Sobre novidades de gênero no português

Até onde me lembro, não existe neutro em português. Você pode acrescentar um X no lugar da desinência, outra letra, um emoji de elefante, vá lá; porém, se você trabalha com o idioma, pensa numa escala de séculos, entende que o neutro do latim foi absorvido pelo masculino do português, e sabe que isso não tem nada a ver com língua politicamente correta, porque em latim (ou em grego) não se formava plural unissex tascando um neutro.

Em latim, por exemplo, homem, ser do sexo masculino, não é homo, mas vir; homo é o “humano”. O mesmo vale em grego para anthropos (o humano) e o andros (o homem do sexo masculino).

Ao contrário do outrora famoso cantor Chico César, eu nunca fui mulher, mas entendo perfeitamente que se possa ter uma bronca porque o plural de homens e mulheres é masculino. (Quer dizer, eu acho que teria, se fosse mulher.) Como tradutor, sempre tentei minimizar isso, e sempre foi fácil, porque o português conta com gêneros diferentes para designar os sexos: a criança, a pessoa, o indivíduo – os pronomes referentes vão seguindo os nomes que antecedem.

Por outro lado, principalmente em inglês, está difícil achar um livro contemporâneo que não nos surpreenda com um gênero feminino que designe os dois sexos. Traduzindo, isso é chato, porque o autor pode falar, por exemplo, “the student”, “the student”, “the student”por páginas e páginas, e depois tascar um“she”. Vejam que no caso do inglês nós só ficamos sabendo da opção pelo feminino “sem sexo” depois; em português, essa opção teria de ficar clara desde o começo, com “a estudante”, e o risco de criar, para o leitor, um mal-entendido.

Vejam ainda que eu escrevi a frase anterior de propósito. Se eu dissesse que há um risco de criar para a leitora um mal-entendido, uma leitora poderia pensar que estou menosprezando sua capacidade de leitura.

Daí eu concluo recordando que na maior parte das vezes escrever é uma atividade conservadora. Uma linguagem que fere algumas sensibilidades mas que funciona é preferível a uma linguagem que não fere essas sensibilidades mas que começa a criar confusões. Isso não é exatamente uma opinião minha; é uma decorrência da noção de padrão. Que vantagem existe num padrão além de poder ser usado pelo maior número de pessoas, na maior escala de tempo? A cada vez que tentamos incorporar quaisquer novidades ao idioma, fazemos o passado parecer um pouco mais datado, fazemos os demais falantes ficarem um pouco mais antiquados, ou pouco mais distantes.