Savarese continua falando porque não sabe

Pode parecer implicância minha, mas pela segunda vez Maurício Savarese vem exemplificar a caipirice intelectual que passa por jornalismo quando o assunto é religião, e o comentário vale pela oportunidade de explicar algumas coisas.

E vale ainda fazer a seguinte observação: praticamente todo comentário de má qualidade que vejo sobre a religião não vem de burrice (embora às vezes venha), mas de uma pura e simples ignorância dos fatos e da falta de imaginação – por isso usei a palavra caipirice.

Uma caipirice orgulhosa, pertinaz, que não concebe nada fora da sua experiência, que tacitamente presume que tudo aquilo que ela não viu não deve existir – e, se existe, deve ter alguma explicação perversa.

Entender que existem ideias diferentes das suas é a coisa mais fácil do mundo; aceitar que existem motivações diferentes das suas, que você nunca teve, aí é que são elas.

Mas vamos às savaresices do momento:

Ser católico no Reino Unido muitas vezes é o mesmo que ser anglicano.

Então, segundo Maurício Savarese, no Reino Unido, muitas vezes os anglicanos aceitam a autoridade do Papa? E muitas vezes os católicos preparam-se para quando o príncipe Charles for o chefe da “sua” igreja?

A verdade é que o anglicanismo é internamente muito mais dividido do que o catolicismo. Um pequeno ramo da Igreja Anglicana, sobretudo pelos ritos, está próximo do catolicismo, e por isso mesmo é chamado de anglo-católico. A maior parte das conversões ao catolicismo costumam vir desse ramo, naturalmente. Segundo a maneira como os anglicanos falam, as igrejas que têm ritos mais elaborados seguem o estilo high church, e aquelas em que os cultos se resumem mais a preces, cantos e pregações são de estilo low church. A rainha Elizabeth, até onde se sabe, é orgulhosamente low church, e acha, como muitos anglicanos, que quando o negócio começa a ficar muito elaborado já se sente o cheiro do “papismo”.

Eu adoraria que o sr. Savarese explicasse não para os leitores brasileiros, mas para a rainha Elizabeth II, em que sentido “ser católico no Reino Unido é o mesmo que ser anglicano”.

Mas, apesar do meu comentário, é verdade que o sr. Savarese dá a sua explicação logo depois. A parte mais interessante dela é partir de uma definição dada por quem não é nem católico, nem anglicano.

A religião, parte de um sisma [sic] que os católicos romanos tentam anular, é vista entre os jovens (ao menos entre os meus colegas) como indício de racismo — o que pode ser injusto, mas se confirma na única londrina religiosa que conheço.

Claro que o “sisma” com “s” no lugar de “cisma” nos faz pensar na linhagem espiritual de Emir Sader, com seu inesquecível “Getulho Vargas”. Mas se eu for analisar as influências do sr. Savarese, não termino hoje esse texto, nem o que ainda pretendo fazer.

O fato, para começar, é que os católicos romanos não “tentam anular” o cisma entre catolicismo e anglicanismo. O papa Bento XVI criou um ordinariato para que os sacerdotes e fiéis anglicanos que quisessem converter-se ao catolicismo tivessem um ambiente mais favorável. Isso não veio do nada: após as muitas inovações recentes na Igreja Anglicana, como a ordenação de mulheres, muitos passaram para Roma – eu ia dizer “cruzar o Tibre”, mas o sr. Savarese não ia entender – e depois voltaram, sentindo-se desajustados. O ordinariato permite uma espécie de migração coletiva, digamos.

“Tentar anular o cisma” seria outra coisa. Seria tentar fazer com que o rei da Inglaterra abrisse mão de ser chefe da Igreja da Inglaterra e fazer com que o arcebispo da Cantuária de algum modo se submetesse ao papa. A Igreja Católica tenta “anular o cisma”, por exemplo, com a Igreja Ortodoxa Russa, e há comissões de ambos os lados que trabalham exclusivamente para isso.

E isso tudo mal começa a descrever toda a questão. São só meros fatos que o nosso correspondente ignora.

Agora, do ponto de vista meramente retórico, eu gostaria de reescrever a frase de Savarese assim: “O judaísmo é visto entre os jovens (ao menos entre meus colegas) como indício de avareza – o que pode ser injusto, mas se confirma na única judia que conheço.”

Ficou claro? Você pode manter a estrutura e colocar o grupo que você quiser no lugar, e ver como isso vai soando a seus ouvidos. É um teste para você conhecer seus preconceitos.

Se o próprio sr. Savarese acha a colega racista, a explicação que ele dá é sensacional:

Há poucas semanas, ela contou a outras meninas que não se sente atraída por negros nem indianos. Escândalo geral. “Não sei como ela pode dizer isso e pensar que ninguém vai ligar”, diz uma amiga, bastante ofendida. “Típica anglicana.” É também verdade que o sentimento anticlerical é amplo entre um grupo de mestrandos bastante liberais.

Mesmo que Savarese tente atribuir o julgamento de racismo ao grupo, no parágrafo anterior ele estava “confirmado”. Agora sabemos que é por falta de atração sexual.

Não basta respeitar, tem de desejar também?

Mas vamos botar isso na conta do que ele não sabe.

Maurício Savarese: fala porque não sabe

Preciso confessar que não entendo nada de futebol. Não tenho o menor interesse. Quando era criança, gostava. Depois, passou. Só lembro que Zico jogava no Flamengo. Se me pedirem para nomear um único jogador de qualquer time de hoje, serei obrigado a dizer: “não sei.”

É isso que me faz pensar que, se eu fosse chamado para cobrir a Copa do Mundo, só uma dentre duas hipóteses poderia ser verdadeira: a pessoa que me contratou não sabe o que está fazendo (e eu teria a decência de recusar a mamata que viria junto), ou então ela quer que eu escreva coisas ridículas para me vender como objeto de chacota (e eu recusaria a mamata que viria junto porque, bem, o preço é alto demais).

Não sei se algumas dessas duas hipóteses explica o fato de o jornalista Ricardo Noblat a chamar o sr. Maurício Savarese para expelir em seu blog uma indescritível pérola, em que fala sobre como os vaticanistas são uma turminha muito esquisita, porque, ora!, estudam o assunto de que pretendem falar, e ainda ousam conversar a respeito dele em seu tempo livre! Por exemplo, ao encontrar o primeiro vaticanista de sua vida, o sr. Savarese observa que ele…

…foi-se com os amigos vaticanistas, para vaticanizar por aí, em faculdades católicas, cafés e mosteiros. Ali acham fontes.

Quanto aos cafés, nem sei. Mas não era próprio do jornalismo achar fontes?

Como têm acesso aos cardeais da Cúria Romana antes do conclave, conhecem funcionários e sabem das regras de funcionamento, eles têm crédito para especular.

O que, obviamente, o sr. Maurício Savarese não tem. Aparentemente ele foi a Roma, ao menos com dinheiro privado, não para falar do conclave, mas para comentar as pessoas que entendem o conclave. Talvez amanhã ele escreva sobre o modelo de bicicleta que algum cardeal usou para se locomover em Roma. Afinal, é muito importante explicar ao leitor brasileiro, essa besta, que em Roma as ruas são estreitas etc. Ou então ele vai voltar a seu papel mais confortável, que é o de apontar o dedo, rindo e se curvando até ficar com a cara nos joelhos, para aquela bizarra gente que tenta entender a Igreja Católica.

E volto ao meu exemplo: imaginem se eu fosse cobrir a Copa do Mundo e dissesse: “olha que gente bizarra, eles entendem as regras do futebol, eles conhecem até os jogadores!”

Eles também costumam conhecer de história o bastante para saber que raramente há ineditismo na Igreja Católica. Muitos são intelectuais. Estranhos, mas intelectuais.

E você, sabichão o suficiente para saber só a conclusão sem entender nadinha de história. O mais legal é que até a conclusão, na verdade, nem é falsa nem verdadeira. É só uma afirmação gratuita. A eleição de um polonês para o papado não foi inédita? A de um alemão, não foi quase inédita? As mudanças dos últimos 50 anos não foram inéditas?

Agora, obrigado, obrigado por você reconhecer que os vaticanistas são intelectuais, apesar de estranhos. Era só disso que os vaticanistas estavam precisando. Da chancela de uma pessoa normal. Né?

Nada disso os impede de jogarem um jogo muito estranho nas entrevistas coletivas, com perguntas tão específicas que parecem voltadas a satisfazer o chefe da assessoria de imprensa. Não que seja exclusividade deles, mas o tom rococó é bem peculiar.

“O nome do novo papa estará em um modelo semelhante ao do último anel do pescador? Ficará ao redor da insignia?” “O senhor poderia me dizer em latim as primeiras palavras da missa que rezará pela eleição do novo pontífice?” E por aí vai.

Traduzindo: Savarese não tem a menor ideia de por que estão perguntando isso. Mas acha que o fato de ele ignorar algo é prova de que esse algo é esquisito. Deus meu, por que é permitido haver algo que o sr. Savarese ignore?

Eu sei que alguém pode tentar defender Savarese dizendo que ele, no começo do artigo, disse que…

Estar perto dos vaticanistas traz aos estrangeiros uma grande inquietação. Afinal de contas, que universo frequentam? O da especialização em assuntos religiosos ou o da reverência incondicional à Igreja Católica?”

…só que todos os argumentos que ele apresentou dizem respeito à especialização. Sim, é indispensável saber italiano. Sim, é indispensável saber história, teologia, regras da Igreja etc. Sim, é ideal saber latim. É verdade que talvez você não venha a saber tudo isso se detestar o assunto “Igreja”. Mas então por que você se acharia qualificado para falar disso?

O décimo-quinto Dalai Lama na mídia

Um viajante do futuro apareceu aqui agora e, com um português meio esquisito, disse que eu precisava de “alívio cômico” e me entregou um recorte de um grande jornal lá da época dele. Vejam só:

ÍNDIA – Após o falecimento de Tenzin Gyatso, o décimo-quarto Dalai Lama, budistas do mundo inteiro aguardam sua reencarnação.

Segundo o tulku Betoff, do Centro Budista de Ipanema, os desafios que o próximo Dalai Lama terá de enfrentar são muitos. “O budismo tradicional ainda está preso a valores antigos, como a atenção, a concentração, a meditação. Mas hoje as pessoas preferem ficar mandando mensagens pelo WhatsApp. Então acredito que todo esse valor dado à meditação precisa ser reavaliado. O budismo é milenar, mas precisa estar em sintonia com os desejos atuais.”

O jornalista Paulo Luiz Borda também tem suas críticas. “O consumo de carne é uma realidade. O homem moderno não devia precisar escolher entre uma linguicinha e o zen. Eu mesmo acho que existe muita espiritualidade numa picanha mal passada”, diz, após um discreto arroto.

A feminista Lôra, rapper da Marcha das Vadias, também acredita que o novo Dalai Lama deve defender o aborto irrestrito. “O Dalai Lama precisa entender que não é o desejo que leva ao sofrimento. Quando uma mulher faz um aborto, o que ela quer é evitar o sofrimento imposto pela sociedade. Precisamos de um Dalai mais antenado com a luta contra o patriarcado. Aliás, por que ele não pode reencarnar numa mulher? Vamos fazer uma marcha para exigir isso, já é hora. Peitos de fora pela Dalaia!”

Gyatso, porém, afirmou que não reencarnaria na República Popular da China, criando problemas para os lamas tibetanos responsáveis por encontrá-lo. Especialistas acreditam que isso abre a possibilidade de que o novo Dalai reencarne como mulher. Os tulkus brasileiros, aliás, acreditam que uma favela pacificada seria o melhor lugar para isso. “Seria uma oportunidade de o budismo dar um exemplo de democracia para o mundo, mostrando que a reencarnação do Dalai Lama está ao alcance de todos.”

A presidenta Dilma Roussef prometeu incentivos fiscais para o budismo se o novo Dalai reencarnar numa favela pacificada. “E se vier mulher, melhor ainda.” Porém, o ex-deputado Janjão W. afirma que o Estado é laico e que esses incentivos só devem ser concedidos se, além de mulher e favelada, a nova Dalaia for lésbica. “Precisamos de uma líder religiosa que empunhe a nossa bandeira. Já pensou, a Dalaia na Parada Gay da Paulista?”

De todo modo, milhões de budistas no mundo inteiro esperam que seu futuro (ou futura) líder espiritual atenda às suas aspirações e esteja em sintonia com o mundo moderno, sendo capaz de levá-los rumo ao novo milênio. Num tempo em que o desejo é sagrado, uma religião que o questione pode estar com os dias mais do que contados.

Scherer de um lado, Dolan de outro?

Ontem, Sandro Magister, com um tom que não me parece muito comum em seus artigos (link para a tradução em português do indispensável Fratres; lembro que Magister publica em italiano, inglês, francês e espanhol), começou a soltar informações e a especular, citando como fontes apenas “vazamentos”. O que achei interessante foi que Robert Moynihan ecoou algumas das especulações, então vale um pequeno comentário.

Mas antes de tudo, o comentário mais importante é: pelo menos nos dois últimos conclaves, todos os jornalistas e vaticanistas erraram muito feio. Ninguém esperava o papa polonês, ninguém esperava o papa alemão. Acredito que isso deveria bastar para colocar alguma humildade nas especulações. Porém, Magister e Moynihan são jornalistas com público garantido; se eles especularem e acertarem, ponto para eles; se errarem, você vai parar de lê-los? Nem eu.

Magister (parece um nome de personagem, Sandro Professor) ainda traz uma informação interessante (supondo que seja verdadeira): o número de votos de cada escrutínio do último conclave, e ainda números dos escrutínios de alguns conclaves do século XX, todos confirmando, supostamente, que o conclave sempre começa com um favorito e que esse favorito ganha. E vou insistir: Ratzinger teria saído como favorito desde o primeiro escrutínio e isso confirma o descompasso entre a mente da imprensa, inclusive dos vaticanistas mais sérios, e a mente do colégio de cardeais.

O que Magister diz, em suma, é que o cardeal Sodano estaria por trás de uma articulação para eleger Dom Odilo Scherer como papa. Assim, ele seria o candidato, digamos, da continuidade. Mas que ninguém por isso pense em Dom Odilo como uma marionete etc. Pouco sabemos do reservado Dom Odilo – mas sua defesa da Cruz na PUC de São Paulo é admirável. Magister também diz que Dom Odilo não é popular no Brasil e que sua candidatura à presidência da CNBB foi sumariamente vetada duas vezes (quem tiver fontes e quiser me escrever, agradeço). Nós aqui no Brasil conhecemos a CNBB e podemos tirar nossas próprias conclusões.

(Sensacionalismo sobrenatural: pelas famosas profecias de São Malaquias, tão precisas quanto as de Nostradamus, o próximo papa seria “Pedro Romano”. Dom Odilo se chama Dom Odilo Pedro Scherer.)

Do outro lado estariam o cardeal Dolan, arcebispo de Nova York, e o cardeal O’Malley, de Boston, que ainda fala português e espanhol. Mas o mais interessante é que estaria delineada uma disputa entre uma linha “ratzingeriana” (que ainda incluiria Ouellet) e outra “não-ratzingeriana”.

Agora, se os cardeais de maneira geral realmente pensarem que a Cúria está desgovernada e que a renovação é necessária, é difícil que Sodano vença. Simplesmente porque existem mais cardeais fora da Cúria do que dentro dela; mais cardeais fora da Itália do que dentro dela. Aliás, mesmo entre vaticanistas, duas coisas parecem ser ponto pacífico: João Paulo II não estava nem aí para a Cúria, e Bento XVI num dado momento desistiu de tentar reformar a Cúria.

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Vale fazer uma observação sobre o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, que sempre vejo nas listas de papáveis. Do ponto de vista da Igreja, ele é… controverso. Teria anunciado o donwsizing da Igreja em Viena; arrumado confusão com o bispo de Medjugorje; e dado alguma declaração que rendeu, segundo li (quisera eu achar a fonte, mas creiam em mim), uma bronca tripla e conjunta, do papa Bento XVI, do cardeal Bertone (secretário de Estado) e do cardeal Sodano (decano do colégio de cardeais), que o esperavam numa salinha, aparentemente já de cara amarrada. A reunião do alto comando vaticano com o cardeal é confirmada por fontes oficiais (cliquem nesse link, vale muito a pena). O teor dela é que circulou entre os vaticanistas. E esse é o tipo de notícia que não circula na imprensa não-especializada, mas que circula entre os cardeais. Os cardeais jamais vão desrespeitá-lo. Mas daí a colocá-lo no trono de Pedro é outra história.

Por isso, se alguém quiser uma lista de papáveis com algum grau de realismo, precisa procurar esse tipo de informação. É preciso um currículo impecável. E nesse sentido mais vale ser alguém de quem se sabe pouco, como Dom Odilo, do que alguém de quem se sabe muito.

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Mais de uma pessoa me escreveu como que pedindo um destaque maior para Antonio Socci, que teria previsto a renúncia do papa. Vejam: sem querer desmerecer Socci (de modo algum!), desde Pio XII todos os papas prepararam documentos de renúncia. Entendo que Socci queira enfatizar que disse que Bento XVI renunciaria. Mas, de modo geral, a posição de prudência em relação a esse tipo de afirmação ainda me parece mais recomendada.

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Num ponto concordo com Sidney e Carlos: é bad form desejar que Chávez vá para o inferno. Amai os vossos inimigos etc.

Sobre o conclave que se aproxima

Admito que fiquei envaidecido quando vi Robert Moynihan fazer duas observações semelhantes às que eu fizera duas semanas antes: uma comparação entre os conclaves de 2005 e de 2013 nos termos que propus, e uma análise de como o contato entre os cardeais vai interferir no conclave.

Um problema de falar sobre o conclave é que se corre o risco de tentar ser mais esperto do que o colégio de cardeais e, em última análise, do que o próprio Espírito Santo.

Por isso, o melhor é tentar ser humilde e ater-se ao óbvio.

Os cardeais já estão se reunindo a portas fechadas. As reuniões formais só acontecem de manhã. Como o próprio Moynihan observou, isso significa que os cardeais estão querendo mais tempo para conversas informais. O conclave, por sua vez, é uma eleição formal e pode ser resolvido até no mesmo dia. Daí que, com tantas reuniões entre os cardeais, consigo imaginar dois cenários extremos: de um lado, o conclave já começa com um papa informalmente eleito; de outro, os cardeais veem que os problemas da Igreja são um buraco sem fundo e o conclave se arrasta. Francamente, não acredito muito nessa segunda hipótese, lembrando que ela é uma hipótese extrema.

Como já falei, a maior parte dos cardeais não tem qualquer função na Cúria Romana, e todos sabem que o anel do Pescador dá poderes de monarca absoluto. Mais ainda, se alguém quiser atribuir a Ratzinger um maquiavelismo genial que eu mesmo não lhe atribuo, sua renúncia gerou a narrativa do papa bom contra a Cúria corrupta. Isso dá força para qualquer cardeal de fora da Cúria. Num assunto como o conclave, quase tudo é misterioso, porque nem os mais tremendos vaticanistas têm acesso a dados fundamentais, mas eu arriscaria dizer que, se os grandes perdedores forem Sodano e Bertone, ninguém que tenha acompanhado o papado de Bento XVI vai ficar muito surpreso.

Por outro lado, o maior problema, que certamente afeta a mim mesmo, é acreditar que o conclave é pautado pelo que se lê na mídia. É um pouco inevitável que isso aconteça, porque tudo relacionado ao conclave é realizado em segredo. Ainda assim, é preciso manter sempre uma ressalva interior.

Sobre as coisas que saem na mídia, porém, é possível fazer alguns comentários, necessários porque os jornalistas aparentemente sequer se dão ao trabalho de pensar como alguém de dentro da Igreja.

Primeiro, a Igreja não é a Apple. A Apple pode ficar preocupada se as pessoas preferirem telefones Android aos iPhones, mas a Igreja não funciona assim, porque ela não está tentando gratificar a plateia em troca de dinheiro ou da ostentação de uma identidade. Eu sei, você acha que não, que a religião é mentira etc., mas será que você não acredita nem na sinceridade subjetiva?

Disso deriva outra coisa. O papa não será eleito por seu carisma potencial perante a plateia. Ontem mesmo li no jornal que Dom Odilo Scherer poderia ser eleito para reforçar a presença de Igreja na América Latina. O que leva alguém a escrever isso? Quem, senão Policarpo Quaresma, cogitaria converter-se porque o papa é da sua nacionalidade? A eleição de Ratzinger levou a um surto de catolicismo na Alemanha?

(Mas confesso que tive uma alucinação esses dias em que ouvia o nome de Dom Odilo anunciado na praça de São Pedro.)

Disso também deriva que, para os cardeais, pouca diferença faz que o papa seja negro, oriental ou o que for. Eu mesmo adoraria ver o cardeal Arinze eleito, ou Ranjith. Mas os cardeais realmente não vão pensar: “Caramba, hora de colocar um nigeriano no trono de São Pedro!”

Por fim, se há algo que dá genuinamente a impressão de um embate perpétuo entre Igreja e mundo, é a lenga-lenga que nunca para de sair na imprensa sobre exatamente… a Igreja e o mundo.

Saem aquelas afirmações gratuitas de que a Igreja perdeu fiéis porque não relaxou sua moral. Há o pressuposto de que a função da Igreja é falar o que as pessoas querem ouvir, e que a relação das pessoas com a religião é semelhante à que elas têm com seus carros, ou celulares etc.

Há aquelas afirmações que já pulo, por cansaço. A Igreja nunca vai aprovar o aborto, o divórcio, o casamento homossexual, a ordenação de mulheres (João Paulo II proibiu até que a ordenação de mulheres sequer fosse discutida). Nutrir uma vaga expectativa de que isso possa acontecer é condenar-se à frustração, isso supondo sinceridade da parte de quem diz esperar essas coisas. Mais ainda, a Igreja acha que ficar ouvindo essas reivindicações, ou ficar lendo que o próximo papa deveria ser um pouco mais parecido com um editorialista do New York Times, é apenas uma parte desprezível dos seus necessários incômodos terrestres. Eu imagino que os cardeais às vezes até se divirtam dando entrevistas: “Vou dizer ao jornalista que o papa tem de ser ‘um cara antenado’, ele vai botar isso em destaque!”

E continuemos a rezar.

Sobre o celibato clerical

Damian Thompson resolveu discutir o celibato dos padres. Só que, antes de eu entrar na discussão, preciso explicar uma coisa: o celibato dos padres não é um dos famosos “dogmas da Igreja Católica”. É apenas uma questão disciplinar. O papa pode acabar com o celibato obrigatório dos padres com uma mera canetada, sem qualquer abalo doutrinal. O celibato na Igreja Católica oficializou-se há cerca de mil anos e pode acabar, teoricamente, a qualquer momento.

Se um padre anglicano casado é ordenado padre católico, ele pode ser um padre católico casado. Nas igrejas ortodoxas orientais em que o “padre pode casar” e cujos sacramentos são considerados válidos pela Igreja Católica, não é exatamente o padre que pode casar. É o homem casado que pode ser ordenado padre. E esse padre casado não chegará a bispo. Mas vejam que o apóstolo Pedro, o primeiro papa, era casado. E, como até a Wikipedia sabe, na epístola a Timóteo, o apóstolo Paulo diz que o bispo deve ser “irrepreensível, marido de uma só mulher”. Então o negócio é meio complexo.

No indispensável O Sal da Terra, Peter Seewald pergunta ao então cardeal Ratzinger por que a Igreja Católica não libera o casamento para os padres. Ele, que certamente já tinha respondido mil vezes esse pergunta, e que já conhecia muito bem os problemas da Igreja, respondeu na lata: “Porque senão um mês depois eles pediriam também o divórcio.”

Essa resposta foge totalmente aos termos habituais do debate. É uma resposta eminentemente prática. Francamente, acho que conheço mais de um homem que só não entrou no seminário por rejeitar o celibato. Mas esses são os padres potenciais. A opinião de um zeloso cardeal que veio a ser papa sobre os padres já ordenados estava mais voltada para os problemas que seriam criados, não para os que talvez fossem resolvidos.

Por outro lado, tudo neste mundo é imperfeito. A solução de um problema sempre cria outros problemas que nem julgávamos existir. Se o próximo papa der o matrimônio aos sacerdotes, terá de estar preparado para os pedidos de divórcio – ou de anulação – que vão inundar o Vaticano. (Porque toda anulação de casamento é aprovada pelo Vaticano, veja bem. Parece até que a Igreja Católica inventou a burocracia.) E há ainda a questão da fidelidade, presente nos sacramentos do matrimônio e da ordem. Se a Igreja viu que o sacerdote não foi fiel a seu voto de castidade, por que ela deveria supor que ele seria fiel à sua esposa?

No debate, porém, observo que o argumento de que o celibato é causa da pedofilia é totalmente furado. Parafraseando uma expressão inglesa, há um elefante que ninguém enxerga, que é o fato de que os casos de pedofilia são eminentemente homossexuais. Não consigo entender como um homem heterossexual privado da companhia de uma mulher vá passar a desejar meninos púberes ou impúberes. Muitos homens vivem em celibato forçado (isso é, não são atraentes para praticamente mulher nenhuma) e nem por isso passam a desejar garotinhos.

Pessoalmente sou favorável ao fim do celibato obrigatório, mesmo que seja seguido o costume oriental de apenas celibatários serem ordenados bispos etc. Isso porque eu acho que, no dia-a-dia, nas paróquias, está faltando uma certa testosterona. Se os padres tivessem esposas, talvez a religião parecesse um pouco menos uma coisa de tia. Mas não sou cardeal nem nada, eu não tenho de ler relatórios sobre a situação da Igreja no mundo inteiro, e estou levando em conta apenas aquilo que vejo no Brasil. Lembro que na paróquia que frequentei em Paris, por exemplo, não vi problema nenhum.

P. S.: Sobre a questão “testosterona x Igreja”, recomendo a leitura de Goodbye, Good Men, de Michael S. Rose.

Pecado & preconceito

Anteontem, pequei gravemente.

Li uma notícia horrenda e achei que fosse verdade. A notícia foi a história que saiu na revista italiana Panorama, e depois no jornal italiano La Reppublica, e finalmente chegou à imprensa brasileira – e eu continuo me perguntando: o que faz um correspondente, se nunca temos nada diferente do que sai na grande imprensa estrangeira? Se nunca temos as coisas em português nem ao mesmo tempo em que saem na imprensa estrangeira?

Mas retorno ao assunto. Era a história do grande “lobby gay” corrupto dentro do Vaticano. Do tal dossiê que teria sido entregue ao Papa, feito por três cardeais. E pouco depois ainda recebi um link para um texto no blog Rorate Caeli que seria a tradução inglesa de um artigo em polonês publicado há alguns meses, com teor semelhante.

O problema? Isso tudo concordava com meus preconceitos. Tenho predisposição para crer que o papa é bom, mas há cardeais malvados, e suas maldades explicariam tudo. Aí estaria o bode expiatório. Eliminem-se os cardeais malvados, o tal “lobby gay”, e poderemos voltar ao mundo maravilhoso da tradição.

Robert Moynihan, que já recomendei, foi o único jornalista que teve um lampejo de sensatez. E mesmo esse lampejo lhe foi trazido por um padre. Creio que ele mesmo se deixou levar pela história no primeiro dia. No dia seguinte, publicou seu lampejo, e de certo modo se retratou.

Espero que o leitor saiba inglês e possa ler o desmonte da matéria de La Reppublica no texto de Moynihan. Mas posso adiantar que a matéria não cita fontes, não corrobora nenhuma das informações. Nesse sentido, ele vai na linha da peça de teatro O Vigário, que inventou o mito do Pio XII antissemita. Veja aí também o preconceito. Parece-lhe verossímil que o papa fosse antissemita em pleno século XX porque você não gosta do papa.

Tantos pecados estão envolvidos aqui. Primeiro, a vaidade. Quem crê na existência de algo como um “lobby gay” só precisa de um jornal que imprima a notícia de sua existência, mesmo que nenhuma informação seja corroborada. Assim funciona a sedução: você ouviu o que queria ouvir. Depois vem a ira contra o bode expiatório finalmente encontrado. E depois a vaidade de se achar mais papa do que o papa. Afinal, se o papa tem o dossiê, ele deveria fazer x ou y. Mas não somos católicos? Não vamos dar um voto de confiança nem ao papa? (Como filotradicionalista, eu sei que às vezes é preciso engolir uns sapos bem gordinhos. Mas humildade tem sim algo a ver com humilhação.)

O leitor há de perceber que aqui há dois assuntos. Até agora falei da desonestidade de um jornal de publicar acusações graves sem qualquer corroboração, sem qualquer sinal de prova, e de como somos cúmplices de tudo isso ao acreditar, só porque assim podemos separar, de um lado, os pervertidos cardeais, e, de outro, o papa e seus amigos do bem.

Mas resta a questão do dossiê. E se existir algo assim? O fato de um Robert Moynihan aparentemente ter caído na história por 24 horas mostra o quanto ela confirmaria as predisposições que nós, conservadores, temos, como a visão do papa que tenta de maneira discreta resolver problemas terríveis. Como eu disse hoje a um amigo, o pessoal da SSPX está preocupado com violão na missa e o papa pode estar preocupado com coisas muito piores. Até porque, e vale o parêntese, Ratzinger é um dos homens mais mansos que jamais existiram. A antiga visão de Ratzinger como Panzerkardinal, como “doberman de João Paulo II” é totalmente furada. É a reclamação do burraldo que se vê diante de uma inteligência e de uma alma superiores. Se Ratzinger, então, já falou em “imundícies” e em “gravíssimos pecados” dentro da Igreja, pode ter certeza de que essas palavras na boca dele têm um peso diferente. E ele é padre. É confessor. Como o padre Brown, o personagem de Chesterton, gosta de enfatizar, pouca maldade há que um confessor já não tenha ouvido. Mas também posso apelar para os preconceitos do leitor: você acha que, após décadas na Cúria Romana, ele não precisaria estar muito impressionado para usar palavras tão duras?