Savarese continua falando porque não sabe

Pode parecer implicância minha, mas pela segunda vez Maurício Savarese vem exemplificar a caipirice intelectual que passa por jornalismo quando o assunto é religião, e o comentário vale pela oportunidade de explicar algumas coisas.

E vale ainda fazer a seguinte observação: praticamente todo comentário de má qualidade que vejo sobre a religião não vem de burrice (embora às vezes venha), mas de uma pura e simples ignorância dos fatos e da falta de imaginação – por isso usei a palavra caipirice.

Uma caipirice orgulhosa, pertinaz, que não concebe nada fora da sua experiência, que tacitamente presume que tudo aquilo que ela não viu não deve existir – e, se existe, deve ter alguma explicação perversa.

Entender que existem ideias diferentes das suas é a coisa mais fácil do mundo; aceitar que existem motivações diferentes das suas, que você nunca teve, aí é que são elas.

Mas vamos às savaresices do momento:

Ser católico no Reino Unido muitas vezes é o mesmo que ser anglicano.

Então, segundo Maurício Savarese, no Reino Unido, muitas vezes os anglicanos aceitam a autoridade do Papa? E muitas vezes os católicos preparam-se para quando o príncipe Charles for o chefe da “sua” igreja?

A verdade é que o anglicanismo é internamente muito mais dividido do que o catolicismo. Um pequeno ramo da Igreja Anglicana, sobretudo pelos ritos, está próximo do catolicismo, e por isso mesmo é chamado de anglo-católico. A maior parte das conversões ao catolicismo costumam vir desse ramo, naturalmente. Segundo a maneira como os anglicanos falam, as igrejas que têm ritos mais elaborados seguem o estilo high church, e aquelas em que os cultos se resumem mais a preces, cantos e pregações são de estilo low church. A rainha Elizabeth, até onde se sabe, é orgulhosamente low church, e acha, como muitos anglicanos, que quando o negócio começa a ficar muito elaborado já se sente o cheiro do “papismo”.

Eu adoraria que o sr. Savarese explicasse não para os leitores brasileiros, mas para a rainha Elizabeth II, em que sentido “ser católico no Reino Unido é o mesmo que ser anglicano”.

Mas, apesar do meu comentário, é verdade que o sr. Savarese dá a sua explicação logo depois. A parte mais interessante dela é partir de uma definição dada por quem não é nem católico, nem anglicano.

A religião, parte de um sisma [sic] que os católicos romanos tentam anular, é vista entre os jovens (ao menos entre os meus colegas) como indício de racismo — o que pode ser injusto, mas se confirma na única londrina religiosa que conheço.

Claro que o “sisma” com “s” no lugar de “cisma” nos faz pensar na linhagem espiritual de Emir Sader, com seu inesquecível “Getulho Vargas”. Mas se eu for analisar as influências do sr. Savarese, não termino hoje esse texto, nem o que ainda pretendo fazer.

O fato, para começar, é que os católicos romanos não “tentam anular” o cisma entre catolicismo e anglicanismo. O papa Bento XVI criou um ordinariato para que os sacerdotes e fiéis anglicanos que quisessem converter-se ao catolicismo tivessem um ambiente mais favorável. Isso não veio do nada: após as muitas inovações recentes na Igreja Anglicana, como a ordenação de mulheres, muitos passaram para Roma – eu ia dizer “cruzar o Tibre”, mas o sr. Savarese não ia entender – e depois voltaram, sentindo-se desajustados. O ordinariato permite uma espécie de migração coletiva, digamos.

“Tentar anular o cisma” seria outra coisa. Seria tentar fazer com que o rei da Inglaterra abrisse mão de ser chefe da Igreja da Inglaterra e fazer com que o arcebispo da Cantuária de algum modo se submetesse ao papa. A Igreja Católica tenta “anular o cisma”, por exemplo, com a Igreja Ortodoxa Russa, e há comissões de ambos os lados que trabalham exclusivamente para isso.

E isso tudo mal começa a descrever toda a questão. São só meros fatos que o nosso correspondente ignora.

Agora, do ponto de vista meramente retórico, eu gostaria de reescrever a frase de Savarese assim: “O judaísmo é visto entre os jovens (ao menos entre meus colegas) como indício de avareza – o que pode ser injusto, mas se confirma na única judia que conheço.”

Ficou claro? Você pode manter a estrutura e colocar o grupo que você quiser no lugar, e ver como isso vai soando a seus ouvidos. É um teste para você conhecer seus preconceitos.

Se o próprio sr. Savarese acha a colega racista, a explicação que ele dá é sensacional:

Há poucas semanas, ela contou a outras meninas que não se sente atraída por negros nem indianos. Escândalo geral. “Não sei como ela pode dizer isso e pensar que ninguém vai ligar”, diz uma amiga, bastante ofendida. “Típica anglicana.” É também verdade que o sentimento anticlerical é amplo entre um grupo de mestrandos bastante liberais.

Mesmo que Savarese tente atribuir o julgamento de racismo ao grupo, no parágrafo anterior ele estava “confirmado”. Agora sabemos que é por falta de atração sexual.

Não basta respeitar, tem de desejar também?

Mas vamos botar isso na conta do que ele não sabe.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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