Ítaca

Konstantinos Kavafys / Tradução de Jorge de Sena

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado — não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria — nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

Leitura e comentário: 4m22s
[audio:itaca.mp3]

Devido à humana necessidade de férias, o domingo com poesia entra em recesso até 12 de agosto. Quero um tempo para apenas ler.

A julgar pelo número de traduções — conheço mais três, de Ivo Storniolo, José Paulo Paes e Haroldo de Campos — , “Ítaca” é um dos poemas estrangeiros mais amados no mundo da língua portuguesa. Escolhi a de Jorge de Sena porque é a de que mais gosto, apesar de ser a única que traz “Ítaca” no singular no último verso e apesar do péssimo “perante ti“. Em grego, mesmo moderno, o poema parece um tanto misterioso, as palavras oxítonas dão-lhe uma sonoridade um tanto mágica, mas isto acontece à revelia do autor (aliás, ouça-o recitando), que parece evitar, senão a mágica, ao menos qualquer espécie de mistificação, dizendo abertamente que os seres mitológicos são apenas figurações da alma e que a Ítaca mitológica é antes o estado de espírito de quem adquiriu muita experiência. Mas o poema se une ao idioma, e sobretudo a Portugal, não só porque este espírito mais filosófico e menos mitológico parece mais próximo do espírito português, o espírito que contempla o passado mais do que o futuro ou o presente, mas porque Ulisses, o herói que tinha em Ítaca sua terra natal, teria fundado Lisboa durante a longa viagem de volta.

A relação de Ulisses com Ítaca, se une o poema ao idioma português pelo tema das aventuras marítimas, também o separa, e talvez isto explique o amor da lusofonia por ele: este é o tema que falta. Os portugueses navegaram em busca de novos mundos e, segundo o ortônimo Fernando Pessoa, ao fim chegaram a uma inconclusão coletiva:

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Já Ulisses cumpriu-se: navegou a contragosto para Tróia e depois navegou com gosto para voltar a Ítaca. Apesar de o poema freqüentemente ser lido através do clichê “viajar é mais importante do que chegar”, seu primeiro verso menciona um “regresso”, e se ao fim o regressante conhece “o sentido de Ítaca” e a percebe “pobre”, só podemos concluir por sua ambigüidade: de um lado uma Ítaca exterior, sem nenhum outro atrativo além do poder de atração que têm as terras natais, e de outro uma Ítaca interior, que também vale mais pela busca, anulando a recomendação clássica “torna-te aquilo que tu és”, já que aquilo que és, e a que voltas, é pobre. Assim é que o poema de Kavafys encontra um complemento perfeito no Ulisses de Otavio Mora:

Vivo em Ítaca ausente: minha fronte
alargou-se, meus olhos são maiores,
e na memória trago outros países:
Contudo, já foi meu este horizonte,
já fui jovem aqui: olho arredores,
e vejo Ítaca ao longe, sem raízes.

Os dois poemas parecem ser ainda sintetizados por um dos mais famosos poemas ibéricos do século XX, o 22 dos Proverbios y cantares de Antonio Machado:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

O mais curioso do poema de Machado, e que cria uma união mais estreita com os outros poemas, é justamente a menção do mar no último verso. Claro que o mais famoso caminhante sobre o mar de todos os tempos é Jesus Cristo, mas também é claro que não é dele que Machado fala. As estrelas no mar nos levam de volta ao “Mar Portuguez” de Fernando Pessoa:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
(…)
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Mas este céu, conquanto seja um símbolo natural de elevação espiritual, não aparece no poema de Kavafys, que também não tem um abismo; a Odisséia de Homero, por sua vez, tem deuses — outro sentido para o céu — e conta como Ulisses enfrentou-os e venceu-os, atingindo o objetivo horizontal da volta para a casa. O mar, horizontal na superfície, mas vertical em profundidade, é um símbolo natural das paixões, e por isso da alma humana. Se nele estão espelhados o céu e as estrelas, é para que o reflexo atraia e recorde o objetivo; vencem-se as paixões para ganhar o céu. Mas se não há reflexo e a viagem é puramente horizontal, se Ítaca é apenas um pretexto, talvez a popularidade do poema se deva ao fato de apresentar de modo tão elegante, e ao mesmo tempo tão grandioso, a negação da transcendentalidade, que num certo sentido já estava em germe na história do homem astuto que venceu a guerra de Tróia e as contrariedades divinas. Um cristão pode ficar tentado a ver nisto um símbolo da vitória do logos sobre as paixões, mas nada impede que Kavafys dê esta outra interpretação, que simplesmente pula o Cristianismo — mas não tem como pular o simbolismo natural.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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