Memórias

Um dia desses, pediram sugestões de livros de memórias no Facebook. Fiquei pensando nos meus preferidos para recomendar para o conhecido e acabei me dando conta de uma curiosidade. Em cada um, alguns lidos há quase vinte anos, há uma passagem que me ficou, bem…, na memória. Um episódio que levei pelo resto da vida, de que me lembrei nos momentos mais improváveis, que contei para amigos – “e daí, quando o fulano era pequeno, o pai dele…” – esse tipo de coisa.

Nesse espírito, fiz uma lista de alguns livros de memórias e dos trechos que me marcaram. Os que estão por perto, até tirei da estante para dar uma olhada, outros já se foram em algumas das muitas mudanças. É provável que os detalhes não sejam os mais exatos, mas a ideia é justamente ver o que ficou. A eles:

1) O afeto que se encerra – Paulo Francis.

Neste primeiro volume de suas memórias, Francis conta como acabou entrando meio de carona numa trupe de teatro que ia fazer uma turnê pelo
“Nordeste profundo”, no fim dos anos 50 ou começo dos 60 (mais ou menos como o grupo “La Barraca”, com Lorca, havia feito na Espanha trinta anos antes). O ponto que me marcou foi a descrição que o jovem jornalista e intelectual faz da experiência de estar em cima de um palco pela primeira vez, diante de uma platéia. Segundo ele, trata-se de uma coisa tão inebriante, uma sensação de se sentir tão superior aos mortais que o assistem de um patamar inferior, que ele entendeu hora como um ser humano normal se transforma numa diva, numa Norma Desmond, em alguém completamente desajustado para a vida num estágio inferior àquele do palco. Esse trecho foi uma revelação para mim e me ajudou a entender muitas coisas ao longo dos anos.

2) An Autobiographical Essay – Jorge Luís Borges.

Esse texto, escrito diretamente em inglês para sua primeira coletânea de contos publicada na Inglaterra, tem várias passagens excelentes, narradas naquele estilo “understated” do Borges. A passagem que ficou comigo ao longo dos anos (faz tempo que li isso pela primeira vez), no entanto, está em um curto parágrafo, que cheguei a pensar em traduzir aqui, mas não tive coragem. Fiquem com o inglês criollo de JLB.

Another pleasure came to me the very next year, when I was named to the professorship of English and American Literature at the University of Buenos Aires. Other candidates had sent in painstaking lists of the translations, papers, lectures, and other achievements. I limited myself to the following statement: “Quite unwittingly, I have been qualifying myself for this position throughout my life.” My plain approach gained the day. I was hired, and spent 10 or 12 happy years at the University.

Não importa que na época ele já fosse famoso, que o país fosse governado por uma ditadura militar que ele apoiava, essas ninharias idiotas que possivelmente ajudaram-no a conseguir o emprego. A questão é que a frase Quite unwittingly, I have been qualifying myself for this position throughout my life. não saiu da minha cabeça por um só dia nos vinte anos desde que a li. E faz faz vinte anos que levo pensando: “para o que eu mesmo venho me preparando ao longo da vida?”.

3) Errata, an examined life – George Steiner.

Este livro tem uma passagem que me marcou tanto quanto a anterior. Criado numa família de judeus eruditos como só os judeus do começo do século XX podiam ser, Steiner aprendeu grego aos 5 anos de idade. O que, em si, é menos impressionante do que maneira como isso aconteceu. Àquela altura, o menino já era trilíngue, e seu pai, depois de ter lhe contado em linhas gerais a história da Ilíada, resolveu ler para ele o livro 21 em alemão, na tradução de Johann Heinrich Voss. Em uma passagem cheia de tensão, Licáone se humilha perante Aquiles, que, em surto destrói, os exércitos troianos vingando-se pela morte de Pátroclo. Ao chegar nos versos que Licáone pronuncia agarrado em súplica às pernas de Aquiles – “[não] me mates; não sou de Hector irmão uterino; foi ele que abateu o caro e forte Pátroclo.” (trad. Haroldo de Campos) -, o pai de George Steiner se transforma no modelo de todos os pais do mundo (eu li o livro em uma bela edição espanhola da Siruela, mas na internet só encontrei a passagem em inglês):

At which line, my father stopped with an air of considered helplessness. What, in God’s name, happens next? I must have been shaking with excited frustration, shaking. Ah, said Papa, there was a gap in Voss’s translation, indeed in all available translations. To be sure, there was the original, Homers’ Greek, which lay open on the table, together with the lexicon and introductory grammar. Should we try and decipher the burning passage for ourselves? It was not, my father said, difficult Greek. Perhaps we could manage Achilles’ reply. And he took my finger, placing it on the appropriate Greek words. (…)

Whereupon, Achilles slaughters the kneeling Lycaon. My father read the Greek several times over he made me mouth the syllables after him. Dictionary and grammar flew open. Like the lineaments of a brightly colored mosaic lying under sand when you pour water on it, the words, the formulaic phrases, took on form and meaning for me. Word by sung word, verse by verse. (…)

Tapping my excitement (it would be sometime before I discovered that translations of Homer did not omit the most thrilling bits), Papa made a further proposal, as in passing: “shall we learn some lines from this episode by heart?”

4) Autobiographical Reflections – Eric Voegelin

Você vai lendo capítulo após capítulo da típica autobiografia de um intelectual centro-europeu do começo do século XX: o estudo, a disciplina, as aulas e amizades com pessoas cujos livros temos na estante, a capacidade ilimitada de absorver e processar conhecimento. Depois, a guerra, o medo, a tragédia do exílio, o recomeço nos EUA numa posição ridiculamente inferior aos seus méritos. Ou seja, uma biografia como centenas de outras. Aí, de repente, o sujeito, já nos casa dos cinquenta anos, dando aulas numa cidadezinha no sul profundo dos EUA, vai procurar o rabino da sinagoga local para “aperfeiçoar o seu hebraico” porque o domínio da língua é fundamental no seu grande projeto “Ordem e História”. É nesse momento que você se dá conta de que a vida do cara acontece em dois planos, esse mesmo que você leu acima e outro, superior, que você só vislumbra.

5) The Memory Chalet – Tony Judt.

O livro recolhe uma série de ensaios escritos para a New York Review of Books no período em que o historiador já tinha sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica. Todos são bons, bem-escritos e valem a pena. Há um, no entanto, que está em outro nível. Uma crise de meia idade leva o autor – contra os conselhos de todos os seus conhecidos – a aprender tcheco. Uma coisa leva a outra, e quando Tony Judt se dá conta, ele está envolvido com a dissidência na Tchecoeslováquia que levou à queda do comunismo e à Revolução de Veludo. A partir daí, uma porta inesperada se abre em sua carreira quando ele passa a poder estudar a história da Europa Central a partir de outro ponto de vista e, de acadêmico especializado na história das ideias francesas, Judt se transforma num superstar ao publicar “Postwar”, um dos primeiros livros que abarcam a história da Europa a partir de uma perspectiva genuinamente continental. Muito impressionante.

6) Una vida presente – Julián Marías.

O primeiro volume da trilogia do Marías talvez seja o melhor livro de memórias que já li. Há tanta coisa naqueles vinte e poucos, talvez trinta, anos. A passagem que me marcou, no entanto foi a seguinte: fim da Guerra Civil Espanhola. Madri, que resistiu até o fim, com uma bravura de arrepiar a despeito das atrocidades e baixezas que se cometeram na capital, estava prestes a cair perante o exército “nacional”. Sendo políticos, todos os políticos do primeiro escalão – covardes, canalhas, ladrões e filhos da mãe – já tinham fugido fazia um bom tempo, primeiro para Valencia, depois para Paris e para a Cidade do México. Apenas uma figura de destaque escolheu ficar, o que, naquela circunstância, era uma sentença de morte. Esse senhor se chamava Julián Besteiro – professor, político socialista e, tudo indica, um dos poucos homens honrados em toda a República. Marías era seu assessor direto, e as páginas cheias de admiração e assombro diante daquele ato de hombridade e dignidade são emocionantes. Valeriam o livro, se ele todo não fosse uma obra-prima.

7) O tabuleiro de damas – Fernando Sabino.

Eu gosto muito de andar, de dar longas caminhadas, principalmente de manhã cedo e à noite. Mas quando eu era jovem, com tempo para essas caminhadas, não tinha Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino para atravessar Curitiba ao meu lado conversando (eles cruzavam Belo Horizonte, mas ok) até amanhecer. Gostaria de ter tido, e sinto inveja do Fernando Sabino.