Notas para um conservadorismo linguístico: parêntese para comédia

A comédia do preconceito linguístico é a seguinte. De um lado, há os que gritam contra os preconceituosos, que só têm um domínio superficial do idioma. De outro, estão os conservadores linguísticos, que estão dispostos a dirigir todos os recursos necessários para que as pessoas possam dominar a mesma norma dos preconceituosos.

Imagine esta situação: fulano tem uma coisa preciosa e eu denuncio fulano porque fulano fala mal de mim só por eu não ter essa coisa. Aí vem um terceiro e diz: “Olha aqui, vou te dar a coisa preciosa.” E então eu respondo: “Eu não quero isso, eu quero que fulano diga que a coisa preciosa não tem valor nenhum e que a que eu tenho vale tanto quanto a dele!”

Depois a gente fica com um pé atrás em relação ao discurso público e ainda é chamado de cínico.

Notas para um conservadorismo linguístico (II)

No texto anterior, falei de como o preconceito linguístico existe entre semiletrados. São as pessoas que dominam a ortografia e uma gramática básica e que aproveitam para gozar de quem não as domina – como se falar “nós vamos” em vez de “nóis vai” fosse um grande mérito. Mas, francamente, não vejo nada de especial nisso. Cada um exibe o que tem. O único problema é que isso acaba sendo confundido com a própria ideia de dominar bem o português. E, pior ainda, isso acaba sendo combatido por pessoas que querem que “dominar bem o português” seja simplesmente o contrário de não dominar essas regras básicas.

Existe nisso uma tremenda vulgarização da sensibilidade. Você pode observar um erro, com ou sem aspas, e ter razão nisso. Só que, com isso, acaba chamando a atenção para o erro. Em um de meus poemas favoritos, “The Quest”, Auden fala em “testar a resolução dos jovens falando das pequenas falhas dos grandes homens”. Lembro, por exemplo, de encontrar erros de ortografia em originais manuscritos de Bruno Tolentino. Você pode apreciar ou não apreciar a poesia dele, mas teria mesmo a empáfia de sequer citar, numa crítica, esse erro ortográfico?

No entanto, a noção de erro precisa ser rediscutida e, de certo modo, restaurada. Quando o linguista fala em “desvio da norma padrão”, ele está usando um termo técnico. Não creio que nenhum termo técnico tenha direitos especiais sobre a linguagem corrente. Acho engraçado que o linguista goste de dizer que num ambiente informal você não vai seguir a norma culta – e é verdade que nem os mais cultos falam de maneira tão límpida quanto escrevem, e que no Brasil a distância entre a fala e a escrita, mesmo das classes cultas, é impressionante – , argumentando a partir da ideia de adequação, e ele mesmo não se pergunte se é adequado que leigos sejam submetidos a conceitos linguísticos descontextualizados. Para um leigo, é muito mais vantajoso pensar que existe erro de português do que ter de compreender todo um arcabouço linguístico dentro do qual a frase “não existe erro” pode fazer algum sentido.

Dito isso, é verdade também que muitas críticas ao ensino tradicional são justas. Não consigo acreditar que crianças de doze anos possam se beneficiar da classificação das orações subordinas – a menos, talvez, que estudem latim e/ou grego ao mesmo tempo. Lembro de quando eu estudava, pela enésima vez, a colocação dos pronomes átonos, no terceiro ano do segundo grau. Meu professor era Sergio Nogueira. Enquanto estudávamos aquilo, eu lia, sem ser para a escola, Memórias Póstumas de Brás Cubas (essa é a melhor edição). Qual não foi a minha surpresa em ver que em diversas ocasiões Machado de Assis “desrespeitava” as regras de colocação pronominal propostas nas gramáticas. Levei o caso ao professor, que teve de concordar. E desde então eu coloquei as gramáticas entre parênteses.

De um lado, um ensino que privilegiasse a leitura, a interpretação de textos e a redação evitaria o mal de ter alunos que sabem que a palavra negativa atrai o pronome átono mas acham Machado de Assis um completo estranho. Também, se os alunos fossem capazes de escrever um pouquinho de nada como Machado de Assis, não seria nem necessário, nem razoável, ser capaz de enunciar essas regras todas.

De outro lado, a ideia de uma norma padrão está associada ao Estado e é francamente indispensável para ele. Não é possível manter um Estado funcional com documentos com redação ambígua. Imagine desde editais incompreensíveis até petições e decisões judiciais que ninguém consegue entender. Um pequeno exemplo: você defende o “nóis vai” porque o português já marca a primeira pessoa do plural no pronome, tornando o verbo redundante. Porém, essa redundância permite a omissão do pronome em incontáveis ocasiões. Se a marcação da pessoa ficasse a cargo do pronome, ou o português teria de ficar mais parecido com o inglês, para evitar ambiguidades, com pronomes aparecendo o tempo inteiro, e assim perderia um traço seu bastante distintivo, ou simplesmente passaríamos ao caos – a uma Babel não de idiomas, mas a Babel de “normas”.

Ao dizer isso não pretendo defender o Estado. Só me surpreende que aqueles que defendem a relativização da norma culta sejam os mesmos que defendem sempre mais intervenção estatal, mais soluções estatais, na forma de leis e de políticas públicas.

Curioso ainda que não percebam que a ideia de uma norma padrão é profundamente igualitária. Aliás, ela sim poderia ser um instrumento de equalização. O político mais poderoso, o milionário mais rico, o intelectual de maior prestígio e qualquer pé-rapado submetem-se às mesmas regras. Claro que isso não acontece hoje: o político mais poderoso fala de qualquer jeito e entende quem tem juízo; o milionário mais rico pode balbuciar qualquer coisa que os interessados perderão horas para entendê-lo; o intelectual de maior prestígio pode inflar seus discursos até ultrapassar todos os limites do tédio; o pé-rapado poderia falar melhorzinho mas a escola considerou que isso seria opressão.

Só que aqui já estamos numa questão plenamente política, e não mais linguística.

Notas para um conservadorismo linguístico (I)

Em nome do combate ao “preconceito linguístico”, vai-se jogando fora uma noção que, na verdade, talvez nunca tenha nem sido muito bem compreendida: a noção de falar bem, de escrever bem, de expressar-se bem. Não é difícil imaginar que é melhor ler um texto e entendê-lo de maneira imediata e com o mínimo de ambiguidades do que ter de penar para entendê-lo. O mesmo, é claro, vale para um discurso falado.

No Brasil, ao menos na minha experiência, escrever e falar mal costumam significar duas coisas. Se a pessoa tem algum diploma (é difícil dizer “formação”), ela fala e escreve de um jeito empolado, cheio de circunlóquios, realmente caricatural. Os textos acadêmicos trazem exemplos abundantes: meu favorito ainda é “um argumento cujo desdobramento subsequente se dirige no sentido de conceber”, cujo autor terá sua identidade preservada. Se você também for a um congresso qualquer, e sobretudo se você for lá para trabalhar como intérprete, vai sofrer na hora das perguntas. Os brasileiros nunca completam uma frase, ficam dando voltas, colocam um aposto atrás do outro, o verbo da oração principal nunca chega… Por outro lado, se vamos ver o discurso daqueles que seriam o alvo do famoso “preconceito linguístico”, temos as mesmas frases que não terminam, e, na escrita, a quase total ausência de pontuação. Você diz que eu sou um opressor que tem fetiche pela norma culta, e eu digo que, só para ficar num critério bem utilitário e nada empolado, preferia não ter de decifrar cada discurso que me chega. Essa é a vantagem da norma “padrão”.

A solução desse problema, a meu ver, é a seguinte: acabar com o ensino que privilegia a gramática e botar a molecada para ler e escrever muito. A língua é um hábito. Você não vai aprender a escrever bem lendo gramáticas, mas lendo Machado de Assis, Camões etc. É até fácil ver como essa estrutura do ensino está refletida nos dois principais tipos de mau português. O aluno só conhece dois registros: o coloquial mais básico e outro, abstrato, que parece não se referir a nada, mas que ele precisa macaquear para passar de ano e que ele acaba associando a uma impressão de respeitabilidade. Sem contar que o português é exigido pelos concursos públicos. Nesse caso, o concurseiro, em primeiro lugar, volta a estudar um monte de gramática, e depois fica lendo um monte de textos horrorosamente escritos, empoladíssimos, o que reforça a perversa ideia de que a “gramática” e a “norma culta” não passam de um monte de idiossincrasias que um bando de gente recalcada usa para oprimir os outros.

Existe o preconceito linguístico? Existe, claro. Mas eu só o vejo sendo praticado por pessoas semiletradas contra pessoas iletradas. Aqueles que conseguiram imitar trejeitos gramaticais rudimentares fazem pouco daqueles que não conseguiram. É o empolado que fala mal do roto, e os gramáticos “progressistas”, como o sr. Marcos Bagno, vêm defender o roto na base da carteirada: “sou gramático – e progressista!”. Fica tudo num universo nebuloso: o coitado que não enxerga a norma padrão, o que enxerga as aparências dela e o gramático que abusa da sua autoridade.