Meditação carioca

Milhares de professores de literatura no mundo inteiro prezam – que nada, eles consideram uma forma superior de vida – a vagabundagem na Paris do século XIX. Pois eu acho, como sempre achei, que por mais linda que Paris seja, quando você começa a transformar a sua vagabundagem em ideologia, e a justificar-se, é porque você jamais apreciou totalmente a chance de não fazer nada de útil. E acho que o Rio de Janeiro, ao menos das cidades que conheço, é que tem isso distintiva e simultaneamente como praga e maravilha: impelir constantemente seus habitantes a não fazer nada. Pode ser a fundação pisciana da cidade. A vagabundagem não é nossa ideologia, é nosso estado natural, e ela absorve tudo. Morar no Rio é ter a mais pura consciência – ou nem mesmo a consciência, mas o instinto – de que a única razão para se trabalhar é ter dinheiro para ficar um tempo sem trabalhar. E, se você for um pouco como eu, ressentir-se disso às vezes, querendo seriedade, e logo depois não querendo mais…

Autor: Pedro Sette-Câmara

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