Sergio Biasi me chama de cínico e arremata, contagiado pela audácia:

A esperança de que o Obama seja pelo menos um pouco do que parece que é, que ele seja uma pessoa idealista e decente e esclarecida tentando de alguma forma impedir que os Estados Unidos caiam nas mãos do obscurantismo fundamentalista.

Diante desse sentimento tão puro em relação ao Luke Skywalker (ou talvez Lando Calrissian) da política só consigo pensar em uma coisa:

Jabor capricha no hate speech

Arnaldo Jabor nunca me pareceu very bright, e sempre me pareceu oprimido pelo número de caracteres que precisa preencher toda semana para o jornal. Há um tempo, até o defendi, porque apesar de tudo nunca pensei que ele pudesse escrever tamanhas barbaridades. É hora de rever essa posição. Diante de sua coluna de hoje, só posso perguntar:

1. Isso é sério mesmo?

2. Alguém do jornal leu isso antes de publicar? Ninguém pediu para o Jabor se conter só um pouquinho?

Vamos a alguns melhores momentos da cousa em si.

Obama é o novo. Obama é o negro sem rancor, o negro pós-moderno, que passou por Malcolm X, pelo Luther King e que atingiu uma espécie de síntese de virtudes políticas que almejamos: tolerância, a ecologia, a inteligência contra a mentira, é antiguerra, pela superação do bipartidarismo numa busca de “entente cordiale”, contra os “lobbies”, contra a tirania do petróleo, contra o efeito estufa. E não me venham os fascistinhas chamá-lo de “esquerdinha sem programa”…

Obama parece pairar “acima” da política, com um “honesto” messianismo, pois seu programa é quase abstrato. E não faz mal, pois, como dizia Valery: “Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?” Ele dá aos brancos que o apóiam a oportunidade de se absolverem por séculos de discriminação racial. Ele é sexy, um JFK negro, ele é a retomada do presidente que transa, sua mulher tem corpaço, bumbum. Ele diz: “Eu não falo o que vocês querem ouvir; eu falo o que vocês precisam saber!” Doce mentira: ele fala o que todos querem ouvir sim – a magia da mudança, a esperança não se sabe bem de que, alguma coisa pela qual valha a pena viver.

Obama é uma utopia crível, num tempo de tanto horror.

Obama é Deus, é o Flamengo, é tudo que tem na letra de You’re the Top, e lendo isso eu só consigo me lembrar de um amigo (que se achava) comunista da escola que numa daquelas belas e tediosas manhãs por um momento fez a mim e aos meus amigos parar de discutir a supremacia de Geddy Lee sobre Chris Squire e uma possível lei universal da obrigatoriedade dos vestidos floridos para meninas ao declarar enrubescido: “Não sou gay, mas para o Fidel eu dava!”

Ora, pois.

Vamos a outro grande momento:

Se Obama ganhar, teremos a felicidade de não ver mais as famílias gordinhas dos boçais da direita, os psicopatas sorridentes de dogmas, seus hambúrgueres malditos, seus churrascos nos jardins e nas cadeiras elétricas, não veremos mais os meninos mortos voltando do Iraque como sanduíches embrulhados para a viagem, a crueldade em nome da bondade, a fé contra a razão, a santidade da burrice, tudo sob um inferno de cânticos evangélicos e música country. McCain é Nashville; Obama é jazz.

Os eleitores de McCain são paranóicos e precisam de inimigos para viver. Valorizam o martírio, como os boçais radicais do Islã. Em geral, dividem-se em reprimidos sexuais ou sadomasoquistas. Eles odeiam a diferença: os negros, os estranhos, os livres. É patético ver o McCain fingindo de republicano light, de democrata sem ginga. Quando ele declarou: “Eu não sou o Bush!” – mentiu. Ele é o Bush sim; eles são produzidos em série no útero puritano da América, forjados na velha religião do século 17, falando nas “forças do mal”, que são eles mesmos, sem espelho.

Eu poderia comentar, mas para quê? Em 2003 (agradeço a Diogo Costa por me lembrar), Alexandre Soares Silva já resumiu tudo: o anti-americanismo é o anti-semitismo contemporâneo. Tudo bem, McCain e Obama são americanos, eu sei: mas troque “americanismo” por “republicanismo” no sentido de “adesão ao Partido Republicano americano” e vai dar na mesma. Por isso, a pergunta: Arnaldo Jabor acha que o Grande Líder Barack Obama irá exterminar as crianças gordinhas, ou apenas colocá-las em campos de trabalhos forçados e reeducação sexual, de onde sairão magrinhas e estatólatras (digamos) como ele?

Obama é o Flamengo

Por que alguém que mora e vive no Brasil pode depositar tanta, digamos, energia emocional num candidato, e ainda mais num candidato à presidência americana? Fico pensando em como isso pode afetar sua vida particular, e o número dessas pessoas parece bastante diminuto. Para nós que no máximo visitamos os EUA a única coisa que mudou foram as medidas de segurança nos aeroportos, e parece razoável dizer que após o 11 de setembro qualquer presidente as teria instituído.

Aliás, mesmo descendo ao mais imediato dos níveis, a diferença que a maior parte das pessoas sente em suas vidas privadas com a eleição de um prefeito é mínima. Pensando na prefeitura do Rio, onde morei quase sempre, só consegui lembrar de duas coisas: Cesar Maia encheu a cidade de placas, o que foi muito bom, e fez o tal do Rio Cidade, justamente enquanto eu não morava aqui, zerando seu placar positivo com o abominável obelisco de Ipanema. Nem as placas nem o obelisco foram promessas de campanha. Fora isso, as coisas continuaram idênticas. Consigo me lembrar de outras coisas feitas por políticos, mas elas não vieram do, com o perdão do jargão, âmbito municipal.

Isso é que me faz crer que, desde o ponto de vista do cidadão privado, a escolha de um candidato é semelhante à escolha de um time. Que diferença faz o Flamengo ganhar ou perder? Só uma diferença emocional. Você resolveu agregar algo à sua identidade e por isso quer que esse algo seja sempre vencedor sob algum aspecto – se não ganhar no placar, vai jogar melhor, ter mais títulos, sei lá. O impacto emocional que uma vitória ou derrota tem é infinitamente maior do que o impacto externo, e a mesma coisa vale para a vitória nas eleições. Cá no Rio, sei que a minha repulsa por Paes conseguia superar até a minha repulsa pelo ex-seqüestrador, mas, francamente, não consigo imaginar uma única diferença que um ou outro fosse fazer em minha vida concreta.

No entanto, consigo imaginar e enxergar perfeitamente que um determinado clima de opinião, ainda que infinitamente menos tangível que um candidato, é mais influente e importante para a minha vida prática. Nele se dá a vida política realmente importante, e uma ligação emocional muito forte com um candidato qualquer é até um impedimento para a participação nessa vida.

Se Barack Obama perder as eleições, teremos o maior anticlímax da história humana. Se vencer, a maior festa. Daqui, da minha búdica indiferença, apenas repetirei com o Puck de Sonho de uma noite de verão: “Lord, what fools these mortals be!”

Mais um divisor

No Brasil, a “elite cultural” acompanha com mais interesse a campanha presidencial americana, e está muito melhor informada sobre ela, do que as campanhas brasileiras. Coloco “elite cultural” entre aspas não para dar-lhe um sentido pejorativo, mas para dar-lhe uma definição peculiar: “elite cultural” é quem 1. sabe inglês o suficiente para ler notícias na internet e 2. tem tempo para isso.

Para nós, brasileiros, a questão do patriotismo se coloca de maneira muito diferente da maneira como se coloca para os americanos, então não acho que seja o caso de descrever esse interesse pela campanha gringa como mero desprezo pela terra varonil, o que é reforçado pelo fato de que até pessoas mais à esquerda, que têm tentado monopolizar o amor pindorâmico e até atribuir a nossa direita blogueira um anti-brasileirismo visceral (no meu caso, só digo que não conheço o Brasil; mas conheço a cidade onde moro, e gosto dela; não está bom? “Ninguém ama aquilo que não conhece.”), parece ser acometida de mais frêmitos por Barack Obama do que por, sei lá, Fernando Gabeira.

É o caso, porém, de descrever este interesse pela campanha gringa como mera decorrência de ter ido à escola e ter uma mínima capacidade de juntar a com b, porque, por mais que haja mentiras lá, boa parte dos políticos ainda se parece com gente que se poderia convidar para a própria casa de classe média, típicamente orgulhosa – e aí proponho até uma característica definidora – de que seus saberes e “gostares” (ok, infinitivo substantivado no plural é provocação) lhes são mais caros que as posses materiais. Ser de classe média é ter a imaginação mas não os meios dos ricos. Não digo isso como um rico que varre os farelos da camisa: meu maior luxo é usar Mac em vez de Windows.

Voltando: os políticos brasileiros são excessivamente grotescos, e não tenho um só amigo que não se refira a eles sempre em tom de (justo) escárnio, para contar a última bizarrice desarticulada que a propaganda eleitoral proporcionou. Os políticos brasileiros definitivamente não estão falando com as pessoas que tiveram alguma educação, e não são elas que estão pedindo votos.

Isso, é claro, levanta a questão da própria educação como fator de desagregação e descolamento imaginário. Não é nem o caso de falar de superioridade ou inferioridade de culturas, sugerindo que quem estudou volta-se para uma cultura superior, mas de produtos dirigidos a certas pessoas. Essa elite cultural brasileira está mais interessada em consumir produtos culturais populares da Inglaterra ou dos EUA porque chegou a este nível apenas com sua educação escolar e aulas de inglês. Eu mesmo vou baixar hoje o primeiro episódio da nova temporada de House, e lembro perfeitamente de que aos 12 anos percebi que todas as novelas eram idênticas e desisti de assisti-las. Algo me diz, na verdade, que tudo isso se deve unicamente àquelas pessoas que, diante daquilo que você tem a propor de melhor, começam a fazer um sermão sobre a incapacidade do público de consumir produtos melhores, dizendo que tudo é difícil. Não temos um discurso político melhor, nem uma televisão melhor, porque os responsáveis por isso querem sempre apostar no pior. E é isso que impressiona aqueles que vão morar nos EUA: o fato de que lá as pessoas tendem a apoiar aquilo que acham bom, não aquilo que presume a idiotice universal.

Fronteiras da babaquice

Acho que compreendo o que sente o ateu convicto quando olha para o religioso ajoelhar-se dentro de seu templo. Deve ser a mesma coisa que eu sinto quando vejo alguém dando o mais vago sinal de encantamento com um político: um misto de tédio, cansaço e desprezo. Sei que apoiei o Clodovil há dois posts, e realmente me chama a atenção o fato de ele parecer o político mais dotado de princípios que hoje vive no Brasil; mas digo isso como quem faz, surpreso, uma simples constatação, não como quem enxerga uma nesga de esperança na vida política, o primeiro brilho na aurora de uma longa noite e outras breguices.

O meu ceticismo político é completo, absoluto, acachapante. Ele é sentido mesmo antes de ser pensado. É uma categoria fundamental da minha imaginação. Eu simplesmente não consigo conceber que alguém deseje concorrer a um cargo movido por espírito público, ou melhor, admito que isso é possível, mas não é provável, e muito menos verossímil. Sinto a mesma coisa em relação a todos os governantes, de todos os sistemas políticos, de todos os tempos. Pode até haver inocentes. Mas eu sinto como se eles é que tivessem de se justificar, não o contrário.

Aliás, basta-me ouvir a palavra pólis para começar a sentir náuseas. Mui lindo falar de como a vida política deve conduzir à virtude. Mas não há como fugir da nossa natureza decaída, decaidíssima: ambição razoável é um sistema jurídico que permita minimizar o mal que os governantes podem fazer aos governados. Na prática, isso vira fascismo. Não quero que governo nenhum promova a minha virtude. Isso é só uma precaução.

Admito que esse post é inspirado pela febre obamista. “A audácia da esperança” é um título que não apenas supera toda cafonice, lembrando um filme da Xuxa, como ainda apela para a vaidade. Lembro da frase evangélica adotada por João Paulo II que diz algo semelhante: “Não tenhais medo.” Confie. Espere. Agora, Obama vem fazer você se sentir audacioso por confiar nele, Obama. Não, pelo amor de Deus. É preciso ser muito idiota para cair nesse truque retórico. O Papa ao menos fazia um pedido direto, o que tinha, sob certo aspecto, até alguma humildade (porque obviamente você pode dizer que, humildade por humildade, ele continua sendo o Papa e você continua sendo um zé mané). Que você rejeite o Papa, a religião, vá lá. Agora, rejeitar o “não tenhais medo” evangélico e acreditar na “audácia da esperança” obamista é só uma prova inequívoca de que você nem é um cético, você é apenas um idiota vaidoso que vai se deixar seduzir pelo primeiro político que fizer você se sentir cheio das audácias.

Também me interessa um bocado o fenômeno da inaceitabilidade social do ceticismo político. Você pode declarar seu total ateísmo e ser uma pessoa maravilhosa. Você não pode declarar: “de antemão, eu não acredito em nenhum político, presente, passado, ou futuro, eu só acredito que devemos diminuir o poder da classe política o máximo que pudermos e nos esforçarmos para ser bons em nossa vida privada, e isso aí é o melhor que dá para fazer”. Percebo que algumas pessoas ficam escandalizadas ao ouvir isso da minha boca, exatamente como eu posso ficar ao ouvir uma blasfêmia ou uma imensa bobagem. Estou atacando suas crenças mais profundas. Suas idiotices mais profundas. Suas vaidades mais profundas – aquelas que fazem-nas pensar que são audaciosas ao votar ou colocar um adesivo no carro.

Ah, vão lamber sabão.