Indo ao teatro em Paris: Nouveau Roman

Já é um clichê tão batido dizer que no Brasil se lê pouco que, confesso, tenho vergonha de repeti-lo. Mas é verdade que, cá em Paris, lê-se muito mais, a menos a julgar pelo metrô. Muita gente lê, e não apenas Fifty Shades of Grey – embora a trilogia seja inevitável. São muitas vezes livros enormes, sobre política, sobre tudo. E, aqui e ali, Jane Austen.

Mas, em parte para testar o clichê de que o francês é um povo mais culto, em parte para satisfazer o desejo de ver ao vivo Ludivine Sagnier, musa cinematográfica pessoal há quase dez anos, e ainda em parte pelo mero desejo de ir ao teatro, fui ver Nouveau Roman no Théâtre de la Colline em 9 de dezembro, dia da última apresentação.

Antes de ir, eu não sabia praticamente nada sobre o espetáculo. Decidi não me informar justamente para fazer um outro teste, do qual logo falarei. O que eu sabia era o seguinte: o diretor Christophe Honoré fez uma peça com nove personagens, todos autores do movimento literário que ficou conhecido como nouveau roman, cujo membro mais famoso é, sem dúvida, Marguerite Duras.

O outro teste que mencionei há pouco é o seguinte: será que, sem saber praticamente nada sobre o nouveau roman, eu ficaria entretido com a peça? Confesso que tenho uma grande implicância pela ideia de que uma obra de arte inteira dependa de uma série de conhecimentos prévios, o que sempre resvala em piada interna. Não que haja algo de errado com a piada interna em si, é que a piada interna como fundamento é apenas esnobismo. Acredito que toda obra de arte deve ser no mínimo superficialmente interessante, e depois, se for o caso, prestar-se as análises de quem quiser analisá-la, talvez até descobrindo piadas internas. Assim, mesmo que a peça Nouveau Roman desse seus acenos só para os iniciados, eu queria ver se, mesmo tendo pago o mesmo ingresso que todo mundo, ainda assim seria esnobado pelo autor e diretor.

Já tinha me chamado a atenção a dificuldade de conseguir ingressos – comprei o último, no singular mesmo. Depois, chamou-me a atenção o tamanho do teatro – devia haver umas mil pessoas ali, ou pelo menos muitas centenas. Todas para assistir a uma peça sobre um movimento literário de décadas atrás que não ficou famoso exatamente pela acessibilidade, e sim pelo experimentalismo. Será que aquilo ia funcionar? Sem suspense, digo logo que funcionou, e muito bem. Continuo sem saber muito sobre o nouveau roman (uma peça não é uma palestra), mas me diverti durante as três horas do espetáculo – e vejam que conseguir manter alguém entretido por três horas ininterruptas não é um mérito pequeno – e fiquei até com vontade de ler alguns dos autores. A plateia francesa, claro, pareceu divertir-se até mais do que eu, porque pegava piadas que eu não pegava. E ainda reagia: no momento de interação com o público, esse sim um clichê inevitável do teatro contemporâneo, as pessoas fizeram aos “autores” ali presentes perguntas realmente específicas sobre suas obras. Esse clichê, porém, foi compensando por um momento genial, divertidíssimo: o da simulação teatral de um videoclipe em que os autores ironizavam o suposto glamour do ato de escrever.

Claro que me perguntei se, por exemplo, seria possível fazer no Brasil uma peça de três horas sobre, por exemplo, a geração de 45 e lotar um teatro de mil lugares por algumas semanas. E claro que a resposta é: com talento, tudo é possível. Com talento e com uma legislação melhor. No Brasil não podemos fazer peças históricas porque os donos do bizarro “direito de imagem” impediriam isso. Devo dizer que a representação dos autores do nouveau roman, alguns ainda vivos, não foi 100% lisonjeira. Alain Robe-Grillet rendeu as cenas mais divertidas exatamente por ter sido retratado da maneira mais mesquinha, e digo mesquinha mesmo, porque, se alguém fez uma grande obra (suponho que sim, não a li, não posso falar nada), lembrar dessa pessoa por algum defeito seu é, no caso, apenas um golpe baixo teatral. Mais baixo ainda por ser bem-feito.

Uma amiga me explicou que talvez o teatro estivesse cheio por causa da fama do diretor aqui na França. Não sei: uma das coisas boas de ser estrangeiro é o conforto de um certo alheamento. Mas é claro que ao menos uma parte do público foi levada por ele. Mesmo assim, o tamanho do teatro, a lotação completa, as referências culturais do texto, tudo isso dá o que pensar a quem acredita que o teatro deveria ser mais “culto” e que o público deveria ser assim ou assado. É verdade, mesmo com a provável subvenção estatal, que na França se lota um teatro de mil lugares por algumas semanas, com espetáculos quase todos os dias, para falar de um movimento literário velho de décadas. E há que tirar o chapéu, que ao menos há algo de bom gosto nisso.

Na França católica

O que me motiva a escrever o que se seguirá é o passado; o passado de grande denúncia de coisas modernosas da Igreja, e o desejo de refletir sobre o quanto é fácil esperar que os outros sejam isso ou aquilo, e o quanto, percebendo ou não, é fácil fazer com que o nosso bem-estar dependa do que projetamos nesses mesmos outros.

A verdade é que estou em Paris, onde fico até meados de janeiro. Hoje pela primeira vez fui à missa no rito novo (ou ordinário), na mesma igreja onde já tinha ido assistir ao rito tradicional, isso na fria noite da última quarta – fui logo suspeitando que não tinha calefação na igreja ao ver que ninguém tinha tirado o casaco. Hoje, apesar do frio, de estar um daqueles gélidos dias ensolarados típicos do inverno, e de eu mesmo não ter tirado o casaco, fiquei felicíssimo ao assistir àquela missa: o coral era impecável, entoando suas polifonias em latim; a congregação era composta sobretudo de jovens casais com pencas de filhos pequenos; o sermão do padre foi breve, simples e católico. Depois da missa, os fieis que haviam trazido comidas reuniram-se para um almoço, um brunch ou algo assim, o que aliás também é comum em certas igrejas do Rio de Janeiro.

Pode-se escrever páginas e páginas sobre a decadência da Europa, do Ocidente, do cristianismo; pode-se perder dias e noites amargurados com algo distante da experiência, algo que hoje me parece uma espécie de feitiço, em vez de olhar para si próprio, para os próprios pecados, e para as pessoas imediatamente à sua volta, buscando uma atitude de gratidão. Que há quem cometa abusos, na liturgia e fora dela, bem, por mais que admire e consterne, não deveria ao menos consternar por tanto tempo, sob o risco de petrificar a alma. Valeria perguntar: e se todas as tradições que você julga perdidas fossem subitamente restabelecidas por uma canetada papal, você deixaria de ser o idiota que é? Teremos nós outra obrigação além de sanar nossa própria idiotice?

Quem quiser pode pregar contra o Concílio Vaticano II, lançar suas invectivas, dar a entender que a Igreja se tornou um clube impuro demais para os próprios critérios de eugenia (pseudo-)intelectual e (pseudo-)moral. Vá lá, de repente tudo que a Cúria Romana deveria fazer seria te contratar como assessor. Mas quem quiser pode olhar uma pequena comunidade num bairro não exatamente central de Paris, e ver que, mesmo que aquilo que você queira seja sentir “que o cristianismo está vivo” para ficar mais motivado a entrar nesse clube – por só torcer para o time que está ganhando – , as condições parecem plenamente satisfeitas. Quisera eu poder trazer a boa notícia de que finalmente me converti; mas a boa notícia que trago é que encontrei, no rito latino, mais um ambiente que me parece moral, intelectual e esteticamente católico. E claro que eu mesmo não fico insensível a isso.