A visão de Eros

Forewords and Afterwords

W. H. Auden. Trad. Pedro Sette Câmara. “The Protestant Mystics”, Forewords and Afterwords. New York: Vintage Books, 1974. pp 63-69

Metade da literatura erudita e popular produzida no Ocidente durante os últimos quatro séculos baseou-se na falsa premissa de que se uma experiência é excepcional ela também é, ou deveria ser, uma experiência universal. Sob sua influência, tantos milhões de pessoas persuadiram-se de que estavam “apaixonadas” (1), quando suas experiências poderiam ser completa e precisamente descritas pelos palavrões mais brutais, que às vezes surge a tentação de duvidar de sua autenticidade, mesmo quando, ou especialmente quando, parece que foi a nós que ela aconteceu. No entanto, é impossível ler certos documentos, como La Vita Nuova, muitos dos sonetos de Shakespeare ou o Banquete e simplesmente descartá-los como se fossem falsificações. Todos os relatos da experiência estão de acordo quanto aos pontos essenciais. Como a visão da Dame Kind (2), a visão de Eros é uma revelação da glória das criaturas, mas se na primeira é a glória de uma multiplicidade de criaturas não-humanas que é revelada, na segunda é a glória de um único ser humano. Mais uma vez, enquanto na visão da Natureza a consciência da sexualidade não está presente, na visão erótica ela sempre está – ela não pode ser experimentada por eunucos (mas pode ocorrer antes da puberdade), e ninguém nunca jamais se apaixonou por alguém que não achasse sexualmente atraente – mas o desejo físico fica sempre, e sem qualquer esforço da vontade, subordinado ao sentimento de maravilha e reverência diante da presença de um ser sagrado: por maior que seja seu desejo, o amante sempre se sente indigno de consideração pelo amado. É impossível considerar que estes relatos sejam poetizações sofisticadas de qualquer um dos três tipos de experiências eróticas não-místicas que conhecemos. Não se trata de luxúria pura e simples, o reconhecimento desinteressado de alguém como um objeto sexual desejável, pois sempre que alguém enxerga outra pessoa como um objeto, sente-se superior a ela, e o amante se sente inferior ao amado. Também não se trata de obsessão sexual, a experiência de Vénus toute entière à sa proie atachée (3), em que o desejo invadiu e possuiu a pessoa inteira até fazer com que ela deseje não a satisfação sexual, mas a completa absorção da outra pessoa, corpo e alma, em si mesma (4); neste estado, o sentimento dominante não é de indignidade, mas de angústia, fúria e desespero pela incapacidade de se conseguir aquilo que se deseja. Não se trata, ainda, daquela saudável mistura de atração física mútua e filia, um gostar pessoal e recíproco baseado em interesses e valores comuns, que é a base mais segura para um casamento feliz, pois neste estado o sentimento dominante é de respeito mútuo entre iguais.

Além disso, todos os relatos concordam que a Visão de Eros não pode sobreviver por muito tempo se as partes tiverem uma relação sexual efetiva. Não foram apenas as condições sociais de uma era em que os casamentos eram arranjados pelos pais que fizeram com que os poetas provençais afirmassem que casais casados não podem estar apaixonados. Isto não significa uma pessoa não deve de jeito nenhum casar com a outra pessoa cuja glória lhe foi revelada, mas o risco de fazê-lo é proporcional à intensidade da visão. É difícil viver dia após dia, ano após ano, com um ser humano comum, nem muito melhor nem muito pior do que você mesmo, depois de tê-lo visto transfigurado, sem sentir que o esmaecer da visão é culpa dele. A Visão de Eros parece ser muito mais influenciada por condições sociais do que qualquer uma das outras. É essencial ter tempo livre e não estar ansioso por causa de constrangimentos financeiros; um homem que precisa trabalhar dez horas por dia para não morrer de fome tem outros assuntos com que se preocupar: ele está ocupado demais com as necessidades práticas para pensar em algo mais que sua necessidade sexual de uma mulher e sua necessidade econômica de uma boa mãe e dona-de-casa. E parece que o amado deve pertencer à classe de pessoas a que o amante, em sua criação, foi acostumado a considerar iguais ou superiores. Não se pode, aparentemente, apaixonar-se por alguém considerado inferior, mais uma coisa do que uma pessoa. Assim Platão, apesar de ter passado a reprovar a homossexualidade na velhice, só pôde conceber o amado como um homem em sua adolescência ou juventude porque, na Atenas do seu tempo, as mulheres eram consideradas seres essencialmente inferiores.
O efeito da visão sobre a conduta do amante não se restringe a seu comportamento em relação ao ser amado. Mesmo em suas relações com outros, a conduta que antes de apaixonar-se parecia natural e adequada agora parece vil e ignóbil. Mais ainda, na maior parte dos casos, a experiência não leva, como poder-se-ia esperar, a uma espécie de quietismo erótico, uma contemplação extática do amado acompanhada da exclusão dos outros e do mundo. Pelo contrário, ela normalmente libera uma torrente de energia psíquica para ações que não estão de modo algum diretamente relacionadas ao amado. Quando está apaixonado, o soldado luta com mais bravura, o pensador pensa com mais clareza, o carpinteiro trabalha com mais habilidade.

A Igreja, cuja preocupação intelectual e institucional em relação aos assuntos sexuais é, e deve ser, primariamente com o casamento e a família, sempre viu com o máximo de suspeita a Visão de Eros, o que é compreensível. Ou ela a descartou como a uma fantasia, ou a condenou diretamente, sem tentar entendê-la primeiro, como idolatria da criatura e paródia blasfema do amor cristão por Deus. Sabendo que o casamento e a visão são incompatíveis, a Igreja temeu que ela fosse usada como desculpa para o adultério – como de fato é freqüentemente. Todavia, a condenação sem compreensão raramente funciona. Se o amante idolatra o amado, não se trata daquilo que comumente referimos por idolatria, em que o adorador torna seu ídolo responsável por sua existência. Este tipo de idolatria certamente pode acontecer na relação entre os sexos. Casos de homens e mulheres que matam a si e ao outro porque o objeto de sua afeição não a retribui, ou ama outra pessoa, podem ser lidos quase diariamente nos jornais, mas sabemos que eles não podiam estar verdadeiramente apaixonados. O verdadeiro amante naturalmente preferiria que sua amada retribuísse seu amor em vez de recusá-lo, e preferiria que ela estivesse viva e visível a morta e invisível; mas, se ela não pode retribuir o seu amor, ele não tenta obrigá-la por meio da força ou de chantagem emocional, e se ela morre ele não comete suicídio, mas continua a amá-la.

As duas tentativas mais sérias de analisar a Visão de Eros e dar-lhe uma significação teológica foram feitas por Platão e Dante. Ambos concordam em três pontos: 1. a experiência é uma revelação genuína, não uma ilusão; 2. o modo erótico da visão prefigura um tipo de amor em que o elemento sexual é transformado e transcendido; 3. uma vez que alguém chegou a ver a glória do Incriado revelada indiretamente na glória de uma criatura, depois desta experiência só ficará completamente satisfeito com um encontro direto com o primeiro. A respeito de tudo mais, eles discordam radicalmente. Uma das diferenças mais importantes entre eles é nublada pela inadequação do nosso vocabulário. Quando eu digo “Fulano tem uma bela figura”, e quando eu digo “Elizabeth tem um belo rosto” ou “era bela a expressão no rosto do Mary”, tenho que usar o mesmo adjetivo, ainda que eu queira dizer duas coisas totalmente diferentes. A beleza na primeira afirmação é uma certa qualidade pública de um objeto; estou falando a respeito de uma qualidade que o objeto tem, não a respeito do que ele é. Se (mas somente se) um número de objetos pertence à mesma classe, posso compará-los e colocá-los em ordem de acordo com o grau de beleza que eles possuem, do mais belo ao menos belo. É por isso que, mesmo entre seres humanos, é possível fazer concursos de beleza para eleger a Miss América, e é possível para um escultor experiente descrever em termos matemáticos as proporções da figura masculina ou feminina ideal. A beleza neste sentido é um dom da Natureza ou da Sorte, e pode ser tomado. Para se tornar Miss América, uma garota precisa ter herdado uma certa combinação de genes e ter conseguido escapar de doenças desfigurantes ou acidentes que a aleijassem, e, por mais que ela faça dieta, não pode sonhar que vai ser Miss América para sempre. A emoção despertada por este tipo de beleza é uma admiração impessoal; no caso de um ser humano, também pode ser um desejo sexual impessoal. Posso querer dormir com a Miss América, mas não tenho nenhuma vontade de ouvi-la falar sobre si mesma e sua família.

Quando digo “Elizabeth tem um belo rosto”, quero dizer algo completamente diferente. Ainda estou me referindo a algo físico – não poderia fazer tal afirmação se fosse cego – mas esta qualidade física não é uma dádiva da Natureza, mas um criação pessoal cuja autoria atribuo a Elizabeth. A beleza física me parece uma revelação de algo imaterial, da pessoa que eu não posso ver. Neste sentido, a beleza é sempre única: não posso comparar Mary e Elizabeth e dizer qual das duas tem um rosto mais belo. A emoção provocada é o amor pessoal, e, mais uma vez, este é sempre único. Na medida em que eu ame tanto Elizabeth quanto Mary, não posso dizer qual das duas amo mais. Finalmente, dizer que alguém é belo neste sentido também é sempre um julgamento moral favorável. Posso dizer: “X tem uma bela figura, mas é um monstro”. Não posso dizer: “Elizabeth tem um belo rosto, mas é um monstro”.

Sendo criaturas, os seres humanos têm uma natureza dupla. Como membros de uma espécie mamífera que se reproduz sexualmente, cada um de nós nasce macho ou fêmea, e com uma necessidade impessoal de acasalar-se com uma pessoa do sexo oposto (5); todo membro da espécie viverá com isto, a menos que seja imaturo ou senil. Como somos pessoas únicas, somos capazes – mas não somos obrigados – de entrar em relações amorosas únicas com outras pessoas. Portanto, a Visão de Eros é também dupla. O amado sempre possui algum grau daquela beleza que é uma dádiva da Natureza. Uma garota que pese 100 quilos e uma mulher que pese 40 podem ambas ter belos rostos no sentido pessoal, mas os homens não se apaixonam por elas. O amante, é claro, tem consciência disto, mas para ele a beleza do amado como pessoa é infinitamente mais importante. Ou, ao menos, é o que diz Dante. Para nós, é muito curioso que Platão, em sua descrição, pareça desconhecer aquilo que chamamos de “pessoa”. Ao falar de beleza ele sempre parece se referir à beleza impessoal, e ao falar de amor à admiração impessoal.

[O amante] deve principiar amando coisas terrenas por sua absoluta amabilidade, subindo a ela como que por degraus ou passos, do primeiro ao segundo, e daí para todas as formas belas; e das formas belas para a bela conduta, e da bela conduta para os belos princípios, até que dos belos princípios chegue ao princípio último de tudo, e descubra o que é a Beleza absoluta. (6)

Quanto mais estudo esta passagem, mais confuso fico, e me ponho a conversar com o fantasma de Platão, dizendo:

“(1) No que diz respeito às coisas terrenas, concordo que posso comparar dois cavalos, ou dois homens, ou duas provas do mesmo teorema matemático, e dizer qual dos dois é mais belo, mas você pode por favor me dizer como é possível comparar um cavalo, um homem e uma prova matemática e dizer qual deles é mais belo? (7)

“(2) Se, como você diz, existem graus de beleza e o mais belo deve ser o mais amado, então, no nível humano, todos deveríamos ter o dever moral de nos apaixonarmos pelo ser humano mais belo que conhecêssemos. Com certeza é uma grande felicidade para todos os envolvidos que todos falhemos no cumprimento do nosso dever.

“(3) É bem verdade, como você diz, que um belo princípio (8) não fica careca ou gordo, nem foge com outra pessoa. Por outro lado, um belo princípio não pode sorrir para mim ou me dizer olá quando eu chego a algum lugar. O amor de um ser humano pode ser, como você diz, uma forma inferior do amor a um princípio, mas você tem que admitir que é muito mais interessante.”

Quão diferente, e mais compreensível, é o relato de Dante. Ele vê Beatriz, e uma voz diz: “Agora você viu sua beatitude” (9). Dante certamente acha que Beatriz é bela no sentido público de que qualquer estranho diria que ela é bela, mas jamais passaria por sua cabeça perguntar se ela é mais ou menos bela do que outras meninas florentinas da mesma idade. Ela é Beatriz e pronto. E a coisa essencial a respeito dela é que ela é – Dante está absolutamente certo disto – uma pessoa “agraciada” (10), e portanto Dante, como cristão, está convencido de que sua alma está entre os redimidos no Paraíso, e não entre os perdidos no Inferno. Ele não conta exatamente quais foram os erros e pecados que quase o levaram à perdição, nem os conta Beatriz quando os dois se reencontram, mas ambos falam deles como atos de infidelidade a ela, isto é, se ele tivesse permanecido fiel a sua visão de uma criatura humana, Beatriz, ele não teria cometido ofensas contra seu Criador comum. Apesar de ter sido infiel a sua imagem, ele, porém, jamais a esqueceu completamente (a ascensão platônica torna o esquecimento de uma imagem de um grau inferior uma obrigação moral), e é esta lembrança, o fato de que ele nunca deixou completamente de amá-la, que torna possível que Beatriz intervenha do Céu para salvar sua alma. Quando, por fim, eles se reencontram no paraíso terrestre, ele re-experimenta, de modo infinitamente mais intenso, a visão que teve da primeira vez que se viram na terra, e ela fica com ele até o último momento, quando ele se volta para “a fonte eterna”, e mesmo assim ele sabe que os olhos dela estão voltados para a mesma direção. A Visão de Eros não é, de acordo com Dante, o primeiro degrau de uma longa escada: só há um passo a dar, da criatura pessoal que pode amar e ser amada até o Criador pessoal que é Amor. E nesta visão final, Eros é transfigurado mas não aniquilado. Na terra colocamos o “amor” acima do desejo sexual e da amizade assexuada porque ele envolve todo o nosso ser; não, como estes, só uma parte dele. Não importa o que mais seja afirmado pela doutrina da ressurreição do corpo, ela afirma a importância sacra do corpo. Como diz Silesius, temos uma vantagem sobre os anjos: cada um de nós pode se tornar a noiva de Deus. E Juliana de Norwich: “Naquele ponto mesmo em que nossa Alma se torna sensível, daquele ponto mesmo a Cidade de Deus é ordenada para Ele sem começo.”

(1) N. do T.: “In love”, no original. A tradução da expressão é bem difícil.

(2) N. do T.: Auden se refere ao trecho anterior do ensaio, em que descreveu visões místicas da natureza. O termo “Dame Kind” aparentemente não tem similar nem aproximação em português.

(3) N. do T.: “Vênus totalmente agarrada à sua vítima.” Racine, Phèdre. Ato I, cena 3, versos 305-6.

(4) N. do T.: São Tomás de Aquino dá conta destas três experiências com sua distinção entre “amor de amizade” e “amor de concupiscência”. Ver Suma Teológica, primeira parte da segunda parte, questão 26.

(5) N. do T.: Vale observar que W. H. Auden era gay; porém, era o único gay religioso (anglicano) que declarava: “Sou gay, mas sei que é pecado”. O interessante, neste ponto, é ver como Auden admite a necessidade de reprodução como um dado natural da espécie sem utilizar um argumento idealista do tipo “a sexualidade é uma construção social”, tão comum hoje em dia.

(6) N. do T.: As traduções deste trecho de Platão (Banquete, 211c; Auden não teve a bondade de citar) trazem grandes variações. Como exemplo, cito a tradução do mesmo trecho diretamente para o português por J. Cavalcante de Souza (O Banquete. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. 8ª ed. p. 174):

“… começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para todos os belos ofícios, e dos ofícios para as ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo.”

Existem diferenças grandes demais entre as duas traduções. A solução (não ideal, é claro) para o problema foi consultar o trecho original do Banquete e ver quais foram os termos utilizados por Platão, e depois buscá-los no Abregé du dictionnaire grec-français de A. Bailly.

Onde temos “forms” / “corpos”, o trecho original traz σώματα, o que (no nominativo) é traduzido pelo dicionário como “corpo”. Depois, επιτηδεύματα, que “no plural (como está, no caso) significa modos, hábitos de vida, costumes” – ou seja, “conduta”. O significado de “ofício” valeria só para a palavra no singular, mas ela veio no plural. Por fim, μάθημα, “estudo, ciência, conhecimento”.
Assim, a gradação proposta por Platão (por Diótima através de Sócrates através de Platão) vai da contemplação dos belos corpos à contemplação das belas condutas e desta vai para a beleza em si, ou seja algo meramente estético (lembrando que esta palavra tem em grego o sentido de “sensível”), depois algo moral – ligado à alma, portanto – e por fim algo “absoluto”.

(7) N. do T.: O leitor pode ter achado a nota anterior uma digressão absurda, mas aqui fica claro que, como Platão se referiu à beleza dos corpos, Auden não pode incluir a prova matemática. Mesmo assim, se considerarmos o trecho que fala de “coisas terrenas”, uma prova matemática só existe na alma, e não no mundo material. Por fim, seria fácil responder a Auden dizendo apenas que não se pode comparar objetos que pertencem a espécies diferentes; mais fácil ainda lembra-lo de que ele mesmo usou este argumento pouco antes de falar da Miss América.

(8) N. do T.: Conhecimento, numa tradução mais fiel ao termo original de Platão.

(9) N. do. T.: “Beatitude”, no original. A palavra quer dizer “felicidade”, mas uma espécie de “felicidade celestial”. Lembremos que a Igreja Católica tem santos e “abaixo” destes os “beatos” ou “bem-aventurados”. Auden tinha paixão por filologia e certamente escolheu esta palavra com pleno conhecimento de sua origem.

(10)N. do T.: Mesma observação anterior. “Graced person”, isto é, alguém que recebeu alguma graça da Providência. Não traduzi por “abençoada” para preservar a raiz, respeitando a opção de Auden de não usar “blessed”.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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