O verdadeiro e o verossímil

Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.

Exôdo, 20, 16

Eu já deveria ter escrito isso aqui há anos, muitos anos. Lamento. Antes tarde do que nunca. É uma pequena lição sobre como é fácil tomar como verdadeiro aquilo que parece verossímil.

Não gosto de Al Gore. Nunca gostei. Comecei a me interessar por política americana em 1995, vivendo nos EUA, e já não gostava de Al Gore naquela época. Minha aversão por Al Gore me fazia acreditar em tudo que se falava contra Al Gore. Eu não diria que em 1995 eu era “de direita”, mas acho que só me considerei “de esquerda” durante uns poucos meses de 1993.

Agora, uma pausa para inserir um novo dado. Em 1998, comecei a ler o WorldNetDaily. Era muito interessante por ser muito distinto da grande mídia. Um de meus colunistas favoritos era J.R. Nyquist. Mas não tardou para que eu me cansasse de suas previsões apocalípticas. Se tudo aquilo era verdade, a Terceira Guerra Mundial tinha de começar logo. Logo Nyquist deixou de escrever no WND e eu, assim como alguns amigos que também o liam, achamos que isso se deveu à falta de uma Terceira Guerra Mundial. Afinal, a credibilidade dos analistas aumenta com sua capacidade de previsão. Cansei de esperar a Terceira Guerra Mundial, a revolução comunista etc.

Ainda assim, a idéia de uma integridade maior da mídia alternativa “de direita” contra a integridade da grande mídia me parecia bem clara. Expurgaram um maluco justamente por isso. E, como eu mesmo fui vítima da pouca integridade de um jornalista, num grande jornal carioca, a idéia de que a grande mídia não merecia credibilidade era perfeitamente cristalina. Injustiça, talvez, tomar a parte pelo todo. Mas quando você é maltratado publicamente por um covarde, é difícil não ficar cego de raiva. Ao menos aos 20 anos. Depois o jornalista, como se dizia à época, despontou para o anonimato. E nós, majestaticamente, aqui estamos.

A lição que ficou dizia respeito ao poder de um jornalista de criar uma impressão sobre a pessoa de alguém. Alguém me disse uma vez que São Francisco de Sales teria dito que um dos maiores bens terrenos (acho que depois da saúde) era o bom nome. Por isso até agradeço pela discrição daqueles a quem fiz mal (espero não os ter esquecido e reparar o que devo) e espero devolver essa mesma discrição. Não acusemos; resolvamo-nos.

Pois bem. Era um belo dia do ano 2000, quando eu li uma coluna de Joseph Farah sobre Al Gore. Farah, que se propunha (há tempo demais nem vejo o WND, não sei quão cheia está a bola do homem) o Grande Bastião da Verdade Jornalística, dizia que Gore, em seu livro Earth in the Balance, afirma que talvez a vida de uma árvore – ou, vá lá, três – é pelo menos tão importante quanto a vida de uma pessoa. Farah dizia: “Ele realmente não consegue decidir o que tem mais valor intrínseco – a vida de um ser humano ou a vida de uma árvore”. Depois disso, tomava duas frases do livro que provariam sua tese.

O problema é que Gore na verdade argumenta o seguinte: para talvez curar uma certa doença em uma pessoa, é preciso cortar pelo menos três árvores; considerando a quantidade de doentes e a de árvores, mais o tempo que a árvore demora para crescer, se tratarmos todos os doentes do presente não poderemos tratar nenhum doente no futuro. Por mais que eu continue não gostando de Al Gore, não me parece que apresentar essa questão, ou mesmo tratá-la como um dilema, seja sinal de maluquice, e muito menos sinal de que ele prefere a vida de uma árvore à vida de uma pessoa. Se você não viu o livro, pode ver a citação na Wikipedia.

Mais: concedo que a averiguação de muitos fatos pode ser difícil. Se me dizem que X israelenses ou Y palestinos foram mortos em tais ou quais circunstâncias, eu só tenho a credibilidade da fonte. Como há fontes divergentes, já é razoável dizer que a escolha de uma fonte em detrimento de outra seja determinada por alguma convicção anterior, que aliás pode não ter nada a ver com o assunto do momento. Mas a averiguação de um livro é muito fácil. Basta… Abrir o livro. Trata-se de um esforço bastante pequeno para quem alardeia a si próprio como Grande Bastião da Verdade, a Consciência Viva da Civilização Ocidental etc.

É por isso, enfim, que eu digo: não é porque algo lhe parece verossímil que é verdadeiro. O fato de aquilo ser verossímil pode ser só a medida de sua antipatia, isto é, pode apenas dar uma informação sobre você e não sobre outra pessoa ou assunto. Achar que essa atitude é monopólio da esquerda é coisa de quem jamais examinou a si mesmo.

Mais um divisor

No Brasil, a “elite cultural” acompanha com mais interesse a campanha presidencial americana, e está muito melhor informada sobre ela, do que as campanhas brasileiras. Coloco “elite cultural” entre aspas não para dar-lhe um sentido pejorativo, mas para dar-lhe uma definição peculiar: “elite cultural” é quem 1. sabe inglês o suficiente para ler notícias na internet e 2. tem tempo para isso.

Para nós, brasileiros, a questão do patriotismo se coloca de maneira muito diferente da maneira como se coloca para os americanos, então não acho que seja o caso de descrever esse interesse pela campanha gringa como mero desprezo pela terra varonil, o que é reforçado pelo fato de que até pessoas mais à esquerda, que têm tentado monopolizar o amor pindorâmico e até atribuir a nossa direita blogueira um anti-brasileirismo visceral (no meu caso, só digo que não conheço o Brasil; mas conheço a cidade onde moro, e gosto dela; não está bom? “Ninguém ama aquilo que não conhece.”), parece ser acometida de mais frêmitos por Barack Obama do que por, sei lá, Fernando Gabeira.

É o caso, porém, de descrever este interesse pela campanha gringa como mera decorrência de ter ido à escola e ter uma mínima capacidade de juntar a com b, porque, por mais que haja mentiras lá, boa parte dos políticos ainda se parece com gente que se poderia convidar para a própria casa de classe média, típicamente orgulhosa – e aí proponho até uma característica definidora – de que seus saberes e “gostares” (ok, infinitivo substantivado no plural é provocação) lhes são mais caros que as posses materiais. Ser de classe média é ter a imaginação mas não os meios dos ricos. Não digo isso como um rico que varre os farelos da camisa: meu maior luxo é usar Mac em vez de Windows.

Voltando: os políticos brasileiros são excessivamente grotescos, e não tenho um só amigo que não se refira a eles sempre em tom de (justo) escárnio, para contar a última bizarrice desarticulada que a propaganda eleitoral proporcionou. Os políticos brasileiros definitivamente não estão falando com as pessoas que tiveram alguma educação, e não são elas que estão pedindo votos.

Isso, é claro, levanta a questão da própria educação como fator de desagregação e descolamento imaginário. Não é nem o caso de falar de superioridade ou inferioridade de culturas, sugerindo que quem estudou volta-se para uma cultura superior, mas de produtos dirigidos a certas pessoas. Essa elite cultural brasileira está mais interessada em consumir produtos culturais populares da Inglaterra ou dos EUA porque chegou a este nível apenas com sua educação escolar e aulas de inglês. Eu mesmo vou baixar hoje o primeiro episódio da nova temporada de House, e lembro perfeitamente de que aos 12 anos percebi que todas as novelas eram idênticas e desisti de assisti-las. Algo me diz, na verdade, que tudo isso se deve unicamente àquelas pessoas que, diante daquilo que você tem a propor de melhor, começam a fazer um sermão sobre a incapacidade do público de consumir produtos melhores, dizendo que tudo é difícil. Não temos um discurso político melhor, nem uma televisão melhor, porque os responsáveis por isso querem sempre apostar no pior. E é isso que impressiona aqueles que vão morar nos EUA: o fato de que lá as pessoas tendem a apoiar aquilo que acham bom, não aquilo que presume a idiotice universal.