“Autores perigosos”

Muitos católicos já ouviram o alerta, acompanhado daquela expressão de benevolente preocupação: “Esse autor é perigoso.” “Esse livro é perigoso.” O pobre fiel ouve isso e já se pergunta se não está no caminho da perdição. Parece até que um Eric Voegelin – digamos – é na verdade uma espécie de Hugh Hefner intelectual, trazendo coelhinhas teóricas que perverterão a mente.

Quem não é católico (ou mesmo quem é) e vive num ambiente (quase todos) de exaltação da liberdade de pensamento, há de achar esse alerta “a coisa mais retrógrada do mundo”. Mas essa resposta é só um reflexo condicionado. Qualquer pessoa vai concordar que os livros podem ter efeitos na alma. E, se podem ter efeitos, esses efeitos podem ser bons ou maus. “Mas perigosos? Depende.”

Aí eu concordo com meu interlocutor imaginário. Se depende, depende do quê? Recordo um post recente de Bill Valicella, o Maverick Philosopher, que dizia que as pessoas são engabeladas por causa de seus próprios vícios. Você acha que é especial, por isso acredita no sedutor que lhe transmite essa mensagem. Você se deixa atiçar porque acha que seu desejo será satisfeito. E você pode ser “pervertido” por um “autor perigoso” porque o seu desejo de se achar inteligente, de encontrar alguma justificativa para alguma vontade sua, é maior do que o seu amor pela verdade.

Daí se segue algo tremendamente óbvio: de que adianta o exame das obras sem o auto-exame? De que adianta fazer uma pergunta sem saber (ou sem ao menos tentar saber) por que se faz essa pergunta? O espírito crítico direcionado apenas para fora permanece na adolescência.

Segue-se também outra conclusão, mais radical: sem esse auto-exame, qualquer autor ou livro pode ser perigoso. Quem quer uma sã doutrina para viver há de encontrá-la na primeira versão conveniente. Você é envergonhado, tímido? Cuidado com a sã doutrina moralista que te coloca na promotoria do Juízo Final. Você é descolado, um hedonista nato? Cuidado com a sã doutrina que te dispensa de examinar o que parece superior. Se, ao ler alguma coisa, você vê que o desdém que você julga sentir por esferas inteiras da experiência humana parece inteiramente justificado, olha aí o seu “autor perigoso” à espreita. Está te seduzindo.

Não custa observar, como complemento, que entre um desinteresse genuíno e uma afetação de indiferença há uma distância já compreendida no Ocidente desde a fábula de Esopo sobre a raposa e as uvas.

Tornando ao caso católico específico, é bom lembrar ainda que São Tomás de Aquino foi um autor perigoso. Após sua morte em 1274, sua obra foi proibida pelo Arcebispo de Paris. Desde o Concílio de Trento, quase trezentos anos depois, a influência de São Tomás no catolicismo só é comparável à de Santo Agostinho. E como São Tomás teria refutado tantas teses contrárias à verdade e/ou à fé sem conhecê-las? Sem tomar conhecimento de “autores perigosos”? Lembro ainda um outro autor perigosíssimo – Martinho Lutero. Quem é um grande especialista em Lutero? O Papa Bento XVI.

Ou, em uma frase, as tentações existem no mundo, mas só são vencidas dentro de cada um.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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