A frustração trágica nas séries americanas

Há algum tempo gosto de definir o dilema trágico da seguinte maneira: você não pode obter aquilo que mais deseja se não deixar de ser quem é. O preço dos objetos desejados é a identidade atual. O maior desejo de Édipo era encontrar o assassino de Laio, mas, se este fosse encontrado, Édipo deixaria de ser o Rei de Tebas. Creonte queria que a lei do Estado fosse a repulsa a toda espécie de inimigo. Por isso, se desistisse da proibição de enterrar Polinices, enfraqueceria sua própria autoridade. Clitemnestra foi ingênua ao pensar que poderia vingar a morte da filha matando o próprio marido e que tudo terminaria por aí…

Esse é o mesmo dilema de séries como Gossip Girl e House. Blair Waldorf e Chuck Bass não podem continuar a ser manipuladores, reis dos próprios mundos, e submeter-se a outro rei, de outro mundo. Houve um episódio em que Chuck declarou isso abertamente. O Dr. House não pode ter um relacionamento razoável com uma mulher de quem ele goste porque para isso precisa abdicar de sua personalidade cáustica — a mesma personalidade que atraiu a mulher, aliás. Esse cabo de guerra pode acontecer interiormente, na alma dos personagens, como falei até agora; mas também pode acontecer exteriormente, como na disputa entre House e Tritter, ou nas disputas permanentes de House com sua equipe, ou nas disputas entre as meninas de Gossip Girl.

O maior problema dessas séries é que seus criadores têm o talento e a intuição necessárias para criar situações legitimamente trágicas, mas parecem estar eivados de idéias românticas e por isso não conseguem ou não podem resolvê-las satisfatoriamente. Isso porque as resoluções satisfatórias seriam a morte ou a transformação do personagem.

Claro que se pode alegar que 1. se o personagem morrer, a série acabará e 2. se o personagem mudar, os espectadores deixarão de ver a série e ela acabará. Também é possível dizer que a solução normalmente encontrada para fazer a série continuar — um mero esvaziamento da situação devido a algum fator externo (e isso vale até para Deadwood) — é totalmente realista, porque em nossas vidas conseguimos arrastar por anos a fio nossos defeitos sem que eles causem problemas obviamente grandiosos. Só quando olhamos para trás é que podemos ver quanto tempo foi perdido; mas agora, nesse momento, como o céu não está caindo, então está tudo bem. Porém, essa desculpa é a de pior qualidade dramática, porque a ação dramática, como diz Aristóteles, tem começo, meio e fim (e mesmo que você seja o mais pós-modernoso dos dramaturgos, essa definição permanece como parâmetro tácito, natural à cognição humana), e ficar vendo grandes conflitos resvalarem no vácuo pode até trazer alívio na famosa vida real, mas na TV isso é deveras frustrante.

Ela voltou

Blair Waldorf e Chuck Bass. A Marquise de Merteuil e o Vicomte de Valmont da TV contemporânea. Não tinha como eles não roubarem Gossip Girl. Quase todos os demais personagens da série só são interessantes na medida em que são tragados pelas intrigas desses dois.

O casal ainda dá uma aula de desejo mimético. O primeiro episódio da terceira temporada foi bem didático: “como lidar com o modelo-obstáculo”. Mas sei que só os girardianos poderão entender isso. O que não impede ninguém de aproveitar uma foto da Leighton Meester de faixa na cabeça.