As duas ordens

Existem no mundo duas ordens de coisas, ordens que podem às vezes ficar misturadas, mas que são essencialmente bem distintas. Na verdade, a percepção de que essas duas ordens existem é aquilo que diferencia um filisteu de uma pessoa normal, um aleijado psíquico de, novamente, uma pessoa normal. A maturidade pode vir com a dolorosa descoberta de que não somos tão ligados à primeira ordem quanto gostaríamos; que podemos agir como filisteus e aleijões com mais facilidade do que imaginávamos. Ainda assim, é preciso um orgulho tremendo para chegar a negar a existência mesma dessas ordens.

A primeira ordem é a da verdade, da boa vontade, da defesa, das coisas feitas com o desejo do bem alheio (mesmo que o alheio se refira a uma coisa). A filosofia, tal como a conhecemos, depende de um local privilegiado em que essa ordem impere. É preciso ter abandonado a disputa retórica, é preciso aceitar regras que invalidam a vaidade e equalizam os participantes. Certa vez ouvi na rua alguém falar da “opressão do silogismo”; melhor seria falar da “libertação trazida pelo silogismo”. É claro que a filosofia pode ser contaminada pela vaidade e pelo desejo de derrubar o adversário, mas é a própria ordem da boa vontade que permite que ela corrija a si mesma enquanto empreendimento coletivo. É a própria ordem da boa vontade que obriga seus participantes a renunciar a certos desejos antes de começar a discutir, assim como também obriga aqueles se aproximam do resultado da discussão a ter boa vontade para apreciá-lo, como numa espécie de esoterismo da vontade.

A segunda ordem é a da violência. A principal característica daqueles obstinados aleijões mencionados no primeiro parágrafo é recusar-se a acreditar que a ordem da boa vontade existe. O que os aleija é um temor paranóico, o temor de “ser enganado pelas aparências”. Por isso querem reduzir a filosofia a uma espécie de sofística, de expressão de consciência de classe, como se tudo aquilo que outra pessoa fizesse fosse necessariamente marcado por más intenções. Nessa ordem, impera a percepção de que o bem só pode ser obtido às custas da negação do outro, e a idéia do sacrifício de si mesmo parece o horror dos horrores, a Grande Mentira que ELES Usam para Enganar Você. O espírito que impera, é claro, é o de malícia, a malícia que faz as mulheres ficarem grosseiras como os piores homens, e os homens afrescalhados como as piores mulheres. É a malícia que abole as distinções e cria híbridos.

A primeira ordem atrai; a segunda ordem traga. E a descontinuidade entre elas é total.

O verdadeiro e o verossímil

Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.

Exôdo, 20, 16

Eu já deveria ter escrito isso aqui há anos, muitos anos. Lamento. Antes tarde do que nunca. É uma pequena lição sobre como é fácil tomar como verdadeiro aquilo que parece verossímil.

Não gosto de Al Gore. Nunca gostei. Comecei a me interessar por política americana em 1995, vivendo nos EUA, e já não gostava de Al Gore naquela época. Minha aversão por Al Gore me fazia acreditar em tudo que se falava contra Al Gore. Eu não diria que em 1995 eu era “de direita”, mas acho que só me considerei “de esquerda” durante uns poucos meses de 1993.

Agora, uma pausa para inserir um novo dado. Em 1998, comecei a ler o WorldNetDaily. Era muito interessante por ser muito distinto da grande mídia. Um de meus colunistas favoritos era J.R. Nyquist. Mas não tardou para que eu me cansasse de suas previsões apocalípticas. Se tudo aquilo era verdade, a Terceira Guerra Mundial tinha de começar logo. Logo Nyquist deixou de escrever no WND e eu, assim como alguns amigos que também o liam, achamos que isso se deveu à falta de uma Terceira Guerra Mundial. Afinal, a credibilidade dos analistas aumenta com sua capacidade de previsão. Cansei de esperar a Terceira Guerra Mundial, a revolução comunista etc.

Ainda assim, a idéia de uma integridade maior da mídia alternativa “de direita” contra a integridade da grande mídia me parecia bem clara. Expurgaram um maluco justamente por isso. E, como eu mesmo fui vítima da pouca integridade de um jornalista, num grande jornal carioca, a idéia de que a grande mídia não merecia credibilidade era perfeitamente cristalina. Injustiça, talvez, tomar a parte pelo todo. Mas quando você é maltratado publicamente por um covarde, é difícil não ficar cego de raiva. Ao menos aos 20 anos. Depois o jornalista, como se dizia à época, despontou para o anonimato. E nós, majestaticamente, aqui estamos.

A lição que ficou dizia respeito ao poder de um jornalista de criar uma impressão sobre a pessoa de alguém. Alguém me disse uma vez que São Francisco de Sales teria dito que um dos maiores bens terrenos (acho que depois da saúde) era o bom nome. Por isso até agradeço pela discrição daqueles a quem fiz mal (espero não os ter esquecido e reparar o que devo) e espero devolver essa mesma discrição. Não acusemos; resolvamo-nos.

Pois bem. Era um belo dia do ano 2000, quando eu li uma coluna de Joseph Farah sobre Al Gore. Farah, que se propunha (há tempo demais nem vejo o WND, não sei quão cheia está a bola do homem) o Grande Bastião da Verdade Jornalística, dizia que Gore, em seu livro Earth in the Balance, afirma que talvez a vida de uma árvore – ou, vá lá, três – é pelo menos tão importante quanto a vida de uma pessoa. Farah dizia: “Ele realmente não consegue decidir o que tem mais valor intrínseco – a vida de um ser humano ou a vida de uma árvore”. Depois disso, tomava duas frases do livro que provariam sua tese.

O problema é que Gore na verdade argumenta o seguinte: para talvez curar uma certa doença em uma pessoa, é preciso cortar pelo menos três árvores; considerando a quantidade de doentes e a de árvores, mais o tempo que a árvore demora para crescer, se tratarmos todos os doentes do presente não poderemos tratar nenhum doente no futuro. Por mais que eu continue não gostando de Al Gore, não me parece que apresentar essa questão, ou mesmo tratá-la como um dilema, seja sinal de maluquice, e muito menos sinal de que ele prefere a vida de uma árvore à vida de uma pessoa. Se você não viu o livro, pode ver a citação na Wikipedia.

Mais: concedo que a averiguação de muitos fatos pode ser difícil. Se me dizem que X israelenses ou Y palestinos foram mortos em tais ou quais circunstâncias, eu só tenho a credibilidade da fonte. Como há fontes divergentes, já é razoável dizer que a escolha de uma fonte em detrimento de outra seja determinada por alguma convicção anterior, que aliás pode não ter nada a ver com o assunto do momento. Mas a averiguação de um livro é muito fácil. Basta… Abrir o livro. Trata-se de um esforço bastante pequeno para quem alardeia a si próprio como Grande Bastião da Verdade, a Consciência Viva da Civilização Ocidental etc.

É por isso, enfim, que eu digo: não é porque algo lhe parece verossímil que é verdadeiro. O fato de aquilo ser verossímil pode ser só a medida de sua antipatia, isto é, pode apenas dar uma informação sobre você e não sobre outra pessoa ou assunto. Achar que essa atitude é monopólio da esquerda é coisa de quem jamais examinou a si mesmo.