Obras de arte: alimento, remédio ou veneno

Este texto foi parcialmente inspirado por isto.

Quero falar sobre a questão do julgamento moral das obras de arte, mas antes preciso confessar que não sei se entendo bem a ideia de moral. Claro que entendo a ideia de moralismo, que seria o estabelecimento de um limite aparentemente arbitrário para as ações humanas. “Daqui não passarás.” Mas por quê? O que há do outro lado? O mundo mágico das pessoas esclarecidas? É fácil ver que o moralismo e o antimoralismo são duas posições igualmente pueris. Agora, isso não ajuda muito em relação à moral.

Pelo pouco que consigo vislumbrar, a moral está relacionada a certas concepções antropológicas, cosmológicas e teológicas, que todos temos; lembrando que o ateísmo é uma concepção teológica. Dado que o homem é x, que o cosmos é y, e que Deus (ou qualquer instância sobrenatural) é z, segue-se que a melhor maneira de agir é w. E no entanto não consigo não enxergar um certo aspecto utilitarista na ideia de moral. Se o tabuleiro é de um jeito, há um jeito de jogar que é vencedor, e outro que é perdedor. Claro que você pode questionar o sentido de vencedor e de perdedor, mas acho que não haveria disputa quanto a essa formulação, que pode ser expressada tanto na forma de “se o cristianismo é verdadeiro, é bom que nos sacrifiquemos pelos outros” e “se Deus não existe, o prazer, sensível ou intelectual, é o melhor bem a que podemos aspirar”.

Pior ainda, mesmo os dez mandamentos parecem-me ter um caráter utilitário. Por favor, não me condenem por dizer isso: vejam que digo que me parecem. Como entender algo como “não roubarás” sem um caráter utilitário se não consigo ver um fundamento metafísico da propriedade? Nada me liga a meu computador além de um complexo aparato social que gera nas pessoas a expectativa de sofrer violências se entrarem na minha casa e tirarem meu computador. Entendo que em última instância se chega a um fundamento metafísico: sofrer a violência é um mal, porque sobreviver, de modo saudável, é um bem; daí decorre que tudo que concorra para a sobrevivência saudável das pessoas é um bem. Mas isso não cria um elo metafísico entre mim e meu computador. Se ele fosse destruído, eu continuaria igual. Tanto é que já dei e já vendi computadores sem que nada me acontecesse.

Creio que minha inteligência é, ou tornou-se, de tipo trágico. Fico me perguntando o que acontecerá se fizermos isso ou aquilo, e tenho interesse por desejos paradoxais. Um desejo paradoxal, por exemplo, é o desejo de manter a atual estrutura jurídica e proibir o casamento gay. Uma vez que o Estado brasileiro liga o casamento a diversas interferências no direito de propriedade (como a inclusão de dependentes para fins tributários, as modalidades de pagamentos de planos de saúde etc.), não dá para defender a lei tal como ela existe, e também defender o mandamento que diz “não roubarás”, e ser contra o casamento gay. Ele decorre da lei. Ele é uma interpretação mais justa da lei do que subordinar o direito de propriedade à heterossexualidade. Agora, muitos gays também não querem aquilo que resolveria a disputa de maneira pacífica, que seria retirar o Estado da questão do casamento. Essa solução seria o equivalente a um pai retirar de cena um brinquedo que é motivo de briga entre seus filhos, porque os gays militantes querem aquilo que os heterossexuais têm, ou que eles imaginam que os heterossexuais têm, e por isso não querem que o brinquedo saia de cena a fim de garantir a paz. Eles querem o brinquedo para si, porque sabem que, para um heterossexual conservador, o casamento fica maculado se os gays agora têm acesso a ele. Daí eu volto ao que dizia: minha inteligência funciona de modo trágico, voltando-se para os aspectos insolúveis das disputas, ou insolúveis porque os dois lados aceitariam todas as soluções, exceto a única que funciona, que é sacrificar aquilo que define sua identidade.

Mas bem. Falemos de obras de arte. Diante da questão “devemos julgar moralmente as obras de arte?”, é preciso fazer várias distinções e observações. A primeira delas é: todo mundo julga “moralmente” todas as obras de arte. A pessoa que cria uma obra blasfema contra o cristianismo provavelmente considera nojentas as catedrais medievais, símbolos da dominação blá blá blá. A segunda é que essa ideia de “moral” é mítica, e se eu desmistifiquei a minha própria “moral” nos parágrafos anteriores, não vou poupar a “moral” do leitor. Observo que as pessoas chamam de moral ou de imoral aquilo de que elas gostam ou não gostam, e só. Você gostaria de trair seu cônjuge sem sentir vergonha, “culpa”, sem sofrer consequências? Então você aprovará filmes cujos protagonistas fazem isso, porque vai se identificar com eles. E depois você vai falar no direito de amar, de ser feliz, e que as situações são complicadas etc. Aquilo de que você gosta é complexo e cheio de nuances. Aquilo de que você não gosta é simples e grosseiro.

Assim como antes falei da expectativa de punição violenta que garante os direitos, também observo que há uma relação de causa e efeito no consumo de obras de arte. Já observei que ninguém discorda de que a ingestão de certos alimentos tem certos efeitos sobre o corpo (também tem sobre a alma, mas não falemos disso), e eu mesmo tomo a culinária como modelo para as artes, mas por alguma razão as pessoas acham que podem passar relativamente incólumes pelo consumo de obras de arte. E é particularmente engraçado que seja possível defender isso no mesmo momento em que vemos a maioria das pessoas de classe média urbana agir e falar cada vez mais como personagens de séries americanas. O ponto de vista irônico e cáustico das séries americanas é tão onipresente que chega a ser cansativo, sobretudo porque as pessoas acreditam que isso veio delas mesmas, não do canal da Warner ou de trezentos mil episódios de House.

Esse é um dos efeitos das obras de arte, reconhecido desde Aristóteles, que sugeriu na Poética que as plateias poderiam evitar a tentação de imitar a hybris dos protagonistas observando seus efeitos. Nelson Rodrigues também disse que mostrava horrores no palco para que não houvesse horrores na sociedade. O fato de que todos nós temos algo de Emma Bovary, querendo imitar o que vemos nas obras de arte, é um segredo protegido apenas pela teimosia de achar que somos nós os inventores de nossas atitudes, forjando destemidamente nossas personalidades, como protagonistas de livros de Ayn Rand.

Assim, diante da questão da conveniência de julgar moralmente as obras de arte, só posso observar que, se toda obra de arte tem algum efeito na alma, é razoável levar esse efeito em conta na hora de consumi-la, porque quem quer a causa vai levar o efeito no pacote, querendo ou não. Pior ainda, não existe bulimia artística, você não pode ver um filme e botar o dedo na garganta para vomitá-lo, nem pode pode suprimir totalmente uma melodia etc. Você pode, é claro, fazer uma nova digestão do que vê, ouve, lê etc., como que trabalhando seu aparelho digestivo intelectual. O que, naturalmente, não deixa de ser uma espécie de conversão, ao menos da inteligência.

É por isso tudo que a questão do julgamento moral das obras de arte no sentido de “se eu vir esse filme, irei para o inferno?” só faz sentido de maneira muito metafórica. Uma formulação mais razoável levaria em conta que toda e qualquer obra de arte depende de alguma identificação e de alguma abertura para ser apreciada. A criança que recebe goela abaixo uma colherada de uma comida qualquer não está disposta a gostar daquela comida. A pessoa que se senta para ver um filme sem aceitar as sugestões que vêm da tela, sem permitir que seja criada empatia, dificilmente gostará do filme, e estou falando de gostar, não de apreciar intelectualmente, de respeitar as qualidades etc. Como ninguém se julga eminentemente imoral em sentido negativo, ninguém vai dar empatia a algo que considere “imoral” ou ruim. Toda obra de arte depende desse elemento identificador e trabalha com ele em algum sentido, seja tentando purgar a plateia dele, como no caso da tragédia grega, seja tentando reforçá-lo, como no caso de Lost in Translation.

Uma outra maneira, talvez, de formular a questão, e que, essa sim, me interessa sumamente, é: de que maneira a obra trabalha seu elo de identificação com a plateia, e o que isso diz sobre a obra e sobre a plateia? E quais as implicações sociais disso (sempre no plano de “o que vai acontecer”, não de “o que deveria acontecer”. Nada mais fácil e simplório do que comparar algo real com algo ideal e censurar o real por não ser o ideal)?

E agora, para encerrar, vejo que poderia sintetizar essas reflexões todas reformulando a pergunta de maneira metafórica: dado o espectador x, a obra y tem para ele o efeito de alimento, de remédio ou de veneno?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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