Sófocles explica o caso WikiLeaks

A coisa mais interessante do caso WikiLeaks é a dificuldade de classificá-lo. Seria Julian Assange um militante de direita ou de esquerda? Creio que é possível apresentar argumentos razoáveis para as duas opções. E, como eu mesmo não consigo ver direita e esquerda como substâncias, mas como qualidades meramente circunstanciais, e sempre definidas em função de algum outro, acho perda de tempo discutir isso.

Essa dificuldade de classificá-lo provoca um incômodo semelhante ao provocado pela hybris do teatro grego. Como assim, o rei de Tebas diz que ele é que vai acabar com a peste? Quem ele pensa que é, o Lula? O rei de Argos mata a própria filha e pára de pensar no assunto. Ele acha que vai ficar tudo bem. Então agora estamos liberando o filicídio? Aí vem a tragédia, para dizer que essas coisas não ficam barato. E aqui temos uma pista para começar a entender Julian Assange.

Assange teve hybris duas vezes. Primeiro, achou que podia botar 250 mil telegramas internos da diplomacia americana na boca do povo e que isso ia ficar barato. Depois, como um Berlusconi amador, achou que seu charme neutralizaria o ciúme das groupies. Após a ilusão de onipotência, a hora da verdade vem na forma de payback time. Sem contar que ele acaba de se colocar na formidável posição de bode expiatório de todos os governos. Tudo que der errado em política externa terá sido culpa do Julian Assange. Mesmo que não tenha sido.

Existe hybris também na liberação de 250.000 documentos diplomáticos. Até onde eu sei, Daniel Ellsberg, o famoso “homem mais perigoso dos EUA”, pelo menos liberou documentos porque sabia de atrocidades. Mas Assange e seus asseclas teriam mesmo lido 250.000 documentos? “Liberdade de expressão, êêêêêê!” Realmente não se trata disso. O governo, na sua essência, não presta um serviço no mesmo sentido em que um encanador presta um serviço. O governo estabelece as regras e mantém a segurança. Dizer que a liberação de documentos compromete a segurança é verdadeiro. No entanto, quando o governo americano te obriga a entrar numa máquina de raio-x que te põe pelado na frente de um gordo babado de donuts, você fica ressentido e acha que o sistema precisa tomar um WikiLeaks mesmo. Você tira minha roupa, eu leio a sua correspondência. Bem vindo ao círculo vicioso da tragédia, que já nos deu obras imortais como a trilogia da Orestéia e as peças do ciclo tebano. Haverá resposta a tudo isso, tenha certeza. E não vai ser boa. Para você.

Assim, a liberação dos documentos diplomáticos parece um ato motivado pelo ressentimento contra o sistema. O mesmo ressentimento que vem animando revolucionários desde pelo menos o século XIX e que algumas décadas depois não termina bem. Mas suspeito que não precisaremos mais de décadas. Tudo está acelerado. Vivemos na época da violência aleatória. Não necessariamente haverá uma guerra de uma nação contra outra, mas já estamos vivendo a guerrilha de todos contra todos. Assange, financiado por quem mesmo?, publica documentos. É preso por suas groupies. Mike Huckabee pede sua cabeça. Visa, Mastercard e PayPal, temerosos em relação ao governo dos EUA, congelam seu dinheiro. Hackers anônimos atacam Visa, Mastercard e PayPal. Não existe unanimidade a favor de ninguém, nem contra ninguém. Você vai deixar de usar seu cartão de crédito e débito? Nem eu. E você também sabe que liberar documentos internos dessacraliza, ou tira a credibilidade, do Estado. Agora existem duas opções. Ou você releva porque o Estado é feito de gente como você, ou você fica aí na sua vidinha infantil, achando que o Estado tem de ser feito de gente incorruptível. Eles estão tomando seu dinheiro com impostos, é verdade. Mas foi por isso que você achou que eles teriam de ser lindos, maravilhosos e incorruptíveis? E digo mais: se você acabar com o Estado nacional, não vai vir algo melhor.

Na época da violência aleatória, em que “todo ato é político”, isso é, todo ato é considerado uma espécie de violência por alguém em algum lugar, talvez alguém não goste deste texto, e ache que estou do lado dos hômi, e libere os conteúdos da minha conta de e-mail. Por isso vou até aproveitar para fazer um adendo. Acho que já disse isso. Há alguns anos criei uma lista para discutir liberdade e privacidade na internet. Fechei a lista. Não existe privacidade nem liberdade na internet. Aliás, com câmeras digitais e redes sociais, a própria ideia de privacidade já está amplamente questionada. Tudo que é digital é potencialmente público; basta que alguém com as devidas capacidades queira publicar. Estamos ainda vivendo o período que Marshall McLuhan chamou de incunabula, em que ainda não cristalizamos usos e regras para as mídias digitais, assim como já os cristalizamos para o livro, por exemplo. É o período do salve-se quem puder. Junte a incerteza (ou hybris, produzindo híbridos) tecnológica com os ataques à credibilidade do Estado, mais a própria hybris de governantes e de ativistas, e, como já disse, salve-se quem puder, com a ressalva de que a violência aleatória não respeita a regra de “mulheres e crianças primeiro”. Aviso logo que na minha conta bancária não tem quase nada.

A tragédia (em sentido estrito) dos desabamentos nas favelas

O primeiro uso da palavra “tragédia” é simplesmente “um acontecimento triste”. Falamos em tragédia ao contar que o almoço foi péssimo e ao lembrar da bomba de Hiroshima. Isso demonstra o quanto a palavra, em seu sentido corrente, está desgastada. O sentido que me interessa, é claro, é outro, é o sentido mais estrito, que remonta às tragédias gregas.

Sempre retorno ao assunto, porque meu interesse por ele é enorme. Creio que outra maneira de definir uma situação trágica é ressaltar que, nela, todos os envolvidos são ao menos parcialmente culpados, mas todos os envolvidos têm o poder de resolver a situação por meio da desistência. Creonte ou Antígona poderiam desistir, Édipo poderia desistir, Medéia poderia desistir, e Hamlet não faz outra coisa além de meditar sobre por que não desistir.

As tragédias dos desabamentos nos morros de Niterói e do Rio são tragédias nesse sentido mais estrito. Não são apenas acontecimentos funestos. São acontecimentos que revelam o que existe de trágico no Brasil.

Os primeiros personagens são os favelados. Dizer que eles não são responsáveis por morar nas favelas é tratá-los com uma condescendência vil. Há uma deliberação na escolha da moradia. Quem escolhe morar num lugar que pode simplesmente ser soterrado é responsável por isso. Ainda mais depois das imagens da pousada soterrada em Angra dos Reis.

É claro, porém, que os favelados foram limitados em suas escolhas pelas autoridades. O excesso de legislação, de planos de desenvolvimento, de projetos, de associações ilícitas com empresários — pensemos no lobby das empresas de ônibus — limita as opções de moradia. A deliberação necessária para morar na favela leva em conta o custo das demais opções, custo que, graças ao governo, só faz aumentar. Há também o famoso “alto custo da legalidade”, que leva muita gente, inclusive muita gente de classe média, para a economia informal. Assim, o segundo personagem, o governo, não quer abrir mão de “liderar o desenvolvimento”, nem das benesses advindas da corrupção que o “desenvolvimento” sempre traz.

O terceiro personagem é a parcela da sociedade civil que, dispondo de meios, inclusive materiais, poderia ter-se mobilizado, nem que fosse para pressionar o governo. De minha parte, sempre defendi, seguindo Hernando de Soto, que os favelados recebessem títulos de propriedade de suas moradias. Mas entendo a classe média. Pagando impostos sem parar, é difícil agüentar que pessoas que não os pagam subitamente ganhem riqueza. Bem, um dia nossos antepassados também ocuparam as áreas onde vivemos, é hora de nós mesmos olharmos quietos para a ocupação feita por outros. Simples assim. Poderíamos ter a opção de comprar barracos e urbanizar propriamente as favelas — os favelados que vendessem suas propriedades acreditariam ter feito um bom negócio e todos ficariam felizes. Mas não, a classe média sempre quis que os favelados fossem simplesmente removidos.

Ninguém fala isso porque, oras, se existe algo que você preza acima de tudo, TUDO, é que ninguém pense que você tem inveja. Por isso as favelas são um gigantesco não-assunto. Isso também é trágico. Porque há problemas reais nas favelas. A experiência acaba de mostrar que algumas delas realmente deveriam ter sido removidas, e provavelmente outras deverão também. O fato de as pessoas de esquerda quererem lançar a pecha de “anti-favelados” a qualquer pessoa que quisesse vagamente sugerir que, talvez, sei lá, pô, bem, veja só, aquela encosta é um perigo, é também trágico. Ninguém quer ficar mal visto e mal falado. A esquerda não quer abrir mão da sua auto-ilusão de superiodade moral, isto é, do seu “direito” de linchar.

O impasse trágico está formado. Os favelados não saem, as autoridades não agem, a sociedade não discute, a esquerda chique não quer menos do que uma mudança total de tudo. Todos estão simultaneamente justificados e encurralados. Enquanto isso, há um único risco, real, previsível, que é, como num efeito especial, como num mito de um povo primitivo, o céu e até a terra desabarem sobre as cabeças das pessoas.

A frustração trágica nas séries americanas

Há algum tempo gosto de definir o dilema trágico da seguinte maneira: você não pode obter aquilo que mais deseja se não deixar de ser quem é. O preço dos objetos desejados é a identidade atual. O maior desejo de Édipo era encontrar o assassino de Laio, mas, se este fosse encontrado, Édipo deixaria de ser o Rei de Tebas. Creonte queria que a lei do Estado fosse a repulsa a toda espécie de inimigo. Por isso, se desistisse da proibição de enterrar Polinices, enfraqueceria sua própria autoridade. Clitemnestra foi ingênua ao pensar que poderia vingar a morte da filha matando o próprio marido e que tudo terminaria por aí…

Esse é o mesmo dilema de séries como Gossip Girl e House. Blair Waldorf e Chuck Bass não podem continuar a ser manipuladores, reis dos próprios mundos, e submeter-se a outro rei, de outro mundo. Houve um episódio em que Chuck declarou isso abertamente. O Dr. House não pode ter um relacionamento razoável com uma mulher de quem ele goste porque para isso precisa abdicar de sua personalidade cáustica — a mesma personalidade que atraiu a mulher, aliás. Esse cabo de guerra pode acontecer interiormente, na alma dos personagens, como falei até agora; mas também pode acontecer exteriormente, como na disputa entre House e Tritter, ou nas disputas permanentes de House com sua equipe, ou nas disputas entre as meninas de Gossip Girl.

O maior problema dessas séries é que seus criadores têm o talento e a intuição necessárias para criar situações legitimamente trágicas, mas parecem estar eivados de idéias românticas e por isso não conseguem ou não podem resolvê-las satisfatoriamente. Isso porque as resoluções satisfatórias seriam a morte ou a transformação do personagem.

Claro que se pode alegar que 1. se o personagem morrer, a série acabará e 2. se o personagem mudar, os espectadores deixarão de ver a série e ela acabará. Também é possível dizer que a solução normalmente encontrada para fazer a série continuar — um mero esvaziamento da situação devido a algum fator externo (e isso vale até para Deadwood) — é totalmente realista, porque em nossas vidas conseguimos arrastar por anos a fio nossos defeitos sem que eles causem problemas obviamente grandiosos. Só quando olhamos para trás é que podemos ver quanto tempo foi perdido; mas agora, nesse momento, como o céu não está caindo, então está tudo bem. Porém, essa desculpa é a de pior qualidade dramática, porque a ação dramática, como diz Aristóteles, tem começo, meio e fim (e mesmo que você seja o mais pós-modernoso dos dramaturgos, essa definição permanece como parâmetro tácito, natural à cognição humana), e ficar vendo grandes conflitos resvalarem no vácuo pode até trazer alívio na famosa vida real, mas na TV isso é deveras frustrante.

Antígona x Rockantygona

Antígona

A primeira e maior dificuldade em montar a Antígona de Sófocles está em conseguir sacudir o pó acumulado da interpretação costumeira da peça. A julgar pelo que dizem os comentaristas menos especializados, Antígona seria uma espécie de peça de tese, e a tese a ser demonstrada seria que o poder é arbitrário, como se Creonte fosse o primeiro ditador, e Antígona, a primeira presa política acusada de um crime de consciência.

Na verdade, não é possível realmente entrar na peça sem tentar olhar Creonte com alguma simpatia — não no sentido de dizer que ele não é tão mau assim, mas no sentido de perceber que nós não somos tão melhores do que ele, em nossa pequena escala — , e são as palavras dele mesmo que nos ajudam a vencer aquela camada de pó interpretativo (que o próprio Sófocles ajudou a despejar, para que a peça funcionasse), além de nos fazer ver que os elementos trágicos estão por toda parte. A chave está naquilo que Creonte, esse personagem que, assim como tantos de nós, tem uma enorme capacidade de não perceber que fala de si mesmo ao acusar os outros, menciona em duas ocasiões na peça: a hybris.

A hybris está associada a uma idéia de ausência de medida, de uma superação indevida do próprio status, mas também, como observa Walter Kaufmann em Tragedy and Philosophy, a uma irreverência ou insolência em relação aos costumes estabelecidos. A hybris cria híbridos, entidades sem forma definida. Um ato prosaico de hybris seria ir a um casamento de bermuda e chinelo. Outro ato de hybris seria um padre ir a uma boate gay a fim de converter os presentes por meio do temor do fogo do inferno, ou um militante gay ir a uma igreja e tomar o microfone do padre no meio do sermão. Nos três casos, a desmedida seria repelida naturalmente repelida pelo nomos, o costume estabelecido naquele meio.

A tragédia surge quando um ato de hybris é respondido com outro ato de hybris ou quando as pessoas no meio decidem vitimar unanimemente o primeiro híbrido para que a ordem seja restabelecida, com a ressalva de que, nesse caso, não percebemos a violência como “trágica”. Se dois bandidos se matam num tiroteio, isso é trágico; se a lei captura um bandido e o pune, é a lei, e a lei se legitima pela unanimidade: eu, você e nossos amigos achamos que, por exemplo, os bandidos que atiraram em Mário Bortolotto devem ser presos e julgados.

Na interpretação mais comum do texto, prevista por Sófocles, Creonte julga que, como rei, seus atos representam essa violência unânime. O que Creonte não percebe é que, para usar termos de Antonio Gramsci, ele, ainda que possua a capacidade de coerção, para o caso específico do enterro de Polinices, não possui o consenso: o povo está com Antígona. Aquele ato não é unânime: é arbitrário, pessoal. Creonte acusa Antígona de desrespeitar a lei, e a peça depende de acreditarmos que na verdade ela está desrespeitando com justiça o arbítrio de um homem que primeiro desrespeitou os deuses. Assim como Creonte vitimará Antígona, fazendo dela bode expiatório, atribuindo-lhe previamente a culpa por uma possível desordem social, nós, o público, vitimaremos Creonte, ficando unanimemente contra ele. Sófocles estava ciente do paradoxo e de certo modo começou a levantar a tampa da tragédia com esse texto, de modo mais palatável (e de certo modo menos escancarado) do que Ésquilo em Eumênides.

Como estamos acostumados a dar à personagem Antígona toda a nossa simpatia, não percebemos que seu ato vem numa longa seqüência de disputas. Seu irmão Etéocles, num primeiro ato de hybris, recusou-se a seguir o costume e a entregar o trono de Tebas a seu irmão, o qual respondeu com outro ato de hybris, fazendo do estrangeiro o aliado e atacando a própria cidade. Essa atitude não é diferente de pensar, como sempre pensamos, que já que “ele”, alguém que consideramos um rival, “não segue as regras, eu também não vou seguir”. Creonte tem sua hybris ao ficar cheio de si por ter salvado Tebas, e declarar que o fundamento da cidade será a violência contra aqueles que priorizam seus amigos em detrimento dela. A primeira fala de Creonte, aliás, corre paralela à primeira fala de Édipo rei, que Sófocles viria a escrever pouco tempo depois. Os dois personagens armam a própria destruição nela, Édipo (que também se coloca como salvador da cidade, referindo-se aos cidadãos de Tebas como “filhos”) prometendo a perseguição implacável ao assassino de Laio, e Creonte prometendo a intransigência contra quem “põe os amigos antes do país” (na versão de Lawrence Flores), mesmo que isso contrarie o respeito aos mortos. Não haveria tragédia se Creonte de algum modo não tivesse “razão”: a cidade de fato depende de expulsar seus inimigos para sobreviver. O desrespeito de Creonte pelos costumes e o desejo de fundar a cidade na sua própria lei acabam conferindo a Polinices morto uma força que Polinices, vivo, não tinha. Porém, como em todas as disputas trágicas, nenhum dos lados vence.

Antígona pode querer enterrar o irmão, mas, descendente de Édipo, tão portadora da maldição dos labdácidas como o pai-irmão (Édipo é o híbrido por excelência), quer fazê-lo sobretudo por não suportar a humilhação de submeter-se a um decreto de Creonte. É ela mesma que o declara: “Dizem que o grande Creonte baixou o decreto / para ti e para mim! Pasma, até para mim!” Pode-se, é claro, dizer que Antígona fala como irmã e não como princesa, mas o problema continua a existir: ou a lei vale para todos, ou não vale para ninguém. Ao insistir em desrespeitar a lei, por injusta que seja, Antígona sabe que está escolhendo a punição. Ela poderia engolir a ofensa, casar-se com o filho de Creonte e um dia tornar-se rainha de Tebas, contribuindo para derrubar as leis injustas. Desse modo, a estirpe e a cidade poderiam ser preservadas. Mas podemos dizer que “foi Creonte quem começou”. Ao dizer isso, ao pensar isso, somos capturados pela força trágica do revide — “se as leis são absurdas, cabe a nós desrepeitá-las”. Observar que o desrespeito à lei sacrifica a ordem e a paz não é uma apologia da arbitrariedade, é apenas a duríssima constatação que a tragédia insiste em fazer. Ao criar uma lei injusta, absurda por aplicar-se sobretudo a um inimigo morto, Creonte contagiou Antígona com sua hybris, tanto que depois ele é que vai acusá-la — com razão! — de ser “inflexível”, numa disputa para ver quem chega primeiro aos extremos.

Sófocles tem consciência de que a disputa religião x política é um aspecto superficial. Ele sabia que os mesmos deuses aparentemente inofensivos que apenas pedem um enterro também legitimaram a fúria vingadora de Orestes, que, na trilogia da Orestéia, de Ésquilo, legitimam o assassinato de sua mãe, a rainha Clitemnestra. Recordemos o ciclo de violência da família

de Agamêmnon: este mata a própria filha para que os navios gregos possam seguir viagem para Tróia. Quando volta à sua terra natal, sua esposa Clitemnestra o mata a fim de vingar o assassinato da filha que, aos olhos de Agamêmnon, fora um sacrifício necessário. Orestes, filho de Agamêmnon e Clitemnestra, mata Clitemnestra porque esta matou seu pai, e ainda lhe diz que ela é que está matando a si mesma. No fim da trilogia, um mero voto majoritário entre os sacerdotes de Atena e da própria legitimam o matricídio. O trágico está também em dizer que foram as ações dos outros que obrigaram a uma determinada reação, sempre transferindo a responsabilidade e assumindo o papel de vítima. Creonte se julga uma vítima tanto quanto Antígona. Aqui no século XXI pretendemos “arbitrar” o problema no sentido de descobrir quem “teria o direito” de se julgar uma vítima e reagir. O tragediógrafo limita-se a observar o que acontece quando se inicia um ciclo de violência contagiosa, como quer que esta se justifique diante do público e/ou dos personagens.

Rockantygona

Se a defesa da vítima é nosso (com o perdão da palavra) paradigma fundamental, uma montagem de Antígona poderia se destacar pela tentativa de enfatizar a disputa entre seus dois personagens principais, em vez de partir para a leitura tradicional que destaca apenas a arbitrariedade do poderoso contra os mais fracos, isto é, sem cair na armadilha de mostrar Creonte sacrificando Antígona, para que o público sacrifique Creonte e saia do teatro com a satisfação dos linchadores. Nada é mais moderno do que sentir-se uma vítima que tem o direito de vingar-se, ou melhor, do que vingar-se usando o discurso das vítimas; o estágio a que ainda não chegamos, e a que talvez nunca cheguemos, é o da aceitação coletiva do próprio mal, em que iremos ao teatro para enfrentar a náusea de ser como Creonte, e não para acharmos que temos direito ao prestígio de Antígona, essa primeira culpada de um crime de consciência. Na verdade, quando Aristóteles falava em “catarse”, é provável que esperasse que purgássemos a hybris, mas hoje não acreditamos mais no bom funcionamento da cidade como os gregos acreditavam. Nem vamos apreender a lição de que Antígona cometeu um erro, nem vamos admitir que há um Creonte em nós, que há em nós alguém que acredita que, se tivesse o poder, melhoraria tudo. Ou vamos admitir?

Dentro desse critério, devo dizer que Rockantygona atingiu um resultado ambíguo, não por causa da minha opinião, mas por causa da divergência no grupo de amigos que me acompanhou à peça. Uns achavam que a versão de Guilherme Leme, em cartaz no Espaço Sesc em Copacabana, trazia a velha história do Creonte malvado contra a pura Antígona. Outros entenderam que Creonte tinha lá suas razões, e que Antígona, apesar de ter uma causa mais justa, era igualmente teimosa, entendendo que a complexidade está aí, também: não basta ter razão, é preciso ter razão do jeito certo. Mas admito que posso ter sido influenciado pelas minhas opiniões prévias a respeito da peça.

A trilha sonora mais caótica sublinha o aspecto da desordem que tomou conta de Tebas, tanto exteriormente, nas ruas, no palácio, quanto nas almas dos personagens. A inflexibilidade é acompanhada de desespero, e a iluminação, que se volta quase o tempo todo apenas para os personagens, deixando o resto do palco escuro, marca também os limites estreitos que eles mesmos estabeleceram para si e para suas ações. Se a luz marca a camisa de força do impasse central, o som denota a fúria que ele encerra. Assim, a montagem, também por ser bastante curta, fica devidamente claustrofóbica.

Essa mesma brevidade do texto levanta a questão de ser conveniente ou não editar… Sófocles. Creio que a necessidade ou a vantagem de levantar aquelas camadas de pó pode justificar uma edição, e o resultado ambíguo pode ser satisfatório na medida em que é inevitável. Massacre da inocente ou cabo de guerra entre nobres da mesma família? Seria possível ressaltar o segundo aspecto de maneira inequívoca depois de tanto tempo? Uma opção do corte do texto parece buscar esse resultado. Logo no início, o mensageiro que diz a Creonte que o corpo de Polinices foi sepultado fica cheio de dedos para transmitir a notícia, como se falasse com um tirano caprichoso. Se no texto de Sófocles esse trecho destaca a hybris que já possuía Creonte, cada vez mais disposto a atos de violência, em Rockantygona sua supressão deixa o Rei de Tebas um pouco mais “razoável”, e menos com jeito de Führer.

As soluções para o figurino e o cenário, por sua vez, se não chegaram a atrapalhar, pareceram em parte ter saído da série americana Kings, inspirada na história do Rei Davi. A sala do trono de Silas, o Rei contemporâneo da série, tem uma comprida mesa de madeira, atrás da qual há nada além de imensas janelas. As roupas de Creonte e de Hémon são roupas militares contemporâneas, como as roupas de Silas e de seu filho na TV. Se o espectador desconhecer a série, não correrá o risco da comparação e o contraste entre texto antigo e visual contemporâneo vai dar a marca de atemporalidade que, se não é o melhor efeito possível, é uma das soluções mais confortáveis para as platéias atuais. Somente Antígona aparece vestida à antiga, além de andar sobre pedras postas no palco, como se a diferença entre ela e Creonte (e, por tabela, Hémon) quisesse ser marcada, o que diminui a semelhança que naturalmente adquirem pelo conflito, a inflexibilidade de um se espelhando na inflexibilidade do outro.

Entre os atores, o destaque absoluto é de Luís Melo, que consegue dar ao personagem Creonte a gravitas necessária. Creonte é um comandante militar vitorioso, um rei; não poderia ser levado a sério sem a devida força. O mais revigorante nisso é finalmente ver uma representação do “vilão” da peça que, não se deixando levar por preconceitos pueris, não traz um Creonte meramente maquinador, vil, mesquinho, feio, tosco, como se o mal tivesse de se apresentar sempre assim, o oposto da elegância. O mal grandiloqüente, sério, com toques de heroísmo e de necessidade é que nos convence, porque se percebermos que o mal é mau jamais nos deixaremos levar por ele. A peça mereceria assistida nem que fosse para finalmente ver a representação mais complexa dessa maldade, que gera até simpatia por um homem que, talvez, se nunca tivesse sido colocado naquela posição, nem tivesse ficado tão envaidecido com seu sucesso militar, não teria inventado um decreto tão arbitrário.

A origem da tragédia: Brasil x EUA na OMC

Que a coisa assume para quem não é governo a figura da tragédia, é óbvio: os EUA não abrem mão dos subsídios, o Brasil vai revidar, os EUA podem revidar a isso e, como em todo cabo de guerra trágico, o raio da destruição só vai aumentar. A diferença é que os EUA podem agüentar muito mais do que o Brasil, o que também é óbvio.

Dois aspectos que ainda não vi mencionados, porém, parecem não ser óbvios — ou já teriam sido mencionados.

1. Por mais que o Brasil cresça aos olhos do mundo, ainda não tem poder para enfrentar o Golias americano sozinho. Uma coisa é retaliar porque tem o direito, outra coisa é simplesmente prever as conseqüências das próprias ações. Os EUA têm os famosos “excedentes de poder” e podem mandar a OMC pastar quando lhes convém. No entanto, o Brasil sempre prefere (ou declara preferir) agir multilateralmente. Deveria ter dado um jeito de bolar um ataque concertado com outros países. Como, eu não tenho a menor idéia. Mas sei perfeitamente que um dos principais problemas do não-“primeiro-mundo” é o excesso de competitividade. A Alemanha e a França passaram séculos esfaqueando uma à outra e hoje conseguem ser mais amigas do que Brasil e Argentina… Os EUA, é claro, valem-se da fragmentação e da competitividade da periferia.

2. Infelizmente, o comércio sempre foi politizado, e a OMC é uma arena mais civilizada para as disputas comerciais. Daí é que surge um paradoxo interessante. Se a OMC tivesse poder para acabar com os subsídios americanos ao algodão, isso poderia ser pontualmente bom para os consumidores de algodão dos EUA, e poderia ser bom para os produtores de algodão de outros países, mas queremos mesmo uma instância regulatória mundial? No papel isso parece bonito, mas como será que esse órgão seria usado? O que é melhor, uma OMC superforte ou uma margem maior para a política?

Agora, por trás disso tudo, há um simples tabu, que é o da extensão da ação governamental. Se o Brasil tivesse uma legislação melhor, se os laços entre políticos e empresários fossem menos fortes, se o Estado corporativo fosse mais fraco, os produtos brasileiros poderiam competir com os americanos com muito mais facilidade. Em vez de imitar os EUA naquilo que eles fazem de ruim, que é politizar o comércio, poderíamos imitá-los naquilo que já fizeram de melhor, que é ter uma legislação mais liberal. Mas isso seria a atitude anti-trágica por excelência: admitir a virtude do adversário e imitá-la.