A diferença entre o Rio de Janeiro e São Paulo

*Nota: este texto terá muitas generalizações. Se você se sentir ofendido por uma generalização…

Há alguns anos venho explicando a amigos em conversas pessoais o que penso ser a diferença entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Pois uma vez uma senhora numa mesa ao lado da minha já se levantou para me cumprimentar pelo brilhantismo de minha explicação; e eu mesmo sinto que é hora de registrá-la por escrito, para que a humanidade a conheça e, mais importante, não a atribua a outra pessoa. Afinal, há algum tempo descobri que David Foster Wallace usou a mesma imagem que eu mesmo (em minha peça) para falar do sujeito que se jogou do World Trade Center no dia 11 de setembro; e eu, que nunca nem li mais do que meio ensaio de Wallace, agora passarei por plagiário, ou, o que é mais grave, praticante da intertextualidade.

Admito que amigos me ajudaram na formulação dos conceitos e sobretudo nos exemplos, mas a fórmula que enuncia a grande diferença veio desta minha privilegiada cachola. E lá vai: a diferença entre o Rio e São Paulo é que o Rio é uma sociedade aristocrática, com os vícios e as virtudes de uma sociedade aristocrática, e São Paulo é uma sociedade burguesa, com os vícios e as virtudes de uma sociedade burguesa.

O Rio, é claro, foi a capital do Império e depois da República. Ou seja: uma cidade de burocratas, uma sociedade baseada no privilégio. Privilégio que começa com os famosos “PR” inscritos nas portas das casas para anunciar que aquelas propriedades seriam usadas pelo Príncipe Regente. A população interpretava o “PR” como “ponha-se na rua”. (E não falei que “PR” são as iniciais de “privilégio” para evitar a leminskização do cosmos.) Mas eis que cá estamos, todos nos achando privilegiados. Privilégio significa “lei privada”. Por isso o Rio deve ser a capital mundial dos concurseiros, que têm algo como zero de espírito de serviço público, e cem de espírito de obtenção dos privilégios da burocracia. Por isso também o Rio é uma cidade onde absolutamente tudo é pessoal. Para você ir num restaurante e ter uma boa experiência, é preciso conhecer o maître, os garçons, ou ao menos ter aquele clique inicial de simpatia na hora de chegar. Não existe nenhum atendente no Rio, do setor público ou do privado, que acredite que sua obrigação é atender, gostando ou não de quem será atendido. Por isso o Rio é a cidade da afetação perpétua de intimidade, que só direi que esconde um enorme desprezo se o leitor aceitar que esse desprezo significa que o outro de fato é imediatamente esquecido.

Mais ainda, no Rio de Janeiro é preciso conhecer as pessoas. Nosso elitismo é em parte de classe, em parte grupal. Nossa classe está aberta a quem imitar nossos trejeitos. Daremos tudo a um dos nossos, mesmo que seja uma besta, e negaremos tudo a quem não for um dos nossos. Quantas vezes não vi, nas duas faculdades de Letras que frequentei, na PUC e na UFRJ, alunos talentosos que desconheciam certas regras de traquejo social – que, em suma, traíam sua origem social pobre – serem desprezados por professores – sem que nem soubessem que estavam sendo desprezados? Esses pobres alunos não entendiam que fazer a pose era mais importante do que estudar.

Mas há as virtudes, claro, e a primeira virtude é que no Rio de Janeiro a ideia de cultura não é estranha à vida, porque para um aristocrata ela é normal – tão normal que ele não precisa ficar falando dela. Jamais um carioca vai convidar você para ver quantos livros ele tem. Ele tem livros. Por quê? Você não tem? Que coisa. Isso tudo faz com que a discussão no Rio seja mais leve ou ao menos mais fluente. Se estamos discutindo, é porque naquele momento somos iguais. Não estamos questionando um as credenciais do outro, estamos só falando daquilo que pensamos, não esperamos que venha daí nenhuma consequência prática. Por isso o carioca fala o que pensa e nunca interpreta isso como arrogância. Nosso parâmetro é outro. (Não que aquilo que o carioca pensa seja necessariamente mais bem pensado.)

Outra virtude é que o carioca está sempre à vontade. As pessoas podem achar que eu sou intelectual, e olha que eu até tenho um par de óculos com aro mais grosso, mas é muito difícil encontrar alguém no Rio que queira ostentar uma identidade. O sujeito é surfista no verão, um dia corta o cabelo punk, vai em todos os lugares, e entende que tudo isso é meio que só de brincadeira. Em São Paulo não. Em São Paulo há punks. De verdade. Que acreditam no punk. Um carioca pensa nisso, diz “hã?” e esquece.

E essa é a chave para pegar o que há de burguês em São Paulo. Se no Rio todo mundo parece filho de um aristocrata decadente, em São Paulo todo mundo parece filho do dono do armazém, mesmo que seja bilionário. São burgueses que se ilustram e não conseguem deixar de se orgulhar de sua ilustração, de querer alardeá-la. Cultura é outro objeto que se adquire e que se ostenta. É como um Porsche, que, bem, você não compra para deixar na garagem.

Por isso também, como falei, o paulista tem uma identidade. Ele é um hipster, ou não gosta de hipsters. É punk, ou skinhead, ou não gosta deles. Ele estudou “na Poli” ou “no Largo de São Francisco” e acha isso o máximo. (Não estou dizendo que não seja.) Aqui no Rio a gente não tem orgulho de onde a gente estudou. Porque nós somos deuses. Já éramos especiais e o lugar é que ficou mais especial com a nossa presença. É por isso também que emporcalhamos tudo. Um deus não liga para nada. (Ver, a esse respeito, a cena de O Leopardo em que o Príncipe de Salina explica por que as estradas sicilianas são tão sujas.)

O GattopardoO Leopardo

Por ser burguês, o paulista sabe o quanto as coisas custam. Sabe que sua posição no mundo é frágil, e depende de ele não criar muitos problemas. Isso é verdade, não estou negando. Mas essa atitude leva a uma diplomacia extremada nas relações. Vou dar um exemplo. Certa vez, há muitos e muitos anos, dei um breve curso em São Paulo, e os alunos me perguntaram o que eu achava de tal livro. Peguei o livro, dei uma olhada, e no dia seguinte falei: “Acho uma fraude. Ele pegou trechos de um livro antigo, que eu conheço muito bem, traduziu e não deu crédito. Aliás, ele reproduziu a fraude de outro autor que já tinha feito a mesma coisa com o mesmo livro. Gente, traduzir e dizer que é seu é fraude.” Pois o diretor do lugar onde dei o curso – uma pessoa boníssima, sem a menor ironia – veio dizer que minha postura era “agressiva”. Mas, caramba, agressão é você vender gato por lebre. A lição que levei foi que em São Paulo estamos sempre pisando em ovos. Mesmo quando o interlocutor diz que não estamos, que podemos falar abertamente.

Claro que o melhor lado de São Paulo é a eficiência. O paulista compreende bem as relações impessoais. Todos os garçons do Brasil deveriam ser paulistas, ou ter treinado em São Paulo. Mais ainda, o paulista busca realmente a qualidade. Você vê isso porque o nível médio de tudo é mais alto em São Paulo. O Rio é uma cidade de extremos; num dia é perfeita, no outro dia é um inferno, e você nunca sabe qual personalidade ela vai assumir. São Paulo ao menos é constante. O que é bom é bom, o que é ruim é ruim, e você já conhece.

O paulista também é um manso, em comparação com o carioca. Há não tanto tempo cheguei numa estação de metrô umas seis da tarde. Tinha gente demais. Cheguei a pensar em desistir. Porém, na minha perplexidade fiquei olhando aquela gente toda e… percebi que as pessoas estavam ordeiramente organizadas numa fila. Era apertado, mas pacífico. No Rio, qualquer aglomeração daquelas no metrô me daria praticamente a certeza de uma convulsão social. Por isso também o trânsito em São Paulo pode ser de maneira geral muito mais intenso, mas também é muito mais civilizado. Porque o paulista, burguês cioso, não vai arriscar suas propriedades como o carioca, esse divino temerário.

O Rio é essencialmente um balneário, mas nós cariocas estamos convencidos de que é o melhor lugar do universo. Quando vou à praia no Posto 6 e tiro a cabeça d’água e vejo as montanhas de Niterói num dia sem névoa, é isso que eu penso. Nós, cariocas, somos aristocratas decadentes e meio delirantes. O Rio é nossa droga, é a cidade que nos maltrata e também nos estonteia. Sua beleza não é nosso mérito: já destruímos praticamente todos os prédios bonitos da cidade (na orla, não consigo pensar em nenhum entre o Copacabana Palace e a Barra da Tijuca). São Paulo é uma megalópole de negócios. Pode impressionar, mas ficar em São Paulo será sempre uma decisão racional, e não pelo menos meio irracional, como ficar no Rio.

Mesmo que no Rio chova muito mais do que se conta. O que é muito chato.

A tragédia (em sentido estrito) dos desabamentos nas favelas

O primeiro uso da palavra “tragédia” é simplesmente “um acontecimento triste”. Falamos em tragédia ao contar que o almoço foi péssimo e ao lembrar da bomba de Hiroshima. Isso demonstra o quanto a palavra, em seu sentido corrente, está desgastada. O sentido que me interessa, é claro, é outro, é o sentido mais estrito, que remonta às tragédias gregas.

Sempre retorno ao assunto, porque meu interesse por ele é enorme. Creio que outra maneira de definir uma situação trágica é ressaltar que, nela, todos os envolvidos são ao menos parcialmente culpados, mas todos os envolvidos têm o poder de resolver a situação por meio da desistência. Creonte ou Antígona poderiam desistir, Édipo poderia desistir, Medéia poderia desistir, e Hamlet não faz outra coisa além de meditar sobre por que não desistir.

As tragédias dos desabamentos nos morros de Niterói e do Rio são tragédias nesse sentido mais estrito. Não são apenas acontecimentos funestos. São acontecimentos que revelam o que existe de trágico no Brasil.

Os primeiros personagens são os favelados. Dizer que eles não são responsáveis por morar nas favelas é tratá-los com uma condescendência vil. Há uma deliberação na escolha da moradia. Quem escolhe morar num lugar que pode simplesmente ser soterrado é responsável por isso. Ainda mais depois das imagens da pousada soterrada em Angra dos Reis.

É claro, porém, que os favelados foram limitados em suas escolhas pelas autoridades. O excesso de legislação, de planos de desenvolvimento, de projetos, de associações ilícitas com empresários — pensemos no lobby das empresas de ônibus — limita as opções de moradia. A deliberação necessária para morar na favela leva em conta o custo das demais opções, custo que, graças ao governo, só faz aumentar. Há também o famoso “alto custo da legalidade”, que leva muita gente, inclusive muita gente de classe média, para a economia informal. Assim, o segundo personagem, o governo, não quer abrir mão de “liderar o desenvolvimento”, nem das benesses advindas da corrupção que o “desenvolvimento” sempre traz.

O terceiro personagem é a parcela da sociedade civil que, dispondo de meios, inclusive materiais, poderia ter-se mobilizado, nem que fosse para pressionar o governo. De minha parte, sempre defendi, seguindo Hernando de Soto, que os favelados recebessem títulos de propriedade de suas moradias. Mas entendo a classe média. Pagando impostos sem parar, é difícil agüentar que pessoas que não os pagam subitamente ganhem riqueza. Bem, um dia nossos antepassados também ocuparam as áreas onde vivemos, é hora de nós mesmos olharmos quietos para a ocupação feita por outros. Simples assim. Poderíamos ter a opção de comprar barracos e urbanizar propriamente as favelas — os favelados que vendessem suas propriedades acreditariam ter feito um bom negócio e todos ficariam felizes. Mas não, a classe média sempre quis que os favelados fossem simplesmente removidos.

Ninguém fala isso porque, oras, se existe algo que você preza acima de tudo, TUDO, é que ninguém pense que você tem inveja. Por isso as favelas são um gigantesco não-assunto. Isso também é trágico. Porque há problemas reais nas favelas. A experiência acaba de mostrar que algumas delas realmente deveriam ter sido removidas, e provavelmente outras deverão também. O fato de as pessoas de esquerda quererem lançar a pecha de “anti-favelados” a qualquer pessoa que quisesse vagamente sugerir que, talvez, sei lá, pô, bem, veja só, aquela encosta é um perigo, é também trágico. Ninguém quer ficar mal visto e mal falado. A esquerda não quer abrir mão da sua auto-ilusão de superiodade moral, isto é, do seu “direito” de linchar.

O impasse trágico está formado. Os favelados não saem, as autoridades não agem, a sociedade não discute, a esquerda chique não quer menos do que uma mudança total de tudo. Todos estão simultaneamente justificados e encurralados. Enquanto isso, há um único risco, real, previsível, que é, como num efeito especial, como num mito de um povo primitivo, o céu e até a terra desabarem sobre as cabeças das pessoas.

As bacantes da Lei Seca

O processo pelo qual uma política pública ganha legitimidade aos olhos de ao menos uma parte da população pode ser inteiramente distinto do processo pelo qual uma política pública tem legitimidade perante as leis maiores de um país. Na frieza e na calma, as leis maiores são elaboradas com o princípio de evitar a perseguição a bodes expiatórios, e a sociedade ganha uma certa paz porque cada indivíduo acredita que ele mesmo não será vitimado para satisfazer os anseios de ninguém. Assim surge a idéia de delimitar a violência e de uma punição proporcional ao crime. A lei é, ou deveria ser, uma autoconsciência de nossa natureza violenta: é por sabermos que queremos o sangue dos bodes expiatórios que criamos o princípio constitucional de que ninguém será obrigado a produzir provas contra si mesmo. Para sacrificar o bode expiatório, precisamos acreditar na sua culpa; coagi-lo a admitir-se culpado é uma forma tão perversa de maldade que sua negação é mesmo um dos princípios basilares da justiça.

Esta é uma questão de Estado. O problema é que o Estado fica nas mãos de governos, e os governos são comandados por políticos. Os quais são eleitos pelo voto direto. E, para eleger-se e legitimar-se, eles precisam sacrificar bodes expiatórios. Collor era o “caçador de marajás” que ia “matar o dragão da inflação com um único tiro” — acho que nenhuma outra campanha presidencial que eu tenha presenciado se baseou tão fortemente no poder do herói para eliminar o Mal, e decerto isso tem a ver com a transformação posterior de Collor em bode expiatório. (Talvez só a legislação brasileira, com seus direitos de imagem etc. etc. etc., tenha impedido até agora a utilização desse material histórico em obras dramáticas — francamente, poucos episódios são tão interessantes, tão abertamente míticos, tão legitimamente trágicos, mas isso é outro assunto.) O fato é que todo político, para ganhar e manter apoio, precisa criar um bode expiatório e matá-lo, e ajuda muito na criação de um bode expiatório se ele já tiver cara de culpado.

Aí entra o motorista embriagado. Sem bater o carro, sem causar acidentes, sem matar ninguém, ele já tem mais cara de Caim do que o motorista sonolento, do que o motorista que dirige devagar demais. O motorista embriagado causa acidentes — eis uma afirmação que desperta a nossa fúria vingativa e legitima a violência contra ele. Acabamos por esquecer que no Brasil já existem legislação e jurisprudência bastante duras, e, creio, bastante sensatas, contra o motorista embriagado que causa acidentes. Sim, eu mesmo acho que, se você dirigir bêbado e matar alguém, você merece o mesmo tratamento que uma pessoa que tenha saído de casa de revólver na mão, e o Estado brasileiro (corrijam-me, abogados), com a idéia de “dolo eventual”, tem uma opinião semelhante.

O detalhe, nada pequeno, é que você pode dirigir embriagado — e não esqueçamos que, para os padrões draconianos da Lei Seca, ter feito uns bochechos com um produto com álcool para limpar a boca e ter tomado 10 doses de uísque não são coisas substancialmente distintas — e não causar acidente nenhum. O argumento de que, ao beber, você aumenta o risco, também é válido para o sono, para a empolgação com a música no som do carro, para a raiva do motorista que, num Honda ou num Toyota (as pessoas em Hondas e Toyotas sempre dirigem devagar), admira a 40 km por hora o fétido mangue da Linha Vermelha, com sua pitoresca casa flutuante, para a mera imprudência que pode haver em sair de carro no Rio em dia de chuva, para qualquer grande preocupação que perturbe a mente. A escolha do motorista embriagado, ou simplesmente do motorista que bebeu e continua tão capaz de dirigir quanto antes, demonstra a arbitrariedade da escolha e, com isso, a natureza da perseguição ao bode expiatório. Não são as ruas que estão ficando mais seguras: é o prefeito Eduardo Paes que está ficando mais bonito aos olhos das pessoas que, em vez de assumir suas responsabilidades e entender que há um risco em meramente sair de casa de carro, querem transferir o mal para aqueles de quem não gostam.

A fúria vingativa provocada pelo ressentimento difuso leva ao desprezo pelos princípios constitucionais. “Vamos encurralar de surpresa esse bando de bêbados e coagi-los a incriminar-se.” O Estado fica nas mãos do governo. A Lei fica na mão de aproveitadores. A sociedade fica à mercê dos políticos, que dirigem os recursos da polícia para a sublime causa de, indiretamente, angariar para eles votos e a reputação de justiceiros.

Um jornal como O Globo pode posar de razoável ao defender as blitzes da Lei Seca, e qualquer pessoa pode afetar indignação diante deste meu texto que as condena. Essa indignação é estruturalmente idêntica àquela que sentimos ao ver alguém afirmar a inocência do bode expiatório de nossa preferência. “Você defende o capitalismo? Então você é a favor da fome!” “Você defende a religião? Então você é a favor da dominação das consciências!” E no entanto, neste caso aqui, o raciocínio é simples: se você acredita que ninguém deveria ser obrigado a incriminar-se, então deveria defender, ainda que a contragosto, que ninguém seja coagido a usar um bafômetro. Isso sim é ser razoável, usar a razão, e não posar de razoável, que é o que o Globo faz e é aquilo que qualquer um faz, rico ou pobre, sofisticado ou tosco, quando quer praticar a violência e ainda assim parecer limpinho e ponderado. Aliás, a diferença entre a sociedade chique e a sociedade feiosa muitas vezes está apenas nos bodes expiatórios que uma e outra escolhem, e na clareza da arbitrariedade da escolha, com a ressalva de que sempre percebemos que os bodes expiatórios escolhidos pelos outros são arbitrários, e muito raramente chegamos a perceber essa arbitrariedade em nós mesmos. Por isso, não nos espantemos: uma gangue de apedrejadores pode ir de terno para o sacrifício, e outra pode ir em farrapos. O que vão fazer, porém, é a mesmíssima coisa.

De como a política corrompe a religião, e mais

No domingo, O Globo me trouxe a notícia não apenas da existência de um movimento católico chamado Apostolado Opus Christi como também de seu apoio a Eduardo Paes. Eduardo Paes? O candidato de Sergio Cabral e Jandira Feghali? Desse espanto nasceu uma intensa busca no Google que durou diversos minutos e me levou ao blog de João Carlos Rocha, líder, chefe e guru do Opus Christi. Em seu convite para o evento que marcaria o apoio oficial à candidatura de Paes veio a seguinte pérola:

O Momento é de grande aflição para a Sociedade Católica, uma vez que políticos CONTRÁRIOS aos princípios de DEUS e de NOSSA SENHORA estão confundindo a população de BEM, ORDEIRA e HONESTA.

Primeiro, não custa observar a mesma velha lenga-lenga: olha só, estamos à beira do abismo, vamos virar Sodoma e Gomorra, por isso vote em mim. Os políticos adoram guerras para aumentar seu poder: guerras materiais ou “espirituais”.

Mas bem. O que chama mesmo a atenção é que agora o candidato de Sergio Cabral e Jandira Feghali é que vá proteger a “Sociedade Católica” dos “princípios de DEUS e de NOSSA SENHORA” (essas letras maiúsculas realmente fazem lembrar o clássico personagem moralista das novelas nordestinas da Globo, brandindo contra o mundo com sua bengala).

Ok, o apoio de Jandira Feghali, a abortista totalitária que mandou invadir a Arquidiocese do Rio, só veio na última hora. Mas o governador Sergio Cabral sempre foi defensor inequívoco do aborto – com preferência para favelados. Também participa oficialmente da Parada Gay. Se o Apostolado Opus Christi acha que a sociedade está correndo tanto perigo assim por causa dos “políticos CONTRÁRIOS aos princípios de DEUS”, provavelmente acha que o risco de não encontrar nenhuma boquinha caso Paes não seja eleito é infinitamente mais abominável.

Logo abaixo, João Carlos Rocha também nos comunica sua felicidade com outra coisa:

Fiquei feliz pelo nosso Presidente Nacional, Deputado Rodrigo Maia ter autorizado a criação do Orgão dos Democratas Católicos.

Então você, católico preocupado e aguerrido, brandindo o cajado dos profetas, agradece publicamente a seu presidente, aquele sujeito que pediu em caráter de urgência que o congresso aprovasse a criminalização da “homofobia” – isto é, dizer alguma coisa que desagrade a um homossexual politizado – , lei que pode vir a proibir você mesmo de vir a angariar votos denunciando a sodomia e a gomorria generalizadas? Isso já nem é mais oportunismo, é pura estupidez. Ou então, sei lá, talvez João Carlos Rocha ache que os princípios católicos consistem na mistura de homossexualismo com censura à liberdade de expressão.

Ah, claro, você pode dizer que eu não falei das opiniões de Eduardo Paes. Mas quais são elas mesmo? Diga-se em defesa do ex-seqüestrador que ao menos ele nunca quis posar de algo que não era.

Infelizmente, como católico, sou obrigado a admitir que basta saber que existe um movimento católico apoiando qualquer político para concluir que nele é que não se deve votar mesmo. Tirando o importante e urgente lobby anti-aborto, toda vez que esses movimentos ou a CNBB resolvem se meter em política…

Os católicos que se ressentem da separação entre Igreja e Estado podem mirar-se neste exemplo. Costumo dizer que eu sou a favor da união entre Igreja e Estado desde que Abraão seja o primeiro ministro, Moisés o presidente, Salomão presidente do STF, David o ministro das forças armadas e, é claro, São Francisco de Assis o ministro do meio-ambiente. Enquanto eu tiver que me contentar com o pessoal do Apostolado Opus Christi, prefiro diminuir o número de oportunidades de depredamento da religião. E você já imaginou a CNBB com poder de polícia? Eu, filotradicionalista religioso e politicamente liberal, iria para a cadeia. Por isso não escondo que advogo essa separação em causa própria.

Em tempo: os leitores habituais já sabem o que eu acho. Acho que o mundo não vai acabar por causa da Parada Gay e acho que negar o direito de propriedade a homossexuais é um crime em tudo equivalente ao simples roubo. Também sou a favor da liberdade de expressão e por isso sou contra o projeto totalitário da criminalização da “homofobia”. Os gays fazem sua parada, quem quiser fala mal, e ninguém vai para a cadeia.

Agora, não é um consolo, mas não é só no terreno de política x religião que vemos o oportunismo esmagar qualquer cheiro de princípio. Na semana passada – quase meus olhos caíram das órbitas quando li – vi que Vladimir Palmeira, um dos presos políticos trocados pelo embaixador seqüestrado por Gabeira, dava seu apoio a Eduardo Paes. Mesmo que seja uma questão de partido, caramba. Ou talvez eu é que seja ingênuo: na cabeça dessas pessoas o partido ainda vem com P maiúsculo, como se tivesse sido grafado por um João Carlos Rocha, além de ser “o” Partido.

Também não julguei que fosse viver para ver a Marta Suplicy – a Marta Suplicy! – atacar seu adversário na campanha para a prefeitura de SP por supostamente (bem, é o que todos dizem naquela cidade) ser gay. Se o mundo mantiver sua coerência atual e me preservar de futuras surpresas, logo o Apostolado Opus Christi também vai apoiá-la, essa grande defensora da moral e dos bons costumes.

Meditação carioca

Milhares de professores de literatura no mundo inteiro prezam – que nada, eles consideram uma forma superior de vida – a vagabundagem na Paris do século XIX. Pois eu acho, como sempre achei, que por mais linda que Paris seja, quando você começa a transformar a sua vagabundagem em ideologia, e a justificar-se, é porque você jamais apreciou totalmente a chance de não fazer nada de útil. E acho que o Rio de Janeiro, ao menos das cidades que conheço, é que tem isso distintiva e simultaneamente como praga e maravilha: impelir constantemente seus habitantes a não fazer nada. Pode ser a fundação pisciana da cidade. A vagabundagem não é nossa ideologia, é nosso estado natural, e ela absorve tudo. Morar no Rio é ter a mais pura consciência – ou nem mesmo a consciência, mas o instinto – de que a única razão para se trabalhar é ter dinheiro para ficar um tempo sem trabalhar. E, se você for um pouco como eu, ressentir-se disso às vezes, querendo seriedade, e logo depois não querendo mais…