Um ano de calcário

Hoje faz um ano do suicídio do Sergio de Biasi. A lembrança me veio de súbito, ontem. Nesse último ano eu acabei não escrevendo diversas coisas porque tentava imaginar o que o Sergio ia responder e agora isso não adianta mais. Eu não gostei de certas respostas que ele me deu; achei despropositadas e injustas. Mas e daí? Certamente eu já dei também respostas despropositadas e injustas, e se tem algo que faria bem a todo mundo é, como se diz em inglês, desenvolver a thicker skin, ou não ser tão sensível.

Recordo o Sergio pelo seu aspecto talvez mais evidente, ou talvez porque eu venha pensando um bocado nesse assunto, que é o fato de que ele sempre pareceu estar intensamente em busca de algo. Ou, para abreviarmos, “na busca”, sem complemento. Viver é buscar algo; é entender que os atos têm consequências; é não esquecer que, querendo ou não, há uma certa seriedade nas coisas: a seriedade de existirem em vez de não existirem; e, no caso de nós, que não somos só coisas, a seriedade de fazer algo com os talentos que recebemos.

Uns vão dizer que “os que não levam a vida tão a sério” são mais felizes, e eu digo que isso é mentira. É mentira porque tranquilidade é uma coisa e felicidade é outra. Não levar algo tão a sério é não dar tanto valor a algo; se você não dá valor a algo, pouca diferença faz perder ou ganhar esse algo e por isso você fica tranquilo. Outros podem dizer que levar a vida tão a sério pode ser vaidade. E eu digo que a vaidade pode se imiscuir em rigorosamente tudo, mas permanece o fato: temos essa vida e ela pode ser melhor ou pior. A vida não-examinada realmente não vale a pena de ser vivida.

Na última vez em que nos falamos, mandei-lhe duas gravações de Auden lendo o poema “In Praise of Limestone”, do qual vem a atual “tagline” que o WordPress me pede para colocar no blog. Tenho a impressão, mas posso estar totalmente equivocado, que esse poema veio a ser importante para o Sergio. Parafrasear o poema me parece inútil; ele já é claro o suficiente, ao menos para quem souber lê-lo, olhando as próprias cicatrizes.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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