Dawkins, burrão

Eu vi o letreiro no ônibus: There is probably no God. Now stop worrying and enjoy your life. “Provavelmente Deus não existe. Então pare de se preocupar e aproveite a vida.”

O problema é o “provavelmente”, não é? Porque se houver Deus, você vai “aproveitar a vida” e sofrer pela eternidade. O letreiro é uma reedição em nível Arnaldo Jabor de inteligência da aposta de Pascal. A eternidade é um custo infinito. Colocar as coisas nestes termos não é vantajoso para o lado ateu.

Ainda há o pressuposto bizarro de que pensar em Deus é o contrário de aproveitar a vida. A honestidade me obriga a ressaltar que o enjoy inglês tem o sentido de gozar, desfrutar, de ter prazer mesmo, não de “não desperdiçar”. Até parece que a religião é só mortificação. Foram os monges que inventaram a cerveja, oras. E as pessoas anticlericais adoram ressaltar a conduta hipócrita dos religiosos. Vão a festas, fazem sexo, vivem no pecado. Mas não é isso que os anticlericais querem? Decidam-se, raios.

Já que Dawkins é inglês, deveria conversar um pouco com meu amigo abade.

Tentação & maldição

Quanto mais tento usar as lentes da teoria mimética de René Girard, mais recordo a frase que a serpente disse a Eva no Paraíso: “Sereis como deuses.” Parece que aí está, com o perdão da pomposidade, todo o problema humano.

Primeiro, o problema de ser. “Ser ou não ser, eis a questão.” A impressão de que a vida dos outros é sempre mais intensa e mais perfeita do que a nossa. De que enquanto mal suportamos a banalidade outras pessoas estão “vivendo”. Olhamos os outros como Fernando Pessoa olha a menina que come chocolates em “Tabacaria”.

Segundo, o problema do “como”. O tempo inevitavelmente à nossa frente parece prestar-se a qualquer uso. E quanto mais o tempo está para trás, mais vemos que certas possibilidades se fecharam. Se o tempo é uma folha em branco, como preenchê-la? Aquelas pessoas que “são” mais intensamente do que nós sugerem um “como”. Mas elas são elas, e nós somos nós. E nós, é claro, temos de ser originais. “Seja você mesmo”.

Terceiro, “deuses”. O plural é de grande ironia. Se há deuses, eles não são absolutos. Se não percebêssemos que a promessa da serpente era furada no “como”, o “deuses” não deixaria dúvidas. Isso, é claro, se estivéssemos prestando atenção. Muito fácil para mim dizer isso agora, e continuar caindo nessa promessa falsa a cada 15 minutos. Mas por que caímos? Porque queremos ser deuses. Ou cada um de nós quer ser um deus e fazer da sua vida a perfeita e maravilhosa sucessão de realizações de desejos puramente espontâneos. Ressentimo-nos da banalidade, de não saber escolher um programa de TV, de tudo. Os deuses “são”. Eu não sou. Há aí outra ironia: “sereis como aqueles que são”, remetendo à maneira como Deus se definiu a Moisés: “Eu sou Aquele que é”.

O contexto ainda sugere outra interpretação. Adão e Eva eram dois. “Sereis como deuses… um para o outro. Tirando o fato de que vocês não são de fato Deus, bem…” E daí vem o inferno dos relacionamentos (de todo tipo). Eu deifico certa pessoa, creio que ela “é”, que ela tem as respostas etc. E obviamente ela não tem. Então eu ainda me sinto heróico por ter derrubado aquele ídolo e parto para deificar outra pessoa. A qual faz isso comigo, e depois derruba o ídolo em que me transformou etc.

Não acaba. O demônio não é o “macaco de Deus”? Querer “ser como deuses” é querer macaquear Deus. A serpente quer transformar o homem nela mesma.

Goodbye Illuminati

Uma excelente entrevista com Massimo Introvigne explicando o peso dos Illuminati, e até mesmo que a pirâmide com olho no dólar não é uma insidiosa influência maçônica.

Lidar com o assunto “sociedades secretas” exige que se chegue a um interessante estado psíquico. De um lado, é fácil ficar contaminado pelo espírito paranóico, achando que o mundo vai acabar amanhã e que a humanidade se compõe de gente ingênua (numa hipótese lisonjeira). De outro, é igualmente fácil assumir a postura de total desprezo e dizer que prestar atenção nessas coisas é… coisa de paranóico.

Como o meu maior interesse tem sido a geração de duplos miméticos, não posso deixar de observar que os dois extremos afirmam sua identidade pela negação do outro. O paranóico contra os “ingênuos”, o realista contra os “paranóicos”. A verdade a respeito da questão, assim como todo objeto em uma disputa mimética, tende à irrelevância.

Que é a verdade aí? Bem, conspirações há, mas aparentemente várias, e são escassos os meios de averiguar o sucesso delas. Não se pode repreender quem prefira gastar sua curta vida em investigações com maior chance de sucesso.

Também é verdade que, se o paranóico peca por não perceber que sua própria vida, assim como a das pessoas que ele despreza, é guiada por uma série de automatismos (como a de todo mundo), o “realista” costuma pecar pela mesquinharia, incapaz de perceber que existem pessoas que agem motivadas por princípios e não apenas por um desejo de conforto. O paranóico se ressente de que todos não estudem as mesmas coisas que ele. O “realista” se ressente de que todos não fiquem engordando no sofá como ele.

Getúlio Vargas contra as reformas ortográficas

O grifo é meu, e o autor foi meu tio-avô.

Uma coisa que pouca gente apreciou devidamente é a feição admirável com que Getúlio Vargas dominava a língua. Escrevia claro, sucinto, preciso, sem uma palavra a mais, num estilo limpo e desataviado. As notas que preparava para seus discursos eram admiravelmente arquitetadas e formuladas. Nunca se acostumou às reformas ortográficas, usando sempre as velhas formas de escrever.

José Sette Câmara. Agosto 1954. São Paulo: Siciliano, 1994. p. 20

Indignação ou inveja?

No meu artigo de hoje para o OrdemLivre.org, pergunto-me se os brasileiros revoltados com as benesses dos altos funcionários públicos estão sentindo indignação ou… inveja.

Preconceito contra os protestantes

Todos sabemos que quando se condena “o preconceito” o que se reprova são só algumas más disposições – contra gays e negros, por exemplo. E mesmo que eu creia no direito universal à idiotice, também creio no meu direito de dizer que uma predisposição gratuita e contrária a gays e negros é uma pura idiotice.

Agora, as pessoas que se julgam “esclarecidas” costumam nutrir fortes preconceitos também, o que é muito fácil de demonstrar. Em meu meio social, acho que nenhum grupo é mais implicitamente rejeitado do que… os protestantes.

Eu não sou protestante. Sou católico. Os católicos de um lado crêem que os protestantes são geralmente mais fervorosos do que eles, mas também tendem a julgar os protestantes mais toscos. Eu não tenho muita idéia de como os protestantes vêem os católicos.

Pessoas não-católicas (e algumas católicas) olham para o protestantismo como se ele fosse o último estágio antes da completa dissolução da inteligência. Conversões ao budismo são vistas como um sinal de “esclarecimento”, conversões ao islamismo como um sinal de um desejo de firmeza, e conversões ao catolicismo como um sinal de algo grande e misterioso. Conversões ao protestantismo são vistas, na melhor da hipóteses, como uma lavagem cerebral. Vê-las assim, obviamente, é também pura idiotice.

Sempre nos julgamos a nós mesmos bons e honestos, mas não julgamos que aqueles de quem não gostamos sejam também bons e honestos. Podemos admitir que um neocatólico tenha passado por um longo e árduo processo interior. Não podemos admitir que um neoprotestante tenha passado por algo semelhante?

Admito que os protestantes sejam prejudicados na percepção de sua “identidade coletiva” por sua fragmentação. Ninguém de fora julga que o presbiterianismo e a Igreja Universal do Reino de Deus sejam a mesma coisa. Tanto que o presbiterianismo é recebido com um sentimento mais próximo da indiferença (“o que é isso?”), enquanto a IURD é recebida com asco e horror. Eu nunca entrei numa IURD (e, como católico, nem pretendo; no offense). Mas sei que para 95% das pessoas que conheço admitir-se freqüentador da IURD é o mesmo que admitir ter lepra mental. Todos os atos de um freqüentador da IURD seriam explicados por sua lealdade a esta denominação, sempre usando aquela mesma frase: “Bom, mas fulano vai na Universal, né? Então já viu.”

Não escondo que gostaria de ver as mesmas pessoas que ficam denunciando o uso de palavras como “crioulo” e “bicha” denunciando também o uso pejorativo de “crente”, e que entendessem que falar “essa crioulada” tem a mesmíssima malícia que falar “esse bando de crente”.

Cabe ainda fazer uma ressalva quanto a mim mesmo. Nunca vi um protestante designar-se a si mesmo como “protestante”. Normalmente eles se designam pelo nome de sua denominação particular (“batista”, “presbiteriano”) ou usam a frase “eu vou na [Nome da Denominação]”. Suponho que um protestante, ao ser assim chamado, sinta-se mais ou menos como eu, católico, me sinto ao ser chamado de “papista” (embora eu ache o epíteto um pouco engraçado, para dizer a verdade). Porém, nossa disputa é antiga, e o eu chamá-los assim não é sinal de que eu os menospreze.

Crença, descrença e experiência de mundo

Não faz muito tempo, li um texto de uma atéia americana que discutia a percepção dos ateus pelos não-ateus e aproveitava para falar de alguns argumentos usados a favor da crença em Deus, detendo-se particularmente no I feel it in my heart, que eu poderia traduzir como “é o que percebo em meu coração”. Ela dizia que esse argumento era ridículo. Sob muitos aspectos, é mesmo. Mas ele merece um exame maior.

Acreditamos em certas coisas – quaisquer coisas – por uma mistura de, digamos, raciocínio e paixão. Buscamos uma verdade que esteja acima de nossas predisposições e inclinações pessoais, mas continuamos vivendo segundo essas predisposições e inclinações. Aliás, a própria vida cotidiana nos obriga a vivê-la automaticamente; não é a todo momento que repetimos os mesmos atos de consciência que levaram à percepção de uma determinada verdade, e essa verdade também é transformada em regra semi-consciente.

Por isso é que gosto de fazer o seguinte exercício: em vez de me perguntar simplesmente se tal ou qual proposição é verdadeira, e sob que aspecto ela é verdadeira, também me pergunto sobre as minhas motivações pessoais para adotar uma determinada posição. Ninguém, exceto talvez os que adotam a vida monástica, tem a busca da verdade como objeto perpétuo de suas atividades; caso contrário, jamais comeríamos comidas deliciosas mas pouco nutritivas, nem beberíamos além da conta, nem faríamos nada por pura recreação. Isso também vale para atividades intelectuais; é possível descobrir por que prefiro ler poesia a ler prosa, e por que prefiro ler certos poetas a ler outros, ou por que meu interesse pelo teatro é maior do que meu interesse pelo cinema, e até por que essas preferências podem mudar durante a minha vida.

Foi assim que admiti que o meu catolicismo vem de um misto de fatores subjetivos e objetivos. Eu poderia dizer que o principal fator objetivo, e por isso repetível, está nas cinco provas de São Tomás de Aquino para a existência de Deus – provas que jamais vi ser vagamente refutadas; normalmente, mudam de assunto ou até, na última tentativa que vi, a existência de uma hipótese era mencionada como prova em contrário de uma das teses. Agora, sei bem que dessas provas não se deduz a veracidade da religião católica, tão bem quanto sei que cerca de 120% dos que atacam as provas de São Tomás não percebem que ele também sabia disso. Minha crença em Deus vem de algo objetivo; meu modo de crer, por sua vez, vem de algo subjetivo: do meio em que cresci, dos livros que tive à disposição, de experiências pessoais que, francamente, não tenho por que desprezar. Tenho, para evitar pomposos termos em alemão, uma “experiência de mundo” católica.

Comecei a pensar nesses termos quando percebi que eu também era capaz de algo que chamei de “experiência de mundo atéia”. Via que a juventude é uma espécie de bênção; que ser feio pode ser uma tragédia; que é facílimo viver sem jamais pensar que algo pode acontecer depois da morte; que é possível suspeitar de diversas leituras e da sensação de “preenchimento da alma” que elas trazem (nada mais fácil, e mais demoníaco, do que confundir a vaidade de achar-se sócio-proprietário da verdade com a humildade diante do transcendente); que com facilidade posso afirmar algo porque é conveniente; que o poder de ordenar uma sociedade por meio de modelos transcendentes pode vir de qualquer religião; que olhar para todo esse ceticismo que apresentei e dizer que “prefiro uma postura menos cética” é a mera afirmação de uma preferência; que a má vontade que eu continuo a ver em muitos ateus pode estar perfeitamente presente em muitos crentes, inclusive em mim mesmo.

Ainda assim, continuo católico; não é meu objetivo aqui dar minhas razões, mas só quero dizer que, de todos os critérios que existem para rejeitar a religião, o mais vaidoso é “sou puro demais para ser religioso”.

Francamente, “a experiência de mundo atéia” que descrevi parece um tanto comum entre a gente letrada, e muitos ateus simplesmente têm a coragem de ser fiéis à sua própria experiência, em vez de adotar os termos da experiência de mundo de outras pessoas. Qualquer coisa objetiva que surja em nossas vidas ganha persuasividade pelo contexto, e seria desonesto admitir que as provas de São Tomás não ganham força para quem já crê. Isso não é uma questão teológica, mas psicológica. Trata-se de estar aberto a uma determinada sugestão, qualquer que seja seu conteúdo. Creio mesmo que muitos ateus gostem do que diz Richard Dawkins só porque ele parece uma versão mais assanhadinha de seu próprio ateísmo mísero e mesquinho, um Thomas More que não se dobra diante da pujança intelectual de todas as tias velhas do mundo.

Por isso é que eu gostaria de dizer àquela autora que provavelmente ela é atéia por razões subjetivas, exatamente como muitos de nós somos crentes por razões eminentemente subjetivas, pessoais, por experiências que não podemos repetir e nem podemos ignorar. You too are an atheist because you feel it your heart.

Tendo dito tudo isso, queria ainda observar que o “debate” entre crentes e ateus parece um tanto quanto irremediável. Ninguém quer debater com alguém que faz questão de definir sua identidade pelo desprezo por aquilo que se julga crucial. Escrevi este texto para tentar encontrar um ponto “retórico” em comum com os ateus, mas seria preciso que houvesse outros pressupostos comuns para dissipar um clima de hostilidade e malícia. Um dos pressupostos do famoso “debate”, essa entidade verdadeiramente mítica e transcendente, quase que sempre manifesta apenas na forma de uma “troca de idéias” em que um lado está sempre em desvantagem, é a ausência de competitividade e o estabelecimento de um laço fraternal entre os participantes.

Rock’n'Roll

No OrdemLivre.org, publiquei algumas considerações sobre a peça Rock’n'Roll, de Tom Stoppard – aliás em cartaz no Rio, em montagem excelente.

Dez domingos com poesia de uma vez

Uma das razões de os “domingos com poesia” terem escasseado aqui (além de eu estar mais interessado em teatro do que em poesia) é a Anatomia do poema, seção que escrevi nos três primeiros números da Dicta&Contradicta. Agora que os editores puseram na internet o conteúdo das duas primeiras edições, convido vocês a ler nada menos do que dez comentários que escrevi sobre dez poemas diferentes.

Dicta #1 (poemas sobre amor)

Transforma-se o amador na cousa amada, de Luís de Camões
Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa
Soneto do maior amor, de Vinícius de Moraes
Em despeito do amor profano, de Baltazar Estaço
A vida toda de costas, de Bruno Tolentino

Dicta #2 (poemas sobre morte)

Glosa sobre a Ilíada, de Mimnermo
Despojo triste, corpo mal nascido, de António Ferreira
Apóstrofe à carne, de Augusto dos Anjos
A morte absoluta, de Manuel Bandeira
Uma criatura, de Machado de Assis

Mas há muita coisa boa para se ler nesses dois primeiros números agora na web. Não percam.

Cousas pentelhas da direita

1. Censura. Referir-se à ausência de reprensentatividade de certas idéias ou pessoas na imprensa como “uma forma de censura mais insidiosa, e por isso pior, do que aquela praticada na ditadura”. Já eu prefiro não ir para a cadeia nem ser processado a simplesmente não ver idéias com que eu concordo serem publicadas. Além disso, o pudê da imprensa “de elite” é, penso, gravemente superestimado.

2. Ditadura & opressão. Direita — e esquerda — tratam sua sensação subjetiva de marginalidade cultural como opressão de facto. Melhor ser a criança esquisita da sala que levar surras da professora. Estar no Brasil de hoje e sonhar comparar-se aos perseguidos de URSS, Cuba, Camboja, Alemanha nazista etc. é um insulto a esses perseguidos.

3. Nacionalismo e passadismo. A nação não existe metafisicamente. Ser brasileiro ou indiano é uma circunstância — mais ou menos favorável sob aspectos distintos. “Projeto de nação” pode ser uma coisa linda e pomposa. Na prática, significa tomar o seu dinheiro para — apenas nominalmente — fazer uma coisa que você não quer. Só a síndrome de Estocolmo explica o nacionalismo. O que, fique bem claro, nada tem a ver com gostar do lugar onde se mora. Não sei por que gostar de morar na Zona Sul do Rio de Janeiro seria incompatível com querer mandar o governo federal do Brasil às favas.

3.1. Insistência em culpar o Brasil por tudo. O ambiente pode ser ruim. Você é pior ainda, por não assumir suas responsabilidades. E por não parar de reclamar.

4. Sentimento apocalíptico. Não é nem que o mundo não vá acabar. E sim, provavelmente a vida há uns anos era melhor sob uma série de aspectos. E daí? O negócio é buscar as coisas permanentes, não as circunstâncias de outrora. Seja cristão porque essa é a verdade, não porque “o cristianismo construiu uma civilização” ou porque ele tem “valores”.

5. Pronunciamentos categóricos. Assim como um esquerdista nos denuncia como burguesinhos, também os direitistas adoram fazer pose de superioridade e lançar frases de efeito que servem para esconder sua ignorância, falta de estudo e, francamente, a incapacidade e o desinteresse de ouvir alguma coisa que destoe de certas idéias pré-prontas. Isso pode ser banal, mas o número de tias velhas e virgens a encher o saco só faz crescer. Tias velhas que falam que nas universidades do tal mundo civilizado só se pensa isso e aquilo. E os sobrinhos que nem o pronome “cujo” sabem usar vão acreditando.

6. Confusão entre idéias e pessoas. Sempre que ouço que “o erro não tem direitos”, tenho ganas de responder: “não tem mesmo, pessoas é que têm direitos”.

7. Fetichismo intelectual inviabilizador da vida. “Achei esse livro a respeito desse assunto. Parece bom.” “Não, o melhor livro foi escrito por um padre belga no século XIX, só teve três impressões, mas eu tenho um xerox, porque conheci um grande especialista no assunto, ainda que totalmente anônimo e ignorado por esse mundo maléfico e cruel. Todos os outros livros são um lixo. Só esse cara entendia desse assunto. Quem dá bola para os outros autores é um idiota, um retardado, um imbecil que não deveria abrir a boca.”

8. Amor incondicional por George W. Bush. Ah, mas é porque vocês são estatólatras e não escondem as raízes trotskistas do movimento neoconservador. Bilhões de dólares para banqueiros e nation-bulding (aka “socialismo”) no Iraque? Pelo amor de Deus, vocês nem mesmo estão se beneficiando disso.

Dicta&Contradicta #3

Dicta&Contradicta #3

E nessa edição escrevo sobre cinco poemas cômicos.

Em que faço links

À moda de Alexandre Soares Silva.

  • Sobre esse interessante post de Erico Nogueira (cujo blog está sempre mais interessante), cabe perguntar, sem ter lido os ensaios de T.S. Eliot, se não seria importante fazer uma distinção entre “poesia dramática” e “teatro em versos”. Bruno Tolentino observou que Auden não incluiu o libreto de The Rake’s Progress em seus Collected Poems, mas eu observo que incluiu os textos das peças. Walter Kerr, em How Not to Write a Play, também dizia (se não me engano) que as peças de Eliot mais pareciam “recitais”. Talvez não seja verdade para The Cocktail Party, mas enfim.

  • Artigo meu sobre a lei carioca que obriga ao uso de traduções quando se usar palavras estrangeiras em letreiros.

  • Post no blog do OrdemLivre.org em que levanto a questão ancestral: se alguém pode dizer-se leninista e continuar sendo gente boa, por que não poderia um hitlerista? É realmente o caso de se perguntar o que diriam do nazismo os comunistas do mundo se o pacto entre a URSS e a Alemanha não tivesse sido rompido.

  • Deveras instrutivo esse artigo de Claudio Shikida sobre a razão de o governo querer taxar a poupança.

  • Sobre Haneke e valores absolutos: tenho grande interesse pelo tema e penso que não basta crer em “valores absolutos” para que surjam as bases do terrorismo, porque todos nós cremos em valores absolutos. Até a tolerância pode ser alçada ao posto de “valor absoluto” (e ela, que é uma prática, pode ser transformada numa simples abstração). Até agora creio que a melhor tentativa de explicação está nesse ensaio de Roger Scruton, em que fala sobre o “desenraizamento”. Isso é algo identificável em qualquer lugar, até porque o sentimento de repúdio total ao ambiente parece cada vez menos raro. Queria eu escrever mais agora a respeito, mas é impossível.

  • E depois disso, nada melhor do que este post do Arranhaponte, de onde tirei o conceito de “acachorramento”, que passei a usar quase todos os dias.

Dia sem imposto

20 litros de gasolina. Sem imposto. Nessa segunda, 25 de maio.

www.diasemimposto.com

Norma #1 da vida pseudo-intelectual

Ficar se referindo a autores como se fossem vinhos ou alguma outra espécie de riqueza a ser consumida. Paradoxalmente, essa é a própria concepção burguesa do saber.

“Paradoxalmente” porque o saber tem utilidade. Eu mesmo nunca abri um livro sem ter idéia do que esperava encontrar lá dentro: uma resposta ou ao menos um auxílio para um problema qualquer. Às vezes me escrevem perguntando o que ler. “Leia o que te interessar, ué. Pegue o que você gostaria de entender, uma pergunta qualquer, e saia lendo a respeito.”

Meu tipo ideal burguês, baseado nos burgueses que já conheci — sobretudo naquela próspera cidade ao sul da minha amada ex-capital — é o sujeito que tem uma certa vergonha de levar uma vida baseada na utilidade, produzindo, comprando e vendendo coisas materiais, e por isso gosta de alardear seu amor pelo inútil, como se o reino das artes liberais fosse uma espécie de nuvem sublime no vácuo. Esse é o culto da ilustração, do verniz. Admito que buscar ilustrar-se é melhor do que colecionar selos ou filmes pornográficos.

Admito ainda — nem sou maluco, o próprio Aristóteles já falava disso — que há um prazer no aprendizado. Mas esse prazer é uma decorrência da busca por respostas, e não um fim em si. E, segundo Viktor Frankl, a busca do prazer pelo prazer (se não me engano, é o que ele chama de hiper-intenção em Fundamentos antropológicos da psicoterapia) é uma das causas da frigidez. Uma mudança do alvo certo — desejo por algo, do qual decorre o prazer — para o alvo errado — desejo de prazer.

Mas volto ao burguês. “Nossa sociedade”, para mostrar que eu também sei repetir clichês, tem horror da idéia de utilidade e uma relação problemática com a idéia de finalidade. Utilidade e finalidade parecem coisas capitalistas e, é claro, o capitalismo é mau, mau, mau, uma criação de Anakin W. Bush Skywalker. Não há nada vergonhoso em produzir, comprar e vender. Inclusive objetos chamados “artísticos”, como peças, poemas, canções, quadros etc. E qualquer artista, assim como qualquer pessoa, subordina querendo ou não todas as suas ações a uma finalidade qualquer, o que é tão natural quanto inevitável.

Na hora em que o burguês, que é quem faz o mundo girar — não o político auto-iludido sebastianista imbecil que diz que “gerou empregos” etc — , sair do armário, acho que até a produção intelectual e artística melhoraria. Ele não teria mais vergonha de admitir que as obras precisam atender à finalidade de comovê-lo, de entretê-lo etc. Os artistas e intelectuais abandonariam sua condescendência paternalista para com o público.

Até lá, vai vigorar uma certa esquizofrenia. O sujeito trabalha durante o horário comercial para ser outra pessoa durante o resto do tempo. E essa outra pessoa vai vir à tona nas horas de lazer. Por isso é que a vida intelectual é concebida por esses “burgueses” como uma espécie de grande recreio das letras, indistinto da pesquisa e da investigação.

Anjos e palermas

Outro dia vi na TV uma entrevista do Tom Hanks sobre o filme Anjos e demônios. Ele está ficando cada vez mais com aquela cara de righteous liberal, aquele jeitinho Hillary Clinton de ser. Mas bem. O que eu quero dizer é que me impressionou como os olhos de Hanks brilharam e como sua voz mudou quando ele começou a falar do conclave. Palavras latinas como sede vacante saíam de sua boca como se fossem os segredos do embalsamamento das múmias. A ênfase nas palavras “o ritual para eleger um novo Papa é uma coisa inacreditável” parecia sugerir que nesse ritual algumas virgens tailandesas eram cozinhadas vivas.

Interessante é pensar o seguinte. Pode ser só caipirice dele – então, a essa altura do campeonato, ele ainda não sabe que os cardeais vestem púrpura, que sai a fumaça branca da chaminé quando o Papa é eleito etc? Ou será uma caipirice ainda mais radical e profunda, aquela que por princípio considera ridículo tudo que é diferente ao mesmo tempo em que proclama seu estado “esclarecido”? Mas, por outro lado, na sensação que o Tom Hanks passa de não ter a menor idéia do que fazer com a informação de que a Igreja Católica existe, pode existir uma reverência maior do que a do católico habitual. Ao menos ele está obviamente fascinado por isso.

Next Page »