As palavras e as coisas

No entanto, esses termos fazem perfeito sentido para quem os utiliza. Neoliberalismo são as políticas econômicas derivadas do consenso de Washington: por exemplo, certa austeridade fiscal, privatizações. Só é verdade que ninguém no movimento liberal se autodenomina “neoliberal”. Nem os defensores do consenso de Washington se autodenominam neoliberais. O termo é sempre usado com reprovação, e diz no mínimo tanto sobre quem o utiliza quanto sobre a coisa supostamente referida.

Marxismo cultural seria, para quem usa o termo, a estratégia de dominação cultural derivada principalmente dos autores da escola de Frankfurt e de Antonio Gramsci. A estratégia consistiria em primeiro criar uma cultura dócil aos ideais comunistas, para que a chegada da revolução fosse suave. Estou longe de ser conhecedor dos autores da escola, mas é divertido pensar que muitas páginas de Walter Benjamin ou mesmo de Erich Fromm facilmente seriam lidas com lágrimas de aprovação por vários conservadores atuais; ou que certas análises de Gramsci do Estado burguês italiano poderiam ser lidas pelos liberais brasileiros talvez quase sem ressalvas.

Por fim, ideologia de gênero seria uma espécie de resultado do marxismo cultural, ou algo surgido no rescaldo deste. Quem usa o termo suspeita enxerga nele o pressuposto de que os gêneros são puras construções sociais, sem relação com o sexo biológico; também enxerga burocratas que desejam introduzir esses questionamentos no mundo infantil.

(Essa, aliás, é a mesma questão por trás do “nazismo de esquerda”: basta que você defina como “esquerda” toda intervenção estatal e pronto. É por isso que certos liberais também chamam os conservadores e até os monarquistas de “socialistas” – porque estão enfatizando a primazia do governo sobre a sociedade civil.)

O problema real desses termos é que eles servem apenas para pessoas que já concordam com os pressupostos embutidos neles. Não vou negar o direito de um grupo ao seu dialeto, mas também não vou abandonar a empreitada que me parece mais interessante: tentar entender os pressupostos de cada um, tentar falar e escrever de um jeito que faça sentido para o maior número de pessoas.