A filosofia não existe para valorizar coisas

No mundo acadêmico, há um tipo de discurso que costuma passar-se por filosofia com grande frequência. Isso não seria tão problemático se não entendêssemos habitualmente que filosofia é uma discussão da verdadeira natureza das coisas, e que a disputa de posições é sua mera aparência exterior. Todas as, digamos, “inovações tecnológicas” na filosofia almejam aumentar o grau de pureza da discussão — tanto que há aqueles que, em nome de sua virgindade, declaram que a discussão mesma é impossível. Mas sabemos que esses estão apenas com vergonha de mostrar o corpo.

Enfim. Quero dizer que vejo com frequência no mundo das Letras a discussão sobre autores pautar-se por aquilo que um valoriza ou desvaloriza. Diz-se: fulano valoriza isso, portanto é bom. Implícito está que o leitor ou comentador também valoriza isso, o que quer que seja. Essa valorização é anterior à atividade intelectual, que se resume a um discurso legitimador. Quanto mais convincente, melhor; e aí se pode criar uma carreira acadêmica, dizendo às pessoas que se julgam intelectuais aquilo que querem ouvir, assim como uma comédia romântica do Freddie Prinze Jr. serve apenas para reforçar os estereótipos em que moçoilas de classe média gostam de acreditar.

Pode até ser verdade que o autor X valorize Y e desvalorize Z, mas de que serve saber isso, se não para saber para que time se pretende torcer? Não esperamos ser mais do que torcedores esclarecidos?

Os dilemas políticos

De um lado, sei que as coisas são de um jeito e não de outro, e que isso não depende de opinião. De outro lado, percebo que o estabelecimento de uma burocracia para obrigar as pessoas a fazer o que é certo leva imediatamente à corrupção dessa burocracia e a um descrédito dessas mesmas coisas certas (ver, por exemplo, Igreja Católica).

De um lado, creio que a sociedade deve se pautar pela recusa em usar a violência contra meros bodes expiatórios. De outro lado, percebo que o fenômeno do bode expiatório é tão universal e tão fundamental que a idéia de que ele possa desaparecer completamente é ridícula. As justificativas para a violência podem mudar, mas o poder de catarse temporária da violência contra outra pessoa só pode desaparecer quando todos assumirem as próprias culpas.

De um lado, creio que as pessoas devem ser livres para fazer o que quiserem sem ser imediatamente reprimidas, desde que não pratiquem violência física contra outros (se há outros tipos de violência, devem ser reprimidos após um processo judicial, não no ato). De outro lado, vejo que a autonomia do eu é uma das quimeras mais imbecis (sobretudo no caso daqueles que se preocupam em celebrar essa suposta autonomia), e que remover tabus equivale a abrir a caixa de Pandora.

De um lado, vejo que a sociedade precisa de valores. De outro, percebo que começar a falar em “valores” já lhes dá uma aparência de arbitrariedade e já começa a relativizá-los. Só é possível transigir a respeito de algo se não se transige a respeito de outra coisa. Só há sociedade quando todos concordam em não transigir a respeito de uma mesma coisa. Mas essa coisa não pode ser um “valor”. Para encontrar a continuidade distintiva de uma sociedade particular, seria preciso encontrar essa coisa a respeito da qual não se transigiu, isto é, aquela coisa que, se transgredida, provocaria a violência unânime de todos os membros.

De um lado, vejo que é difícil não pensar nesses dilemas. De outro, intuo que é fútil pensar neles. Se há uma vida eterna, só nos resta tentar ser bons e fazer o possível para não sujar muito as mãos de sangue.

Contra Coomaraswamy, com amor

Já falei de como A filosofia cristã e oriental da arte foi um dos livros que mais me influenciaram. Ainda que, pouco a pouco, a gente passe a discordar dos livros de que gostamos, o simples fato de continuarmos a discutir com eles atesta sua importância. Importância, é claro, subjetiva; mas nenhum mal há nisso.

Hoje uma das coisas que mais me desagrada no meio “tradicionalista” (aqui no sentido guénoniano, não lefebvrista) é uma certa incapacidade de ver os indivíduos singulares – os únicos que existem. Não venha me chamar de maya, que parto-lhe a cabeça. Em minha alma, posso dizer que houve um embate entre o desejo de sabedoria onipotente e o desejo de aceitar as coisas como elas são. Na verdade, posso dizer que esse embate continua acontecendo. Sempre há um desejo de “ser forte” e aceitar a “dura verdade” da nossa insignificância e ao mesmo tempo aquela still small voice que sugere que acreditar nisso é virar personagem de uma piada demoníaca. Os guénonianos sempre me parecem Tios Vânias que dão a seu ressentimento a aparência elegante de uma doutrina metafísica, uma família Glass sem senso de humor, desenraizados e, como Quincas Borbas do esoterismo, cingindo o nada e nomeando a si mesmos portadores da Verdade Além das Ilusões. Soul settles with tears and sweat…

Mas vamos ao texto que me motivou a escrever isto aqui hoje. Trata-se de um post de Mark Sedgwick, uma resenha de um estudo sobre a visão da arte pelos autores esotéricos associados a Guénon, que termina com uma citação desse estudo a respeito de Coomaraswamy:

Ele, que insistia na impessoalidade dos artesãos, dos sábios e dos filósofos “tradicionais”, que recusava qualquer informação biográfica em nome de uma verdade que está além dos indivíduos; ele, que queria reinterpretar os textos de modo a esconder sua subjetividade e usar tesouros de erudição a fim de esconder seu procedimento hermenêutico, que defendia o universalismo para fugir de todo particularismo religioso e de toda subjetividade confessional, ele não tinha consciência de que essa vontade de desaparecer e essa aspiração ao “supra-individual” obliquamente revelavam, como na obra de Guénon, uma personalidade que criou sua própria imagem do universalismo e fabricou seu próprio espelho. (p. 370)

E tanto haveria a dizer que é difícil começar.

O choque da beleza incompleta

Desde sempre fiquei chocado com o fato de que mulheres bonitas e elegantes pudessem demonstrar um desprezo absoluto pela maneira de falar (incluindo a escolha de palavras e a clareza sintática), pelo gestual e por suas escolhas, digamos, culturais.

Mais grave é ver um desfile, em que modelos lindas e maravilhosamente vestidas têm de andar ao som de alguma música repulsiva. Por que os produtores do desfile escolhem essas trilhas sonoras? Por que não há um ideal mais completo de beleza?

É claro que nesse ponto podemos radicalizar e começar a discutir a beleza da alma, e como idealmente a beleza exterior seria um prosseguimento da famosa beleza interior etc. Mas não estou indo tão longe, estou ficando num nível bem raso mesmo. Ser bonito profissionalmente requer reflexão sobre a idéia de beleza. Por que essa reflexão se limita à dimensão da beleza da mulher parada na foto ou, no máximo, da mulher que desfila calada numa passarela?

As meninas não-lindas sabem perfeitamente disso e tentam valorizar-se por esses outros aspectos. Tanto é que você pode até encontrar mulheres que admitem sem problemas que não são deusas, mas nenhuma vai declarar que é vulgar (ela vai, no máximo, dizer que chique é ser vulgar). As meninas lindas podem também não se preocupar com esses outros aspectos porque a lindeza já lhes basta — mas, como já falei, elas refletem muito sob esse único aspecto. Será que os outros são tão distantes assim, a ponto de ser inimagináveis?

Não venha um leitor imaginar que eu esteja querendo conversar sobre Aristóteles com as Angels da Victoria’s Secret. Estou só me perguntando por que é que as pessoas que têm de ser belas por ofício nem sequer tentam levar essa beleza para alguns planos imediatamente relacionados. Isso é meio desconcertante.

As duas ordens

Existem no mundo duas ordens de coisas, ordens que podem às vezes ficar misturadas, mas que são essencialmente bem distintas. Na verdade, a percepção de que essas duas ordens existem é aquilo que diferencia um filisteu de uma pessoa normal, um aleijado psíquico de, novamente, uma pessoa normal. A maturidade pode vir com a dolorosa descoberta de que não somos tão ligados à primeira ordem quanto gostaríamos; que podemos agir como filisteus e aleijões com mais facilidade do que imaginávamos. Ainda assim, é preciso um orgulho tremendo para chegar a negar a existência mesma dessas ordens.

A primeira ordem é a da verdade, da boa vontade, da defesa, das coisas feitas com o desejo do bem alheio (mesmo que o alheio se refira a uma coisa). A filosofia, tal como a conhecemos, depende de um local privilegiado em que essa ordem impere. É preciso ter abandonado a disputa retórica, é preciso aceitar regras que invalidam a vaidade e equalizam os participantes. Certa vez ouvi na rua alguém falar da “opressão do silogismo”; melhor seria falar da “libertação trazida pelo silogismo”. É claro que a filosofia pode ser contaminada pela vaidade e pelo desejo de derrubar o adversário, mas é a própria ordem da boa vontade que permite que ela corrija a si mesma enquanto empreendimento coletivo. É a própria ordem da boa vontade que obriga seus participantes a renunciar a certos desejos antes de começar a discutir, assim como também obriga aqueles se aproximam do resultado da discussão a ter boa vontade para apreciá-lo, como numa espécie de esoterismo da vontade.

A segunda ordem é a da violência. A principal característica daqueles obstinados aleijões mencionados no primeiro parágrafo é recusar-se a acreditar que a ordem da boa vontade existe. O que os aleija é um temor paranóico, o temor de “ser enganado pelas aparências”. Por isso querem reduzir a filosofia a uma espécie de sofística, de expressão de consciência de classe, como se tudo aquilo que outra pessoa fizesse fosse necessariamente marcado por más intenções. Nessa ordem, impera a percepção de que o bem só pode ser obtido às custas da negação do outro, e a idéia do sacrifício de si mesmo parece o horror dos horrores, a Grande Mentira que ELES Usam para Enganar Você. O espírito que impera, é claro, é o de malícia, a malícia que faz as mulheres ficarem grosseiras como os piores homens, e os homens afrescalhados como as piores mulheres. É a malícia que abole as distinções e cria híbridos.

A primeira ordem atrai; a segunda ordem traga. E a descontinuidade entre elas é total.

Consciência x autoridade

Parece haver um contraste natural entre consciência e autoridade. A consciência é pessoal, individual, íntima; a autoridade, impessoal, coletiva, estranha. Se identificarmos a consciência com a inteligência, que é de fato individual, qualquer um poderia dizer que o suposto impasse se resolve afirmando que pode ser inteligente seguir a autoridade, e ter razão. Porém, o que me interessa é a oposição subjetiva entre consciência e autoridade, isto é, os motivos que uma pessoa dá a si mesma para recusar uma autoridade. Esses motivos sempre parecem girar em torno de questões de consciência. Do mártir católico ao adolescente ateu que se sente constrangido em sua escola no coração do Bible Belt, ninguém quer ter a sua consciência constrangida. O mérito dos conteúdos de sua consciência é irrelevante neste momento. O que me interessa é que, toda vez que um indivíduo se insurge contra uma autoridade, essa oposição é formulada nos termos de uma consciência individual contra uma autoridade exterior que injustamente a constrange.

Se a autoridade diz representar a consciência individual, o indivíduo a acusará de ser a suprema perversão dela: uma anticonsciência que, travestida de consciência coletiva, começa por inverter a ordem das coisas ao pretender afirmar-se fora da intimidade da inteligência individual; aliás, essa pretensão só poderia mesmo surgir de um impulso totalitário. A autoridade acusará o indivíduo (caso não o ignore pura e simplesmente) de desrespeitar a hierarquia; de ser simplesmente vaidosa diante da experiência acumulada por outros e cristalizada na autoridade, que fornece nada menos do que a estabilidade do mundo: o que representaria para a ciência, enquanto empreendimento social, alguém que exigisse aceitação para dados obtidos sem o uso do método devido?

Sei que devo fazer uma ressalva e explicar o exemplo. Para mim, neste momento, os conteúdos da ciência ou da não-ciência são irrelevantes; interessa-me que o método científico é uma regra que pode ser tão exterior à consciência quanto qualquer outra regra. Não digo isso porque eu seja contrário ao método científico — não sou. Só estou interessado em regras e motivações, e penso que qualquer pessoa aceita de mão beijada a informação que vem das fontes a que confere maior prestígio. Se você (acha que) confere prestígio a uma autoridade por razões mais razoáveis do que as minhas, ainda assim confere prestígio: você abre as páginas de uma publicação e lê aquilo com boa vontade, presumindo que é verdade; e lê as páginas de outra publicação com má vontade, presumindo que é mentira.

Mas o que mais me interessa agora é a associação entre verdade e identidade. Ninguém crê que aquilo que pensa é mentira, mas verdade; mesmo que seja uma verdade provisória e aproximativa, ainda assim verdade. As pessoas também se definem — observo isso em mim mesmo — pelas verdades que possuem. Quer dizer, diante dos outros, e sob certo aspecto diante de si mesmo, a sua posse de certas verdades é tão definidora da sua identidade quanto é para outra pessoa a posse de certas roupas e acessórios. Mudar de idéia é mudar de identidade; e, quanto mais séria a idéia, mais séria a mudança de identidade. Se não fosse assim, não teríamos a impressão de que aquele que tem idéias discordantes de um consenso é mais indivíduo do que aqueles que partilham do consenso. Aderir a um consenso parece com dissolver-se; contrariar um consenso parece com afirmar a si e à primazia da consciência individual.

Crença, descrença e experiência de mundo

Não faz muito tempo, li um texto de uma atéia americana que discutia a percepção dos ateus pelos não-ateus e aproveitava para falar de alguns argumentos usados a favor da crença em Deus, detendo-se particularmente no I feel it in my heart, que eu poderia traduzir como “é o que percebo em meu coração”. Ela dizia que esse argumento era ridículo. Sob muitos aspectos, é mesmo. Mas ele merece um exame maior.

Acreditamos em certas coisas – quaisquer coisas – por uma mistura de, digamos, raciocínio e paixão. Buscamos uma verdade que esteja acima de nossas predisposições e inclinações pessoais, mas continuamos vivendo segundo essas predisposições e inclinações. Aliás, a própria vida cotidiana nos obriga a vivê-la automaticamente; não é a todo momento que repetimos os mesmos atos de consciência que levaram à percepção de uma determinada verdade, e essa verdade também é transformada em regra semi-consciente.

Por isso é que gosto de fazer o seguinte exercício: em vez de me perguntar simplesmente se tal ou qual proposição é verdadeira, e sob que aspecto ela é verdadeira, também me pergunto sobre as minhas motivações pessoais para adotar uma determinada posição. Ninguém, exceto talvez os que adotam a vida monástica, tem a busca da verdade como objeto perpétuo de suas atividades; caso contrário, jamais comeríamos comidas deliciosas mas pouco nutritivas, nem beberíamos além da conta, nem faríamos nada por pura recreação. Isso também vale para atividades intelectuais; é possível descobrir por que prefiro ler poesia a ler prosa, e por que prefiro ler certos poetas a ler outros, ou por que meu interesse pelo teatro é maior do que meu interesse pelo cinema, e até por que essas preferências podem mudar durante a minha vida.

Foi assim que admiti que o meu catolicismo vem de um misto de fatores subjetivos e objetivos. Eu poderia dizer que o principal fator objetivo, e por isso repetível, está nas cinco provas de São Tomás de Aquino para a existência de Deus – provas que jamais vi ser vagamente refutadas; normalmente, mudam de assunto ou até, na última tentativa que vi, a existência de uma hipótese era mencionada como prova em contrário de uma das teses. Agora, sei bem que dessas provas não se deduz a veracidade da religião católica, tão bem quanto sei que cerca de 120% dos que atacam as provas de São Tomás não percebem que ele também sabia disso. Minha crença em Deus vem de algo objetivo; meu modo de crer, por sua vez, vem de algo subjetivo: do meio em que cresci, dos livros que tive à disposição, de experiências pessoais que, francamente, não tenho por que desprezar. Tenho, para evitar pomposos termos em alemão, uma “experiência de mundo” católica.

Comecei a pensar nesses termos quando percebi que eu também era capaz de algo que chamei de “experiência de mundo atéia”. Via que a juventude é uma espécie de bênção; que ser feio pode ser uma tragédia; que é facílimo viver sem jamais pensar que algo pode acontecer depois da morte; que é possível suspeitar de diversas leituras e da sensação de “preenchimento da alma” que elas trazem (nada mais fácil, e mais demoníaco, do que confundir a vaidade de achar-se sócio-proprietário da verdade com a humildade diante do transcendente); que com facilidade posso afirmar algo porque é conveniente; que o poder de ordenar uma sociedade por meio de modelos transcendentes pode vir de qualquer religião; que olhar para todo esse ceticismo que apresentei e dizer que “prefiro uma postura menos cética” é a mera afirmação de uma preferência; que a má vontade que eu continuo a ver em muitos ateus pode estar perfeitamente presente em muitos crentes, inclusive em mim mesmo.

Ainda assim, continuo católico; não é meu objetivo aqui dar minhas razões, mas só quero dizer que, de todos os critérios que existem para rejeitar a religião, o mais vaidoso é “sou puro demais para ser religioso”.

Francamente, “a experiência de mundo atéia” que descrevi parece um tanto comum entre a gente letrada, e muitos ateus simplesmente têm a coragem de ser fiéis à sua própria experiência, em vez de adotar os termos da experiência de mundo de outras pessoas. Qualquer coisa objetiva que surja em nossas vidas ganha persuasividade pelo contexto, e seria desonesto admitir que as provas de São Tomás não ganham força para quem já crê. Isso não é uma questão teológica, mas psicológica. Trata-se de estar aberto a uma determinada sugestão, qualquer que seja seu conteúdo. Creio mesmo que muitos ateus gostem do que diz Richard Dawkins só porque ele parece uma versão mais assanhadinha de seu próprio ateísmo mísero e mesquinho, um Thomas More que não se dobra diante da pujança intelectual de todas as tias velhas do mundo.

Por isso é que eu gostaria de dizer àquela autora que provavelmente ela é atéia por razões subjetivas, exatamente como muitos de nós somos crentes por razões eminentemente subjetivas, pessoais, por experiências que não podemos repetir e nem podemos ignorar. You too are an atheist because you feel it your heart.

Tendo dito tudo isso, queria ainda observar que o “debate” entre crentes e ateus parece um tanto quanto irremediável. Ninguém quer debater com alguém que faz questão de definir sua identidade pelo desprezo por aquilo que se julga crucial. Escrevi este texto para tentar encontrar um ponto “retórico” em comum com os ateus, mas seria preciso que houvesse outros pressupostos comuns para dissipar um clima de hostilidade e malícia. Um dos pressupostos do famoso “debate”, essa entidade verdadeiramente mítica e transcendente, quase que sempre manifesta apenas na forma de uma “troca de idéias” em que um lado está sempre em desvantagem, é a ausência de competitividade e o estabelecimento de um laço fraternal entre os participantes.

Darwinices

Já declarei que o meu interesse pelo assunto “teoria da evolução” tende a zero. Antes que você se escandalize com isso, devo dizer que eu também me escandalizo com o fato de alguém não querer discutir as diferenças entre o teatro de Shakespeare e o de Chekov o dia inteiro. Ou o de Ibsen. Se eu tivesse de escolher entre A origem das espécies e Hedda Gabler, ficaria com a peça sem pensar um segundo.

Mas eu me interesso pela guerra cultural em torno da teoria da evolução. E, antes de entrar nesse assunto, devo dizer que todo assunto pode ser tratado de duas maneiras diferentes. Na primeira, chamada científica, a pessoa que investiga sacrifica suas preferências e desejos em nome do objeto investigado. Isso pode nunca ser perfeito: é uma atitude, um estado subjetivo, e portanto depende de ser mantido pelo investigador. Na segunda, dominante no jornalismo e em blogs (quase nem poderia ser diferente), os assuntos são tratados como componentes de identidade e, portanto, de auto-afirmação. “Eu possuo o melhor argumento, logo sou melhor do que você”. Um argumento pode ser ostentado em público como uma roupa, um carro ou uma namorada. Sobretudo por quem não sabe se vestir, não tem carro e nem namorada. Queremos ser ricos; queremos ser vistos como ricos.

Faço essa longa ressalva para dizer que nada sei sobre a evolução. Não sou biólogo e, francamente, não vou passar a ser. Sou leigo nisso e admito a existência de um domínio de especialistas. Não sei nem se eu saberia formular a teoria da evolução como tese. Ontem fiquei tentando e o melhor que consegui foi “ocorrem mudanças genéticas aleatórias que afetam o grau de adaptabilidade dos seres ao ambiente; os mais adaptados sobrevivem e se reproduzem, passando seus genes adiante”. Se essa tese é verdadeira ou não, não ligo a mínima. Prefiro pensar em Hedda Gabler.

O que eu não consigo entender, enfim, é como essa tese pode contradizer a tese da existência de Deus e a existência da religião. Primeiro porque a questão da origem da vida é distinta da questão da evolução ou não-evolução. É evidente que Deus poderia ter criado o mundo com leis evolutivas biológicas. O fato de os seres “evoluírem” não prova nem desprova a existência de Deus. Admitindo que Darwin era um cientista sério – sem ironias do católico aqui – os darwinistas de botequim estão apenas se apropriando de sua teoria para manifestar seu desgosto com pessoas religiosas quaisquer, e não só aquelas que seguem uma interpretação literal do Gênesis – interpretação jamais adotada ao menos pela Igreja Católica; se você não sabe, vá se informar, depois volte. Espírito científico, rapaz! Agora, consigo perfeitamente compreender o desejo de reagir contra um moralismo petulante que pretenda governar sua vida; mas também consigo ver que a teoria da evolução está apenas sendo usada como porrete, com total desprezo pela questão de os seres vivos realmente “evoluírem” ou não.

Exatamente como a religião merece ser distinguida das apoteoses de tosquice dos religiosos, tenho certeza de que a teoria da evolução merece ser distinguida dos xiitas que se julgam iluminados por não ser as pessoas de quem não gostam. Se o espírito da religião é de caridade, o espírito da ciência me parece ser de prudência. É impossível não comparar as pessoas que brandem a teoria da evolução em blogs e jornais com pregadores. É impossível não sentir que as celebrações do “ano Darwin” parecem pretender marcar uma “nova era” em que a “ciência” vai suplantar a “religião” e que Darwin, logo um velhinho barbudo, virou garoto propaganda da anti-religiosidade. Nesse sentido, não há nova era: a disputa de atitudes é tão velha quanto o mundo, e a atitude que hoje se pretende “científica” é a velha atitude prometéica. Novamente devo recordar que não estou discutindo o conteúdo da teoria da evolução, mas seu papel na criação e afirmação da identidade de não-especialistas letrados o suficiente para querer ser vistos não apenas como bonitos ou bem-vestidos, mas também como donos de certas opiniões. Até porque um dos grandes mitos modernos é que cada um deve ter a sua própria opinião, sendo deveras deselegante usar de sinceridade e admitir: “Não sei, francamente não estou nem aí, tenho outras prioridades e a vida é curta.”

O inequívoco sinal da picaretagem…

… é, como eu conversava outro dia com o Diogo Costa, iniciar qualquer argumentação evocando o “consenso científico”.

Já falei disso dezenas de vezes. Se a ciência é a busca da verdade; de alguma verdade; da explicação da natureza e das causas de algum objeto concreto ou abstrato; se há diversas pessoas envolvidas nessa atividade, cada uma delas dotada de uma inteligência individual; e se existe a possibilidade de progresso científico, que só pode se dar pela superação de alguma idéia consensual; se o próprio “consenso” não pode ser mais do que uma generalização, isto é, alguma idéia que supostamente muitos cientistas de uma área tomam como verdadeira; se nada impede que algo consensual seja falso (“o mundo é plano”, “coisas podres geram mosquitos”); e, novamente, se a própria atividade científica se define pela própria superação de um consenso atual sobre um determinado tema, como é possível que a contestação de um suposto consenso seja tão estigmatizada?

Vejam que não estou falando de especialistas. Estou falando de jornalistas e blogueiros que têm tanta capacidade técnica de avaliar se existe – por exemplo – aquecimento global quanto a lagartixa que bizarramente tem me visitado dia sim, dia não. Para todos os não especialistas, a questão é só de fé. Não no sentido teologal, mas no sentido de credibilidade. Você pode ter fé em pessoas de jaleco branco e se sentir moderno e sensato, aproveitando para zombar de pessoas como eu, que crêem na transubstanciação etc. Eu suspeito que você só faça isso para se sentir moderno e razoável, porque eu também acho que quando um conservador fica zombando das modernidades do mundo ele também está apenas resolvendo seu pobrema de auto-afirmação.

Os blogueiros e jornalistas que querem brandir o “consenso científico” hoje são as gêmeas não tão secretas daquelas que querem ou queriam brandir a autoridade religiosa. “Creia em mim ou sofra as conseqüências!” E assim como estas podem lamentar a desunião entre Igreja e Estado, aquelas lamentam a falta de união entre “ciência” e Estado. Os dois discursos são desculpas em defesa do interesse próprio. Os dois tipos de pessoas têm seus lobbies nos Congressos do mundo. Para não dizer que estou atacando só os cientistas com e sem aspas, observemos a repulsiva união entre leigos católicos e o governo do estado do Rio, e agora do município do Rio. Gratificar – o verbo que eu queria era to pander to – o reacionarismo também dá votos. Alguém ainda precisa dizer que certas manifestações são uma espécie de parada gay da reacice.

Mas já divago demais. Só que deixo o leitor com uma interrogação que sempre me volta à mente. Se a proclamação do “consenso” da sua preferência é a marca inequívoca do lumpenproletariado intelectual e/ou da maquiagem de algum interesse escuso, para que perder tempo com essa denúncia? Denunciar é chato, é cansativo e gera mau humor. Não será melhor ater-se ao que é bom, falar do que se ama? Aparentemente sim, mas a primeira ativiade também é necessária. Porque hoje só cresce o número de pessoas que pretendem criminalizar a contrariedade aos “consensos”. Mesmo que você creia num “consenso” ou simplesmente não esteja interessado, nada impede que amanhã alguma coisa importante para você seja criminalizada. E isso vale para todo mundo.

O ateu com dúvidas

Nestes dias tenho lembrado de uma conversa que tive em julho. Um sujeito ateu, que eu tinha acabado de conhecer, perguntou-me se eu tinha dúvidas sobre a minha fé católica e respondi que sim. Para dizer ao leitor coisas que eu nem disse a ele, às vezes penso que ficaria muito feliz se Jesus Cristo descesse do céu e me respondesse algumas perguntas. Não que eu acredite que Jesus Cristo me deva isso sob algum aspecto. Só estou dizendo que não atrapalharia em nada, muito pelo contrário.

Posso até me orgulhar, se é que isso faz sentido, de uma certa normalidade. Apesar da firmeza das proposições, da força do sentimento de certeza, da clareza de uma percepção, não se vive assim o tempo todo. Ao menos eu não vivo. Só não vou me orgulhar mesmo porque essa na verdade não é uma experiência peculiar minha: parece que todo mundo vive assim, alternando entre a certeza e a dúvida a respeito de uma pá de coisas, ora agindo com tranqüilidade, ora apostando. Nada de mais.

Mas revivendo aquela conversa percebi que, ao confessar-me um católico com dúvidas, apenas ganhei diante de meu interlocutor o status de não-freak, como se ele pensasse assim: “Ele é católico mas é limpinho.” Não passei a ser, diante dele, normal “como todo mundo”, mas alguém que é normal apesar de católico.

O detalhe, obviamente, é que se a “normalidade” é definida pela freqüência de um estado de dúvida (e não foi Freud quem disse que o normal era ser ao menos um pouco neurótico?), o ateu também deveria conhecer esse estado, e questionar seu próprio ateísmo. Não é só o religioso que “deveria” perguntar “e se…?”, mas também o ateu. “E se existir Deus e eu me ferrar?” Até porque existe um número assustador de pessoas inteligentes que acreditam e acreditaram em Deus e negar sua existência é equivalente a achar-se mais brilhante do que elas.

Portanto, a conseqüência de um ateu achar que um religioso sem dúvidas é anormal é que, no mínimo, anormal é ele, ateu. Também. No máximo, para manter a terminologia freudiana, é um psicótico narcisista.

E da próxima vez, já sei: vou perguntar ao ateu se ele também tem dúvidas.

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