O papa Francisco e o conclave

Desde a renúncia de Bento XVI, minha vida parece estar em suspenso, como num sonho.

Naquele dia, lembro que acordei, peguei o celular e vi o Twitter. Alguém tinha acabado de repassar alguma coisa do Guardian dizendo que o papa tinha renunciado. Pulei da cama, corri para o computador, mandei e-mails para todos os meus amigos: e aí, alguém está sabendo?

Poucos minutos depois eu já via que era de verdade. Acho que em meia hora já tínhamos o vídeo da renúncia.

Agora os cardeais elegeram o cardeal Bergoglio. Que sei eu dele? Nada, vou descobrir junto com todo mundo.

Hoje de manhã a Tanja Krämer (que não é um fake meu, não é a minha namorada, e que eu nunca sequer vi pessoalmente) me mandou um e-mail apenas com um link para um texto de John Thavis falando em Bergoglio. Vou confessar que nem cliquei. Não por despeito: hoje eu também entreguei mais uma tradução e precisava me concentrar.

Fica então o reconhecimento à Tanja, e mais uma rasteira: agora é acompanhar John Thavis também.

Sobre o conclave, algumas especulações:

1. Diz a lenda – é lenda na medida em que nunca teremos confirmações oficiais, só declarações em off de cardeais que vão querer permanecer anônimos, mas não quer dizer que não seja verdade – que Bergoglio foi o segundo colocado no conclave de 2005, pegando os votos do cardeal Martini.

2. Logo, parece razoável imaginar Bergoglio deve ter tido os votos de antes, dos cardeais criados por João Paulo II, mais alguns votos de alguns cardeais criados por Ratzinger.

3. Parece ainda não muito louco supor que os cardeais teriam pensado, diante da renúncia: “devíamos ter eleito Bergoglio”.

4. Thavis diz que Bergoglio causou boa impressão na congregação pré-conclave.

O que é mais lindo é que tudo isso poderia ter sido cogitado por qualquer um, mas não foi. Foram listas e mais listas de papáveis, Scherer, Dolan, O’Malley… E eu não vi ninguém falar do cardeal Bergoglio. (Mas eu também não estava prestando atenção no John Thavis.)

Outra coisa interessante – e até bela – é ver como a eleição de Bergoglio, ao menos inicialmente, vai contra a narrativa recente de cúria malvada x papa em estado de choque + cardeais que querem limpeza.

O erro dessa avaliação pode ter estado no óbvio. Nós, o mundo, estamos sempre olhando para o futuro. Agora eu poderia dizer que a Igreja está olhando para a eternidade, tudo bem, mas depois de olhar para a eternidade a Igreja olha para o passado. No caso, um passado que é quase presente: apenas oito anos atrás. Quem parecia boa opção na época continuará parecendo, a menos que surjam novas informações.

Porém, se realmente Bergoglio ficou com os votos de Martini, sendo visto como um modo de bloquear Ratzinger, pode ser que haja sim um embate de posturas vagamente na linha de conservadorismo x progressismo. Digo “pode ser” porque, afinal, onde estão as obras e as declarações progressistas do cardeal Bergoglio? As do cardeal Martini estão por toda parte.

O que não exclui a hipótese (que já é uma hipótese sobre uma hipótese sobre uma hipótese…) de que esses progressistas tenham votado em Bergoglio com o mesmo gosto com que teriam votado em Martini.

Um detalhe bem interessante nessas disputas é que elas podem ser muito relevantes e totalmente irrelevantes. Para o católico comum, distante da Cúria, mais vale o contato com um bom padre, uma liturgia cuidadosa, do que as opiniões de um cardeal. No entanto, discutir as grandes personalidades é ótimo; rezar que é bom, fazer o bem sem que a esquerda saiba o que a direita faz… E eu digo isso como um puxão de orelhas em mim mesmo.

Porém, minha sensação agora é, antes de tudo, de alívio. Depois, de grande alegria (annuntio vobis gaudium magnum, “anuncio-vos uma grande alegria”). A sé não está mais vacante.

Hoje, antes de dormir, rezarei pelo papa Francisco – e, pela segunda vez no dia, rezarei pelo papa emérito Bento XVI.

Um grão de mostarda

Todos esses dias eu venho pensando em escrever um texto sobre Bento XVI. Fico esperando a disposição interior correta. Ela não vem. E começo a pensar que é preciso fazer as coisas com ou sem a disposição. Fazendo, a disposição vem. Logo acabarei usando esse método.

Robert Moynihan conta que encontrou um cardeal na rua e que ele, quase chorando, diz que Bento XVI nunca deveria ter renunciado. Minhas simpatias, cardeal. Há um misto de estarrecimento e de apego à figura de Ratzinger. Aliás, não importando quem o conclave eleja, Ratzinger vai dar o perfil teológico da Igreja pelos próximos 100 anos. Esse tipo de coisa funciona assim: você esbarra num problema, e se lembra, ou alguém lembra, que Ratzinger tinha dito que…

Contudo, se o cardeal na rua estava ainda abalado, o cardeal Arinze, que conviveu com Ratzinger na Cúria, parecia ter uma fé imensa.


O cardeal Arinze fala inglês claro – e é impossível não gostar dele.

E agora que o conclave começa, tento pensar nessa fé. Se o gesto de Ratzinger não nos convida a ter fé não nele, não num homem, mas no Espírito Santo.

Mesmo assim, a primeira coisa que ouço em meu coração é: reelejam Ratzinger.

Mas, como o conclave é misterioso, vou tentando ver os rostos dos cardeais, pensando que um deles será o novo papa. Posso torcer por Ranjith e O’Malley, posso não ter grande simpatia por outros. E daí?

Robert Moynihan também diz que encontrou uma velhinha – eu muitas vezes acho que ele conta umas coisas como fábulas – que falou bem de Schönborn – logo aquele que eu disse que não poderia ser eleito. Seria uma bela lição para mim, o único exemplo que eu dei de “esse aqui não” ser o escolhido.

Quando se tenta ser cristão, é preciso conviver com essas rasteiras amigas que o Espírito Santo dá. Não se aprende a humildade sem comer um pouco de pó.

Agora, pela lógica da velhinha – três papas da Europa Central, falta um – o cardeal Erdo também seria papável. Com o detalhe de se chamar Peter e agradar aos devotos das profecias de São Malaquias.

Vamos rezar que ainda é tempo.

E confesso que na quinta à tarde eu tenho um compromisso. Quero muito que já tenhamos um papa até lá!

Scherer de um lado, Dolan de outro?

Ontem, Sandro Magister, com um tom que não me parece muito comum em seus artigos (link para a tradução em português do indispensável Fratres; lembro que Magister publica em italiano, inglês, francês e espanhol), começou a soltar informações e a especular, citando como fontes apenas “vazamentos”. O que achei interessante foi que Robert Moynihan ecoou algumas das especulações, então vale um pequeno comentário.

Mas antes de tudo, o comentário mais importante é: pelo menos nos dois últimos conclaves, todos os jornalistas e vaticanistas erraram muito feio. Ninguém esperava o papa polonês, ninguém esperava o papa alemão. Acredito que isso deveria bastar para colocar alguma humildade nas especulações. Porém, Magister e Moynihan são jornalistas com público garantido; se eles especularem e acertarem, ponto para eles; se errarem, você vai parar de lê-los? Nem eu.

Magister (parece um nome de personagem, Sandro Professor) ainda traz uma informação interessante (supondo que seja verdadeira): o número de votos de cada escrutínio do último conclave, e ainda números dos escrutínios de alguns conclaves do século XX, todos confirmando, supostamente, que o conclave sempre começa com um favorito e que esse favorito ganha. E vou insistir: Ratzinger teria saído como favorito desde o primeiro escrutínio e isso confirma o descompasso entre a mente da imprensa, inclusive dos vaticanistas mais sérios, e a mente do colégio de cardeais.

O que Magister diz, em suma, é que o cardeal Sodano estaria por trás de uma articulação para eleger Dom Odilo Scherer como papa. Assim, ele seria o candidato, digamos, da continuidade. Mas que ninguém por isso pense em Dom Odilo como uma marionete etc. Pouco sabemos do reservado Dom Odilo – mas sua defesa da Cruz na PUC de São Paulo é admirável. Magister também diz que Dom Odilo não é popular no Brasil e que sua candidatura à presidência da CNBB foi sumariamente vetada duas vezes (quem tiver fontes e quiser me escrever, agradeço). Nós aqui no Brasil conhecemos a CNBB e podemos tirar nossas próprias conclusões.

(Sensacionalismo sobrenatural: pelas famosas profecias de São Malaquias, tão precisas quanto as de Nostradamus, o próximo papa seria “Pedro Romano”. Dom Odilo se chama Dom Odilo Pedro Scherer.)

Do outro lado estariam o cardeal Dolan, arcebispo de Nova York, e o cardeal O’Malley, de Boston, que ainda fala português e espanhol. Mas o mais interessante é que estaria delineada uma disputa entre uma linha “ratzingeriana” (que ainda incluiria Ouellet) e outra “não-ratzingeriana”.

Agora, se os cardeais de maneira geral realmente pensarem que a Cúria está desgovernada e que a renovação é necessária, é difícil que Sodano vença. Simplesmente porque existem mais cardeais fora da Cúria do que dentro dela; mais cardeais fora da Itália do que dentro dela. Aliás, mesmo entre vaticanistas, duas coisas parecem ser ponto pacífico: João Paulo II não estava nem aí para a Cúria, e Bento XVI num dado momento desistiu de tentar reformar a Cúria.

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Vale fazer uma observação sobre o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, que sempre vejo nas listas de papáveis. Do ponto de vista da Igreja, ele é… controverso. Teria anunciado o donwsizing da Igreja em Viena; arrumado confusão com o bispo de Medjugorje; e dado alguma declaração que rendeu, segundo li (quisera eu achar a fonte, mas creiam em mim), uma bronca tripla e conjunta, do papa Bento XVI, do cardeal Bertone (secretário de Estado) e do cardeal Sodano (decano do colégio de cardeais), que o esperavam numa salinha, aparentemente já de cara amarrada. A reunião do alto comando vaticano com o cardeal é confirmada por fontes oficiais (cliquem nesse link, vale muito a pena). O teor dela é que circulou entre os vaticanistas. E esse é o tipo de notícia que não circula na imprensa não-especializada, mas que circula entre os cardeais. Os cardeais jamais vão desrespeitá-lo. Mas daí a colocá-lo no trono de Pedro é outra história.

Por isso, se alguém quiser uma lista de papáveis com algum grau de realismo, precisa procurar esse tipo de informação. É preciso um currículo impecável. E nesse sentido mais vale ser alguém de quem se sabe pouco, como Dom Odilo, do que alguém de quem se sabe muito.

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Mais de uma pessoa me escreveu como que pedindo um destaque maior para Antonio Socci, que teria previsto a renúncia do papa. Vejam: sem querer desmerecer Socci (de modo algum!), desde Pio XII todos os papas prepararam documentos de renúncia. Entendo que Socci queira enfatizar que disse que Bento XVI renunciaria. Mas, de modo geral, a posição de prudência em relação a esse tipo de afirmação ainda me parece mais recomendada.

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Num ponto concordo com Sidney e Carlos: é bad form desejar que Chávez vá para o inferno. Amai os vossos inimigos etc.

Sobre o conclave que se aproxima

Admito que fiquei envaidecido quando vi Robert Moynihan fazer duas observações semelhantes às que eu fizera duas semanas antes: uma comparação entre os conclaves de 2005 e de 2013 nos termos que propus, e uma análise de como o contato entre os cardeais vai interferir no conclave.

Um problema de falar sobre o conclave é que se corre o risco de tentar ser mais esperto do que o colégio de cardeais e, em última análise, do que o próprio Espírito Santo.

Por isso, o melhor é tentar ser humilde e ater-se ao óbvio.

Os cardeais já estão se reunindo a portas fechadas. As reuniões formais só acontecem de manhã. Como o próprio Moynihan observou, isso significa que os cardeais estão querendo mais tempo para conversas informais. O conclave, por sua vez, é uma eleição formal e pode ser resolvido até no mesmo dia. Daí que, com tantas reuniões entre os cardeais, consigo imaginar dois cenários extremos: de um lado, o conclave já começa com um papa informalmente eleito; de outro, os cardeais veem que os problemas da Igreja são um buraco sem fundo e o conclave se arrasta. Francamente, não acredito muito nessa segunda hipótese, lembrando que ela é uma hipótese extrema.

Como já falei, a maior parte dos cardeais não tem qualquer função na Cúria Romana, e todos sabem que o anel do Pescador dá poderes de monarca absoluto. Mais ainda, se alguém quiser atribuir a Ratzinger um maquiavelismo genial que eu mesmo não lhe atribuo, sua renúncia gerou a narrativa do papa bom contra a Cúria corrupta. Isso dá força para qualquer cardeal de fora da Cúria. Num assunto como o conclave, quase tudo é misterioso, porque nem os mais tremendos vaticanistas têm acesso a dados fundamentais, mas eu arriscaria dizer que, se os grandes perdedores forem Sodano e Bertone, ninguém que tenha acompanhado o papado de Bento XVI vai ficar muito surpreso.

Por outro lado, o maior problema, que certamente afeta a mim mesmo, é acreditar que o conclave é pautado pelo que se lê na mídia. É um pouco inevitável que isso aconteça, porque tudo relacionado ao conclave é realizado em segredo. Ainda assim, é preciso manter sempre uma ressalva interior.

Sobre as coisas que saem na mídia, porém, é possível fazer alguns comentários, necessários porque os jornalistas aparentemente sequer se dão ao trabalho de pensar como alguém de dentro da Igreja.

Primeiro, a Igreja não é a Apple. A Apple pode ficar preocupada se as pessoas preferirem telefones Android aos iPhones, mas a Igreja não funciona assim, porque ela não está tentando gratificar a plateia em troca de dinheiro ou da ostentação de uma identidade. Eu sei, você acha que não, que a religião é mentira etc., mas será que você não acredita nem na sinceridade subjetiva?

Disso deriva outra coisa. O papa não será eleito por seu carisma potencial perante a plateia. Ontem mesmo li no jornal que Dom Odilo Scherer poderia ser eleito para reforçar a presença de Igreja na América Latina. O que leva alguém a escrever isso? Quem, senão Policarpo Quaresma, cogitaria converter-se porque o papa é da sua nacionalidade? A eleição de Ratzinger levou a um surto de catolicismo na Alemanha?

(Mas confesso que tive uma alucinação esses dias em que ouvia o nome de Dom Odilo anunciado na praça de São Pedro.)

Disso também deriva que, para os cardeais, pouca diferença faz que o papa seja negro, oriental ou o que for. Eu mesmo adoraria ver o cardeal Arinze eleito, ou Ranjith. Mas os cardeais realmente não vão pensar: “Caramba, hora de colocar um nigeriano no trono de São Pedro!”

Por fim, se há algo que dá genuinamente a impressão de um embate perpétuo entre Igreja e mundo, é a lenga-lenga que nunca para de sair na imprensa sobre exatamente… a Igreja e o mundo.

Saem aquelas afirmações gratuitas de que a Igreja perdeu fiéis porque não relaxou sua moral. Há o pressuposto de que a função da Igreja é falar o que as pessoas querem ouvir, e que a relação das pessoas com a religião é semelhante à que elas têm com seus carros, ou celulares etc.

Há aquelas afirmações que já pulo, por cansaço. A Igreja nunca vai aprovar o aborto, o divórcio, o casamento homossexual, a ordenação de mulheres (João Paulo II proibiu até que a ordenação de mulheres sequer fosse discutida). Nutrir uma vaga expectativa de que isso possa acontecer é condenar-se à frustração, isso supondo sinceridade da parte de quem diz esperar essas coisas. Mais ainda, a Igreja acha que ficar ouvindo essas reivindicações, ou ficar lendo que o próximo papa deveria ser um pouco mais parecido com um editorialista do New York Times, é apenas uma parte desprezível dos seus necessários incômodos terrestres. Eu imagino que os cardeais às vezes até se divirtam dando entrevistas: “Vou dizer ao jornalista que o papa tem de ser ‘um cara antenado’, ele vai botar isso em destaque!”

E continuemos a rezar.

Sucessão papal: duas diferenças entre 2005 e 2013

A primeira diferença que noto entre a situação de agora e a de 2005 é que em 2005 havia um cardeal “estrela”, um cardeal high profile: Ratzinger. Assim, pode ter sido uma surpresa que ele tenha sido eleito, mas por outro lado não foi. Não havia nenhum outro cardeal que combinasse uma carreira impecável, uma obra influente e a experiência na Cúria. Ratzinger provavelmente era o único cardeal cujo nome até aqueles desinteressados por religião conheceriam. Só para dar uma ideia, bem antes do conclave de 2005 já existia o site do Ratzinger Fan Club. O status de celebridade de Ratzinger era perfeitamente devido. O homem não apenas leu tudo (inclusive o Antigo e o Novo Testamentos nos originais hebraico e grego) como nunca redigiu uma linha que parecesse burocrática, automática, irrefletida.

Essas considerações podem dar a impressão de que a eleição de Ratzinger era totalmente previsível – mas não era. Ninguém previu. Os “vaticanistas” disseram que a homilia com que Ratzinger abriu o conclave, e que ficou famosa pela expressão “ditadura do relativismo”, era um sinal de que o homem não queria ser papa e estava contra o mundo. Francamente, até eu tendi a interpretar as coisas desse modo. Mas esse é o maior risco: mesmo que achemos que não, vamos interpretando as coisas com os olhos do “mundo”. Se o homem diz algo que parece contrariar a plateia imaginária que temos na cabeça, a “opinião pública”, está se suicidando. Se joga algo para a plateia, parece alguém digno de louvor. Não é que pensar assim seja exatamente errado. O mais devido é dizer que essas categorias simplesmente não se aplicam a um conclave, nem que seja porque a plateia em questão é composta de pouco menos de 120 pessoas que provavelmente têm fortes individualidades ao mesmo tempo em que julgam que a eleição é guiada pelo Espírito Santo. Juro para vocês que a opinião do New York Times não é levada em conta na Capela Sistina.

Por isso, mesmo que hoje não exista ninguém com a projeção de Ratzinger, e mesmo que alguns cardeais tenham mais destaque do que outros – Arinze, Ouellet, Ravasi, Scola, Kasper – , esse destaque não garante nada.

A segunda diferença que noto vem de um detalhe que não vi muito comentado. João Paulo II realizou 9 consistórios em 27 anos de pontificado. Bento XVI realizou 7 consistórios em 8 anos. Um consistório nada mais é do que uma reunião de cardeais em Roma, na qual os cardeais também costumam ser “criados”, ou nomeados. Bento XVI fez isso por achar que os cardeais deveriam conversar mais entre si. E provavelmente anunciou a renúncia na abertura do último consistório que convocou para permitir que os cardeais já passassem bastante tempo em Roma conversando.

Isso significa que, ao contrário dos conclaves anteriores, em que os cardeais muitas vezes só se conheciam de vista, na melhor das hipóteses, agora os cardeais vão se conhecer bem melhor. E mais: estando em Roma, vão começar a saber mais dos problemas da diocese e da Igreja como um todo. Porque a Igreja é totalmente separada do ponto de vista administrativo. O Papa pode ter autoridade até para nomear os diáconos da última paróquia do quarto mundo (embora ele se restrinja a concordar com a nomeação de bispos), mas administrativamente essa paróquia está sozinha. Ela é que se sustenta. Ela é que lida com a justiça, com as autoridades civis locais. Por isso, a chance de um cardeal, ainda mais de um cardeal que também é bispo diocesano – e, se o cardeal não está aposentado, nem trabalha na Cúria, nem em alguma missão louca dada pelo papa, ele provavelmente é arcebispo de algum lugar e está afundado até a cabeça em questões administrativas – não saber praticamente nada dos problemas da Igreja universal é bem grande. E, diria eu, talvez não seja pequena a chance de ele ficar sabendo e achar que esses problemas são, digamos, grandes demais para que ele os queira para si.

Vou dar um pequeno exemplo: imagine um escândalo financeiro do IOR, o Instituto para Obras Religiosas, mais conhecido como Banco do Vaticano. Esse “um escândalo”, aliás, mais parece um escândalo permanente. Ele envolve cardeais, políticos, a máfia, outros banqueiros… E você, cardeal de não sei onde, não tinha nada a ver com isso, e só sabia por ouvir falar. Você pode também não ter nem experiência na Cúria. Como papa, você passa a estar no centro do problema. Caro leitor: tente pensar que uma coisa é eu falar disso em termos abstratos, e outra é conhecer o problema em termos de cifras, pessoas… Vamos dizer que nem todos podem olhar essa situação e achar que têm estômago e fé suficiente para lidar com ela.

Existem tantas previsões hoje que provavelmente alguma delas estará certa. Se der Ouellet, dirão que ele já era papável; se der Scola, dirão que o papa elegeu seu sucessor; se der Arinze ou Turkson, dirão que a igreja quer um rosto negro (como se o maior mérito de alguém fosse a cor da pele, e você ainda fosse otário o suficiente de achar que os cardeais realmente ligam para esse critério). Eu só acho difícil que seja eleito alguém associado a algum escândalo feio. Fora isso, pode ser qualquer um. E o melhor que se pode fazer é tentar entender como a Igreja funciona e vai continuar funcionando independentemente de quem usar o anel do Pescador. O conclave é misterioso. A estrutura da Igreja é pública.

Guia mínimo de fontes imediatas para a sucessão papal

Outro dia percebi que, apesar de o Brasil supostamente ser “o maior país católico do mundo”, a grande imprensa não conta com um único jornalista católico que possa dar um panorama razoável de acontecimentos religiosos. Esse jornalista teria como modelo Damian Thompson, do Telegraph, que fala de questões católicas e anglicanas. (Não me falem em Luiz Paulo Horta, por favor.) Ninguém chama um jornalista que tenha pouco interesse por tecnologia, e que mal saiba usar o seu computador, para cobrir lançamentos e disputas da área de tecnologia, mas por razões insondáveis parece que qualquer pessoa pode falar sobre questões religiosas.

Na ausência do nosso Damian Thompson, vou citar aqui, para que o leitor possa acompanhar os fatos, só algumas fontes que trazem mais fatos do que reflexões. Aviso logo que é preciso entender inglês e italiano. Outras línguas também fazem bem, sobretudo o francês (indispensável para quem desejar se aventurar pelas questões do tradicionalismo). Na hora dos grandes momentos, um latim não faz mal. A jornalista que deu o furo da renúncia chegou primeiro porque entendia latim. E o latim eclesiástico é realmente mais fácil do que o clássico. Em 2005, o Papa Bento XVI fez em latim a sua primeira homilia.

Outra advertência obviamente diz respeito aos conhecimentos pregressos. É preciso conhecer a história da Igreja, os personagens do século XX – inclusive os mais curiosos, como o padre Malachi Martin, cujas obras podem ser proveitosas se os leitores tiverem a prudência necessária. Se os jornalistas conhecessem um pouco melhor o funcionamento da Igreja, parariam de repetir que “Bento XVI nomeou [quando o verbo ideal seria “criar”; cardeais são “criados”] mais da metade do colégio de cardeais”. Um papa teria de ficar muito pouco tempo no trono para que isso não acontecesse. Solta, a informação dá a entender que Bento XVI fez uma jogada para que fosse eleito um filhote ideológico seu.

E uma última advertência para o leitor desavisado é que, se você for católico, tiver amigos católicos, conhecer sacerdotes, bispos etc. as informações simplesmente chegam até você. Nas minhas relações pessoais, além disso tudo, tenho grande proximidade de pessoas de outras denominações cristãs. Por isso, frequentemente recebo e-mails e comentários preciosos.

Assim, as fontes a seguir são as que eu posso recomendar para alguém que deseja acompanhar o fim do papado de Bento XVI e a sucessão papal que ora se inicia. Porque, apesar de oficialmente proibidas pela Igreja (para os católicos, claro), é claro que as especulações já começaram. E vale dizer que, em 2005, 100% dos “vaticanistas” que li, inclusive os entrevistados por jornais brasileiros, disseram que Ratzinger tinha chutado o balde com a homilia de abertura do conclave, passando a mensagem de que não queria ser eleito.

O guia

1. Começando pelo óbvio, é preciso ler sempre o site do Vaticano (que aliás mantém seu charme de “primórdios da web”) e o da Rádio Vaticana. Não acompanhar a parte oficial e pública é como fazer jornalismo político e não ler os atos oficiais do governo.

Porém, sem um bom conhecimento do assunto, ficam perdidas as alusões e as entrelinhas, lembrando que às vezes uma ausência pode ser bastante significativa. Seria como comentar uma lei e não falar do contexto em que ela foi produzida.

2. A Zenit funciona, na minha opinião, como uma espécie de agência extra-oficial. Quer dizer, claro que não é, é uma organização privada não-subordinada à hierarquia. Mas o tom dela é normalmente neutro, e ela reflete opiniões de diversos lugares do mundo. Nem todos os textos são traduzidos em todos os idiomas, então dê uma olhada em todos os idiomas que você conseguir ler.

3. Os anos passam, e a melhor fonte de análise e de comentários continua a ser, de longe, Sandro Magister. Suas colunas saem em quatro línguas (inglês inclusive) e ele também mantém um blog em italiano.

4. Gosto demais de dois blogs: Whispers in the Loggia, de Rocco Palmo, e The American Papist, de Thomas Peters. E por quê? Porque eles sempre sabem selecionar as informações mais relevantes, ainda que evitem as posições escandalosas. Aliás, é preciso dizer que, por respeito, nenhum jornalista ou blogueiro católico vai falar mal de um cardeal, por exemplo. Aí é preciso ler nas entrelinhas. Por exemplo, muitas vezes no catolicismo vão ser usadas fórmulas-chave. O Papa Bento XVI fala em “hermenêutica da continuidade”. É possível dizer que ele está se protegendo com a pompa, para poder dizer algo como “o Vaticano II não liberou o violão na missa”.

4.1. E você também precisa acompanhar no Twitter os mesmos Rocco Palmo e Thomas Peters. Exatamente porque eles repassam o que há de mais interessante. Se eu não indicasse essas duas contas deles, teria de ficar enumerando outras e outras fontes, e falando delas. O objetivo é dar um guia mínimo, não sobrecarregar quem quer se informar, e muito menos escancarar para o mundo que sou meio que um junkie de notícias vaticanas / eclesiásticas.

5. O já citado Damian Thompson.

6. Robert Moynihan também sempre vê as coisas por um ângulo interessante, e tem muitos contatos. Recentemente ele recordou o quanto chamou a sua atenção o fato de que Bento XVI depositou seu pálio no túmulo de São Celestino V, um dos papas a renunciar. E ainda colocou uma foto desse momento.

7. Como o último lugar tem um destaque, cito, no Brasil, o blog Fratres in Unum, que tem viés mais conservador e tradicionalista. Não digo isso de maneira ruim. É que há certas questões que interessam mais a conservadores e tradicionalistas, como a da liturgia tradicional e a da união com a SSPX, que recebem destaque ali. E, mesmo você não sendo conservador nem tradicionalista, se quiser conhecer os fatos das disputas, vai encontrá-los. No blog, sempre há coisas relevantes, sobretudo nos últimos dias. Está indispensável.