Fronteiras da babaquice

Acho que compreendo o que sente o ateu convicto quando olha para o religioso ajoelhar-se dentro de seu templo. Deve ser a mesma coisa que eu sinto quando vejo alguém dando o mais vago sinal de encantamento com um político: um misto de tédio, cansaço e desprezo. Sei que apoiei o Clodovil há dois posts, e realmente me chama a atenção o fato de ele parecer o político mais dotado de princípios que hoje vive no Brasil; mas digo isso como quem faz, surpreso, uma simples constatação, não como quem enxerga uma nesga de esperança na vida política, o primeiro brilho na aurora de uma longa noite e outras breguices.

O meu ceticismo político é completo, absoluto, acachapante. Ele é sentido mesmo antes de ser pensado. É uma categoria fundamental da minha imaginação. Eu simplesmente não consigo conceber que alguém deseje concorrer a um cargo movido por espírito público, ou melhor, admito que isso é possível, mas não é provável, e muito menos verossímil. Sinto a mesma coisa em relação a todos os governantes, de todos os sistemas políticos, de todos os tempos. Pode até haver inocentes. Mas eu sinto como se eles é que tivessem de se justificar, não o contrário.

Aliás, basta-me ouvir a palavra pólis para começar a sentir náuseas. Mui lindo falar de como a vida política deve conduzir à virtude. Mas não há como fugir da nossa natureza decaída, decaidíssima: ambição razoável é um sistema jurídico que permita minimizar o mal que os governantes podem fazer aos governados. Na prática, isso vira fascismo. Não quero que governo nenhum promova a minha virtude. Isso é só uma precaução.

Admito que esse post é inspirado pela febre obamista. “A audácia da esperança” é um título que não apenas supera toda cafonice, lembrando um filme da Xuxa, como ainda apela para a vaidade. Lembro da frase evangélica adotada por João Paulo II que diz algo semelhante: “Não tenhais medo.” Confie. Espere. Agora, Obama vem fazer você se sentir audacioso por confiar nele, Obama. Não, pelo amor de Deus. É preciso ser muito idiota para cair nesse truque retórico. O Papa ao menos fazia um pedido direto, o que tinha, sob certo aspecto, até alguma humildade (porque obviamente você pode dizer que, humildade por humildade, ele continua sendo o Papa e você continua sendo um zé mané). Que você rejeite o Papa, a religião, vá lá. Agora, rejeitar o “não tenhais medo” evangélico e acreditar na “audácia da esperança” obamista é só uma prova inequívoca de que você nem é um cético, você é apenas um idiota vaidoso que vai se deixar seduzir pelo primeiro político que fizer você se sentir cheio das audácias.

Também me interessa um bocado o fenômeno da inaceitabilidade social do ceticismo político. Você pode declarar seu total ateísmo e ser uma pessoa maravilhosa. Você não pode declarar: “de antemão, eu não acredito em nenhum político, presente, passado, ou futuro, eu só acredito que devemos diminuir o poder da classe política o máximo que pudermos e nos esforçarmos para ser bons em nossa vida privada, e isso aí é o melhor que dá para fazer”. Percebo que algumas pessoas ficam escandalizadas ao ouvir isso da minha boca, exatamente como eu posso ficar ao ouvir uma blasfêmia ou uma imensa bobagem. Estou atacando suas crenças mais profundas. Suas idiotices mais profundas. Suas vaidades mais profundas – aquelas que fazem-nas pensar que são audaciosas ao votar ou colocar um adesivo no carro.

Ah, vão lamber sabão.

Clodovil para presidente já

Quando Clodovil foi eleito deputado, muita gente, “às direitas e às esquerdas” (como se diz em Portugal), disse que tinhamos chegado ao fundo do poço, que o povo brasileiro merecia ser varrido da face da terra por um novo dilúvio. (Claro que quem deseja um novo dilúvio purificador sempre acha que merece estar na arca de Noé, mas isso é outra história.)

Na época fiquei calado porque 1. na verdade não ligo muito para isso, 2. não consigo imaginar de que modo Clodovil seria tão pior assim, e 3. Clodovil sempre teve fama de conservador, admitindo que suas preferências sexuais eram apenas suas preferências e não uma ideologia ou uma cultura. Entre um deputado gay confortável o suficiente com sua opção (ou, na expressão comum, “que se garante”) para não querer prender quem manifestar desaprovação por ela e um deputado heterossexual que graciosamente se curva a um lobby histérico e totalitário, não tenho dúvida de quem é o melhor, nem de quem é mais homem.

Mas o que importa é a compreensão que Clodovil mostra da importância da liberdade. Não se pode criminalizar opiniões e antipatias, nem se pode interferir no uso da propriedade alheia. A discriminação decorre do direito de livre associação. Eu poderia empregar apenas pessoas com cabelo verde e piercing no nariz (daqueles que fazem a pessoa parecer um touro ou que parecem uma melequinha pequena e brilhante) se quisesse, e sem explicar por quê. Eu mesmo arcaria com os custos das minhas preferências.

(Aliás, uma sugestão. Quem gosta de lutar contra discriminações precisa derrubar o tabu definitivo: a feiúra. Duas mulheres concorrem para um cargo. Cabe a um homem escolher. Por que não criar a delegacia das mocréias, para que elas possam dizer que foram preteridas por sua baranguice e exigir compensações? Afinal, a sociedade poderia compensá-las por aquilo que a natureza não lhes proporcionou. Se um gay se sente discriminado porque a natureza não lhe proporcionou o desejo por gente do outro sexo e ele quer ostentar isso na forma de uma identidade, o raciocínio é idêntico. Podia também haver a parada do orgulho feio. Os feios têm de parar de ter vergonha. Nossa sociedade tem de incluir os feios. Por que só gente bonita em anúncios? É hora de as deficientes estéticas assumirem seu lugar entre as angels da Victoria’s Secret. Não gostam de separar absolutamente sexo de gênero? Pois então, a beleza também está nos olhos do observador. Vamos lá: como dizia Lúcifer Aleister Crowley, “todo mundo é uma estrela”.)

Só hoje eu fico sabendo da proposta de Clodovil para reduzir em 50% o número de deputados federais.

Ele lembra que, hoje, cerca de 20% dos deputados estão em campanha e que a Câmara funciona perfeitamente com menos da metade da atual composição, se houver realmente interesse de trabalhar.

Um deputado que propõe abertamente uma redução do Estado. Um deputado que não está questionando apenas a maneira como o Leviatã deve nadar, mas também seu peso. Quero mudar meu título para São Paulo para poder votar nele. Político por político, podem ficar com o Gabeira e sua mania de tasers. Meu candidato para qualquer cargo é o Clodovil.