Bakunin & Belinsky segundo Tom Stoppard

The Coast of Utopia: Voyage. New York: Grove Press, 2002.

BAKUNIN: Você disse que nós não temos literatura.

BELINSKY: É isso que eu escrevo. Não temos mesmo. Temos algumas obras-primas, como é que não teríamos, somos tantos, um grande artista vai aparecer de tempos em tempos em países bem menores do que a Rússia. Mas como nação não temos uma literatura porque aquilo que temos não é nosso, e sim uma festa em que todo mundo tem que vir vestido de outra pessoa – Byron, Voltaire, Goethe, Schiller, Shakespeare ou algum outro… Eu não sou artista. Minha peça era ruim. Não sou poeta. Um poema não pode ser escrito por um ato de vontade. Enquanto estamos nos esforçando ao máximo para estar presentes, um poeta de verdade fica ausente. Nós podemos observá-lo no momento da criação, ali está ele, segurando a caneta, que não se mexe. Quando ela se mexe, já perdemos. Para onde ele foi naquele momento? O sentido da arte está na resposta a esta pergunta. Descobri-lo, entendê-lo, saber a diferença entre quando acontece e quando não acontece, esse é o grande objetivo da minha vida, e essa vocação não é desprezível num país onde nossas liberdades não podem ser discutidas porque não temos nenhuma, e não se pode discutir ciência ou política pela mesma razão. Aqui o crítico literário tem de trabalhar dobrado. Se alguma coisa verdadeira pode ser compreendida sobre a arte, alguma coisa vai ser compreendida sobre a liberdade também, e sobre a ciência e a política e a história – porque tudo no universo está se desenrolando simultaneamente com um propósito, do qual o meu é um pedaço. Você tem razão de rir de mim porque eu não sei alemão nem francês. Mas a verdade do idealismo seria clara para mim se eu ouvisse da janela uma frase de Schelling berrada por um homem a cavalo. Quando os filósofos começam a falar como arquitetos, fuja enquanto pode, vem aí o caos. Quando eles começam a deitar regras para a beleza, a partir daquele momento é inevitável que o sangue corra pelas ruas. Quando a razão e o cálculo se tornam critérios para a sociedade perfeita, procure refúgio entre os canibais… Porque a resposta não está em algum lugar como a América esperando por Colombo, a mesma resposta para todo mundo para sempre. A idéia universal fala através da humanidade mesma, e fala de um jeito diferente através de cada nação em cada fase de sua história. Quando a vida interior de uma nação fala através do espírito criativo inconsciente de seus artistas, geração após geração – aí você tem uma literatura nacional. É por isso que não temos nenhuma. Olhe para a gente! – uma criança gigante com uma cabeça minúscula cheia de idolatria por tudo que é estrangeiro… e um corpo imenso e inerte largado em seu próprio excremento, um continente de vassalagem e superstição, uma África de gente que não sabe nada e não tem nada, sem a menor idéia de uma vida melhor, sem nem mesmo a capacidade de inquietar-se, sóbrios ou bêbados, isso é a Rússia, que se mantém unida por informantes da polícia e quatorze patentes de lacaios uniformizados – como é que podemos ter uma literatura? Folclore e modelos estrangeiros, esse é o nosso destino, ficar babando pelas nossas imitações de Racine e Walter Scott – a nossa literatura não passa de um passatempo elegante das classes superiores, como a dança ou o baralho. Como foi que isso aconteceu? Por que este desastre se abateu sobre nós? Porque ninguém nunca acreditou que fôssemos crescer, somos tratados como crianças e merecemos ser tratados como crianças, trancados em armários por mau comportamento, mandados para a cama sem jantar e não ousando sequer sonhar com a guilhotina…

MICHAEL: You said we had no literature.

BELINSKY: That’s what I write. We haven’t. We have a small number of masterpieces, how could we not, there are so many of us, a great artist will turn up from time to time in much smaller countries than Russia. But as a nation we have no literature because what we have isn’t ours, it’s like a party where everyone has to come dressed up as somebody else – Byron, Voltaire, Goethe, Schiller, Shakespeare and the rest… I am not an artist. My play was no good. I am not a poet. A poem can’t be written by an act of will. When the rest of us are trying our hardest to be present, a real poet goes absent. We can watch him in the moment of creation, there he sits with the pen in his hand, not moving. When it moves, we’ve missed it. Where did he go in that moment? The meaning of art lies in the answer to that question. To discover it, to understand it, to know the difference between it happening and not happening, this is my whole purpose in life, and it is not a contemptible calling in our country where our liberties cannot be discussed because we have none, and science or politics can’t be discussed for the same reason. A critic does double duty here. If something true can be understood about art, something will be understood about liberty, too, and science and politics and history – because everything in the universe is unfolding together with a purpose of which mine is a part. You are right to laugh at me because I don’t know German or French. But the truth of idealism would be plain to me if I had heard one sentence of Schelling shouted through my window by a man on a galloping horse. When philosophers start talking like architects, get out while you can, chaos is coming. When they start laying down rules for beauty, blood in the streets is from that moment inevitable. When reason and measurement are made authorities for the perfect society, seek sanctuary among the cannibals… Because the answer is not out there like America waiting for Columbus, the same answer for everybody forever. The universal ideal speaks through humanity itself, and differently through each nation in each stage of its history. When the inner life of a nation speaks through the unconscious creative spirit of its artists, for generation after generation – then you have a national literature. That’s why we have none. Look at us! – a gigantic child with a tiny head stuffed full of idolatry for everything foreign… and a huge inert body abandoned to its own muck, a continent of vassalage and superstition, an Africa of know-nothings have-nothings without notion of a better life, or the wit to be discontented drunk or sober, that’s your Russia, held together by police informers and fourteen ranks of uniformed flunkeys – how can we have a literature? Folk tales and foreign models, that’s our lot, swooning over our imitation Racines and Walter Scotts – our literature is nothing but an elegant pastime for the upper classes, like dancing or cards. How did it happen? How did this disaster befall us? Because we were never trusted to grow up, we’re treated like children and we deserve to be treated like children – flogged for impertinence, shut into cupboards for naughtiness, sent to bed without supper and not daring even to dream of the guillotine…

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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