A opinião de Shakespeare sobre o filme da Bruna Surfistinha

Pois é, ontem vi o filme da Bruna Surfistinha. Valor cinematográfico? Os cineastas brasileiros estão conseguindo adaptar o blockbuster americano ao Brasil, o que pode, ainda que com certo atraso, ajudar a viabilizar a famosa indústria nacional. Valor antropológico? Muy grande, sobretudo porque tudo aquilo que se poderia falar contra o blockbuster se aplica a esse filme. Vamos lá.

O filme da Bruna Surfistinha me lembrou da minissérie Alice, da HBO. Vi uns capítulos e parei, porque simplesmente não conseguia me interessar. Mas as duas obras podem ser resumidas assim: servem de duplo angélico da mulher que se considera “moderna” e que me faz pensar em Herbert Marcuse. O negócio é mostrar mulheres que estão além de supostos moralismos e que continuam sendo maravilhosas, mesmo que façam coisas que não tolerariam que fizessem com elas nem por um mísero segundo.

Em Alice, a protagonista epônima (essa palavra sempre dá a impressão de estar falando de boca cheia) sai de Palmas, onde deixou um noivo que espera a sua volta rápida, chega a São Paulo para cuidar do inventário do pai e, se não me engano, em 24 horas já está na cama com um desconhecido. Creio que logo depois ela também conhece biblicamente outro homem. Fica grávida. Seu namorado, desesperado com a namorada que não volta, nem atende ao telefone, vai de Palmas a São Paulo. Descobrindo a gravidez, protagoniza a mais abjeta cena (pelo conteúdo, não pelo valor artístico, digamos) da TV brasileira, oferecendo-se para cuidar do filho como se fosse dele.

Agora, antecipando-me à leitora, será que estou observando isso porque sou um torpe moralista preconceituoso patriarcal falocêntrico? Não, não. Eu me interesso muito (foi a razão de ter começado um blog) por aquilo que em inglês chamam de double standard, o uso de dois pesos e duas medidas. Eu só queria que a leitora examinasse a mesma narrativa trocando o sexo dos personagens. Homem larga a namorada em cidade do interior, dorme com outra em São Paulo logo no primeiro dia, com mais outra logo depois, engravida uma, decide ignorar a mulher que largou nos cafundós, e ainda a dispensa quando ela aparece para dizer que está disposta a perdoar tudo. Preciso falar mais?

O filme da Bruna Surfistinha tem a mesma característica. Ou os homens são toscos porque são grosseiros, rudes, violentos, orgulhosos, ou eles são toscos porque são iguais ao namorado da Alice, sofrendo de bananice tremens.

Entendo que existe um mercado e que é isso que as mulheres querem ver. Que as pessoas buscam obras de arte e discursos para se sentirem legitimadas e confirmadas; afinal, você não lê todo dia o jornal que detesta, não é mesmo? Nem eu. Mas não creio que deva deixar de observar que todas essas obras perpetuam mentiras existenciais. As pessoas não aprendem com a experiência, elas aprendem com as narrativas que lhes são apresentadas. A mulher pode ver no cinema uma protagonista (e devo acrescentar que estou falando do filme, que meu conhecimento da Bruna Surfistinha real tende a zero) que apresenta sua carreira na prostituição como uma jornada de autoconhecimento, mas ela deve estar ciente de que os homens com quem ela gostaria de ficar podem até partilhar dessa visão generosa, ainda que não a ponto de querer casar com ela. Só que é isso que vejo cada vez mais, sobretudo em narrativas escritas por mulheres: a história de uma autolegitimação ilimitada e inverossímil. Junk food para a alma, que também precisa fazer sua academia.

Lembrando os conselhos amorosos da Rosalind disfarçada de Ganymede em As You Like It, as pessoas podem acabar achando que valem muito mais do que valem e perder a oportunidade de fazer um bom negócio. E creia: enquanto narrador, Shakespeare tem mais a ensinar do que os roteiristas de blockbusters. A própria peça tem esse título, Do jeito que vocês gostam, para gozar das inclinações do público, que deveria aprender com as lições dadas por Rosalind ao pastorzinho Sylvius, que está servindo de namorado da Alice à pastora Phoebe:

You are a thousand times a properer man
Than she a woman: ‘tis such fools as you
That makes the world full of ill-favour’d children:
‘Tis not her glass, but you, that flatters her;
And out of you she sees herself more proper
Than any of her lineaments can show her.
But, mistress, know yourself: down on your knees,
And thank heaven, fasting, for a good man’s love:
For I must tell you friendly in your ear,
Sell when you can: you are not for all markets:
Cry the man mercy; love him; take his offer:
Foul is most foul, being foul to be a scoffer.
So take her to thee, shepherd: fare you well.

A cena toda, imperdível e sem qualquer espécie de legenda, está no final do Ato III, começando após os três minutos deste vídeo, que é tirado da maravilhosa versão de Kenneth Brannagh:

Limites da fotografia de moda

Subitamente percebi que a freqüência de ambientes feios, sujos e destruídos em fotos de moda pode ser facilmente vista como mais uma projeção do que chamo de “complexo de Jesus Cristo” e como maneira de enfatizar o duplo angélico, isto é, tanto a idéia de que o sujeito individual é um puro e inocente cercado de sujeira por todos os lados, quando a idéia de que ele afeta sem ser afetado. Afinal, é a modelo linda no ambiente sujo que confere prestígio a ele, que só serve mesmo para fazer contraste. A modelo afeta o ambiente, sem ser afetado por ele. As diferenças são realçadas e o sujeito nunca questiona a si mesmo, porque está ocupado demais em questionar o mundo.

Seria exagerado, porém, sugerir que a fotografia de moda tenha alguma culpa especial ou maior do que as demais artes em, sem qualquer esquerdismo, que vocês me conhecem, vender mentiras para o famoso grande público. Até porque quase sempre a fotografia de moda está a serviço do propósito de vender roupas, e é muito melhor que as pessoas sejam inspiradas pela beleza na hora de escolher as próprias roupas do que o contrário. É quase que a finalidade própria da fotografia de moda oferecer duplos angélicos no sentido de “a melhor versão daquilo que se pode ser”. Estou apenas dizendo que a freqüência do uso de fundos feios para realçar modelos bonitas parece um sintoma da difusão do sentimento paranóico; todos, afinal, acham que são a reserva moral desse mundo vil.

Curioso é que essa bondade nunca se apresente de forma ativa. Por exemplo, nunca vi uma campanha ou um editorial em que as pessoas lindas e bem-vestidas estivessem realizando atos caridosos, como dar esmolas, servir comida aos pobres, ou mesmo dando as próprias roupas. Seria bom que essa campanha ou editorial trouxesse a bondade verdadeira, não a mera adesão ao cânone politicamente correto do dia, isto é, que mostrasse o amor ao próximo, não aquela pose de quem acha que está “contribuindo para salvar o planeta” — ou seja, de quem se acha mais um Jesus Cristo, um salvador do mundo. Agora, talvez essas fotos de moda não existam porque elas não venderiam roupas, e eu já passei da idade de ficar lamentando esse tipo de coisa.

Por outro lado, não sei se seria possível que uma campanha ou um editorial de moda questionasse diretamente a individualidade e a autonomia do desejo. É muito engraçado que trabalhos fotográficos caríssimos só sejam possíveis porque existe uma indústria da moda, que é a mesma coisa que a massificação. Mesmo que as peças nos editoriais e campanhas de maior prestígio não sejam para todos, a idéia (na verdade por trás de toda propaganda) de vender individualidade e exclusividade para as massas é engraçadíssima, sobretudo porque funciona.

É claro que ter determinados propósitos não impede a fotografia de moda de ser realmente bonita, assim como é claro que existe uma arte verdadeira ali. A qual, como qualquer arte, tem suas limitações. Se a moda é o oferecimento de modelos, talvez só mudando de ramo se possa explorar melhor certas nuances do desejo e das interações humanas. Veja-se por exemplo algumas das obras da artista Marina Weffort, obras que vêm diretamente questionar a individualidade: nelas, as figuras mantêm sua individualidade, ainda que se toquem, se contaminem, questionando suas próprias autonomias. As imagens tendem a um centro que não está exatamente em nenhuma figura específica, mas está nelas todas. Esse centro, parece-me, é o desejo. Na fotografia de moda, ele já se cristaliza como modelos a ser admirados e imitados; nas artes plásticas, pode aparecer numa representação mais direta.

Aline 0 x 1 Transformers

Maria Flor, defendo. Talvez ela segure a série da Globo. Meu problema com Aline é outro, e muito simples. Até as pipocas frias desprezam os idiotas que rejeitam filmes como Transformers e Indiana Jones “porque têm muita mentira”. Mas as pipocas frias e pisadas do corredor de saída também desprezam os idiotas que não percebem que um monte de filmes realistas se baseiam em uma mentira existencial fundamental (como Juno, que é duplo angélico de gente que conhece bandas que surgiram há menos de três anos; mas, desse filme, esse Sex and the City púbere e mal vestido, falarei um dia).

Ok. Eu falava de TV, não de cinema. É que a série Aline tem pelo menos uma mentira existencial profunda, gritante, espalhafatosa. Meninas como Aline, essa Angelina Jolie da Liberdade, jamais se sentiriam atraídas por aqueles patetas que são seus “namorados”. Não sentiriam atração nem por um, nem por dois; e talvez nem mesmo meninas mais parecidas com um Cheddar McMelt chegassem a sentir atração por aqueles dois emasculados McChickens. Não acontece. Nunca aconteceu. Jamais. Eu garanto. Aqueles dois são causa de lesbianismo; não se pode culpar a mulher por querer virilidade, nem por encontrar mais virilidade numa amiga do que em dois boçais subjugados.

Isso tudo é patente e óbvio. A grande pergunta que se estende sobre nossas cabeças é outra. Se a TV aberta brasileira é sempre duplo angélico da pobreza cognitiva (a TV aberta de outros países é duplo angélico da riqueza cognitiva), quem são essas pessoas que gostam de Aline? Mesmo para uma mulher se valorizar por dobrar um homem, ele não pode ser um pateta. Vejam novamente a Angelina Jolie e o Brad Pitt. Foi o Brad Pitt! Não foi um sujeito cujo apogeu de virilidade foi usar uma camisa rosa, ou dividir uma namorada. Com outro cara. Sob o mesmo teto. Achando bom.

Não se trata, senhores, de moralismo.

Até Transformers é mais honesto com o espectador.

Memórias do subsolo

Memórias do subsolo

Um dos livros que melhor ilustram as questões que apresentei nos textos anteriores é Memórias do subsolo, de Dostoievski. Agora, é importante ter em mente o seguinte: Dostoievski apresenta o esplendor da mesquinharia de seu narrador como recurso poético, porque sem ele, curiosamente, não conseguiríamos ler o livro. Qualquer pessoa que se depare com “Sou um homem doente… Um homem mau” pensa logo: “esse não sou eu”. Por isso vemos o narrador-protagonista de Memórias do subsolo como um outro, e muitos críticos ainda falam da densidade filosófica da obra. Cuidado. Isso tudo são cortinas de fumaça usadas para tornar palatável a verdade impalatável: numa certa medida, nós, exceto os santos, somos o personagem de Memórias do subsolo.

Quando eu falo em “certa medida”, não estou me referindo a algo incerto. A medida certa é a medida em que pretendemos afirmar nossa autonomia a qualquer custo e encontrar uma espécie de autofundamento do eu, como se pudéssemos criar a nós mesmos, dar a nós mesmos a nossa identidade, estimar a nós mesmos como se não houvesse nada em torno — e como seria possível estimar o valor de alguma coisa sem compará-la a outra? A insistência mesma em ser “especial” é apenas uma maneira elegante de dizer que alguém (você mesmo, normalmente) é melhor do que os outros. E então, quando as pessoas se deparam com alguém cuja vaidade é ainda maior, mais estudada, mais eficaz, e são afetados por alguém que elas não conseguem afetar, dizem: ele é vaidoso, ele é arrogante, ele se acha melhor do que todo mundo etc.

Veja no trecho abaixo quantas estratégias o narrador e o autor usam para diferenciar-se e criar uma dissonância cognitiva*. Você quer ouvir o relato de um homem doente e mau? Não. Mas como se trata de um livro publicado, o prestígio faz com que você siga adiante. Depois, o narrador se diferencia dos médicos; ele simplesmente os recusa, mas também mostra que está plantado na realidade, e que sua vontade de continuar doente é inflexível, isto é, não é afetada por ninguém, nem pelos médicos.

Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a “pregar peças” nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.

(p. 15)

No trecho abaixo, o narrador discute com o utilitarismo inglês, e a idéia econômica de que as pessoas querem maximizar sua satisfação (ou, como dizem os economistas, a utilidade marginal). Querem as pessoas ser felizes? Não: elas querem é mostrar-se independentes. Querem sentir que dão o fundamento à própria vida.

Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que dos mais absurdos, nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura — tudo isso constitui aquela vantagem das vantagens que deixei de citar, que não se enquadra em nenhuma classificação, e devido à qual todos os sistemas e teorias se desmancham continuamente, com todos os diabos! E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa? O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar. Bem, o diabo sabe o que é essa vontade…

(p. 39)

Como agora só gostaria de estimular o leitor aqui do site a ler o pequenino romance de Dostoievski, e voltar aos meus inúmeros afazeres, deixo apenas mais uma nota, porque é muito importante. Nessas divagações todas a respeito de auto-imagem, auto-estima à luz da teoria mimética de René Girard, em nenhum momento eu (nem Girard) pretendo sugerir que as coisas tenham de ser necessariamente assim. De fato, eu não acho possível, nem metafisicamente, encontrar um autofundamento para o eu, mas isso não quer dizer que a infelicidade é obrigatória. Ela é obrigatória apenas para quem insistir até o fim da vida na vã tentativa de fingir que não está se comparando a ninguém, que só olha para si mesmo, e que nunca fez nada de tão grave assim. Enquanto você achar que pode sim atirar a primeira (ou a segunda, ou a centésima segunda) pedra, e que, na história da Paixão de Cristo, você está mais perto do crucificado do que do crucificador, realmente a infelicidade é obrigatória. Mas você pode renunciar a isso tudo a qualquer momento. Pode admitir que compete quando acha que não compete, pode parar de pensar que só os outros são violentos, pode parar de desejar a afirmação da própria independência de tudo e de todos, e pode, por fim, tirar você mesmo do centro das suas atenções. Não faz muito tempo que dedicar-se aos outros era considerada uma definição bastante incontroversa de amor. Se você prefere acreditar em Hollywood, bem vindo ao subsolo.

*Provavelmente estou usando o termo de modo mui lato…

Auto-estima, auto-imagem, duplo angélico

Todo o que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; e todo o que a perder, salvá-la-á. (Lucas, 17, 33)

Creio que ainda preciso explicar mais meu pensamento a respeito da questão da auto-estima x hetero-estima. O problema aqui é que estou usando diversos termos num sentido peculiar, às vezes peculiar somente ao meu próprio pensamento. Vamos lá, pois.

Você quer ser único. Encontrar o próprio fundamento do eu. E nem estamos falando de um fundamento do eu cognitivo, que, ainda que seja individual, também é “genérico”. Quer dizer, cada um tem o seu intelecto, mas esse intelecto é igual para todo mundo. As pessoas todas têm a mesma inteligência. Não vamos confundir isso com aptidões; claro que Aristóteles e Pelé têm “inteligências” diferentes, mas, sem aspas, têm a mesma inteligência. São animais racionais. Por isso, retomando, você quer encontrar algo muito particular em si, talvez o famoso “eu sou eu e minha circunstância” de Ortega.

Você também quer encontrar a particularidade de tudo. Ao ler um livro, quer ver um conflito de pessoas realmente opostas. Quer acreditar que você e seus inimigos (ou as pessoas que você despreza, aquelas de quem você está muito acima, e que nunca te afetam, lembra?) são as pessoas mais diferentes possível. Faça um exercício. Observe outras pessoas. Veja como elas falam mal de outras, atribuindo-lhes intenções e explicando os atos delas sem a menor cerimônia. Depois, observe como as mesmas pessoas, ao falar de si próprias, justificam-se, enxergam em si nuances sutis, dizem que só fizeram isso ou aquilo por engano ou má influência. Depois ainda, observe como você mesmo faz isso, o tempo todo. O que as pessoas mais fazem é produzir longas e intermináveis explicações a respeito da própria inocência, justificando-se sem parar.

Isso é o que leva à identificação com Cristo. Nada mais comum do que isso: uma pessoa imaginar-se a vítima inocente de linchadores indiferenciados, o grande e bom herói esmagado pelas engrenagens do sistema, do mau gosto alheio, do Brasil, dos EUA, do ocidente decadente, do kali-yuga, do inimigo impessoal à escolha do freguês.

Isso também leva à formação do duplo angélico. Duplo angélico é um termo que René Girard criou para designar a versão perfeita de você mesmo que você gostaria de projetar. Uma das primeiras características do duplo angélico é que ele é um modelo, isto é, ele afeta sem ser afetado. Ele não recebe prestígio de ninguém, ele apenas confere prestígio. O duplo angélico não é um objeto. Veja a diferença entre a fotografia de moda para mulheres e a fotografia de mulheres para homens. Na fotografia de moda, as mulheres são modelos: estão representando um mundo perfeito e estão lá para ser admiradas, afetando quem as vê sem ser afetadas. No mundo da fotografia de moda, até a dor é mais pungente, mas sempre pode ser redimida pela beleza do quadro. Enquanto isso, quem vê as fotos de moda está na banalidade suprema do seu lar, ou de um consultório, ou até mesmo de um salão — nos bastidores da beleza, por assim dizer. Agora, nas fotografias de mulheres para homens, as mulheres aparecem como objetos. Não estão lá para ser admiradas, mas para ser usadas, seja via onanismo, seja via o sonho de possuí-las, o que é a mesma coisa. Quando uma mulher que se considera chique (e todas se consideram) demonstra ressentir-se de outra, normalmente é porque a outra está se apresentando como objeto. Quando essa mulher chique vê outra que ela considera um modelo melhor, ela sente inveja. E, é claro, jamais admite isso. Porque só as pessoas vulgares e ridículas, aquelas que são afetadas pelos outros, sentem inveja. O fato de todos — e isso vale para homens também — quererem ser modelos leva a uma competição universal de indiferença.

A quase totalidade das obras artísticas, de novelas da Globo a poemas ininteligíveis, podem ser explicados como projeção de um duplo angélico. Uma novela da Globo traz duplos angélicos para pessoas de pobreza cognitiva (pobreza causada por preguiça mental, sei lá — isso é irrelevante agora). Um espectador contumaz de novelas concebe a versão perfeita de si mesmo como alguém rico, de vida fácil, que freqüenta os lugares da moda, enfrenta suas dificuldades com altivez, cercado dos melhores amigos que existem, e termina bem no final. A função do vilão é apenas tentar atrapalhar a vida das pessoas perfeitas e ser esmagado, reforçando a identidade do duplo angélico.

House

Uma pessoa cognitivamente mais sofisticada prefere uma série americana como House. O Dr. House é um duplo angélico de quem se acha inteligente. Não só ele resolve todos os casos, como tem status especial diante dos outros personagens e, enquanto os outros sempre acham que podem manipulá-lo, ele é que os manipula — ele é que afeta sem ser afetado, como já discuti no texto “O transgressor eficiente”. Dr. House nunca muda. É verdade que o criador da série, David Shore, disse que a diferença entre o protagonista de uma série de TV e o de um filme é que o primeiro nunca muda, mas o segundo muda. Pode ser um princípio de trabalho, mas isso não invalida o que estou dizendo, porque estou tentando explicar apenas porque o público gosta de House.

Pessoas que se acham ainda mais sofisticadas gostam de séries ou romances ou poemas etc. em que não haja um modelo com o qual identificar-se, porque elas se acham tão sofisticadas que não admiram ninguém — sabem que o papel de modelos cabe somente a elas. Uma série como The Wire depende de o espectador colocar-se por cima de todos os personagens para apreciá-la. O mesmo vale para Deadwood. Mesmo o trabalho excelente dos atores faz com que você goste dos personagens como quem gosta de um bicho de estimação.

(A propósito: eu gosto, e muito, de House, The Wire e Deadwood.)

Quem se acha sofisticadíssimo prefere a arte ininteligível. Confesso que já matutei muito a respeito da existência da arte ininteligível. Por que as pessoas escreveriam poemas que não significam nada exceto para elas mesmas, por que imaginariam mundos estáticos com exóticas combinações de elementos? Pela mesma razão que as pessoas que gostam de um artista semi-oculto preferem que ele continue assim. Todos temos uma consciência perene de que este momento, este aqui que estamos vivendo, imediatamente agora, é banal. É sempre o outro tempo, o outro mundo que parece bom — aquele tempo que será uma sucessão infinita de momentos perfeitos, seja na chiqueza dos restaurantes da moda, na deliciosa dureza da onipotência diagnóstica, ou na gélida e altiva superioridade de quem, a essa altura, só pode observar o baixo mundo dos vis mortais. Os sofisticadíssimos querem olhar para todos, todos mesmo, e imaginar algo que ninguém possa imaginar, uma resposta peculiaríssima a uma visão de mundo peculiaríssima. É a idéia mesma de um terreno comum com qualquer outra pessoa que causa repugnância.

Agora, o duplo angélico é sempre negociado e particular; pouca gente quer ser um novo Leonardo da Vinci, atuando em todas as áreas. Algumas pessoas querem o prêmio Nobel; outras, um emprego na TV; outras, ainda, apenas ser magras e ter roupas bonitas. Quando se fala em auto-imagem, normalmente se fala da versão perfeita que se concebe para si mesmo. Então surge a percepção de que essa versão também é determinada pelos outros — alguém disse a você alguma vez que você era inteligente ou escrevia bem, ou era bonita e devia ser modelo, ou sei lá o quê, e você acreditou. Em algum momento da sua vida, você percebe que essa auto-imagem fracassa. Você não é tão glamuroso quanto queria. Se você é mulher, sabe que as personagens de Sex and the City só existem na TV — na vida real, elas se casam com homens pouco seletivos e/ou ficam amargas. Se você é homem, ou mulher, e quis basear sua vida numa inteligência transgressora como a do Dr. House, manipulando todo mundo, já viu que muitos fatores lhe escapam. Se você quer apenas assistir e dar uma de superior, você tem um blog que só serve para jogar ácido em todo mundo, enquanto na famosa vida real todo mundo só te acha um ressentido. E se você se acha the ultimate bolacha do pacote, nem você se entende, mas ainda assim você espera uma bolsa do governo, porque voluntariamente ninguém vai pagar por algo ininteligível.

O efeito maléfico de muitas obras de arte, de filmes mais bobos a Sex and the City e House, é perpetuar a impressão de que a vida ideal é aquela em que bancamos o nosso duplo angélico e vencemos o mundo. Só que aqueles protagonistas são só personagens de um roteiro, vividos por atores que têm à disposição os melhores fotógrafos, maquiadores etc. do mundo. Todos esses personagens vivem segundo a própria hybris, zombando das circunstâncias e inventando as próprias regras, criando o próprio mundo auto-suficiente, seja repleto de sapatos e roupas, seja repleto de inteligência e perspicácia. Eu jamais diria que não se deve assistir a essas séries; mas, como já falei, se você sabe que comer um determinado alimento tem um efeito sobre seu corpo, também deveria saber que consumir um determinado produto cultural tem um efeito sobre a sua alma, e ficar atento. Gostar de séries e filmes em que o duplo angélico vence o mundo mau, com essa estrutura paranóica (eu sou bom, os outros são maus), é a mesma coisa que gostar de brigadeiro. É bom, é simples, tem efeito rápido, mas engorda. O brigadeiro engorda o corpo e o duplo angélico engorda a alma. Você fica cheio de si.

Posso falar de duas obras recentes em que o duplo angélico é questionado. A primeira é o livro O animal agonizante, de Philip Roth. Agora percebo que o título é ainda mais preciso do que eu imaginava. O protagonista, um professor universitário, concebe a vida segundo uma perspectiva puramente física, animal: o negócio é ter prazer e colecionar alunas no quarto. Mas, se o prazer depende do corpo, e se a vida perfeita depende do corpo, o que fazer quando o corpo se vai? O livro não tem resposta nem redenção. Algumas pessoas podem achar corajoso admitir um impasse; eu me pergunto por que eu precisaria de coragem para admitir que estou agora olhando para a tela do computador, para admitir que o que está na minha frente é o que está na minha frente.

A outra obra, que vai muito além do livro de Roth, é o filme Two lovers, de James Gray. Um sujeito coloca sua vida nas mãos de uma mulher de prestígio — ela tem prestígio porque o convida a entrar em seu mundo, mas não o suficiente, como se ficasse para sempre na vitrine. Você pode ver e sonhar, mas não pode encostar nem possuir. Ao final, o sujeito fica com outra mulher, uma oportunidade mais encaixada em sua realidade. Minha única crítica ao filme é que a transição de uma mulher para outra se dá em mais ou menos cinco minutos, e isso é muito pouco tempo para a verdadeira noche oscura em que consiste essa transição. Não se cai na real em cinco minutos. Não se abandona a idéia e a esperança do duplo angélico pessoal, em que se possui certeiramente os objetos de maior prestígio, em nome da famosa vida real, assim tão rapidamente.

Tudo isso significa que a auto-imagem deve ser abandonada? Francamente, sim. O que quero dizer é que a busca direta por uma auto-imagem que tenha um fundamento absolutamente próprio é uma futilidade. Ela vai sempre redundar na criação de um duplo angélico, porque ser “você mesmo” é “não ser os outros”, e você quer que esse fundamento tenha o poder de afetar os outros sem que você seja afetado. Perguntar-se por um fundamento do eu é a mesma coisa que perguntar: “em que ponto eu apenas afeto e ninguém me afeta?” Eu acho que é preciso abdicar dessa pergunta, e que alguma coisa verdadeiramente sua apenas surgirá quando você parar de pensar no assunto e se concentar em fazer alguma coisa muito bem. Todos os grandes autores, por exemplo, estavam obcecados pelos assuntos de que tratavam, não por “deixar sua marca pessoal”. Essa marca veio como decorrência de seu amor por outra coisa, exatamente como o orgasmo vem em decorrência do desejo pela outra pessoa, e não do desejo pelo orgasmo; ou como o bom paladar vem do desejo do cozinheiro de agradar o cliente, e não do desejo de impor sua própria concepção de comida. Nossa imagem, aquela que afeta mais aos outros, e positivamente (já repararam que o mal sempre parece impessoal? Isso vem de seu caráter de privação), aparece quando nos preocupamos com as coisas que fazemos e com os próprios outros, e não quando tentamos fazer algo diretamente pessoal.

Sobre o duplo angélico

Após meu texto sobre o transgressor eficiente, achei que valia a pena escrever mais sobre a idéia girardiana de “duplo angélico” para clarificar alguns pontos. O primeiro exemplo de duplo angélico que Girard dá é Jean Santeuil, protagonista da obra homônima inacabada e imatura de Marcel Proust:

“Jean Santeuil não conhece o desejo nem a verdadeira desilusão. Ele possui tudo que o narrador da obra posterior [Em busca do tempo perdido] não possui. Elegante, inteligente, seguro de si, exerce um charme irresistível sobre os Outros.”

“From Novelistic Experience to Oedipal Myth”, publicado em Oedipus Unbound.

Tanto o desejo como a desilusão são admissões da própria finitude, por isso a vida perfeita que se deseja projetar não tem nem um nem outro. Os desejos que aparecem são intensos e plenamente satisfeitos. O duplo angélico é a pessoa de quem Álvaro de Campos se ressente no Poema em linha reta: “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Em vez de iniciar uma séria digressão literária, acho mais didático ficar num terreno mais banal. A web é uma grande facilitadora de produção de duplos angélicos. Seja no seu perfil no Orkut (de onde saí há bons anos, a propósito) ou no seu blog, você quer projetar uma certa imagem positiva de si, que domina as situações por que passa ou que, quando não domina, é de uma incapacidade absolutamente charmosa. Você quer que o mundo saiba quais são as músicas que você ouve, seus filmes favoritos e sei lá mais o quê. Nesse momento devo dizer que outro dia li um artigo sobre como as pessoas já se rejeitavam in limine por causa dos gostos musicais, o que me pareceu uma das coisas mais imbecis do universo. Francamente, não consigo levar tão a sério assim nem meu gosto por Brahms ou Schubert, quanto mais meu gosto por Lupicínio Rodrigues ou minha rejeição por Djavan (odeio todas as letras que não fazem sentido, porque são contra a natureza humana). Talvez eu só fosse a um show da Madonna ou do Djavan se a Ana Beatriz Barros me pedisse, mas não consigo me imaginar pensando: “Aquela menina não gosta da Gundula Janowitz. Assim não é possível.”

Projetar um duplo angélico que realmente se diferencie e consiga ser interessante não é nem um pouco fácil, e nosso mestre da categoria é obviamente Alexandre Soares Silva. Mas não necessariamente o duplo angélico segue a via do esnobismo de monóculo que olha os selvagens com curiosidade e desprezo (essa me parece a melhor estratégia de humor aqui porque lida com os complexos de inferioridade brasileiros). Em vez de molhar a madeleine, existem blogueiros que preferem dizer que se afundam na bebida e na leitura de Bukowski (se você se diverte escandalizando com esnobismo, faça cara de quem não entendeu o nome e depois diga, com cara surpresa, “Ah! Biukáuski!”). Unindo o dândi e o beatnik está o desejo de projetar sobre os outros a imagem de que sua vida é a pura seqüência de desejos espontâneos vividos em plena intensidade, sempre “campeões em tudo”. Se eventualmente perdem, é porque o mundo é mau. Entre todas as imagens projetadas, sempre está a de alguém que afeta sem ser afetado. Vale repetir a citação de Girard:

“Jean Santeuil não conhece o desejo nem a verdadeira desilusão. Ele possui tudo que o narrador da obra posterior [Em busca do tempo perdido] não possui. Elegante, inteligente, seguro de si, exerce um charme irresistível sobre os Outros.”

Por isso, passando à produção literária, não faz muita diferença que o personagem passe por apuros e seja realmente vitimado pelos outros se ele mesmo não enxergar a sua culpa nos males. Todos somos culpados. Se o personagem é fundamentalmente inocente do começo ao fim, é grande a chance de que seja apenas um duplo angélico do autor, uma versão mais perfeita dele mesmo.

Girard oferece Édipo como exemplo paroxístico daquilo que chama de “experiência romanesca”, a destruição do duplo angélico. Na peça de Sófocles, Édipo passa da máxima crença na própria inocência à admissão total da culpa. Igualmente, Proust teria passado, enquanto autor, da produção de uma obra com um protagonista perfeito à produção de uma obra com um protagonista que lida com sua finitude, e o mesmo teria acontecido com diversos autores. Em algum de seus livros Girard diz que “todo grande autor em algum momento se torna parodista consciente de si mesmo”, rindo da maneira como levava a sério a imagem de perfeição que gostava de projetar.

Agora, eu não poderia terminar esse texto sem convidar o leitor a enxergar o meu próprio duplo angélico. Só neste post eu quis mostrar que sou tolerante em relação ao gosto musical alheio, rejeitei os “outros” indefinidamente por seu desejo de parecer perfeitos, e de modo geral eu gostaria de ser percebido como alguém que tenta olhar para as coisas mesmas. Não há como enunciar uma estrutura geral da ação humana sem dar a impressão de que se está acima dela; não é possível falar do duplo angélico sem parecer que se está tentando dizer que essa fase já foi superada. Eu vejo que essa superação é, na famosa vida real (e não na literatura), extremamente lenta, e consiste em abandonar a imagem perfeita e inocente de nós mesmos que usamos para nós mesmos, para ter nossa própria justificação íntima. Acusar os outros angelicamente, dizendo que eles são burros ou bregas, é o meio mais comum de diferenciar-se; difícil é apontar o dedo para si e sinceramente não esperar ser visto como alguém melhor por isso. Não estou nem insinuando que eu tenha chegado lá.