20 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Cultura, Política, Uncategorized
Vejo pelas ruas a capa da Rolling Stone brasileira com Barack Obama e não deixo de pensar numa coisa: não lembro de negros americanos percebidos como conservadores (falta-me tempo e paciência para discutir a identidade conservadora agora) terem sido igualmente celebrados. Clarence Thomas, nada menos que juiz da Suprema Corte. Colin Powell, Secretário de Estado de 2001 a 2005. E, reunindo as duas virtudes politicamente corretas de ser mulher e negra, Condoleezza Rice, atual Secretária de Estado. Além de seu “conservadorismo”, os três estão ligados aos Bush: daí que não produzam ondas de otimismo.
Não vou negar que a idéia de um presidente americano negro é simpática, e gente que eu admiro considera Obama o mal menor. Mas o que me interessa aqui é mostrar que, melanina por melanina, os três conservadores têm muito mais mérito, e provavalmente mais mérito do que todos os políticos brasileiros juntos (admitindo, é claro, que Clarence Thomas não é um político). O único mérito de Barack Obama é ser o primeiro negro viável políticamente que a esquerda conseguiu produzir. As mesmas pessoas que são capazes de ver Condoleezza Rice tocando piano clássico em público (afinal, boa parte do “jornalismo” consiste em ridicularizar os famosos) dirão que ela deve ser avaliada como todos, por seus méritos, por suas idéias e atos, não por seu coeficiente de melanina. O que é justo. Assim como é justo não dar crédito a Barack Obama só por seu coeficiente - aliás mais baixo - de melanina.
Se a idéia de um presidente negro é simpática, também deveria ser (e é) a idéia de um juiz negro da Suprema Corte, de dois Secretários de Estado negros. Se essas pessoas não têm seus méritos reconhecidos e não geram otimismo, é só porque a divisão ideológica é muito mais forte do que a divisão racial. Os idiotas que se sentem audaciosos por ter esperança não tiveram sua vaidade afagada, porque o que importa não é mostrar-se do lado dos negros no poder, mas de quem quer que confirme para você a sua própria bondade. Isso não é debate. É sedução.
19 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Cinema
Saindo da sessão de O cavaleiro das trevas, vulgo “filme do Batman”, meus amigos mencionaram a crítica publicada nesta sexta no Globo e eu não pude acreditar.
Melhores momentos:
É difícil saber se o Coringa votaria em Barack Obama. Mas conservador como a aristocracia de Gotham, potencial eleitora de John McCain, ele não é.
Que “aristocracia de Gotham”? Ele viu o filme? Ou será que está dizendo que Bruce Wayne votaria em McCain?
No início, a sugestão de uma possível afinidade entre o banditismo e a “audácia da esperança”. Depois, a oposição entre o bandido e o conservadorismo dos potenciais eleitores de McCain. Não é difícil escolher lados. Difícil é realmente equalizar as coisas assim. E eu pensava que minha antipatia a Obama era forte.
Por isso, neste ano de eleição presidencial nos EUA, em que os americanos se dividem entre a opção democrata e a manutenção do poder republicano, cada risada do vilão talha “The Dark Knight” (no original) como alegoria política. Aliás, a alegoria mais perturbadora de 2008, à altura de um filme de Costa-Gavras.
Alegoria do quê? Parece até que o autor da resenha acha que Coringa é Obama e, como Obama pode ser eleito, o Coringa será o novo líder do mundo livre. Se o texto não fosse tão confuso, seria o texto mais virulentamente direitista que já li.
E como o fato de o Coringa não ser “conservador” faz com que suas risadas sejam “alegorias políticas”?
Na verdade, tanto o Coringa quanto o Batman são conservadores. As “ideologias” dos personagens são nuances de conservadorismo. O Coringa acha que a natureza humana é má; ele só quer empurrá-la mais ainda para o mal. O Batman acha a mesma coisa, mas gostaria que o sistema policial e jurídico fosse suficiente para combater o mal; ele se ressente de ser necessário, em vez de querer ficar aumentando o Estado. Discutir mais nesse momento é estragar o filme para quem ainda não viu.
O filme expõe o risco que a anarquia, encarnada no Coringa, traz ao Leviatã decadente que Gotham virou, refém de tradições. A chegada de um inimigo cuja ambição é o caos causa uma instabilidade moral que os EUA só sentiram no 11 de Setembro de 2001, à mercê do medo.
“Refém de tradições” - que tradições? O filme começa justamente com um promotor que representa o renascimento moral de Gotham. Eu não diria que o filme trata de tradições, mas, se for preciso usar essa idéia, bem, é uma nova tradição que está surgindo na cidade.
Mais ainda, nas poucas cenas em que o filme transfere o foco da atenção para a população americana, ela não demonstra nenhuma “instabilidade moral” - exatamente o contrário.
É o caso de perguntar simplesmente: o autor da resenha viu o filme que resenhou? Porque isso está parecendo o velho dilema: “tenho que produzir mil caracteres sobre o filme, mas só tenho o release“.
17 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Cultura, Política
Acho que compreendo o que sente o ateu convicto quando olha para o religioso ajoelhar-se dentro de seu templo. Deve ser a mesma coisa que eu sinto quando vejo alguém dando o mais vago sinal de encantamento com um político: um misto de tédio, cansaço e desprezo. Sei que apoiei o Clodovil há dois posts, e realmente me chama a atenção o fato de ele parecer o político mais dotado de princípios que hoje vive no Brasil; mas digo isso como quem faz, surpreso, uma simples constatação, não como quem enxerga uma nesga de esperança na vida política, o primeiro brilho na aurora de uma longa noite e outras breguices.
O meu ceticismo político é completo, absoluto, acachapante. Ele é sentido mesmo antes de ser pensado. É uma categoria fundamental da minha imaginação. Eu simplesmente não consigo conceber que alguém deseje concorrer a um cargo movido por espírito público, ou melhor, admito que isso é possível, mas não é provável, e muito menos verossímil. Sinto a mesma coisa em relação a todos os governantes, de todos os sistemas políticos, de todos os tempos. Pode até haver inocentes. Mas eu sinto como se eles é que tivessem de se justificar, não o contrário.
Aliás, basta-me ouvir a palavra pólis para começar a sentir náuseas. Mui lindo falar de como a vida política deve conduzir à virtude. Mas não há como fugir da nossa natureza decaída, decaidíssima: ambição razoável é um sistema jurídico que permita minimizar o mal que os governantes podem fazer aos governados. Na prática, isso vira fascismo. Não quero que governo nenhum promova a minha virtude. Isso é só uma precaução.
Admito que esse post é inspirado pela febre obamista. “A audácia da esperança” é um título que não apenas supera toda cafonice, lembrando um filme da Xuxa, como ainda apela para a vaidade. Lembro da frase evangélica adotada por João Paulo II que diz algo semelhante: “Não tenhais medo.” Confie. Espere. Agora, Obama vem fazer você se sentir audacioso por confiar nele, Obama. Não, pelo amor de Deus. É preciso ser muito idiota para cair nesse truque retórico. O Papa ao menos fazia um pedido direto, o que tinha, sob certo aspecto, até alguma humildade (porque obviamente você pode dizer que, humildade por humildade, ele continua sendo o Papa e você continua sendo um zé mané). Que você rejeite o Papa, a religião, vá lá. Agora, rejeitar o “não tenhais medo” evangélico e acreditar na “audácia da esperança” obamista é só uma prova inequívoca de que você nem é um cético, você é apenas um idiota vaidoso que vai se deixar seduzir pelo primeiro político que fizer você se sentir cheio das audácias.
Também me interessa um bocado o fenômeno da inaceitabilidade social do ceticismo político. Você pode declarar seu total ateísmo e ser uma pessoa maravilhosa. Você não pode declarar: “de antemão, eu não acredito em nenhum político, presente, passado, ou futuro, eu só acredito que devemos diminuir o poder da classe política o máximo que pudermos e nos esforçarmos para ser bons em nossa vida privada, e isso aí é o melhor que dá para fazer”. Percebo que algumas pessoas ficam escandalizadas ao ouvir isso da minha boca, exatamente como eu posso ficar ao ouvir uma blasfêmia ou uma imensa bobagem. Estou atacando suas crenças mais profundas. Suas idiotices mais profundas. Suas vaidades mais profundas - aquelas que fazem-nas pensar que são audaciosas ao votar ou colocar um adesivo no carro.
Ah, vão lamber sabão.
15 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Avisos
Em duas partes, para o site do OrdemLivre.org. Discuto um e-mail bizarro que circula com o nome do cronista.
E esse texto de Alexandre Barros sobre o monopólio do petróleo está muito bom.
13 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Política
Quando Clodovil foi eleito deputado, muita gente, “às direitas e às esquerdas” (como se diz em Portugal), disse que tinhamos chegado ao fundo do poço, que o povo brasileiro merecia ser varrido da face da terra por um novo dilúvio. (Claro que quem deseja um novo dilúvio purificador sempre acha que merece estar na arca de Noé, mas isso é outra história.)
Na época fiquei calado porque 1. na verdade não ligo muito para isso, 2. não consigo imaginar de que modo Clodovil seria tão pior assim, e 3. Clodovil sempre teve fama de conservador, admitindo que suas preferências sexuais eram apenas suas preferências e não uma ideologia ou uma cultura. Entre um deputado gay confortável o suficiente com sua opção (ou, na expressão comum, “que se garante”) para não querer prender quem manifestar desaprovação por ela e um deputado heterossexual que graciosamente se curva a um lobby histérico e totalitário, não tenho dúvida de quem é o melhor, nem de quem é mais homem.
Mas o que importa é a compreensão que Clodovil mostra da importância da liberdade. Não se pode criminalizar opiniões e antipatias, nem se pode interferir no uso da propriedade alheia. A discriminação decorre do direito de livre associação. Eu poderia empregar apenas pessoas com cabelo verde e piercing no nariz (daqueles que fazem a pessoa parecer um touro ou que parecem uma melequinha pequena e brilhante) se quisesse, e sem explicar por quê. Eu mesmo arcaria com os custos das minhas preferências.
(Aliás, uma sugestão. Quem gosta de lutar contra discriminações precisa derrubar o tabu definitivo: a feiúra. Duas mulheres concorrem para um cargo. Cabe a um homem escolher. Por que não criar a delegacia das mocréias, para que elas possam dizer que foram preteridas por sua baranguice e exigir compensações? Afinal, a sociedade poderia compensá-las por aquilo que a natureza não lhes proporcionou. Se um gay se sente discriminado porque a natureza não lhe proporcionou o desejo por gente do outro sexo e ele quer ostentar isso na forma de uma identidade, o raciocínio é idêntico. Podia também haver a parada do orgulho feio. Os feios têm de parar de ter vergonha. Nossa sociedade tem de incluir os feios. Por que só gente bonita em anúncios? É hora de as deficientes estéticas assumirem seu lugar entre as angels da Victoria’s Secret. Não gostam de separar absolutamente sexo de gênero? Pois então, a beleza também está nos olhos do observador. Vamos lá: como dizia Lúcifer Aleister Crowley, “todo mundo é uma estrela”.)
Só hoje eu fico sabendo da proposta de Clodovil para reduzir em 50% o número de deputados federais.
Ele lembra que, hoje, cerca de 20% dos deputados estão em campanha e que a Câmara funciona perfeitamente com menos da metade da atual composição, se houver realmente interesse de trabalhar.
Um deputado que propõe abertamente uma redução do Estado. Um deputado que não está questionando apenas a maneira como o Leviatã deve nadar, mas também seu peso. Quero mudar meu título para São Paulo para poder votar nele. Político por político, podem ficar com o Gabeira e sua mania de tasers. Meu candidato para qualquer cargo é o Clodovil.
12 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Cultura, Política
Mas não diretamente. Neste post, Janaína Leite mostra como a discussão da prisão de Daniel Dantas pode facilmente virar discussão de torcida ou de criança. “Você é chato”. “E você é chato é bobo”. “E você é chato e feio e bobo”. Dizer isso não é diferente de lançar uma definição arbitrária de “pessoas de bem”, como se “ser do bem” fosse estar do lado do Superior Tribunal Federal ou da Polícia Federal. Naturalmente, isso equivale a identificar um ou outro com “o bem”, o que é errado não porque essas instituições sejam “o mal”, mas porque nenhuma instituição humana merece ser identificada metafisica e aprioristicamente com “o bem”.
Isso é óbvio e nem merece ser desenvolvido. Janaína Leite, ao colocar no fim de seu diálogo a pergunta sobre ter visto os autos dos processos, também toca no problema de as pessoas se contentarem com o “ouvir falar”, ou, como prefere dizer um amigo, “folclore”. Quando eu dizia, no post anterior, que para ser autoridade em algum assunto bastava declarar essa autoridade, era a isso que eu aludia. Como, fora de certos e bons departamentos universitários, quase ninguém foi aos originais, toda opinião parece válida. E isso cria um outro problema: em vez de a vida intelectual extra-universitária organizar-se em torno de uma comunidade de leitores dentre os quais alguns tiveram idéias originais (certas ou erradas: é isso que será discutido), ela se organiza em torno de pessoas que leram os livros e contam às pessoas que não leram o que estava escrito. É por isso que eu costumo dizer, numa fórmula poética pessoal, que ainda vivemos como jesuítas e índios, os que leram e os que não leram.
E, se me permitem uma análise “macro” da nossa situação cultural, acho bom que hoje exista mais direita na imprensa do que havia há 10, 12 anos. A vida do direitista liberal e/ou conservador não é mais solitária (a vida do fascista light preocupado com a Amazônia, a lei e a ordem, que acha que a liberação das drogas será o colapso do Império Romano nunca foi solitária). Mas não basta ser contra a esquerda, ter uma postura negativa e destrutiva permanente. É preciso fazer algo positivo, e isso só é possível buscando a verdade e a virtude. Falar mal é muito fácil (é divertido também, admito). Falar mal ou bem, na medida justa, buscando resultados positivos, isso é muito difícil. Mas não se deixar seduzir pela própria indignação com “o mal” é um passo indispensável para alguma maturidade.
05 de July de 2008 por Pedro Sette Câmara — Cultura, Educação
Ontem, indo do metrô na Cinelândia à Sala Cecília Meireles ver o Alban Berg Quartett, com três amigos sem blog, vemos no chão da Rua do Passeio o que parece ser uma bala de fuzil.
Chegando à Sala, que ao menos estava cheia, observo o mesmo fenômeno de sempre: quase nenhum “jovem” (eu já tenho meus 31). Parece que em breve o público carioca de música erudita vai morrer. Nesta cidade, prevejo um futuro semelhante ao da poesia: assim como hoje apenas as pessoas que têm ambições literárias lêem versos, um dia só os estudiosos de música e instrumentistas irão a concertos. Só eu, que não sei a diferença entre um dó e um ré, continuarei sendo puro “público”, mero apreciador, o que dá até uma certa vontade de não aprender nada de música, só para manter essa condição.
Não se pode nem dizer que o problema é de dinheiro. A Sala Cecília Meireles é estatal, os preços dos ingressos são baixíssimos (ainda que, naturalmente, eu preferisse impostos baixíssimos e ingressos altos – assim eu saberia que o dono do bar da esquina não está sendo forçado a subsidiar minhas predileções). O concerto de ontem custou R$30. No ano passado, vi lá pelo mesmo preço um recital com Emma Kirkby que jamais esquecerei – até por não haver muito mais de 100 pessoas na platéia, ou nem isso. Só soube no dia, só comprei ingresso na hora e sentei na primeira fila.
Antes que alguém venha dizer que R$30 pode ser muito num país pobre etc, digo que as multidões que se dirigem para os bares da Lapa, as mesmas multidões que vão em sentido contrário ao meu quando saio da Sala, certamente vão gastar algum dinheiro.
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Se você for a uma livraria grande, como a Cultura ou a Travessa, vai encontrar livros brasileiros e importados à venda. Os livros importados freqüentemente serão mais baratos que os brasileiros, mesmo os lançamentos de capa dura, com frete incluso. Agora, quando vamos para o catálogo de clássicos, a diferença de preço é absurda. Você pode comprar uma edição Penguin a R$20, e uma edição Dover a menos de R$10. Tudo bem que são livros de capa molíssima com as páginas em papel jornal, livros que não vão durar tanto assim. Isso é o mais interessante. A Penguin e a Dover são empresas e precisam ter lucros. Se vendem livros baratos com materiais baratos, livros quase descartáveis, significa que as pessoas os compram. E se compram livros descartáveis, é porque pretendem usá-los e jogá-los fora. Isto é, pretendem lê-los.
Passando para as mesas de lançamentos de editoras nacionais, veremos livros produzidíssimos, com papel e capa ótimos, livros que são objetos para ser guardados, não para ser usados. Vejam bem, não estou criticando as editoras – se elas continuam no mercado vendendo livros assim, ótimo; se elas não oferecem livros “descartáveis” a preços bem menores, certamente é porque sabem não haver demanda. Há demanda por belos objetos que possam ser agregados à identidade, isto é, que possam dizer aos outros (e a você mesmo) que você é uma pessoa simultaneamente culta e cool. Nada contra isso, aliás – exceto o fato de que eu pessoalmente preferiria livros mais baratos.
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Uma das coisas que aprendi freqüentando um ambiente social muito diverso do meu, na Faculdade de Letras da UFRJ, é que existe entre os menos abastados, aqueles que foram alunos de escolas públicas por falta de opção, um mito bizarro em relação a nós, burguesinhos das escolas particulares.
Enquanto eu mesmo era tratado como freak por gostar de literatura (na escola, um dia meus amigos até me advertiram caridosamente que não pegava bem eu circular com livros na mão – isso é verídico), muitos de meus colegas da UFRJ julgam que meu interesse por poesia é uma conseqüência natural do poder aquisitivo dos meus pais, e que todos os adolescentes das escolas particulares comem Machado de Assis no café da manhã. E gostam.
Seria ingênuo e injusto da minha parte não admitir que estudar num “colégio particular de elite” provavelmente é muito melhor do que estudar na grande maioria das escolas públicas, mas de onde as pessoas tiram a idéia de que a elite econômica e a elite cultural se sobrepõem? Seria essa uma bela desculpa – “não tive oportunidades” – para justificar certos fracassos?
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Diversas vezes já falei de como é mais importante o Brasil sair de você do que você sair do Brasil; digo isso porque já gastei muita energia psicológica imaginando maneiras de simplesmente ir embora, atribuindo as minhas falhas intelectuais ao ambiente. Mas a verdade é que eu deveria tentar ser menos sensível ao ambiente e admitir que a minha vida pessoal, nos poucos quilômetros que freqüento na cidade, tirando essas balas de fuzil em que tropeço, é bastante agradável.
O que dá medo, então, é exatamente isso: mesmo que você se concentre nas coisas que pretende entender, corre o risco de, diante do nível médio baixo, acabar se achando melhor do que realmente é, de ficar satisfeito com o que é apenas medíocre. De ser seduzido por essa vida boa e leve, e chegar à mesma felicidade que teria um jesuíta no Brasil do século XVII que abandonasse suas obrigações: “sou mais culto que essa gente que anda pelada, e posso andar pelado também.”
Não quero fazer outra reclamação sobre o superficialismo brasileiro, ou reclamar que “brasileiro não lê”; até agora, estou apenas narrando e tentando interpretar alguns fatos. Nossa “elite cultural” é minúscula, e não vou fingir que não me incluo nela – nem que seja porque o nível médio é baixo demais. Além dos concertos e dos livros, isso é demonstrado pelo fato de que para se tornar autoridade em qualquer assunto no Brasil basta declarar essa autoridade. Isso só não vale para o meio acadêmico, em que as autoridades ao menos costumam ter uma grande erudição; mas, fora das universidades, basta dizer que você sabe javanês. Deus sabe o quanto desgosto do Ministério da Educação (sobretudo por seu monopólio), e do ensino obrigatório, e do fato de as linhas de pesquisa oficiais dos departamentos dificultarem enormemente os estudos; mas mesmo com todas essas limitações burocráticas, as universidades são o lugar onde menos há enganação no Brasil – porque há pessoas ouvindo que têm idéia do que você está dizendo.
30 de June de 2008 por Pedro Sette Câmara — Literatura
Palestra apresentada no simpósio O enigma Bruno Tolentino, no IICS, em 21 de junho de 2008
Diante do título proposto pela organização do evento – “Bruno Tolentino e a literatura ocidental” – eu poderia agir como um filósofo escolástico e ao menos começar a explicar os sentidos possíveis de “literatura” e “ocidental”. Mas, para economizar nossas paciências, digo que entendo literatura simplesmente como “arte da palavra” e, por “ocidental”, ou “ocidente”, um certo conjunto de tradições. O objetivo, então, é tentar situar a obra de Bruno Tolentino dentro desse conjunto de tradições, usando as muitas indicações que seus poemas oferecem.
Minha idéia de tradição será emprestada de Otto Maria Carpeaux, por isso devo começar citando um trecho de seu ensaio “Tradições e tradicionalismos” (Ensaios Reunidos, vol 1, Topbooks):
A tradição só existe na consciência humana. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher, o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo; uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo (…) degenera em opressão inquisitorial. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha, feita uma vez por todas, para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. É a morte do espírito. E, com o espírito, morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e “chamamos as coisas pelos nomes” a fim de as reconhecer. A consciência humana, artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição, sucumbe, encerrada num “modernismo” individualista ou coletivista. Os critérios se perdem. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso, do bem ou do mal. Então, os homens começam por si mesmos. Os seus feitos “desafiam toda a experiência”. “Maldita seja” – diz [o escritor alemão Achim von] Arnim – “a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.”
Selecionei esse trecho, talvez longo, porque serve a dois propósitos. Primeiro, afirma que a tradição diz respeito a uma opção livre da consciência humana por algo que é eternamente bom. Mas nossa vida neste mundo não é eterna: o “eternamente bom” só pode, na melhor das hipóteses, ser “persistentemente buscado”. As tradições se definem pelas estratégias de persistência na busca e pelas atitudes em relação a um problema sempiterno. Em vez de pensar em termos de características de estilo e gosto, que têm lá sua validade e nos permitem falar em arcadismo, barroco ou romantismo, podemos pensar em termos de questões e das atitudes tomadas em relação a elas. E, nesse momento, é importante lembrar que muitas questões podem ser fáceis de resolver no papel, mas bem difíceis de resolver na vida. É por isso que o apóstolo Paulo declara que “não faço esse bem que quero: mas o mal que aborreço, esse é que faço” (Romanos, 7, 15). Um exemplo banal e não religioso ilustra isso: você sabe que deveria se alimentar melhor e fazer exercícios, e todos os dias essa questão volta com a força de uma novidade. Ou, como diz a expressão vulgar, falar é fácil, fazer é que é difícil.
A questão que mais interessou a Bruno Tolentino, da qual ele tratou obsessivamente, abordando-a em poemas sobre amor, religião, pintura, filosofia, a própria poesia e outros temas, não é tão difícil de formular. Trata-se da efemeridade da beleza e de como isso nos apavora. Aliás, nos apavora tanto que preferimos fugir e abraçar belezas falsas que prometam a eternidade. Mais uma vez, isso pode ser explicado em termos muito banais. Não gostamos de admitir que vamos morrer, que nossos corpos sofrerão uma longa e humilhante decadência. Mesmo que a fotografia já seja eterna, maquiamos com Photoshop os “defeitos” de nossos corpos. Do ponto de vista do intelecto, essa recusa tem uma atitude análoga. Quando raciocinamos em busca da verdade, obrigatoriamente usamos conceitos e não coisas. Os conceitos vivem na mente, livres das intempéries da vida; uma idéia pode passar pela versão mais perfeita de um ente concreto. Porém, se os conceitos não são permanentemente comparados com os objetos a que se referem, você começa a raciocinar no vazio. Daí a começar a se preocupar com a humanidade e a desprezar o mendigo da sua esquina é um pulo.
Agora, é preciso observar que, mesmo que um conteúdo seja relativamente trivial e já tenha seu lugar consagrado entre os problemas perenes da humanidade, sua formulação pode estar tão banalizada que perdeu seu poder expressivo. Em seu livro A origem da linguagem, Eugen Rosenstock-Huessy fala da decadência da linguagem e dos efeitos que isso tem, mas nunca explica como a linguagem decai. Pois ela decai exatamente quando perdemos o mundo diante dos nossos olhos, porque passamos a usar as fórmulas inadvertidamente, e elas vão-se tornando caricaturais a ponto de já não conseguirem apontar mais a coisa a que se referiam originalmente. Em vez de estar associadas às coisas, as palavras começam a ficar mais associadas àqueles que costumam pronunciá-las.
Não é possível evitar esse processo. Não podemos, como um paciente de Alzheimer, ter de descobrir tudo de novo todos os dias. A necessidade do trabalho poético surge diante dessa decadência inevitável. As velhas verdades estão aí, “o que é bom o foi eternamente”, mas como expressar isso de um jeito novo, que não possa ser confundido com a convenção ultrapassada utilizada por um grupo com o qual não queremos ser confundidos? Como não oferecer apenas mais do mesmo?
Se o poeta conseguir responder com sucesso a essa questão, será considerado “difícil” por algum tempo, já que suas palavras não poderão ser facilmente digeridas ou confundidas com a moeda corrente da língua. Aqui eu proponho uma comparação entre Bruno Tolentino e Cecília Meireles: sem querer tirar desta seu lugar de primeira grandeza na poesia brasileira, Cecília Meireles também falou muito em “acabar-se”, mas não se colocou a questão de expressar o assunto de modo a chamar mais atenção para ele. O “acabar-se” era mais um dado que um problema; convinha apontá-lo, mas não questioná-lo, ver até onde era possível lutar contra ele, avaliar a percepção que outros artistas tiveram dele. Por isso Cecília Meireles é “fácil” e Bruno Tolentino é “difícil”: ele quer que você não fuja da urgência da questão.
Encerrando a digressão, existe um poema de W. H. Auden que resume parte da questão do sofrimento e que creio ter sido muito importante para Bruno Tolentino. Chama-se Musée des Beaux Arts (o título se refere ao nome de um museu em Bruxelas, por isso não devemos traduzi-lo simplesmente por “Museu de belas artes”) e fala de como sempre ignoramos o sofrimento, o qual sempre acontece em algum lugar para onde preferimos não olhar. O poema começa falando da atitude dos Old Masters, os pintores antigos (a expressão inglesa não significa simplesmente “mestres antigos”, mas “mestres antigos da pintura”), em relação ao sofrimento e termina com a menção explícita a um quadro, o “Ícaro”, de Brueghel, que mostra um barquinho e um rapaz que seguem placidamente suas vidas enquanto um garoto despenca do céu.

Esse poema me leva ao segundo propósito daqueles dois que mencionei após a citação de Carpeaux. Se até agora falei do tema principal da obra de Bruno Tolentino, agora é preciso falar de como ele o abordou. A preocupação com um tema já começa a posicioná-lo numa certa tradição, mesmo que ela ainda não tenha nome, e a abordagem vai ajudar a delinear essa tradição diante dos nossos olhos.
A primeira pista é óbvia: o poema fala da pintura, e de fato Bruno Tolentino declarou que a questão da mortalidade lhe apareceu observando as representações da luz cadente em certos quadros. Não estou querendo dizer que a obra de Tolentino seja um longo comentário a este poema de Auden, até porque acredito que ele o tenha lido só depois de formular para si mesmo as questões que consideraria mais relevantes. Mas a coincidência ajuda: é nas pinturas medievais e na obra de Piero della Francesca que Tolentino situa o início de sua tradição. Como antagonista do diálogo entra o pintor Paolo Uccello, cujo A caçada está na capa de O mundo como Idéia. Foi com eles que Tolentino começou a conversar.
Pulando alguns séculos, Tolentino volta a encontrar referências no século XIX baudelairiano, onde estão as raízes de boa parte do modernismo mais vigoroso do século XX. E, apesar de suas discussões de e com pintores renascentistas, Plotino e a Antigüidade Clássica, foi de poetas desse mesmo século XX que Tolentino preferiu pegar emprestadas boa parte de suas imagens. Como estes poetas tiveram atitudes semelhantes diante do mesmo tema da mortalidade e da efemeridade da beleza, juntos eles formam uma confraria, uma tradição.
Três referências saltam imediatamente: Rilke, Yeats e Bonnefoy, o único cujos poemas não foram traduzidos por Tolentino. De Rilke, tomou emprestada a adaptação da estratégia de Rodin para a poesia. Assim como o escultor criava movimento e liberdade dentro da pedra, Rilke criava movimento e liberdade dentro da forma fixa. Quem nos ensina isso é o mesmo Carpeaux, que, ao comentar o poema “Torso arcaico de Apolo”, diz que não se trata de um soneto, mas de verso livre
(Ensaios Reunidos, vol 1). A aparência exterior é obviamente de um soneto, e portanto temos que dizer que, assim como sua Pantera, presa dentro da jaula, temos verso livre preso dentro da forma fixa, marcada pelas rimas e pela métrica. Uma breve comparação entre duas estrofes pode ilustrar perfeitamente a questão:
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta…
Rainer Maria Rilke (tradução de Manuel Bandeira), Torso arcaico de Apolo
Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
Bruno Tolentino, In passim
De Yeats veio sobretudo o “tordo de Bizâncio”, na verdade um pássaro de ouro que aparece em poemas como “Byzantium” e “Sailing to Byzantium” e que, em seu “metal imutável”, “zomba das complexidades do barro e do sangue”. Esse pássaro é comparável à “Idéia” que aparece em poemas e ensaios de Yves Bonnefoy, sobretudo “Les Tombeaux de Ravenne”.
Não é possível concluir sem antes assinalar que essa explicitação de referências, esse diálogo absolutamente aberto com outros autores também tem a virtude de bater na “tradição modernista” que ocupa lugar importante na poesia brasileira desde 1922. Em seu centro estão duas idéias: a da contemporaneidade e a da originalidade. É preciso ser atualíssimo, autônomo enquanto brasileiro e autônomo em relação aos demais brasileiros. Naturalmente, há uma mentira no coração dessa proposta: não se pode ser tão atual sem ter o passado diante de si, nem é possível ser tão autônomo sem saber como são os outros, assim como não é possível para uma menina ser a única a usar uma determinada roupa numa festa sem saber, ou ao menos imaginar, o que as outras vão usar. Não é possível afirmar “sou único” sem afirmar “não sou vocês”. Com o desejo de ser contemporâneo e autônomo movendo a produção poética, é a questão da identidade que vai para o centro, e o único resultado possível é o fechamento de cada autor em si mesmo. Em vez de lidar com a questão de como ter sucesso em chamar a atenção ao falar de assuntos sempre relevantes, que são em número limitado, cada um quer mostrar que é novo e diferente.
Colocando um tema perene no centro de sua poesia, chamando para a conversa os interessados nesse mesmo assunto, Bruno Tolentino se insere numa tradição, aumentando um ponto num simpósio que se estende pelas eras. Quem preferir pode voltar-se para o próprio umbigo e, inspirado em sua própria figura, tentar reinventar a roda. Mas, como disse Achim von Arnim, “maldita seja a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.”
27 de June de 2008 por Pedro Sette Câmara — Literatura
Ruas
Os deuses de hoje. Rio de Janeiro: Record, 1995
V
Quando a bênção de Deus todas as tardes cai
sobre os telhados e resvala entre as calçadas
e os paralelepípedos e de repente vai
se despejando como aquelas enxurradas
por bairros e barrancos, como uma queixa, um ai,
um soluço de amor, ó ruas alagadas
de eterno e de emoção, por entre aqueles nadas
que eu amei e guardastes, a sombra de meu pai
comigo pela mão, como o beijo de Deus,
anda também por vossos longos abandonos,
perfeitamente unida ao tempo como o sono
aos sonhos. E os instantes sem nome que eram meus,
revivificados pelo eco do que somos,
passam e somem como o Ângelus nos céus…
26 de June de 2008 por Pedro Sette Câmara — Educação
Continuando o post anterior, parece-me que a crença em uma realidade objetiva, ou em uma verdade que independa das minhas opiniões (ainda que essa verdade objetiva só possa ser apreendida subjetivamente), é mais importante do que a “busca desinteressada pela verdade”, porque toda busca está subordinada a algum interesse.
Por exemplo, o lema do IICS, “o que discutimos aqui não são temas comuns, mas o modo de levar uma vida justa”, sugere que a busca da verdade está subordinada à busca pela “vida justa”. Você quer levar uma “vida justa”, e para isso precisa saber como o universo funciona, porque a chance de levar uma “vida justa” por acaso é muito baixa. Do mesmo modo, sempre me chamou a atenção em textos antigos a ênfase do conhecimento enquanto posse de um ser humano concreto e não como construção que deva subsistir sem um sujeito cque estude. Isso não significa que esse aspecto era desprezado, e o simples fato de os antigos preservarem obras é prova suficiente. Mas, pela maneira como os textos se dirigem ao leitor, vê-se que os antigos sabiam que o conhecimento modifica o estudante, e se a modificação não for previamente desejada os resultados podem ser meio bizarros.
Já disse que, em minha tenaz rebeldia, percebi que paguei por todos os conhecimentos que “adquiri” com algumas idéias de que gostava, mas que me impediam de ver a tão famosa e badalada verdade, e isso vale até para verdades pequenas e relativas. Essas idéias de que gostamos são como apetrechos errados para uma expedição. Às vezes juntamos a com b e não gostamos do resultado, e começamos a tentar fingir que aquilo poderia ser diferente. Ou eu começo. A minha vida intelectual é uma vida de sucessivas resignações e interesses diversos. A única coisa que não mudou foi a minha crença de que as coisas são de um jeito, e é melhor não tentar fingir que elas são de outro.
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Outro dia conversava com um amigo sobre essa questão do ensino de filosofia nas escolas, e perguntei a ele, partindo do pressuposto da obrigatoriedade, que espécie de filosofia poderia ser ensinada para adolescentes. Ele falou: “aquela que ensina a argumentar”. As Categorias de Aristóteles, o estudo sobre a interpretação… De fato, estudar isso ajuda você nas suas buscas. Juntar a com b também pode ser uma arte, e essa arte pode ser ensinada e aprendida (desde que você queira, é claro).
Um dos clichês do nosso tempo é o “pensamento crítico”, e ninguém nega que ele é unilateralmente crítico. Ser crítico significa ser contra Bush, o Papa e a TV Globo. Ok, trilateralmente. Mas não faria mal aprender a ser crítico de verdade, estimulando os adolescentes pela vaidade. “Ah, você se acha muito espertinho? Vou triturar suas idéias, seu moleque pretensioso.” O professor poderia ser um advogado do diabo, um boxeador da argumentação que conquistaria o respeito dos alunos. Mas algo me diz que isso só funcionaria no cinema.