Maurício Savarese: fala porque não sabe

Preciso confessar que não entendo nada de futebol. Não tenho o menor interesse. Quando era criança, gostava. Depois, passou. Só lembro que Zico jogava no Flamengo. Se me pedirem para nomear um único jogador de qualquer time de hoje, serei obrigado a dizer: “não sei.”

É isso que me faz pensar que, se eu fosse chamado para cobrir a Copa do Mundo, só uma dentre duas hipóteses poderia ser verdadeira: a pessoa que me contratou não sabe o que está fazendo (e eu teria a decência de recusar a mamata que viria junto), ou então ela quer que eu escreva coisas ridículas para me vender como objeto de chacota (e eu recusaria a mamata que viria junto porque, bem, o preço é alto demais).

Não sei se algumas dessas duas hipóteses explica o fato de o jornalista Ricardo Noblat a chamar o sr. Maurício Savarese para expelir em seu blog uma indescritível pérola, em que fala sobre como os vaticanistas são uma turminha muito esquisita, porque, ora!, estudam o assunto de que pretendem falar, e ainda ousam conversar a respeito dele em seu tempo livre! Por exemplo, ao encontrar o primeiro vaticanista de sua vida, o sr. Savarese observa que ele…

…foi-se com os amigos vaticanistas, para vaticanizar por aí, em faculdades católicas, cafés e mosteiros. Ali acham fontes.

Quanto aos cafés, nem sei. Mas não era próprio do jornalismo achar fontes?

Como têm acesso aos cardeais da Cúria Romana antes do conclave, conhecem funcionários e sabem das regras de funcionamento, eles têm crédito para especular.

O que, obviamente, o sr. Maurício Savarese não tem. Aparentemente ele foi a Roma, ao menos com dinheiro privado, não para falar do conclave, mas para comentar as pessoas que entendem o conclave. Talvez amanhã ele escreva sobre o modelo de bicicleta que algum cardeal usou para se locomover em Roma. Afinal, é muito importante explicar ao leitor brasileiro, essa besta, que em Roma as ruas são estreitas etc. Ou então ele vai voltar a seu papel mais confortável, que é o de apontar o dedo, rindo e se curvando até ficar com a cara nos joelhos, para aquela bizarra gente que tenta entender a Igreja Católica.

E volto ao meu exemplo: imaginem se eu fosse cobrir a Copa do Mundo e dissesse: “olha que gente bizarra, eles entendem as regras do futebol, eles conhecem até os jogadores!”

Eles também costumam conhecer de história o bastante para saber que raramente há ineditismo na Igreja Católica. Muitos são intelectuais. Estranhos, mas intelectuais.

E você, sabichão o suficiente para saber só a conclusão sem entender nadinha de história. O mais legal é que até a conclusão, na verdade, nem é falsa nem verdadeira. É só uma afirmação gratuita. A eleição de um polonês para o papado não foi inédita? A de um alemão, não foi quase inédita? As mudanças dos últimos 50 anos não foram inéditas?

Agora, obrigado, obrigado por você reconhecer que os vaticanistas são intelectuais, apesar de estranhos. Era só disso que os vaticanistas estavam precisando. Da chancela de uma pessoa normal. Né?

Nada disso os impede de jogarem um jogo muito estranho nas entrevistas coletivas, com perguntas tão específicas que parecem voltadas a satisfazer o chefe da assessoria de imprensa. Não que seja exclusividade deles, mas o tom rococó é bem peculiar.

“O nome do novo papa estará em um modelo semelhante ao do último anel do pescador? Ficará ao redor da insignia?” “O senhor poderia me dizer em latim as primeiras palavras da missa que rezará pela eleição do novo pontífice?” E por aí vai.

Traduzindo: Savarese não tem a menor ideia de por que estão perguntando isso. Mas acha que o fato de ele ignorar algo é prova de que esse algo é esquisito. Deus meu, por que é permitido haver algo que o sr. Savarese ignore?

Eu sei que alguém pode tentar defender Savarese dizendo que ele, no começo do artigo, disse que…

Estar perto dos vaticanistas traz aos estrangeiros uma grande inquietação. Afinal de contas, que universo frequentam? O da especialização em assuntos religiosos ou o da reverência incondicional à Igreja Católica?”

…só que todos os argumentos que ele apresentou dizem respeito à especialização. Sim, é indispensável saber italiano. Sim, é indispensável saber história, teologia, regras da Igreja etc. Sim, é ideal saber latim. É verdade que talvez você não venha a saber tudo isso se detestar o assunto “Igreja”. Mas então por que você se acharia qualificado para falar disso?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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