Uma razão por que nunca cogitei o suicídio

Com o tema do suicídio obviamente na alma, eu tentava explicar a uma amiga ateia as razões de eu nunca ter considerado, nem por um segundo, dar fim à minha estadia terrestre. Na verdade, antes mesmo de continuar, acho que aí está uma das melhores razões para ser grato aos amigos: muitas vezes, eles fazem com que você esclareça para si próprio aquilo que pensa, aquilo que serve de motivação.

Ela, ateia, me apresentava o suicídio como uma possibilidade reconfortante. Se tudo ficasse ruim demais, era sempre possível desaparecer, retirar-se. Ela supunha que, por ser católico, a principal razão para eu jamais ter cogitado o suicídio era o medo do inferno. Não mesmo: muitas coisas há que a Igreja diz serem pecado mortal, e que no entanto… Se o medo do inferno fosse assim tão persuasivo, talvez eu fosse uma pessoa melhor. Porque não tenho nada contra o medo do inferno em si, e acho que ele pode ser um bom começo. Acho igualmente que quem brada não fazer nada por causa do medo está apenas com medo de parecer medroso. Aristóteles explica na Retórica que o medo é o contrário da confiança e, se isso é verdade, então a minha motivação para nunca ter procurado o suicídio está mais próxima dela.

Explico eu então, sempre grato à amiga. É verdade que ser católico influencia a minha motivação, no sentido de que a cosmovisão de qualquer pessoa influencia suas motivações. No meu caso, a influência que detectei foi a seguinte: acredito que, por piores que as coisas fiquem, se você agir com sinceridade e tiver boa vontade, se for capaz de resistir aos desejos de vingança, Deus, de algum modo, nesta vida ou na outra, vai dar bom termo às situações, não como uma espécie de Grande Titereiro, mas como um ser onisciente e misericordioso que retribuirá a sua boa vontade, um pouco como você gostaria de confortar os personagens das obras dramáticas a que assiste. Também sempre me impressionou muito a noção de que a nossa vida não é nossa: não demos a nós mesmos nossa existência, e ela não nos pertence. Ganhamos uma vida e devemos uma morte. Não fui eu que inventei essa ideia. É claro que ela pode ser manipulada de várias maneiras, inventando uma “causa de Deus” que se confunda com a do Império Austro-Húngaro ou com a ditadura do proletariado e que, em última instância, seja usada para convencer alguém a entregar a própria vida. Mas o fato de uma ideia poder ser usada para o mal não a falsifica. Aliás, perceber que a verdade pode ser usada para o mal, que é possível oprimir com a verdade, foi-me indispensável. Infelizmente, essa não foi das coisas que percebi lendo livros.

Mas bem. O ressentimento imediato que alguém pode ter dessa minha visão estaria na ausência de autonomia. E de fato eu creio muito pouco em autonomia. É preciso perguntar: autonomia em relação a quê, ou a quem? A ideia mesma de autonomia em si me parece uma piada, porque ninguém deu existência a si próprio e já começa sua carreira neste mundo com uma tremenda dívida de gratidão para com um bocado de gente. Aqui eu começo a ver que os meus pressupostos já se denunciam. Só enxergo as pessoas dentro de alguma relação, que pode ser com os outros, com Deus, com quem for. Você pode trocar suas referências, admirando umas pessoas numa época da vida, depois admirando outros, e achar que isso é autonomia, mas estruturalmente nada mudou.

É por pensar assim e por ter confiança (isso não é a famosa virtude sobrenatural da fé) que nunca cogitei o suicídio, nem quando me aconteceram as piores coisas que já me aconteceram. Pode ser que eu deva o pensar e o sentir assim a meus pais, que me transmitiram desde cedo a ideia de que o cosmos é um lugar fundamentalmente bom, um tanto como na parábola do filho pródigo. Não que, com isso, eu queira culpar os pais das pessoas que pensam e sentem de modo diverso; essas pessoas podem perfeitamente ter herdado de terceiros suas ideias, exatamente quando, ao julgar que derrubavam todos os ídolos, apenas adquiriam novos, mais insidiosos, mais despercebidos.

Niilismo pelancudo

Alguns dias após a mudança na lei, Els Borst, Ministra da Saúde da Holanda, admitiu numa entrevista que não via nenhum problema em oferecer “pílulas do suicídio” para cidadãos idosos que estavam simplesmente “mortos de tédio” com a vida.

Sympathectomy of the Soul, na First Things

Muitas e muitas vezes já se disse que a Europa só tem dois futuros possíveis: ou será recolonizada por imigrantes cristãos do Terceiro Mundo, ou será recolonizada por imigrantes muçulmanos do Terceiro Mundo. A julgar pela crescente ausência de vontade de viver dos holandeses, fica difícil acreditar na existência de uma terceira alternativa.

O aborto e a eutanásia são duas questões fundamentais, ou melhor, são dois aspectos da mesma questão fundamental, que é o significado da vida e da morte. Não falo apenas de se ter ou não uma vida eterna ou uma alma imortal, mas daquilo que se pode considerar uma vida desejável aqui neste mundo mesmo. Basicamente, você pode considerar que as adversidades da vida têm um potencial educativo que não deve ser desperdiçado, ou que elas não têm potencial educativo nenhum, que a dor é apenas dor, e que, a partir de certo ponto, o custo de suportá-la se torna maior do que o desejo de que ela passe, para que a busca do prazer possa ser retomada.

Dessas duas posições surge uma outra questão, política, que é: teriam aqueles que vêem sentido no sofrimento o direito de impedir materialmente o suicídio daqueles que não vêem?

Agora, francamente, muito francamente, creio que o simples fato de eu poder enunciar essa pergunta e soar razoável e sensato já denuncia outra coisa: que existe um número significativo de pessoas que apreciam a idéia de se matar de maneira indolor quando e se julgarem apropriado, o que, obviamente, também denuncia uma perda da vontade de viver, ou uma percepção de que a vida não vale tanto assim, ou só vale enquanto for gostosa. Não se deve supor que as pessoas que vivem segundo esse princípio estejam meramente sendo fracas: se eu mesmo não acreditasse que há sentido possível no sofrimento, também pensaria desse jeito. Existe nessa posição uma coerência: enquanto se é jovem e bonito e as oportunidades de prazer são mais abundantes, é fácil não pensar no próprio niilismo. Quando se fica velho, feio e pelancudo, é mais difícil encarar um longo e indefinido sofrimento, manifestado sobretudo pelo tédio e pelo desinteresse daqueles a quem se atribui prestígio: os jovens e bonitos.

Cá no Brasil, por sua vez, não podemos esquecer que as platéias chiques já verteram lágrimas de simpatia por uma eutanásia de heroína