Liberdade religiosa

Do meu artigo desta segunda, publicado no OrdemLivre.org:

Não é que o Vaticano ignore os problemas surgidos após o Concílio e a nova liturgia. O Vaticano, porém, preocupa-se com a continuidade, com a interpretação do Concílio “à luz da Tradição” (não da FSSPX), e procura encontrar uma maneira de estar em um mundo que mudou. Afinal, antes de ser um direito, a liberdade de consciência é um fato: mesmo que haja leis contra o ateísmo, não é possível impedir alguém de ser intimamente ateu – exatamente como não é possível para um regime de ateísmo obrigatório abolir a religião. E enquanto a FSSPX parece preferir a fórmula “trono e altar” questionada pelas revoluções americana e francesa, Ratzinger, em conferência de 1996 publicada em seu livro Fé, verdade e tolerância (Raimundo Lúlio, 2007) diz prudentemente que “não existe uma única opção política correta”.

Escrito, aliás, pouco depois de ler um ótimo artigo sobre aquilo que realmente divide a FSSPX e o Vaticano: a questão da liberdade religiosa.

E não custa recomendar de novo o livro Fé, verdade e tolerância, do Papa Bento XVI.

Por que "pessoas esclarecidas" só falam bobagem sobre religião?

Tenho 31 anos e acho que há uns bons 21 percebo que a norma entre quem escreve por profissão ou hábito é negar à religião qualquer complexidade. Já perdi um bocado da paciência de explicar que “Igreja Católica” é um termo equívoco, podendo significar 1. o magistério da Igreja, 2. a instituição materialmente existente, 3. todos aqueles que se dizem católicos, 4. todos aqueles que se disseram católicos em toda a história, 5. muitas coisas além disso e 6. tudo isso junto. Antes eu ficava indignado; a idade só me deixa um bocado curioso, com perguntas do tipo “Farão isso por burrice ou má vontade? Ou os dois?”

Já é mesmo o caso de procurar explicações psicológicas. Quatro coisas são constantes nos detratores da religião. Outras também, mas aqui me interessam quatro.

A primeira é um horror absoluto à idéia de que algo não mude. O curioso é que isso é mais moderno do que a própria modernidade. Todas as revoluções até o século XX foram feitas a partir da idéia de que a humanidade tinha traído seu propósito, de que era preciso voltar às origens, restaurar alguma verdade perdida — isto é, fazer uma revolução mesmo, uma volta ao ponto original depois de um longo desvio. Até mesmo um Rousseau disse que “o homem nasce livre, e está acorrentado por toda parte”, querendo dizer que o seu estado original é de liberdade. Concorde você ou não, até Rousseau queria uma volta à verdade, não a criação de algo novo. A idéia de ruptura total, da criação de uma nova humanidade, talvez não esteja presente — apenas semi-presente — nem mesmo nos socialismos alemão e soviético. O nazismo tinha um modelo um tanto espartano, e Otto Maria Carpeaux sugere o “conservadorismo” de Lênin nesse sentido que uso. Hoje em dia tudo seria novo, porque… Francamente não sei. Dirão que por causa dos avanços tecnológicos. Mas estes avanços dizem respeito apenas a meios e não a fins. Curar doenças, conhecer o mundo físico, comunicar-se, sentir prazer — não há nada de novo sob o Sol. E isso é que escandaliza as pessoas hoje: lamento, não me comovi, não há nada de novo sob o Sol, e os fins não passaram a justificar os meios só porque estes se tornaram maravilhosos.

A segunda coisa é um desejo, que também não tem nada de novo, de que nenhum ato tenha uma conseqüência indesejável. A idéia de que sorvete engorda provoca um ressentimento cósmico. A idéia de que o sexo gere bebês, também. Essa finalidade perene da humanidade também encontra nos avanços tecnológicos muitas oportunidades de satisfação, e continua mascarando o mesmo problema psicológico, um infantilismo tremens: a recusa em admitir que o mundo tem autonomia em relação ao sujeito.

A terceira coisa é o uso constante de eufemismos tolos e totalitários. Já sabemos que quando alguém diz que é preciso “discutir” algo, isso significa “mudar a legislação”. “Discutir o aborto” = “legalizar o aborto”. “Discutir as drogas” = “legalizar o uso de drogas”. E olha que eu sou contra o aborto e a favor da legalização, mas não a favor dessa retórica desonesta.

A quarta coisa, que talvez resuma tudo, é aquilo que em meu vocabulário particularíssimo chamo de “mentalidade vitoriana” (sim, eu sei que o nazismo veio depois da Rainha Vitória; estou usando uma abstração pessoal), que é o desejo de mostrar-se uma “pessoa esclarecida”, sempre acima do resto da humanidade, uma pessoa “humanizada” por idiossincrasias charmosas e por concessões à vulgaridade quando há aprovação coletiva. Aqui no Indivíduo volta e meia uso eventos da minha vida pessoal, mas prefiro resguardá-la. Assim, você já soube que eu gosto de música “erudita” e freqüento a Sala Cecília Meireles; que eu acho a Ana Beatriz Barros bonita; que eu moro em Copacabana; que eu conheci Bruno Tolentino; que eu leio poesia. Se meus textos em defesa da Igreja, em defesa de um certo conservadorismo e sobre coisas associadas à “alta cultura” fossem contrabalanceadas por uma confissão de amor a blocos de carnaval, ao Big Brother Brasil e se, em vez de colocar fotos de uma loura de olhos claros de cinco metros de altura (pior ainda, de algumas atrizes inglesas semi-conhecidas) eu colocasse fotos de alguma mulher-jaca com cinco metros de quadril, e ainda tivesse sido amigo de um obscuro sambista, eu me tornaria mais “amável” e “humano” segundo um padrão cultural. Ou melhor, segundo um mero preconceito.

Os neo-vitorianos, que são boa parte dos letrados que dominam a imprensa, fazem sua identidade reverberar. Não é uma conspiração: é um simples efeito de sua atividade profissional. Quem ler um grande jornal brasileiro pode ter a impressão de estar numa convenção do Partido Democrata americano, com todo mundo competindo para ver quem consegue reunir o máximo de progressismo com o máximo de jeitinho de quem é CDF. É mesmo tudo pose; isso é demonstrado pelo fato de que o tom de indignação é o “argumento” mais comum: “ENTÃO VOCÊ ESTÁ DIZENDO ISSO?” “NÃO POSSO ADMITIR…”

Agora, se eu digo que perdi a paciência de discutir bobagens sobre religião, também perdi a crença de que seu locus e participantes tenham importância. A paciência eu perdi por causa da idade. A crença eu perdi por ter percebido que — e aí não vai nenhuma ofensa, só uma mera constatação — a imprensa e os blogs são quantitativamente irrelevantes. Aliás, completamente irrelevantes. Podem ter algum efeito em denúncias de corrupção, mas não em termos de debate de “idéias” (ou de choque de identidades, ou de competição de poses). Mil capas da Veja parecem não ter o mínimo impacto sobre a oposição ao aborto da maioria dos brasileiros. Por isso, meu tempo é melhor empregado fora dessa confusão.

Aliás, fosse eu jornalista, e tivesse de me perguntar sobre o futuro da profissão no Brasil etc, simplesmente levantaria as seguintes questões. 1. Ninguém mais atribui neutralidade ou imparcialidade à mídia. De que modo isso afeta a credibilidade? Será que o jornalismo se tornou apenas um reforçador da identidade ideológica dos leitores? 2. Não será a hora de parar de não perceber que existe uma identidade de grupo entre jornalistas, que quem está de fora percebe? Como isso afeta a relação entre o público e os jornalistas? 3. Por mais padronizada que seja a linguagem jornalística, não será melhor abdicar do padrão em nome da informação, isto é, da complexidade? Ou isso inviabilizaria o jornalismo enquanto negócio? Se inviabilizar, em que o jornalismo difere moralmente do tráfico de heroína? 4. Serei eu mesmo uma pessoa tão esclarecida a ponto de poder tornar meus preconceitos padrões universais de julgamento? Será que não estou deslumbrado demais com meus diplomas?

Mas eu não sou jornalista, nem fico atacando as religiões, nem acho que vivemos uma era totalmente nova. Meus problemas são diversos.

Darwinices

Já declarei que o meu interesse pelo assunto “teoria da evolução” tende a zero. Antes que você se escandalize com isso, devo dizer que eu também me escandalizo com o fato de alguém não querer discutir as diferenças entre o teatro de Shakespeare e o de Chekov o dia inteiro. Ou o de Ibsen. Se eu tivesse de escolher entre A origem das espécies e Hedda Gabler, ficaria com a peça sem pensar um segundo.

Mas eu me interesso pela guerra cultural em torno da teoria da evolução. E, antes de entrar nesse assunto, devo dizer que todo assunto pode ser tratado de duas maneiras diferentes. Na primeira, chamada científica, a pessoa que investiga sacrifica suas preferências e desejos em nome do objeto investigado. Isso pode nunca ser perfeito: é uma atitude, um estado subjetivo, e portanto depende de ser mantido pelo investigador. Na segunda, dominante no jornalismo e em blogs (quase nem poderia ser diferente), os assuntos são tratados como componentes de identidade e, portanto, de auto-afirmação. “Eu possuo o melhor argumento, logo sou melhor do que você”. Um argumento pode ser ostentado em público como uma roupa, um carro ou uma namorada. Sobretudo por quem não sabe se vestir, não tem carro e nem namorada. Queremos ser ricos; queremos ser vistos como ricos.

Faço essa longa ressalva para dizer que nada sei sobre a evolução. Não sou biólogo e, francamente, não vou passar a ser. Sou leigo nisso e admito a existência de um domínio de especialistas. Não sei nem se eu saberia formular a teoria da evolução como tese. Ontem fiquei tentando e o melhor que consegui foi “ocorrem mudanças genéticas aleatórias que afetam o grau de adaptabilidade dos seres ao ambiente; os mais adaptados sobrevivem e se reproduzem, passando seus genes adiante”. Se essa tese é verdadeira ou não, não ligo a mínima. Prefiro pensar em Hedda Gabler.

O que eu não consigo entender, enfim, é como essa tese pode contradizer a tese da existência de Deus e a existência da religião. Primeiro porque a questão da origem da vida é distinta da questão da evolução ou não-evolução. É evidente que Deus poderia ter criado o mundo com leis evolutivas biológicas. O fato de os seres “evoluírem” não prova nem desprova a existência de Deus. Admitindo que Darwin era um cientista sério – sem ironias do católico aqui – os darwinistas de botequim estão apenas se apropriando de sua teoria para manifestar seu desgosto com pessoas religiosas quaisquer, e não só aquelas que seguem uma interpretação literal do Gênesis – interpretação jamais adotada ao menos pela Igreja Católica; se você não sabe, vá se informar, depois volte. Espírito científico, rapaz! Agora, consigo perfeitamente compreender o desejo de reagir contra um moralismo petulante que pretenda governar sua vida; mas também consigo ver que a teoria da evolução está apenas sendo usada como porrete, com total desprezo pela questão de os seres vivos realmente “evoluírem” ou não.

Exatamente como a religião merece ser distinguida das apoteoses de tosquice dos religiosos, tenho certeza de que a teoria da evolução merece ser distinguida dos xiitas que se julgam iluminados por não ser as pessoas de quem não gostam. Se o espírito da religião é de caridade, o espírito da ciência me parece ser de prudência. É impossível não comparar as pessoas que brandem a teoria da evolução em blogs e jornais com pregadores. É impossível não sentir que as celebrações do “ano Darwin” parecem pretender marcar uma “nova era” em que a “ciência” vai suplantar a “religião” e que Darwin, logo um velhinho barbudo, virou garoto propaganda da anti-religiosidade. Nesse sentido, não há nova era: a disputa de atitudes é tão velha quanto o mundo, e a atitude que hoje se pretende “científica” é a velha atitude prometéica. Novamente devo recordar que não estou discutindo o conteúdo da teoria da evolução, mas seu papel na criação e afirmação da identidade de não-especialistas letrados o suficiente para querer ser vistos não apenas como bonitos ou bem-vestidos, mas também como donos de certas opiniões. Até porque um dos grandes mitos modernos é que cada um deve ter a sua própria opinião, sendo deveras deselegante usar de sinceridade e admitir: “Não sei, francamente não estou nem aí, tenho outras prioridades e a vida é curta.”

O inequívoco sinal da picaretagem…

… é, como eu conversava outro dia com o Diogo Costa, iniciar qualquer argumentação evocando o “consenso científico”.

Já falei disso dezenas de vezes. Se a ciência é a busca da verdade; de alguma verdade; da explicação da natureza e das causas de algum objeto concreto ou abstrato; se há diversas pessoas envolvidas nessa atividade, cada uma delas dotada de uma inteligência individual; e se existe a possibilidade de progresso científico, que só pode se dar pela superação de alguma idéia consensual; se o próprio “consenso” não pode ser mais do que uma generalização, isto é, alguma idéia que supostamente muitos cientistas de uma área tomam como verdadeira; se nada impede que algo consensual seja falso (“o mundo é plano”, “coisas podres geram mosquitos”); e, novamente, se a própria atividade científica se define pela própria superação de um consenso atual sobre um determinado tema, como é possível que a contestação de um suposto consenso seja tão estigmatizada?

Vejam que não estou falando de especialistas. Estou falando de jornalistas e blogueiros que têm tanta capacidade técnica de avaliar se existe – por exemplo – aquecimento global quanto a lagartixa que bizarramente tem me visitado dia sim, dia não. Para todos os não especialistas, a questão é só de fé. Não no sentido teologal, mas no sentido de credibilidade. Você pode ter fé em pessoas de jaleco branco e se sentir moderno e sensato, aproveitando para zombar de pessoas como eu, que crêem na transubstanciação etc. Eu suspeito que você só faça isso para se sentir moderno e razoável, porque eu também acho que quando um conservador fica zombando das modernidades do mundo ele também está apenas resolvendo seu pobrema de auto-afirmação.

Os blogueiros e jornalistas que querem brandir o “consenso científico” hoje são as gêmeas não tão secretas daquelas que querem ou queriam brandir a autoridade religiosa. “Creia em mim ou sofra as conseqüências!” E assim como estas podem lamentar a desunião entre Igreja e Estado, aquelas lamentam a falta de união entre “ciência” e Estado. Os dois discursos são desculpas em defesa do interesse próprio. Os dois tipos de pessoas têm seus lobbies nos Congressos do mundo. Para não dizer que estou atacando só os cientistas com e sem aspas, observemos a repulsiva união entre leigos católicos e o governo do estado do Rio, e agora do município do Rio. Gratificar – o verbo que eu queria era to pander to – o reacionarismo também dá votos. Alguém ainda precisa dizer que certas manifestações são uma espécie de parada gay da reacice.

Mas já divago demais. Só que deixo o leitor com uma interrogação que sempre me volta à mente. Se a proclamação do “consenso” da sua preferência é a marca inequívoca do lumpenproletariado intelectual e/ou da maquiagem de algum interesse escuso, para que perder tempo com essa denúncia? Denunciar é chato, é cansativo e gera mau humor. Não será melhor ater-se ao que é bom, falar do que se ama? Aparentemente sim, mas a primeira ativiade também é necessária. Porque hoje só cresce o número de pessoas que pretendem criminalizar a contrariedade aos “consensos”. Mesmo que você creia num “consenso” ou simplesmente não esteja interessado, nada impede que amanhã alguma coisa importante para você seja criminalizada. E isso vale para todo mundo.

De como a política corrompe a religião, e mais

No domingo, O Globo me trouxe a notícia não apenas da existência de um movimento católico chamado Apostolado Opus Christi como também de seu apoio a Eduardo Paes. Eduardo Paes? O candidato de Sergio Cabral e Jandira Feghali? Desse espanto nasceu uma intensa busca no Google que durou diversos minutos e me levou ao blog de João Carlos Rocha, líder, chefe e guru do Opus Christi. Em seu convite para o evento que marcaria o apoio oficial à candidatura de Paes veio a seguinte pérola:

O Momento é de grande aflição para a Sociedade Católica, uma vez que políticos CONTRÁRIOS aos princípios de DEUS e de NOSSA SENHORA estão confundindo a população de BEM, ORDEIRA e HONESTA.

Primeiro, não custa observar a mesma velha lenga-lenga: olha só, estamos à beira do abismo, vamos virar Sodoma e Gomorra, por isso vote em mim. Os políticos adoram guerras para aumentar seu poder: guerras materiais ou “espirituais”.

Mas bem. O que chama mesmo a atenção é que agora o candidato de Sergio Cabral e Jandira Feghali é que vá proteger a “Sociedade Católica” dos “princípios de DEUS e de NOSSA SENHORA” (essas letras maiúsculas realmente fazem lembrar o clássico personagem moralista das novelas nordestinas da Globo, brandindo contra o mundo com sua bengala).

Ok, o apoio de Jandira Feghali, a abortista totalitária que mandou invadir a Arquidiocese do Rio, só veio na última hora. Mas o governador Sergio Cabral sempre foi defensor inequívoco do aborto – com preferência para favelados. Também participa oficialmente da Parada Gay. Se o Apostolado Opus Christi acha que a sociedade está correndo tanto perigo assim por causa dos “políticos CONTRÁRIOS aos princípios de DEUS”, provavelmente acha que o risco de não encontrar nenhuma boquinha caso Paes não seja eleito é infinitamente mais abominável.

Logo abaixo, João Carlos Rocha também nos comunica sua felicidade com outra coisa:

Fiquei feliz pelo nosso Presidente Nacional, Deputado Rodrigo Maia ter autorizado a criação do Orgão dos Democratas Católicos.

Então você, católico preocupado e aguerrido, brandindo o cajado dos profetas, agradece publicamente a seu presidente, aquele sujeito que pediu em caráter de urgência que o congresso aprovasse a criminalização da “homofobia” – isto é, dizer alguma coisa que desagrade a um homossexual politizado – , lei que pode vir a proibir você mesmo de vir a angariar votos denunciando a sodomia e a gomorria generalizadas? Isso já nem é mais oportunismo, é pura estupidez. Ou então, sei lá, talvez João Carlos Rocha ache que os princípios católicos consistem na mistura de homossexualismo com censura à liberdade de expressão.

Ah, claro, você pode dizer que eu não falei das opiniões de Eduardo Paes. Mas quais são elas mesmo? Diga-se em defesa do ex-seqüestrador que ao menos ele nunca quis posar de algo que não era.

Infelizmente, como católico, sou obrigado a admitir que basta saber que existe um movimento católico apoiando qualquer político para concluir que nele é que não se deve votar mesmo. Tirando o importante e urgente lobby anti-aborto, toda vez que esses movimentos ou a CNBB resolvem se meter em política…

Os católicos que se ressentem da separação entre Igreja e Estado podem mirar-se neste exemplo. Costumo dizer que eu sou a favor da união entre Igreja e Estado desde que Abraão seja o primeiro ministro, Moisés o presidente, Salomão presidente do STF, David o ministro das forças armadas e, é claro, São Francisco de Assis o ministro do meio-ambiente. Enquanto eu tiver que me contentar com o pessoal do Apostolado Opus Christi, prefiro diminuir o número de oportunidades de depredamento da religião. E você já imaginou a CNBB com poder de polícia? Eu, filotradicionalista religioso e politicamente liberal, iria para a cadeia. Por isso não escondo que advogo essa separação em causa própria.

Em tempo: os leitores habituais já sabem o que eu acho. Acho que o mundo não vai acabar por causa da Parada Gay e acho que negar o direito de propriedade a homossexuais é um crime em tudo equivalente ao simples roubo. Também sou a favor da liberdade de expressão e por isso sou contra o projeto totalitário da criminalização da “homofobia”. Os gays fazem sua parada, quem quiser fala mal, e ninguém vai para a cadeia.

Agora, não é um consolo, mas não é só no terreno de política x religião que vemos o oportunismo esmagar qualquer cheiro de princípio. Na semana passada – quase meus olhos caíram das órbitas quando li – vi que Vladimir Palmeira, um dos presos políticos trocados pelo embaixador seqüestrado por Gabeira, dava seu apoio a Eduardo Paes. Mesmo que seja uma questão de partido, caramba. Ou talvez eu é que seja ingênuo: na cabeça dessas pessoas o partido ainda vem com P maiúsculo, como se tivesse sido grafado por um João Carlos Rocha, além de ser “o” Partido.

Também não julguei que fosse viver para ver a Marta Suplicy – a Marta Suplicy! – atacar seu adversário na campanha para a prefeitura de SP por supostamente (bem, é o que todos dizem naquela cidade) ser gay. Se o mundo mantiver sua coerência atual e me preservar de futuras surpresas, logo o Apostolado Opus Christi também vai apoiá-la, essa grande defensora da moral e dos bons costumes.

Abismos

Nunca deixo de me impressionar, e muito, com as pessoas que se dizem impressionadas com a durabilidade da Igreja Católica e de certas posições suas, e que exigem que ela mude, como se fosse absurdo que algo não mudasse. Que acham que a Igreja é reacionária, com todo o sentido de “reação” que a palavra tem.

Não parece difícil observar que a maneira como vemos as coisas sofre diversas pressões. Pressões emocionais, culturais, o que seja, que nos levam a prestar mais atenção em alguns aspectos da realidade do que outros. No entanto, uma dessas pressões é escolhida, e vem daquilo que concluímos ser verdadeiro. Eu acho verdadeiro que existam verdades absolutas – uma meia dúzia delas – e elas informam minha experiência. Por exemplo, o princípio de identidade me leva a perceber a estabilidade da natureza humana, e a percepção de que o intelecto é uma faculdade individual me faz ver que a ordem do conhecer é distinta das demais. Distinta da ordem da persuasão. Isto é, posso perceber uma verdade sem ser capaz de persuadir os outros, e posso persuadi-los e ser persuadido com mentiras.

Quando alguém exige mudanças, parece crer que o único princípio estável é o da mutação permanente, exceto deste mesmo princípio. A partir disso tento imaginar como é a alma de alguém que não percebe as verdades e os bens estáveis. Será que ela está mentindo para si? Será que ela percebe que, se não há verdades objetivas que podem ser percebidas por qualquer pessoa, a única coisa que resta como parâmetro são nossos próprios desejos? E, se ela percebe isso, será que percebe as conseqüências absurdas, como a impossibilidade de justificar a superioridade de algum desejo?

De um lado, uma das minhas percepções mais fundamentais é de que as coisas são inevitavelmente de um jeito e não de outro, e não há muito que se possa fazer a respeito. Não é tanto uma percepção sublime e romântica do tipo “Percebes o Criador, ó mundo?” (como na “Ode à alegria” de Schiller, musicada por Beethoven), mas algo do tipo “Quem é que você está querendo enganar achando que as coisas são do jeito que você quer? Ah, você mesmo.”

Para citar outro poema, lembro da pedra que Yeats colocou no meio de um rio, “perturbando a corrente viva” (“Easter, 1916”). A idéia no poema é bem distinta da minha, mas a imagem me serve igualmente. Certamente não sou honesto o tempo todo, nem mesmo comigo, fiz muitas coisas de que me arrependo e até me desespero um pouco por saber que insistirei nos erros. Mas as coisas são de um jeito, e não de outro; não me resta muito além de me conformar com isso. A palavra “conformar”, porém, tem uma conotação negativa forte, e não gostaria que ela fosse entendida assim. Pensem em conformar no sentido de “assumir a forma”.

Não é que eu esteja dizendo que as coisas sejam intrinsecamente más e o teste definitivo de macheza esteja na sua capacidade de aceitar isso. Ao contrário, me parece que as coisas são intrinsecamente boas e eu nunca consegui me identificar com visões de mundo niilistas. Por outro lado, as coisas boas não são as coisas que eu desejo… A macheza é necessária para abandonar as idéias idiotas de que gosto, e há muitas idéias que eu não quero nem ouvir ser chamadas de idiotas – prefiro deixar tudo como está. Um outro lado sente um certo temor. Parece que estou adiando mais uma vez o encontro com as coisas como são.

Mas tudo isso se baseia na percepção de que as coisas são de um jeito e não de outro. Posso compartilhar essa percepção até com um ateu – basta que ele perceba que existe verdade independente da vontade do sujeito. Ele poderá entender que alguém pode estar errado na defesa continuada de algo, mas não discordará do pressuposto de que existem verdades estáveis (mesmo que poucas), nem acreditará que o mundo é uma maçaroca insignificante de matéria coberta de palavras e desejos, “uma história de som e fúria”.

Mas e essas pessoas que querem que tudo mude? O que elas sentem? O que elas pensam? Não me parece que a resposta seja tão simples.

Sobre a KGB do esoterismo

Dom Lourenço Fleichman, em comentário de 13 de junho, explica o essencial sobre a possível influência de Rama Coomaraswamy sobre a Sociedade de São Pio X e o movimento tradicionalista católico. Eu mesmo pensava em escrever algo, mas ele, que tem fontes muito melhores do que as minhas, felizmente adiantou-se. Falta só fazer alguns acréscimos.

1. Se os membros da tariqat schuoniana acham perfeitamente normal ter um discurso duplo, por que acreditar em qualquer coisa que eles digam? Saber ou dizer a verdade não confere a ninguém autoridade, muito menos autoridade espiritual. Afinal, o diabo conhece todas as verdades.

2. Uma das ilusões mais comuns entre “defensores da verdade” é a idéia de que a verdade não pode servir ao mal. Mas, infelizmente, a pura conversibilidade entre o bom, o uno e o verdadeiro só se dá num plano metafísico. A acusação berrada serve ao escândalo e à desagregação. Se ela é verdadeira, deve ser tratada com mais discrição do que se for falsa.

3. Assim, um método simples para avaliar a credibilidade que se deve dar a uma afirmação como “a tariqat de Schuon manipula o tradicionalismo católico” é: quais os frutos que ela dará? Quem se beneficia da crença numa tese que dificilmente pode ser provada? A resposta é simples. A própria tariqat e todos os inimigos da Igreja Católica são os que mais se beneficiam das divisões entre os católicos.

Uma afirmação de “manipulação” diz respeito somente às vaidades. Você pode querer a verdade apenas por uma questão de segurança psicológica, para sentir-se no caminho certo e poder esfregar a “sã doutrina” na cara de quem você não gosta. Você quer ser católico tradicionalista para diferenciar-se da massa ignara que toca violão – e eu estou dizendo isso para admitir que já apreciei muito essa compensação psicológica. Assim, se você descobre que essas lindas verdades a que você se apega foram, em última instância, postas na sua cabeça por um mau-caráter de turbante, lá se vai a ilusão de autonomia e diferenciação que era a argamassa da sua psique.

Por isso, se eu fosse um católico “lefebvrista”, simplesmente perguntaria a mim mesmo: faz alguma diferença para mim saber se aquilo em que acredito veio de X ou Y? Ou será que no fundo tudo o que eu queria era alguma garantia psicológica de não estar sendo feito de idiota?

Agora, discutir qual “lado” é mais suscetível a uma ou outra influência faz tanto sentido quanto discutir se o Flamengo é melhor que o Fluminense (ou seja, nenhum). O que se quer dizer com isso? Que todas as pessoas que têm determinada idéia estão imunizadas contra certos tipos de influência? Ora, saber uma verdade não deixa você melhor. A piedade não é ideológica. Estamos todos sujeitos à idiotice o tempo todo. Não há solução para isso. A “sã doutrina” não é uma solução para isso. A única solução é estar atento e questionar o tempo inteiro não só as idéias, mas suas motivações para acreditar nelas.

A propósito: hoje eu me designo como um católico romano “filotradicionalista”. Vou à missa nova onde dá para ir, assisto à missa antiga permitida e ficaria felicíssimo com a reconciliação dos cristãos. Estou dizendo isso porque acho que a credibilidade de alguém para discutir religião publicamente depende da sua sinceridade a respeito de sua posição. Sinto horror da idéia de a religião separar amigos e impedir relacionamentos pessoais: tenho amigos muçulmanos, ateus, católicos tradicionalistas “lefebvristas”, ortodoxos, protestantes, judeus e acho que é justamente o fato de sermos inteiramente abertos a respeito de nossa opção religiosa que permite a amizade. Sabemos que não estamos tentando manipular uns aos outros e já conhecemos nossos pontos de discordância.