A era do niilismo ainda nem começou

De um lado, a sociobiologia: a ideia de que os genes são uma espécie de “vontade e representação” do mundo, que tudo pode ser explicado a partir deles, esses deuses contemporâneos. Eu sei, você bate o pé, diz que os hierofantes de jaleco não são hierofantes, mas eu estou falando apenas de como eles aparecem na cultura, e culpar os genes, a posição de Saturno em seu mapa natal ou Cupido por alguma coisa que aconteça com você me parece a mesma coisa. Os genes vendem quando dão, compra-se a reprodução com as pelancas. Sobretudo quando se é mulher.

De outro lado, a neuroplasticidade: nossos cérebros podem ser moldados e remoldados por nossos comportamentos, por nossa decisão. Isso, nossa decisão: mas ainda assim esse princípio de autonomia não esconde que os mais profundos sentimentos blá blá blá são apenas reações químicas de alguma substância terminada em -ina.

O eu romântico não está preparado para esses golpes, para viver sacudido por esse debate. A crença de que somos ou de que podemos ser indivíduos autônomos não está preparada para isso. Não está, é claro, porque equaciona o problema inteiro de modo narcisista (romântico: é quase uma tautologia). Nem eu, nem os demais interessados em teoria mimética pretendemos dar algum refresco para o eu romântico: acreditamos que ele tem mesmo de ser sacrificado (de modo voluntário e pessoal, por cada indivíduo), em nome do interesse pelo outro.

A era do niilismo ainda nem começou. A ideia da ficção útil, que traz conforto e motivação, já parece totalmente aceitável. Para não abrir mão de certas formulações de questões existenciais, as pessoas cederão a um niilismo impotente e amoral, complacente e desinteressado, irreverente por jamais ter conhecido outra coisa, assassino por mal se importar com a própria vida.

Niilismo pelancudo

Alguns dias após a mudança na lei, Els Borst, Ministra da Saúde da Holanda, admitiu numa entrevista que não via nenhum problema em oferecer “pílulas do suicídio” para cidadãos idosos que estavam simplesmente “mortos de tédio” com a vida.

Sympathectomy of the Soul, na First Things

Muitas e muitas vezes já se disse que a Europa só tem dois futuros possíveis: ou será recolonizada por imigrantes cristãos do Terceiro Mundo, ou será recolonizada por imigrantes muçulmanos do Terceiro Mundo. A julgar pela crescente ausência de vontade de viver dos holandeses, fica difícil acreditar na existência de uma terceira alternativa.

O aborto e a eutanásia são duas questões fundamentais, ou melhor, são dois aspectos da mesma questão fundamental, que é o significado da vida e da morte. Não falo apenas de se ter ou não uma vida eterna ou uma alma imortal, mas daquilo que se pode considerar uma vida desejável aqui neste mundo mesmo. Basicamente, você pode considerar que as adversidades da vida têm um potencial educativo que não deve ser desperdiçado, ou que elas não têm potencial educativo nenhum, que a dor é apenas dor, e que, a partir de certo ponto, o custo de suportá-la se torna maior do que o desejo de que ela passe, para que a busca do prazer possa ser retomada.

Dessas duas posições surge uma outra questão, política, que é: teriam aqueles que vêem sentido no sofrimento o direito de impedir materialmente o suicídio daqueles que não vêem?

Agora, francamente, muito francamente, creio que o simples fato de eu poder enunciar essa pergunta e soar razoável e sensato já denuncia outra coisa: que existe um número significativo de pessoas que apreciam a idéia de se matar de maneira indolor quando e se julgarem apropriado, o que, obviamente, também denuncia uma perda da vontade de viver, ou uma percepção de que a vida não vale tanto assim, ou só vale enquanto for gostosa. Não se deve supor que as pessoas que vivem segundo esse princípio estejam meramente sendo fracas: se eu mesmo não acreditasse que há sentido possível no sofrimento, também pensaria desse jeito. Existe nessa posição uma coerência: enquanto se é jovem e bonito e as oportunidades de prazer são mais abundantes, é fácil não pensar no próprio niilismo. Quando se fica velho, feio e pelancudo, é mais difícil encarar um longo e indefinido sofrimento, manifestado sobretudo pelo tédio e pelo desinteresse daqueles a quem se atribui prestígio: os jovens e bonitos.

Cá no Brasil, por sua vez, não podemos esquecer que as platéias chiques já verteram lágrimas de simpatia por uma eutanásia de heroína