Ode ao escândalo

Foi Heidegger quem disse que a poesia não é propriamente um modo mais elevado da fala cotidiana. Ao contrário, é a fala cotidiana que consiste num poema esquecido e desgastado, que quase não mais ressoa. Talvez, precipitadamente, alguém deduzirá daí uma exprobração à poesia moderna que, no mais das vezes, parece recortes de prosa arranjados em versos irregulares. Antes fosse! – diz o filósofo – Mesmo a prosa, num sentido puro, nunca é prosaica. A prosa é tão poética e, por isso, tão rara quanto a poesia. Em ambas, o fenômeno estético ocorre quando os recursos expressivos fazem ressoar uma realidade que, até então, não atingira explicitamente nossos sentidos ou nossa consciência, surtindo uma comunicação brusca, fulminante. Foi o que se deu comigo no dia 28 de abril, durante aquela greve superestimada, dita geral.

Após duas horas contemplando uma muralha de fogo, que escassos militantes avivavam com pneus, interditando a única rodovia de acesso para o hospital onde pretendia chegar, eu tentei me distrair dizendo poesia. Embora não seja do meu feitio matar o tempo com poemas (infelizmente, faltam-me refinamento e memória), naquela hora, sem livro, rádio ou wifi, deu-me na veneta dizer um verso que se adequasse à ocasião. Comecei então arriscando algo de Dante: – Nel mezzo del cammin di nostra vita… mas esqueci do resto e empaquei nessa reticência. Quis insistir, porém, não sei se por distração ou cansaço, acabei resvalando para Drummond: – No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra… A cada rebote desse ioiô poético eu me perguntava se os versos eram irritantes porque pegajosos, ou pegajosos porque irritantes: – Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas / Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho

Foi então que ocorreu o fenômeno estético descrito por Heidegger. Uma mulher, que há horas buzinava infatigavelmente, desceu do carro gritando: – Minha gente, ali não há mais de trinta pessoas, enquanto nós somos três filas quilométricas de veículos. Vamos furar a porra desse bloqueio!… Prontamente uma grevista avançou empunhando uma bandeira da CUT e cravou-a no chão, rente aos pés da mulher. O gesto ameaçador fez-me lembrar de Gandalf desafiando Balrog: – You shall not pass!… Mas o que ouvi foi: – Fascistas não passarão! Fascistas não passarão!… E logo os demais militantes aderiram em coro: – Fascistas não passarão, etc., etc. A mulher ficou branca de raiva e, ondeando a cabeça que nem uma cobra, gritou num tom mais alto, quase esganiçado: – Fascista é o caralho! Eu quero ir à praia!… E deu um empurrão na grevista.

Eis que o escândalo se fez! Sem nunca terem se visto, sem sequer saberem seus respectivos nomes, as mulheres engalfinharam-se movidas por um sentimento tão súbito quanto vago, que surgira do nada, concentrara-se num obstáculo banal, e acabaria em coisa nenhuma – precisamente como os versos de Drummond. A estrutura do poema era a própria estrutura do conflito. E eu, que ainda o recitava, num murmúrio hipnótico, percebi que sua aparente lenga-lenga, que pouco ou nada dizia, era, por isso mesmo, a ode mais eloquente, mais expressiva para a gratuidade dos escândalos que um obstáculo pode suscitar.

Com efeito, imaginei esses versos sendo ditos por Laio ou Édipo na hora fatal em que, desconhecendo-se, disputaram a precedência da passagem numa estrada. Ou pelo anônimo homem do subsolo quando sofreu a trombada humilhante de um transeunte casual. Ou também por Daniel Hauptmann quando, numa soturna avenida de Curitiba, esbarrou em Satanás. Tal como os personagens de Sófocles, Dostoiévski e Diogo Rosas G., tal como o eu-lírico de Drummond, aquelas duas mulheres não precisaram de discursos ou motivos profundos. Bastou-lhes apenas que no mesmo caminho “tivessem” uma à outra, obstando-se. Um acontecimento escandaloso que, mesmo não tendo chegado ao extremo de um homicídio, de uma mágoa obsedante ou de um pacto demoníaco, tornar-se-ia inesquecível na vida de suas retinas tão fatigadas.