“Culpa”, o nome de guerra da inveja

Hoje no jornal — é verdade, quase tudo que eu escrevo é mera reação a algo que leio por aí — leio que Karen Tannhauser, a moça que se escondeu dentro do próprio prédio por alguns dias, tinha deixado um bilhete para a família, dizendo: “Eu não me acho no direito de ser feliz. Mas não levo ninguém junto. Vivam suas vidas e nunca se culpem.”

A culpa é a grande culpada. Em todos os jornais, em diversos blogs, todos os dias, alguém fala contra a culpa. Eu não vou fazer um elogio da culpa. Eu vou é me perguntar: como é que eu, que sou católico sim, e que tenho sentimento de culpa sim, pareço estar menos oprimido pela culpa do que pessoas que 1. fazem questão de dizer que não são religiosas, não creem em inferno etc. e 2. têm uma vida geralmente tão inofensiva quanto a minha, isso é, não assassinamos, contamos no máximo mentirinhas para preservar certas aparências, e, se roubamos algo, é aquele irresistível pedaço de bolo que o outro está demorando a comer. Terei eu uma grande deformidade moral? Será que estou escrevendo isto para demonstrar a minha própria superioridade? Será que na verdade minha alma é mesquinha e eu, que não sou kantiano, não percebo que roubar um bolo é tão grave quanto roubar o sustento de uma família?

Mas é um mistério. Por que as pessoas estão assim tão preocupadas em não se sentir culpadas? Será que vivemos uma época em que a consciência moral pulsa e palpita no coração de cada ser humano?

Não vou fazer julgamentos sobre a consciência moral alheia. Mas vou arriscar uma hipótese sobre a culpa que é atribuída à culpa.

Se você não está atormentado por algum ato particular, não sente culpa. Se a sua culpa é genérica, difusa, permanente, ela não é efetivamente uma culpa, é um mal-estar, é uma insatisfação insaciável; é, suspeito eu, um ressentimento. Contra quem? Contra você mesmo. Não porque você tenha uma forte consciência moral, mas porque você tem uma forte consciência de que a vida dos outros parece melhor do que a sua, e você está com inveja. Culpa é o nome social da inveja, porque a inveja é o maior tabu de todos, isso é, ninguém, jamais, de jeito nenhum, vai admitir sua própria inveja, provavelmente nem para si mesmo. As pessoas podem admitir qualquer coisa, menos que invejam as pessoas que afetam desprezar.

Não admira que seja assim. O guru do momento diz que devemos ter Deus como modelo, e isso no que diz respeito à capacidade de criar, de chegar a uma originalidade absoluta, o que é uma pretensão tão absurda e autossabotadora (minha tradução pessoal para self-defeating) que só pode mesmo ser reprimida e recalcada: verbalizada, a veracidade da percepção de que você não é Deus tem força suficiente para fazer-se sentir por uma vida inteira. Não que isso vá vender jornal ou atrair anunciantes. Mas você sempre pode culpar o capitalismo por não ter escolhido essa mensagem. Não culpar a si próprio é que é importante, não é?

A pretensão de inventar a própria vida só vai gerar inveja e ressentimento porque sempre temos a impressão de que os outros fazem isso. Os outros parecem espontâneos; desde que não sejam muito bizarros, parecem resolvidos; nós é que parecemos contraditórios, estranhos, inacabados. Você jura que nunca se perguntou porque Fernando Pessoa é tão popular?

Chega a hora, é claro, de falar em “soluções”. Mas a solução é óbvia e pouco estilosa. Não é cool, mesmo. É apenas pensar mais nos outros e esforçar-se para amá-los. É tentar imitar a Deus no sentido de sacrificar-se pelos outros em vez de tentar criar o mundo em seis dias. Pronto, foi mal, a mensagem de sabedoria é só essa mesmo. Você queria que eu citasse o Dalai Lama, ou que eu falasse de neuroplasticidade, mas algo me diz que essa tecnologia óbvia é mais avançada.

E nada contra o Dalai Lama, nem contra a neuroplasticidade. Para parodiar um pouquinho o jeito inglês de falar, eu acho, de verdade, que ambos são forces for good. E se você quiser pegar o caminho longo, ok também.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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