Caipirice & ironia

Acabo de ver um texto em que um sujeito – deliberadamente ocultarei sua identidade, mas é um professor universitário de fora do Brasil, e não é René Girard – promete que vai dar a verdadeira interpretação da Epístola de São Paulo aos Hebreus. Pasmo, pergunto-me: mas o senhor já leu os padres da Igreja? Os principais teólogos? O senhor está ciente de que existem dois mil anos de interpretação da Epístola aos Hebreus na sua frente?

Poderiam objetar: qual o problema de alguém dar a sua interpretação? Ora, o problema é justamente que essa interpretação já deve ter sido dada, e provavelmente impugnada… O que se apresenta como inédito provavelmente nada tem de inédito. Se eu chegasse aqui e dissesse que inventei o verso decassílabo, as calças compridas ou os números de páginas, o que vocês pensariam de mim?

Essa costuma ser a minha bronca com a imprensa. Assuntos complexos tratados por gente que não sabe nada, e que acha, sinceramente (porque a ingenuidade é necessariamente sincera), que é possível varrer para o lado tudo que não estiver de acordo com um consenso.

Eu sei que um dos paradoxos de hoje é que a verdade consiste em denunciar “verdades”. Mas como não perceber que o consenso da denúncia é também um consenso? Daí que eu fale em ingenuidade, em caipirice mesmo: trata-se de uma ausência de ironia. Ironia, aliás, que nada mais é do que olhar a si mesmo desde fora. Então o senhor realmente acha que, após dois mil anos, vai dar a explicação definitiva da Epístola aos Hebreus, e, mais ainda, sem fazer menção a ninguém?

Podem falar também de humildade. Mas agora vou ser forçado a ignorar o passado e tratar cada um que aparecer como a reinvenção da roda? É esse mesmo o critério? E não é Satanás quem está propondo?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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