantagem sobre os anjos: cada um de nós pode se tornar a noiva de Deus. E Juliana de Norwich: “Naquele ponto mesmo em que nossa Alma se torna sensível, daquele ponto mesmo a Cidade de Deus é ordenada para Ele sem começo.”

(1) N. do T.: “In love”, no original. A tradução da expressão é bem difícil.

(2) N. do T.: Auden se refere ao trecho anterior do ensaio, em que descreveu visões místicas da natureza. O termo “Dame Kind” aparentemente não tem similar nem aproximação em português.

(3) N. do T.: “Vênus totalmente agarrada à sua vítima.” Racine, Phèdre. Ato I, cena 3, versos 305-6.

(4) N. do T.: São Tomás de Aquino dá conta destas três experiências com sua distinção entre “amor de amizade” e “amor de concupiscência”. Ver Suma Teológica, primeira parte da segunda parte, questão 26.

(5) N. do T.: Vale observar que W. H. Auden era gay; porém, era o único gay religioso (anglicano) que declarava: “Sou gay, mas sei que é pecado”. O interessante, neste ponto, é ver como Auden admite a necessidade de reprodução como um dado natural da espécie sem utilizar um argumento idealista do tipo “a sexualidade é uma construção social”, tão comum hoje em dia.

(6) N. do T.: As traduções deste trecho de Platão (Banquete, 211c; Auden não teve a bondade de citar) trazem grandes variações. Como exemplo, cito a tradução do mesmo trecho diretamente para o português por J. Cavalcante de Souza (O Banquete. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. 8ª ed. p. 174):

“… começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para todos os belos ofícios, e dos ofícios para as ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo.”

Existem diferenças grandes demais entre as duas traduções. A solução (não ideal, é claro) para o problema foi consultar o trecho original do Banquete e ver quais foram os termos utilizados por Platão, e depois buscá-los no Abregé du dictionnaire grec-français de A. Bailly.

Onde temos “forms” / “corpos”, o trecho original traz σώματα, o que (no nominativo) é traduzido pelo dicionário como “corpo”. Depois, επιτηδεύματα, que “no plural (como está, no caso) significa modos, hábitos de vida, costumes” – ou seja, “conduta”. O significado de “ofício” valeria só para a palavra no singular, mas ela veio no plural. Por fim, μάθημα, “estudo, ciência, conhecimento”.
Assim, a gradação proposta por Platão (por Diótima através de Sócrates através de Platão) vai da contemplação dos belos corpos à contemplação das belas condutas e desta vai para a beleza em si, ou seja algo meramente estético (lembrando que esta palavra tem em grego o sentido de “sensível”), depois algo moral – ligado à alma, portanto – e por fim algo “absoluto”.

(7) N. do T.: O leitor pode ter achado a nota anterior uma digressão absurda, mas aqui fica claro que, como Platão se referiu à beleza dos corpos, Auden não pode incluir a prova matemática. Mesmo assim, se considerarmos o trecho que fala de “coisas terrenas”, uma prova matemática só existe na alma, e não no mundo material. Por fim, seria fácil responder a Auden dizendo apenas que não se pode comparar objetos que pertencem a espécies diferentes; mais fácil ainda lembra-lo de que ele mesmo usou este argumento pouco antes de falar da Miss América.

(8) N. do T.: Conhecimento, numa tradução mais fiel ao termo original de Platão.

(9) N. do. T.: “Beatitude”, no original. A palavra quer dizer “felicidade”, mas uma espécie de “felicidade celestial”. Lembremos que a Igreja Católica tem santos e “abaixo” destes os “beatos” ou “bem-aventurados”. Auden tinha paixão por filologia e certamente escolheu esta palavra com pleno conhecimento de sua origem.

(10)N. do T.: Mesma observação anterior. “Graced person”, isto é, alguém que recebeu alguma graça da Providência. Não traduzi por “abençoada” para preservar a raiz, respeitando a opção de Auden de não usar “blessed”.

Agora, Bakunin e Herzen segundo Tom Stoppard

Alexander Herzen, revolucionário russo não-marxista (Herzen e Marx se odiavam), tinha um filho surdo, Kolya, que junto com a mãe de Herzen, morreu afogado num naufrágio. Três meses depois a esposa de Herzen, mãe de Kolya, literalmente morreu de desgosto. Michael Bakunin, outro personagem real, também um revolucionário russo, encontra-se com Herzen. O trecho é de Shipwreck (pp 100-101), a segunda peça da trilogia The Coast of Utopia.

Leia também a primeira das minhas traduções de trechos da peça.

BAKUNIN: O pequeno Kolya… Uma vida tão breve! Que Moloch é esse…?

HERZEN: Não, não, de jeito nenhum! A vida dele foi o que foi. Como as crianças crescem, achamos que a criança existe para crescer. Mas a criança existe para ser criança. A natureza não despreza aquilo que só vive por um dia. Ela se derrama inteira em cada momento. Não damos menos valor ao lírio porque ele nem é de pedra nem é feito para durar. A riqueza da vida está no durante, depois é tarde demais. Onde está a canção depois que foi cantada? E a dança, depois que foi dançada? Somos só nós, humanos, que ainda por cima queremos ser donos do futuro. Nós nos convencemos de que o universo está minimamente ocupado com o desenrolar do nosso destino. Percebemos o caos aleatório da história todos os dias, toda hora, mas alguma coisa parece errada. Onde está a unidade, o sentido, da mais alta criação da natureza? Claro que estas milhões de pequeninas correntes de acidentes e atos propositais são corrigidas naquele imenso rio subterrâneo que, sem a menor dúvida, está nos levando ao lugar onde somos esperados! Mas esse lugar não existe, por isso é que se chama utopia. A morte de uma criança não tem mais sentido do que a morte de exércitos, de nações. Será que a criança era feliz enquanto vivia? Esta é uma pergunta razoável, a única pergunta. Se não conseguimos produzir a nossa própria felicidade, a idéia de que vamos produzir a felicidade da posteridade está muito abaixo da estupidez.

Tom Stoppard. The Coast of Utopia: Shipwreck. New York: Grove Press, 2002 (First American Edition). pp 100-101.

BAKUNIN: Little Kolya, his life cut so short! Who is this Moloch…?

HERZEN: No, no, not at all! His life was what it was. Because children grow up, we think a child’s purpose is to grow up. But a child’s purpose is to be a child. Nature doesn’t disdain what lives only for a day. It pours the whole of itself into each moment. We don’t value the lily less for not being made of flint and built to last. Life’s bounty is in its flow, later is too late. Where is the song when it’s been sung? The dance when it’s been danced? It’s only we humans who want to own the future, too. We persuade ourselves that the universe is modestly employed in unfolding our destination. We note the haphazard chaos of history by the day, by the hour, but there is something wrong with the picture. Where is the unity, the meaning, of nature’s highest creation? Surely those millions of little streams of accident and wilfulness have their correction in the vast underground river which, without a doubt, is carrying us to the place where we’re expected! But there is no such place, that’s why it’s called utopia. The death of a child has no more meaning than the death of armies, of nations. Was the child happy while he lived? That is a proper question, the only question. If we can’t arrange our own happiness, it’s a conceit beyond vulgarity to arrange the happiness of those who come after us.

Bakunin & Belinsky segundo Tom Stoppard

The Coast of Utopia: Voyage. New York: Grove Press, 2002.

BAKUNIN: Você disse que nós não temos literatura.

BELINSKY: É isso que eu escrevo. Não temos mesmo. Temos algumas obras-primas, como é que não teríamos, somos tantos, um grande artista vai aparecer de tempos em tempos em países bem menores do que a Rússia. Mas como nação não temos uma literatura porque aquilo que temos não é nosso, e sim uma festa em que todo mundo tem que vir vestido de outra pessoa – Byron, Voltaire, Goethe, Schiller, Shakespeare ou algum outro… Eu não sou artista. Minha peça era ruim. Não sou poeta. Um poema não pode ser escrito por um ato de vontade. Enquanto estamos nos esforçando ao máximo para estar presentes, um poeta de verdade fica ausente. Nós podemos observá-lo no momento da criação, ali está ele, segurando a caneta, que não se mexe. Quando ela se mexe, já perdemos. Para onde ele foi naquele momento? O sentido da arte está na resposta a esta pergunta. Descobri-lo, entendê-lo, saber a diferença entre quando acontece e quando não acontece, esse é o grande objetivo da minha vida, e essa vocação não é desprezível num país onde nossas liberdades não podem ser discutidas porque não temos nenhuma, e não se pode discutir ciência ou política pela mesma razão. Aqui o crítico literário tem de trabalhar dobrado. Se alguma coisa verdadeira pode ser compreendida sobre a arte, alguma coisa vai ser compreendida sobre a liberdade também, e sobre a ciência e a política e a história – porque tudo no universo está se desenrolando simultaneamente com um propósito, do qual o meu é um pedaço. Você tem razão de rir de mim porque eu não sei alemão nem francês. Mas a verdade do idealismo seria clara para mim se eu ouvisse da janela uma frase de Schelling berrada por um homem a cavalo. Quando os filósofos começam a falar como arquitetos, fuja enquanto pode, vem aí o caos. Quando eles começam a deitar regras para a beleza, a partir daquele momento é inevitável que o sangue corra pelas ruas. Quando a razão e o cálculo se tornam critérios para a sociedade perfeita, procure refúgio entre os canibais… Porque a resposta não está em algum lugar como a América esperando por Colombo, a mesma resposta para todo mundo para sempre. A idéia universal fala através da humanidade mesma, e fala de um jeito diferente através de cada nação em cada fase de sua história. Quando a vida interior de uma nação fala através do espírito criativo inconsciente de seus artistas, geração após geração – aí você tem uma literatura nacional. É por isso que não temos nenhuma. Olhe para a gente! – uma criança gigante com uma cabeça minúscula cheia de idolatria por tudo que é estrangeiro… e um corpo imenso e inerte largado em seu próprio excremento, um continente de vassalagem e superstição, uma África de gente que não sabe nada e não tem nada, sem a menor idéia de uma vida melhor, sem nem mesmo a capacidade de inquietar-se, sóbrios ou bêbados, isso é a Rússia, que se mantém unida por informantes da polícia e quatorze patentes de lacaios uniformizados – como é que podemos ter uma literatura? Folclore e modelos estrangeiros, esse é o nosso destino, ficar babando pelas nossas imitações de Racine e Walter Scott – a nossa literatura não passa de um passatempo elegante das classes superiores, como a dança ou o baralho. Como foi que isso aconteceu? Por que este desastre se abateu sobre nós? Porque ninguém nunca acreditou que fôssemos crescer, somos tratados como crianças e merecemos ser tratados como crianças, trancados em armários por mau comportamento, mandados para a cama sem jantar e não ousando sequer sonhar com a guilhotina…

MICHAEL: You said we had no literature.

BELINSKY: That’s what I write. We haven’t. We have a small number of masterpieces, how could we not, there are so many of us, a great artist will turn up from time to time in much smaller countries than Russia. But as a nation we have no literature because what we have isn’t ours, it’s like a party where everyone has to come dressed up as somebody else – Byron, Voltaire, Goethe, Schiller, Shakespeare and the rest… I am not an artist. My play was no good. I am not a poet. A poem can’t be written by an act of will. When the rest of us are trying our hardest to be present, a real poet goes absent. We can watch him in the moment of creation, there he sits with the pen in his hand, not moving. When it moves, we’ve missed it. Where did he go in that moment? The meaning of art lies in the answer to that question. To discover it, to understand it, to know the difference between it happening and not happening, this is my whole purpose in life, and it is not a contemptible calling in our country where our liberties cannot be discussed because we have none, and science or politics can’t be discussed for the same reason. A critic does double duty here. If something true can be understood about art, something will be understood about liberty, too, and science and politics and history – because everything in the universe is unfolding together with a purpose of which mine is a part. You are right to laugh at me because I don’t know German or French. But the truth of idealism would be plain to me if I had heard one sentence of Schelling shouted through my window by a man on a galloping horse. When philosophers start talking like architects, get out while you can, chaos is coming. When they start laying down rules for beauty, blood in the streets is from that moment inevitable. When reason and measurement are made authorities for the perfect society, seek sanctuary among the cannibals… Because the answer is not out there like America waiting for Columbus, the same answer for everybody forever. The universal ideal speaks through humanity itself, and differently through each nation in each stage of its history. When the inner life of a nation speaks through the unconscious creative spirit of its artists, for generation after generation – then you have a national literature. That’s why we have none. Look at us! – a gigantic child with a tiny head stuffed full of idolatry for everything foreign… and a huge inert body abandoned to its own muck, a continent of vassalage and superstition, an Africa of know-nothings have-nothings without notion of a better life, or the wit to be discontented drunk or sober, that’s your Russia, held together by police informers and fourteen ranks of uniformed flunkeys – how can we have a literature? Folk tales and foreign models, that’s our lot, swooning over our imitation Racines and Walter Scotts – our literature is nothing but an elegant pastime for the upper classes, like dancing or cards. How did it happen? How did this disaster befall us? Because we were never trusted to grow up, we’re treated like children and we deserve to be treated like children – flogged for impertinence, shut into cupboards for naughtiness, sent to bed without supper and not daring even to dream of the guillotine…