Ainda o monopólio da educação

Diogo Costa, falando da educação, sintetizou grande parte do problema:

O problema é que socialistas não se vêem como educadores, mas como agentes de transformação social.

(…)

O material de trabalho de um engenheiro social precisa ser passível de moldagem. Se, para um professor honesto, as críticas funcionam como um mecanismo de verificação de seus próprios argumentos e crenças, podendo invalidá-los ou confirmá-los, para o agente transformador, os críticos são inimigos do futuro socialista. Não se deve examinar o que dizem, mas como combatê-los. O objeto da educação deixa de ser a verdade a ser comunicada, e passa a ser a ideologia a ser praticada.

Já tenho as minhas opiniões sobre o assunto (que são provavelmente as mesmas do Diogo), e me interesso por algo um pouco além, que é a politização total de tudo. Um socialista poderia dizer que todo o ensino é politizado, que tudo não passa de reproduções das estruturas burguesas de dominação, que você está o tempo todo contra o establishment ou a favor dele. Se você aceitar essa premissa, então leve-a até o fim, e afirme que toda investigação é politizada e portanto todos os resultados. Aceite que essa premissa nega a existência não exatamente da verdade em si, mas da possibilidade de uma verdade descoberta ou afirmada sem interesses políticos. Enfim, escolha seu lado.

É muito difícil – eu que o diga – suportar os ataques da esquerda, os professores socialistas, os jornalistas iletrados e esnobes e toda a camarilha que parasita o prestígio da atividade intelectual sem simplesmente inverter a polaridade e imitar suas atitudes. Não é certo olhar os alunos como “material passível de moldagem” da mesma maneira que faz um socialista. Você pode maltratar as pessoas usando a verdade ou a mentira, o resultado será o mesmo: no mínimo, elas vão desprezar você.

Por isso é importante reafirmar que a razão para rejeitarmos o monopólio do Ministério da Educação não é estratégica. Não devemos passar a gostar do Ministério se ele subitamente ficar do nosso lado. O monopólio estatal da educação é intrinsecamente mau, mesmo que seja eficiente. O mal que há nele é o mal dos monopólios, a ausência de alternativas – e nem dá para aplicar o argumento do “monopólio natural” nesse caso.

Diante da despadronização curricular, muitas pessoas podem crer que teríamos o caos. Cada um estudando o que quiser, por conta própria. Não se trata disso. As escolas podem continuar a existir, as instituições de qualquer grau podem ter os critérios de admissão que bem entenderem, inclusive o critério de ter completado um curso escolar X ou Y. Mas o sistema inteiro não pode constituir uma gigantesca barreira de entrada aos diferentes. Exclusão é isso aí.

Naturalmente, junto a isso, precisamos derrubar as barreiras de entrada ao exercício das profissões.

De novo, para que estudar?

Leio o texto de Joel Pinheiro no blog da Dicta & Contradicta (aliás, em segundo lugar de vendas de não-ficção na Livraria Cultura!) sobre os problemas da universidade, que vem logo depois de um post que indica um texto de William Deresiewicz, ex-professor de Yale, criticando a educação das universidades da Ivy League.

Mas o que me chama a atenção é o seguinte: há anos eu teria lido algo como “a busca desinteressada pela verdade” e essas palavras teriam recebido meu total apoio. Eu logo reclamaria da instrumentalização do conhecimento, blá, blá, blá. Hoje não consigo mais pensar assim… baseado em minha própria experiência. E, se você pensar bem, a própria expressão “busca desinteressada” parece um oxímoro. Se não há interesse, por que há busca?

É justamente aí que paro. Eu tenho interesse; aliás, interesses. O interesse é uma motivação. Essa motivação preexistiu a todas as minhas “buscas pela verdade”. Sempre que estudo, estudo atrás de uma resposta específica, e percebo, ao mesmo tempo, que só consigo encontrar a resposta de que preciso quando abandono alguma idéia idiota da qual gosto bastante.

Gosto da idéia de que uma universidade seria composta de uma gigantesca biblioteca, cursos livres, tutores que já saibam quais são as idéias que costumam tapar esta ou aquela verdade, e a obrigação – uma contrapartida – de produzir algum texto explicando o que você queria saber e onde você chegou. A idéia de que a universidade deveria ser uma máquina de produção de elites (em qualquer sentido) acaba pressupondo que a busca intelectual vai ter que acontecer em outro lugar, ou apesar da máquina.

Se a educação formal é baseada em responder a perguntas que não foram feitas (na nunca exaurida frase de Neil Postman), então ela está me atrapalhando, porque eu estou fazendo as minhas perguntas e quero as minhas respostas. Essas perguntas, aliás, têm origens diversas. Não vêm só de coisas que eu penso, mas também de coisas que me acontece, ou de desejos que surgem. Para dizer a verdade, não apenas eu não sei de onde virão meus próximos interesses, como sei que posso passar meses sem ter interesse nenhum. Se você não quer saber nada, para que estudar?

Disso não decorre uma apologia da solidão. Mas depois eu explico o porquê.

Ciência x literatura

Discordo deste post sobre estudos literários do começo ao fim. Discordo do que diz o autor e discordo das conclusões tiradas. Discordo tanto, e tanto, que mesmo sem tempo para desenvolver a resposta que gostaria, faço alguns comentários.

1. A crítica literária já nasceu com pretensões científicas e o próprio Aristóteles tentou desenvolver uma ciência literária na Poética, observando elementos comuns entre epopéias, tragédias e umas e outras. Quer dizer, nem ele achava que as obras literárias fossem indivíduos únicos em seu gênero e espécie, “singulares e absolutamente irredutíveis”. Ainda que se alegue que algumas das semelhanças apontadas por ele são superficiais demais para sensibilidades modernas, como, por exemplo, certos poemas serem escritos no mesmo metro, o fato é que elas funcionam; é o mesmo metro idêntico que aparece em obras diferentes. No entanto, o modelo estrutural da tragédia, com aner, hybris, moira, um coro etc, está longe de ser superficial e define um gênero do qual restam dezenas de indivíduos, e não apenas um.

2. A analogia com a maçã é inadequada, porque toda vez que você ler ou encenar Édipo Rei o protagonista vai descobrir que matou o pai e casou com a mãe. A obra de arte literária é muito mais simples do que qualquer realidade. Tudo nela sempre acontece do mesmo modo, do mesmo jeito. É mais fácil Édipo continuar descobrindo a sua própria identidade a cada nova leitura da peça do que duas maçãs idênticas existirem e caírem identicamente.

3. A idéia de que cada obra é gênero e espécie de si mesma é preconceito romântico levado ao paroxismo. As obras mais diferentes podem estar escritas no mesmo idioma, em verso ou em prosa, ter personagens ou não, ser (predominantemente) narrativas ou expositivas, compartilhar modelos – como os Lusíadas tem a Odisséia como modelo, ou Atlantis, de Auden, parodia Ítaca, de Kavafys – e estruturas… Como já dito em 1., há muitos universais na literatura.

4. Muitos departamentos de literatura já não fazem outra coisa além de tentar ser científicos, com direito a hipótese, teste, modelo… Veja aí o formalismo russo, o estruturalismo e, por que não, o modelo girardiano do desejo triangular. Muitos papers literários respeitados (e às vezes muito bons – minha atividade favorita tem sido ler e reler alguns papers acadêmicos de Girard) nada mais são do que a apresentação dos resultados da aplicação de um ou mais modelos.

5. É importante fazer dois comentários sobre a tentativa de fazer ciência da literatura e o ressentimento que isso pode gerar. Primeiro, certos modelos são muito ruins, normalmente por partir de postulados absurdos. Segundo, é inevitável que numa análise segundo modelos eles tenham uma certa precedência sobre as obras, e, se elas já são simplificadas em relação à realidade (e sua simplificação consiste sobretudo em poupar-nos da banalidade), os modelos são mais simplificados ainda. Um livro de 350 páginas como Mensonge romantique et verité romanesque pretende explicar milhares e milhares de páginas de Dostoievski, Cervantes, Proust, Flaubert e Stendhal – só para ficar nos principais autores analisados. E, dispensando as aplicações, o simples modelo do desejo triangular ou mimético ali exposto pode ser perfeitamente resumido em uma ou duas páginas. Por isso, ao ler obras com um modelo explicativo em mente, você está sobretudo lendo o modelo, testando o modelo, confirmando o modelo, desmentindo o modelo, repetindo o modelo, exatamente como a ciência parte das individualidades para chegar às generalidades. Só que também é inevitável que a atividade científica seja diferente da atividade de fruição literária.

6. Porém, não é nem tanto a existência de modelos ruins, nem a natural diferença entre atividade científica e fruição estética e imaginativa que leva a uma crítica literária estéril e desinteressante, mas… a própria crença romântica de que cada obra é única e irredutível. Acreditando que os artistas são seres mais únicos do que os outros, os críticos invejosos também desejam ser únicos e lançar olhares únicos sobre aquelas obras únicas e escrever livros únicos, para também serem reconhecidos como pessoas únicas, absolutamente diferenciadas da “grande maioria”. Tanto a criação artística quanto a atividade crítica se tornaram meios de legitimação do ego (de pessoas que, aliás, precisam dela, pois costumam ser bem feias). Com essa centrifugação, ou atomização, é óbvio que o terreno comum vai diminuindo, e as circunstâncias vão se tornando cada vez mais particulares, e com elas as oportunidades de fricção e interesse. Se antes a melhor coisa que a literatura poderia fazer era dizer algo óbvio que ninguém estava dizendo, e dizê-lo do melhor modo possível, e a função da crítica era mostrar porque e como aquilo era novo ou adequado, agora tanto a literatura quanto a crítica querem simplesmente falar o que ainda não foi falado, mesmo que para isso seja preciso matar (nessa ordem) a lógica, a semântica e a sintaxe.

Minha solução pessoal para a questão passa por T.S. Eliot, Cyril Connolly e René Girard. Acredito que, assim como a literatura precisa se renovar, também a crítica precisa se renovar. Cada geração precisa reavaliar o cânon e até refazê-lo (Eliot). Mas essa renovação hoje caminha na direção de uma individualidade cada vez mais abscôndita e por isso mesmo irrelevante (Girard). A crítica precisa reconhecer suas tensões naturais. De um lado, precisa ser ciência ou buscar ser ciência (Girard), e de outro, os textos da crítica precisam ser bem escritos (Connolly). Isto equivale a dizer que a crítica, de certo modo, também é literatura. Por uma questão existencial, ela depende da retórica. Por uma questão pedagógica, ela necessita da beleza.

O rentismo na educação, ou: o roubo estrutural

Leio no UOL uma tradução (link para assinantes) de uma matéria do International Herald Tribune sobre a estagnação da educação superior italiana e imediatamente me lembro de Jeremy Clarkson dizendo que “a Itália é parte do terceiro mundo”.

O terceiro-mundismo italiano é compartilhado, é claro, pela senil Europa e pelo claudicante Brasil. E é hora de dar um nome tão anglicizado quanto preciso à causa desse atraso: rentismo, de rent-seeking, a busca de privilégios às custas dos outros.

A matéria do IHT diz que o problema da educação italiana é que há um grupo de professores velhinhos que controla tudo. Errado. O problema da educação italiana é que o governo italiano está sentado em cima dela. Se não fossem esses velhinhos, seriam outros – talvez até piores.

Quando eu era jovem e ingênuo acreditava que o governo queria sentar sobre a educação por causa de um desejo metafísico e prometéico de entregar às gerações presentes e futuras um mundo perfeitamente planejado, e ainda hoje acredito que meia dúzia de pessoas perversas e desconhecidas realmente tenham esse propósito satânico.

Hoje que não sou mais tão jovem e já passei anos demais olhando o Leviatã de perto acredito que esses professores são apenas um bando de rentistas em pequena escala. Normalmente o termo está associado àqueles lindos negócios com o governo em que são garantidos lucros. Pois a diferença de um empresário ou financista rentista para um burocrata da educação é apenas de grau, e não de substância. O burocrata da educação se aproveita do sentimento de insegurança do povo para prometer um sistema perfeito e cria regras para perpetuar seu controle. O sistema perfeito nunca funciona mas seu salário artificialmente definido é sempre pago em dia. A mensagem é: não trabalhe, não inove, crie um grupo de pressão e garanta seu quinhão dos impostos que a população ativa paga. E, neste caso específico, ainda garanta o prestígio de educador. Ah, vão lamber sabão, seus rentistas salafrários.

Diz a matéria:

Uma conseqüência do sistema aqui é o constante êxodo dos melhores estudantes para o exterior.

Rastrear os universitários graduados que se mudam para o exterior não é exatamente uma ciência exata, mas números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que quase 50 mil pessoas com formação superior trocaram a Itália por outros países da OCDE nos últimos dez anos.

Sucessivos governos italianos implantaram vários programas para conter a fuga de talentos, mas as propostas apresentadas não ofereciam segurança a longo prazo e no final fracassaram.

Não é que não ocorra a nenhum burocrata a idéia sumamente óbvia de simplesmente abandonar a educação – nem que seja só a educação superior. Mas é que há muitos cargos públicos relacionados a isso e não existe a menor chance de os burocratas abandonarem sua fonte de dinheiro e prestígio.

Continua a matéria:

O centro do problema, concordam os críticos, é que no mundo acadêmico, mérito e excelência ficam em segundo plano diante da promoção dos interesses da base de poder de alguém.

O que, obviamente, acontece em todos os setores estatais. Mesmo depois do concurso, para subir é preciso agradar. Os críticos sem nome da matéria parecem supor que o sistema é bom e as pessoas é que são más. É por isso que eu sempre digo: vamos fazer um Estado imenso e planejador quando Jesus onisciente for o presidente, São Miguel Arcanjo for secretário de segurança, Salomão for o ministro da justiça e São Francisco de Assis administrar o Bolsa-Família.

Se as pessoas são más, o sistema tem apenas de minimizar a maldade, e não dar-lhe amplas oportunidades. Vamos fazer um sistema em que meia dúzia de pessoas possa controlar cargos e privilégios pagos com o dinheiro alheio? Ou vamos fazer algo em que cada um paga por suas próprias escolhas?

Onde há “redistribuição” compulsória, há corrupção. Não porque uma coisa leve à outra, mas porque as duas coisas são a mesma. “Redistribuição” é corrupção porque é roubo praticado com retórica socialmente aceita. Não é possível que os frutos sejam bons, exceto em casos acidentais e excepcionais, já que é também metafisicamente impossível que tudo vá mal o tempo todo. Mas também não é possível não perceber que um sistema corrupto, em que uns têm o “direito” de decidir como usar os recursos dos outros – ou seja, têm o “direito” de roubar – não vá gerar uma casta que deseja manter esse privilégio e, dispondo da retórica da lei e da ordem, sufocar qualquer um que a ameace.