Rentismo de imagem

O Globo, 20 de janeiro de 2011

O filme A rede social ganha um prêmio atrás do outro nos Estados Unidos. Seu assunto é a fundação do Facebook e seus personagens são reais e estão vivos. Não se pode dizer que o retrato que se pinta deles no filme seja o mais lisonjeiro do mundo. Ainda assim, existe a crença tácita de que o público não é tão burro a ponto de não perceber que A rede social é um filme, não um registro histórico fidedigno. O Facebook, aliás, não teve prejuízos com o sucesso do filme, e seu fundador, Mark Zuckerberg, também protagonista da história, aparentemente não perdeu amigos. Na verdade, ele levou os funcionários para ver como Aaron Sorkin, o roteirista de The West Wing, retratou a criação do site.

Aqui no Brasil, A rede social seria impossível. Temos uma tradição, reconsagrada pelo novo Código Civil, de que só é possível retratar qualquer personagem real em situações de extrema bondade. Ou ele curava os leprosos e caminhava sobre as águas, ou sua memória e sua imagem estão sendo vilipendiadas pelos interesses mais sórdidos. Não há meio termo. A edição das obras completas de um famoso poeta foi atrasada em muitos anos porque os herdeiros vetavam a publicação de poemas dedicados à amante que todos sabiam (até eu, mesmo quando criança) que ele tinha. A biografia de um jogador de futebol foi recolhida das livrarias porque aparentemente o biografado não aparecia de modo suficientemente angelical.

Certamente é isso que explica a ausência, em nossa dramaturgia, de episódios da história política. Por que não podemos fazer uma peça ou um filme em que Jânio Quadros apareça fraco e esfomeado, comendo um sanduíche de ovo em pleno comício, com a gema escorrendo pelo paletó, e depois falando em ditirambos e outras coisas dignas de Odorico Paraguaçu? Porque seria uma ofensa contra sua imagem. Não: Jânio curava leprosos apenas com o toque das mãos e caminhava sobre as águas. Já podemos imaginar que os herdeiros julgam que qualquer coisa menos do que isso é inaceitável.

Se a nossa legislação existisse na Inglaterra elisabetana – e a rainha Elizabeth I não foi tão econômica assim no uso da fogueira – Shakespeare não poderia ter escrito seus dramas históricos, que incluem peças famosas como Ricardo III e Henrique V, e peças menos famosas como Henrique VIII, cujo personagem-título era pai da própria rainha. Se a nossa legislação existisse no Portugal quinhentista, em que havia censura da Inquisição, Camões não poderia ter escrito o relato da viagem de Vasco da Gama, também conhecido como Os Lusíadas. É verdade que Camões procurou o mecenato da família do navegador, mas essa, exercendo seu pleno direito de propriedade, não quis dar dinheiro ao poeta. O que, convenhamos, é bem melhor do que valer-se de meios judiciais para impedi-lo de publicar sua obra. A ideia de que os reinos de Dom Sebastião e de Elizabeth I podem ter oferecido mais liberdade para poetas e dramaturgos do que o da presidenta que tirou o crucifixo do escritório logo na primeira semana é algo que, para recordar o famoso monólogo “Ser ou não ser”, obriga-nos a refletir.

Ainda assim, leio em O Globo que o sindicato das enfermeiras declara estar a postos para combater judicialmente qualquer personagem televisivo que seja uma enfermeira atraente e que por isso supostamente contribua para a objetificação sexual das enfermeiras. Ora, um pouco de bom senso nos diria que, na famosa vida real, isso depende mais da imagem de cada enfermeira em particular. Enquanto isso, todo empresário pode ser retratado como um torpe mau-caráter: são obras de ficção…

O mais importante, porém, é um pequeno dado, pressuposto em toda essa argumentação. Mesmo que a lei diga o contrário, de facto a sua imagem e a sua fama não pertencem a você. Sua imagem e sua fama são as opiniões que outras pessoas têm de você, e por isso pertencem a elas, não a você. Aliás, o fato de herdeiros impedirem a publicação de livros não só não altera em nada a minha opinião de poetas e de biografados como altera muito negativamente a minha opinião sobre esses herdeiros – rentistas da imagem alheia, que querem criar um feudo impossível, como alguém que deseja privatizar o ar que se respira. O efeito, além da diminuição do mercado – da diminuição do número de empregos – é que, vedado o tratamento artístico da memória, qualquer um pode começar a arrotar que “nunca antes na história deste país” sem ser logo percebido como a banalidade que é.

Liberdade, ordem e violência

Com atraso, respondo ao bom Diogo Costa:

Começo pelo factual. Se o compreendo corretamente, Sette-Câmara define como causa eficiente para coesão social originária o deslocamento terminal da violência cíclica para um agente externo (ou interno, desde que isolável). A lógica pode ser válida, mas a história não confirma o aspecto empírico desse enunciado. A melhor explicação para a gênese do estado está nas teorias de superestratificação, que esclarecem como a formação de uma estrutura política geralmente ocorre quando o inimigo externo passa a dominar uma cultura pacífica. Conforme Karl Mannheim:

Thanks to the investigation carried out by ethnologists and sociologists we know… that all the highly developed cultures in history originated from the forcible conquest of autochthonous communities, mostly peaceful peasantries, by nomadic peoples. This element of coercion penetrated so deeply into the otherwise pacific peasant society that it dominated its entire structure.

Essas afirmações na verdade não corroboram nem desmentem a idéia de que a ordem nasce da violência unânime contra um inimigo externo. Os nômades precisavam primeiro não estar matando a si mesmos antes de dominar as populações agrícolas, assim como as populações agrícolas precisavam não estar competindo entre si para poder sonhar em se defender ou simplesmente para continuar existindo.

Dizer que “a ordem nasce da proteção contra o inimigo externo” é focar em elementos acessórios da superestratificação política (vale lembrar também que as empreitadas nômades contra os produtores não bastavam para os elevar a uma ordem social), ou tomar por regra casos excepcionais como a formação da confederação Suíça.

Acho que falta explicar mais a “superestratificação política”.

Depois, ao dizer que “a violência é o estado natural do ser humano”, Sette-Câmara está, na melhor das hipóteses, cometendo um descuido perigoso. Que não somos anjinhos corrompidos pelas instituições malvadas, não tenho dúvidas. Mas não segue daí a necessidade de costurar no lombo da humanidade a pele do lobo hobbesiano. A violência é natural, mas também é natural a cooperação. Só existe vida em sociedade porque se percebe que a cooperação humana satisfaz melhor nosso interesse próprio do que o estado de guerra.

Para ser sincero, meu conhecimento de Hobbes é muitíssimo superficial, por isso não me classificarei como hobbesiano ou deshobbesiano.

Minha tese, ou minha hipótese, é que a cooperação só surge depois que a violência competitiva entre rivais próximos é contida pela violência unânime. Porém, segundo o próprio Adam Smith, essa cooperação não nasce de um instinto de caridade, mas do interesse próprio.

É preciso clarificar um pouco o uso da palavra “natural”. Podemos falar de uma natureza do homem “feito à imagem e semelhança de Deus”, um homem essencialmente bom, mas acidentalmente corrompido, ou de um homem filho de Caim, um homem essencialmente corrompido, mas acidentalmente mau.

Tendo a <a href="zão. Um dos principais problemas do Brasil é que o crime compensa, que o custo de oportunidade de não ser criminoso é muito alto. Há pouca punição para a transgressão. A competitividade violenta (“o computador era do Pedro; agora é meu”) está alastrada pela sociedade.

Em qualquer arranjo institucional, a violência, ou a dominação, será uma peça central, mas que não encerra o quebra-cabeça. As teorias sociológicas da violência não podem ignorar a importância das contribuições da economia e da filosofia da justiça para o estudo da sociedade.

Concordo. Creio que o arranjo liberal é mais eficiente para a prevenção da violência competitiva entre os membros de uma sociedade, e que cabe ao Estado administrar os interditos à violência. Quando existe ordem, as pessoas podem afirmar sua autonomia lendo Richard Dawkins e dizendo ao mundo que o Papa é bobo e chato e feio, e não batendo com clavas na cabeça de outras pessoas.

Um exemplo claro disso está na tragédia dos comuns. O que falta para resolvê-la? Um interdito eficiente contra a competição violenta. Não sei quem inventou o nome “tragédia dos comuns”, mas acertou em cheio: o nome é muito, muito mais profundo e correto do que sonham os economistas.

Liberdade, ordem & paz

Li os artigos de Olavo de Carvalho e de Diogo Costa sobre ordem e liberdade e devo dar uma terceira opinião — talvez mais próxima da opinião de Olavo de Carvalho, por fazer com que a ordem de certo modo anteceda a liberdade. Minha opinião, porém, depende de um certo entendimento de “ordem” e de um certo entendimento de “liberdade”. No momento, não tenho os meios de reunir o que os dois disseram e procurar um denominador comum. Esperemos que alguém possa fazê-lo. Quiçá o Bruno Garschagen.

Num texto anterior, falei de como um dos problemas do Brasil era o excesso de competitividade: competimos no trânsito, nas ruas, nas pequenas transações cotidianas, partout. Como o espaço de não-competitividade é muito pequeno, não concentramos nossa inclinação para competir em nenhum terreno em particular — nos negócios, por exemplo — e por isso parecemos dispersivos. Gastamos nossa alma com raiva do sujeito que andou no acostamento, que contou uma mentira para tentar ganhar uma esmola, que simplesmente brandiu a lei e cobrou um imposto abusivo. Estamos nos defendendo o tempo todo, sempre cientes de que o gafanhoto pode vir e comer o pouco que acumulamos. Temos a sensação de ter pouca liberdade.

Por isso é que vou definir “liberdade” como a possibilidade de ação sem revide violento, observando que, por “revide violento”, entendo atos contra a vida, a saúde e as propriedades, e “ordem” como a possibilidade de aplicar uma violência unânime — isto é, “legítima” — contra aqueles que praticam a violência individualmente, em revide ou de motu proprio. Nesse sentido, “garantir a ordem” e “garantir a liberdade” seriam a mesma coisa: aliás, a função primária do Estado. Se existe a possibilidade de ação sem revide violento, posso inventar um produto que destrua indústrias inteiras e acreditar que não serei assassinado. Posso dizer o que penso sem ser linchado; posso até dizer o que não penso e supor que não serei linchado, ou ao menos que os linchadores sofrerão sanções violentas legítimas.

Uma vez que o Estado cumpra a sua função de conter e gerenciar a violência — aquilo que Adam Smith chamou de “uma administração tolerável da justiça” — , as pessoas podem competir de modo frutífero, e não sanguinário. Essa contenção da violência, porém, pressupõe a possibilidade perene de administrar a violência contra o transgressor interno e contra o inimigo externo. Não se pode fingir que os vizinhos não cobiçam o território que se ocupa; eu mesmo creio que os vizinhos do apartamento ao lado ocupariam rapidamente o apartamento onde moro se acreditassem que a minha resistência seria insignificante.

Nesse ponto, é preciso explicitar um pressuposto. Todo o meu raciocínio depende de crer que a violência é o estado natural do ser humano. Sim, eu creio nisso. Falo em garantir a ordem como se isso fosse igual a garantir a liberdade, e creio que as duas coisas estejam muito próximas de garantir a paz. Se você julga que o ser humano é naturalmente pacífico e não violento, um verdadeiro Adão recém-criado, não um filho de Caim, então de fato não temos bases comuns.

Retornando, e aproveitando para recomendar um post de Mencius Moldbug que toca no assunto, é preciso salientar que a ordem nasce da proteção contra o inimigo externo. A manutenção de qualquer sociedade depende de que seus membros efetivamente acreditem em certos mitos. Ser americano não é simplesmente acreditar na liberdade e no princípio de no taxation without representation, mas acreditar nisso contra o Rei George III. Houve, num dado momento, a possibilidade de atribuir o mal a um inimigo e combatê-lo; se antes ele não era exatamente externo, depois passou a ser. Foi “morto”, banido, sacrificado como bode expiatório. Foi a vitória das colônias na Guerra de Independência que criou a land of the free and home of the brave. Assim, parafraseando Adam Smith, o padeiro e o açougueiro americanos não estão apenas seguindo o seu interesse próprio ao vender pão e carne, estão também seguindo seu interesse comum de manter os ingleses longe e de viver segundo o esquema de diferenciações — a ordem jurídica, com todos os seus títulos de propriedade — que nasceu da violência que os expulsou.

O surgimento da ordem após a violência contra o bode expiatório é perfeitamente “espontâneo”. É um fenômeno universal. Não sei se é desse tipo de “espontaneidade” que Hayek está falando, mas tendo a suspeitar de que ele se refere às ordens espontâneas que surgem uma vez que existam proteções eficazes contra a violência, e a mais eficaz destas é o direito de propriedade. Nunca consegui aceitar a idéia de uma qualidade “metafísica” da propriedade, como se este computador em que escrevo fosse meu por alguma configuração intrínseca à minha pessoa e à natureza deste objeto individual. Não: basicamente, ele é meu porque se alguém tentar tomá-lo de mim a lei brasileira me autoriza a reagir e, em última instância, promete jogar o aparato violento do Estado contra essa pessoa. A propriedade é uma diferenciação social.

***

Reparem em como parecemos ter chegado a uma crítica marxista. Marx dirá que as proteções contra a violência, aquilo que eu e você entendemos como “direitos humanos” — o direito de não ser torturado, escravizado etc. — são meros direitos burgueses. Reduzindo a crítica marxista a termos girardianos, entendemos que há nela a noção de que a proteção contra a violência precisa ser estendida a outras áreas, sobretudo a área do trabalho. Eis a disputa do século XX a respeito da elaboração entre uma Carta de Direitos Humanos no âmbito da ONU, com os países ocidentais querendo incluir os direitos humanos “tradicionais” e a URSS querendo incluir direitos econômicos, sociais e culturais. Liberais (ou conservadores) podem crer que a sociedade é “justa” se os direitos humanos e os direitos de propriedade e igualdade perante a lei estiverem assegurados; marxistas dirão que isto é muito pouco e, na verdade, é apenas uma manipulação da burguesia para assegurar seu status (vide a importância do direito de propriedade). Talvez, aliás, possamos dizer que a diferença entre direita e esquerda é justamente que a direita tem um entendimento limitado da violência e pretende contê-la até um determinado ponto (por exemplo, não seria violência uma empresa vencer outra sem usar roubo e assassinato), e a esquerda tem um entendimento muito mais amplo do que seja a violência e de como ela deve ser administrada. A idéia de que a “história acabou” com a consolidação das democracias liberais seria a idéia de que todos os direitos que deveriam ser assegurados já foram assegurados; a idéia de que a história não acabou é a idéia de que é preciso continuar lutando para assegurar mais direitos e, com isso, uma certa espécie de ordem, “mais justa” que a atual.

É nesse sentido que o esquerdismo parece uma paródia do Cristianismo, um verdadeiro anti-Cristianismo: por esperar que as condutas não-violentas (como oferecer a outra face) que Cristo pediu a cada indivíduo sejam realizadas por lei, por um sistema jurídico, que, com a abolição da propriedade, instalaria uma situação violentíssima, porque aquilo que é de todos não é de ninguém, e pode ser usado de qualquer maneira sem temor de sanção violenta e legítima porque unânime.

Uma base estratégica para a retórica liberal

Meu texto propondo causas liberais teve uma boa repercussão:

As pautas liberais, de um autor cujo nome não identifiquei;
10 ações de minha agenda política, de Igor Taam;
Quais devem ser nossas prioridades?, de Diogo Costa;
Propaganda governamental, de Luciana Lopes.
Três propostas — e muitos debates, de Flamarion Daia Júnior.

Julgo que ainda preciso me estender sobre a primeira das causas que defendi, e que é, para mim, a mais importante: a discriminação obrigatória entre preço e imposto em todas as notas fiscais.

Muitos liberais querem dar uma de imaculados e equacionam as coisas erradamente. Não creio que exista a escolha de Sofia entre ser um perdedor cheio de razão e um vencedor que precisou corromper-se. Existe, pelo contrário, a escolha entre ficar num mundinho de sonhos, achando-se puro e lindo, e entender a situação imediata e questionar-se sobre o liberalismo possível. Na primeira opção, temos boa parte da situação atual, em que a defesa do liberalismo não passa de um passatempo burguês relativamente inconseqüente, que assume a nobre pose de “defesa de idéias”. Defender idéias é fácil, veja só: a verdade é boa e a mentira é má. Pronto, está defendido. O difícil é convencer as pessoas, e o sucesso da retórica depende da adesão da platéia.

Há muito tempo me pergunto, e não sou nada original nisso, por que posturas liberais não encontram mais interesse no Brasil. As pessoas gostam da prosperidade que o mercado traz, mas por que não juntam A com B? Penso que existem razões diferentes para isso, e agora vou explicar uma delas (e, posteriormente, outra razão).

Aristóteles explica na Retórica que o entimema é o mais poderoso recurso persuasivo. Ok, ele estava falando de discursos dirigidos aos homens livres de Atenas, isto é, uma pequena elite altamente educada. Hoje parece haver uma preferência pelo exemplo enquanto instrumento de persuasão, mas até o exemplo me parece estar baseado num entimema. Explico. O entimema é um silogismo de premissa maior oculta, com a qual o ouvinte já concorda de antemão. Se eu digo “aquele cara é nazista”, você já acredita que o nazismo é mau e você mesmo tira a conclusão de que “aquele cara” deve ser preso ou punido de alguma forma. Os guetos ideológicos, os grupos de amigos e todos os meios relativamente homogêneos compartilham essas premissas maiores de modo implícito. As estratégias de manipulação ideológica, por sua vez, tentam operar no terreno dessas premissas implícitas, e não no terreno das premissas menores e das conclusões. Agora você pode estar pensando que chegamos ao ponto em que vou defender a manipulação ideológica em favor do liberalismo. Nada disso.

Quando escrevi defendendo a discriminação obrigatória entre preço e imposto nas notas fiscais, meu objetivo era sugerir que isso contribuiria para explicitar e questionar uma premissa maior que parece onipresente no Brasil: a idéia de que o Estado é uma espécie de força mágica, movida a “vontade política”, capaz de resolver qualquer problema. Você não tem essa sensação em relação à sua vida privada. Você sabe que tudo tem um custo. Mesmo que você seja muito rico, tudo tem um custo de tempo: fazer algo é não fazer outro algo. Ainda assim, você pode acreditar que o Estado, como Deus, é capaz de abolir a fome, a doença, o crime e a pobreza, e ainda promover o turismo, criar filmes e programas de TV, tudo ao mesmo tempo. As pessoas que defendem esse grande e sensacional Estado onipresente nunca são obrigadas a responder à seguinte pergunta: “Tudo isso é muito lindo, mas quanto você quer pagar por esse Estado que já existe? Ah, você não sabe que já paga um bocado? Acha pouco? Quer pagar mais? Mas além de você querer que o Estado acabe com a fome no Brasil, você não achava que ele ainda deveria pagar operações de mudança de sexo? Acha que isso não custa nada, é?” E assim as pessoas começariam a medir o quanto pagam por ruas esburacadas, por segurança deficiente, por burocracias infindas, e saberiam que cada uma de suas idas ao cinema com jantar depois poderia custar talvez metade do que custa… Mais importante, talvez elas entendessem que achavam que o Estado era uma força mágica e, quando vissem na TV que agora o governo vai dar isso ou aquilo, perguntassem: “E quanto custa esse negócio?”

O fato é que não é possível discutir a sério como é o Estado que se quer, mínimo, médio, empresário, regulador etc. enquanto existe a possibilidade de um Estado máximo e divino que depende apenas da boa vontade para nos levar aos vales onde jorra o leite e o mel. É claro que esse Estado divinal é preferível, e é sua impossibilidade que precisa ser sentida, mais do que demonstrada, para que as pessoas excluam as opções inviáveis de suas mentes. Querer o Estado divinal é como recusar as mulheres que existem porque só Helena de Tróia seria uma opção aceitável. Esse é o sentido político imbecil da frase “sejam realistas, peçam o impossível”. (E Helena de Tróia não apenas não existe como, se existisse, ainda fugiria com outro sujeito.)

Não creio que haja jeito mais eficaz de promover o questionamento dessa premissa, que na verdade seria o primeiro passo para a maturidade do eleitorado em geral, do que tornar obrigatória a discriminação entre preço e imposto nas notas fiscais. Porque o povo brasileiro pode ter pago um trilhão de reais em impostos, mas isso me dói muito menos do que os poucos reais que deixei hoje em impostos no supermercado.

Os movimentos revolucionários em grande parte opuseram a religião ao Estado, fazendo daquela o bode expiatório a ser sacrificado pelo grande herói do secularismo. A questão política que se coloca é saber se temos maturidade para duvidar do Estado, questionar sua divindade, e ainda assim mantermos a ordem. A experiência americana sugere que isso é possível. A consciência de estar pagando muitos impostos, sempre, aumentaria o desejo de autonomia e, espera-se, de responsabilidade própria. Aqui, me parece, está o início de um programa liberal possível, a causa que pode abrir espaço para outras causas, as mais variadas, e para uma cultura política mais adulta, menos poluída pela crença no Estado-babá.

Causas importantes para os liberais brasileiros

Fico pensando se não há causas prioritárias para o movimento liberal no Brasil, prioritárias porque ajudariam na consecução de outros objetivos. Os liberais nunca vão se unir positivamente, os retardados sempre vão achar que eu sou socialista só porque sou católico (já vi isso, mas quem falou também já tinha escrito que a existência de uma hipótese valia como refutação, então ele está protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e não deve ser mencionado), os rothbardianos vão achar que eu sou socialista porque acho que o Estado deve existir, e os sociais-democratas mais liberais sempre vão achar que eu sou um maluco radical anarquista.

No entanto, somos unidos por aquilo que sempre une as pessoas que têm desavenças e discordâncias e diferenças de identidade: um inimigo comum. O que será que é mais urgente, e traz menos discordâncias, até mesmo entre não-liberais, e que poderia servir para dar norte ao movimento? Aqui vão três propostas, selecionadas por esse critério. Não coloquei coisas como “liberdade de expressão” porque até agora não temos nada de muito relevante sendo proibido ou “fim do alistamento militar obrigatório” porque o número de pessoas que não quer servir às forças armadas e vai contra a vontade é pequeno demais (até onde sei).

São só três causas. Vejamos.

1. A instituição obrigatória da discriminação entre preço e imposto em todas as notas fiscais, em todas as instâncias. Claro que não estariam discriminados os impostos em cascata, mas apenas os impostos que incidem sobre aquela operação. Digo isso porque saber que o Estado brasileiro consome 37% do PIB tem muito menos impacto sobre a minha vida do que saber que, ao gastar R$50 no posto de gasolina, deixei uns R$26 na mão do governo. Isso é o que podemos chamar de “efeito da piada do mineiro”:

Dois mineiros caminhavam pela estrada.

— Cumpadi, se ocê tivesse seis fazenda, ocê me dava treis?
— Dava, cumpadi, claro.
— E se ocê tivesse seis boi, ocê me dava treis?
— Dava sim, cumpadi.
— E se ocê tivesse seis camisa, ocê me dava treis?
— Não, camisa eu num dava não.
— Pur quê, cumpadi? Fazenda e boi cê dava…
— É que seis camisa eu tenho!

Por isso, bem, eu não tenho bilhões de reais, mas R$50 eu tenho.

2. A abolição de toda e qualquer propaganda estatal, inclusive de empresas estatais. A razão é simples. Propaganda é parte de uma estratégia de concorrência. Governo não concorre. Logo, não tem de anunciar. Não posso escolher morar no Rio e usar a prefeitura de São Paulo, nem morar no Brasil e me submeter às leis americanas. Logo, anúncio de governo é sempre, invariavelmente, e em 100% dos casos um mero instrumento de favorecimento de empresários. Tem de acabar. Eu até acho meio curioso que a direita brasileira não perceba que há uma ligação estreita entre um ex-editor e um ex-prefeito de São Paulo que, quando deixou a prefeitura e foi disputar o governo, secou a fonte publicitária de uma certa revista…

3. Uma emenda constitucional que fale, à americana, em probable cause, isto é, algo que acabe com o poder da polícia de parar pessoas a esmo e extorqui-las, ou, como preferem dizer, procurar criminosos. Isso é importante por uma razão simples: para que o país funcione melhor, os cidadãos não podem odiar a polícia, ao menos não tanto assim. Antes de ser parado pela polícia, o sujeito tem de ao menos exibir algum comportamento claramente suspeito (como dirigir erraticamente).

O Papa, esse grande liberal

Essa semana saiu um texto na Zenit bom demais para não ser reproduzido integralmente:

Liberalismo precisa voltar a abrir-se para Deus, adverte Papa

Em uma carta enviada a Marcello Pera por ocasião de seu último livro

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 2 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- Bento XVI escreveu uma carta ao filósofo e senador italiano Marcello Pera para agradecer a contribuição que oferece em seu último livro, dedicado a expor que o fundamento do liberalismo se encontra na relação da pessoa com Deus.

O volume, que leva por título «Por que temos que dizer-nos cristãos. O liberalismo, Europa, a ética» («Perché dobbiamo dirci crisiani. Il liberalismo, l’Europa, l’etica», Mondadori, Milão, 2008), será apresentado nesta quinta-feira em Roma.

Após confessar que foi «uma leitura fascinante», o Papa elogia a análise que faz do liberalismo «a partir de seus fundamentos, mostrando que na essência do liberalismo se encontra o enraizamento na imagem cristã de Deus: sua relação com Deus, de quem o homem é imagem e de quem recebemos o dom da liberdade».

Marcello Pera (Lucca, 28 de janeiro de 1943), presidente do Senado italiano na última legislatura, dedicou sua pesquisa acadêmica ao filósofo austríaco Karl Popper, teórico da «sociedade aberta», de quem era amigo pessoal.

«Com uma lógica irrepreensível, você mostra como o liberalismo perde sua base e se destrói se abandona este fundamento», reconhece o bispo de Roma.

O Papa também manifesta sua admiração pela análise que o filósofo faz da liberdade e da multiculturalidade, na qual «mostra a contradição interna deste conceito e, portanto, sua impossibilidade política e cultural».

«É de importância fundamental sua análise sobre o que podem ser a Europa e uma Constituição européia na qual a Europa não se transforme em uma realidade cosmopolita, mas que encontre, a partir de seu fundamento cristão-liberal, sua própria identidade», assinala.

O Santo Padre se detém também na análise do senador sobre os conceitos de diálogo inter-religioso e intercultural.

«Você explica com grande clareza que um diálogo inter-religioso, no sentido estrito da palavra, não é possível, e que é particularmente urgente o diálogo intercultural, que aprofunda nas conseqüências culturais da decisão religiosa de fundo.»

«Ainda que sobre esta última, um verdadeiro diálogo não é possível sem pôr entre parênteses a própria fé, é necessário enfrentar no debate público as consequências culturais das decisões religiosas de fundo», indica.

O Papa considera que as propostas de Pera são necessárias para superar «a crise contemporânea da ética».

«Você mostra que o liberalismo, sem deixar de ser liberalismo, mas sim, para ser fiel a si mesmo, pode referir-se a uma doutrina do bem, em particular à cristã, que lhe é familiar, oferecendo assim verdadeiramente uma contribuição para superar a crise», indica.

Liberalismo anticristão

Em uma entrevista concedida à Rádio Vaticano (28 de novembro de 2008), Pera explica os motivos pelos quais o liberalismo em ocasiões se converteu em anticristão.

«No que se refere à Europa, em particular, se dá uma explicação histórica – indica. Muitos se encontraram com freqüência em conflito com a Igreja Católica, e é um fato amargo da história da Europa que não se dá na história dos Estados Unidos.»

«Alguns estados nacionais – Itália, França… – se constituíram como Estados-nação com uma luta, com uma disputa contra a Igreja Católica», recorda.

«Isso gerou o que é conhecido como o fenômeno do anti-clericalismo, e o anti-clericalismo gerou outro: o que chamo no livro de ‘equação leiga’, ou seja, ‘liberal = não cristão’.»

«Isso é um erro, pois se pode discutir historicamente sobre os méritos e deméritos da Igreja Católica na Europa nos momentos da fundação dos estados nacionais, mas não se pode discutir a importância da mensagem cristã», indica.

Opta-se pelo anticristianismo, o que Pera chama de «a apostasia do cristianismo»: «perdemos as mesmas virtudes, os mesmos fundamentos dessas liberdades e esses direitos sobre os que se fundam nossos estados liberais».