Contra Coomaraswamy, com amor

Já falei de como A filosofia cristã e oriental da arte foi um dos livros que mais me influenciaram. Ainda que, pouco a pouco, a gente passe a discordar dos livros de que gostamos, o simples fato de continuarmos a discutir com eles atesta sua importância. Importância, é claro, subjetiva; mas nenhum mal há nisso.

Hoje uma das coisas que mais me desagrada no meio “tradicionalista” (aqui no sentido guénoniano, não lefebvrista) é uma certa incapacidade de ver os indivíduos singulares – os únicos que existem. Não venha me chamar de maya, que parto-lhe a cabeça. Em minha alma, posso dizer que houve um embate entre o desejo de sabedoria onipotente e o desejo de aceitar as coisas como elas são. Na verdade, posso dizer que esse embate continua acontecendo. Sempre há um desejo de “ser forte” e aceitar a “dura verdade” da nossa insignificância e ao mesmo tempo aquela still small voice que sugere que acreditar nisso é virar personagem de uma piada demoníaca. Os guénonianos sempre me parecem Tios Vânias que dão a seu ressentimento a aparência elegante de uma doutrina metafísica, uma família Glass sem senso de humor, desenraizados e, como Quincas Borbas do esoterismo, cingindo o nada e nomeando a si mesmos portadores da Verdade Além das Ilusões. Soul settles with tears and sweat…

Mas vamos ao texto que me motivou a escrever isto aqui hoje. Trata-se de um post de Mark Sedgwick, uma resenha de um estudo sobre a visão da arte pelos autores esotéricos associados a Guénon, que termina com uma citação desse estudo a respeito de Coomaraswamy:

Ele, que insistia na impessoalidade dos artesãos, dos sábios e dos filósofos “tradicionais”, que recusava qualquer informação biográfica em nome de uma verdade que está além dos indivíduos; ele, que queria reinterpretar os textos de modo a esconder sua subjetividade e usar tesouros de erudição a fim de esconder seu procedimento hermenêutico, que defendia o universalismo para fugir de todo particularismo religioso e de toda subjetividade confessional, ele não tinha consciência de que essa vontade de desaparecer e essa aspiração ao “supra-individual” obliquamente revelavam, como na obra de Guénon, uma personalidade que criou sua própria imagem do universalismo e fabricou seu próprio espelho. (p. 370)

E tanto haveria a dizer que é difícil começar.

Goodbye Illuminati

Uma excelente entrevista com Massimo Introvigne explicando o peso dos Illuminati, e até mesmo que a pirâmide com olho no dólar não é uma insidiosa influência maçônica.

Lidar com o assunto “sociedades secretas” exige que se chegue a um interessante estado psíquico. De um lado, é fácil ficar contaminado pelo espírito paranóico, achando que o mundo vai acabar amanhã e que a humanidade se compõe de gente ingênua (numa hipótese lisonjeira). De outro, é igualmente fácil assumir a postura de total desprezo e dizer que prestar atenção nessas coisas é… coisa de paranóico.

Como o meu maior interesse tem sido a geração de duplos miméticos, não posso deixar de observar que os dois extremos afirmam sua identidade pela negação do outro. O paranóico contra os “ingênuos”, o realista contra os “paranóicos”. A verdade a respeito da questão, assim como todo objeto em uma disputa mimética, tende à irrelevância.

Que é a verdade aí? Bem, conspirações há, mas aparentemente várias, e são escassos os meios de averiguar o sucesso delas. Não se pode repreender quem prefira gastar sua curta vida em investigações com maior chance de sucesso.

Também é verdade que, se o paranóico peca por não perceber que sua própria vida, assim como a das pessoas que ele despreza, é guiada por uma série de automatismos (como a de todo mundo), o “realista” costuma pecar pela mesquinharia, incapaz de perceber que existem pessoas que agem motivadas por princípios e não apenas por um desejo de conforto. O paranóico se ressente de que todos não estudem as mesmas coisas que ele. O “realista” se ressente de que todos não fiquem engordando no sofá como ele.