Galeão & Cumbica

Nossa presidente Dilma Rousseff propôs cinco pactos, diz-me a imprensa. De um deles, já teria desistido, ou ao menos estaria reavaliando o que deseja fazer. Os outros quatro pactos são um primor: um fala em responsabilidade fiscal, e os outros só falam em gastos. Aliás, o pacto da mobilidade urbana fala em 50 bilhões de reais saídos diretamente do Tesouro.

Presidente, se a senhora apregoa a responsabilidade fiscal, o que vai cortar para transferir dinheiro para aquelas metas? Podemos dar sugestões? Podemos fazer passeatas pedindo a redução dos salários e das aposentadorias da burocracia? Podemos iniciar a discussão prática de onde cortar? A senhora vai anunciar quando o prazo para propostas? Eu, por exemplo, sem pensar muito, acho que a verba publicitária do governo pode ser violentamente reduzida (bota violentamente nisso), que cada deputado pode viver com um salário, talvez uns dois assessores e zero passagens (ele trabalha em Brasília, que faça contato com as bases via Skype como todos nós), zero planos especiais, zero etc., o que vale, é claro, para os demais cargos da burocracia, que manteriam, é claro, o direito de criar suas organizações privadas de classe.

Afinal, presidente, se a senhora está propondo responsabilidade fiscal e aumento de gastos ao mesmo tempo, faz isso por quê? Por ser idiota ou por acreditar na nossa ilimitada idiotice? Veja que sou receptivo às duas propostas, e sei que uma não exclui a outra. Também sei que a política é o domínio do marketing, e que o marketing é o domínio da neurolinguística, e me pergunto se a senhora não está apenas provocando estímulos contraditórios para nos deixar estupefatos e atônitos enquanto os absurdos se perpetuam.

Nesse nível de discussão, francamente, só consigo pensar em Roberto Campos, que dizia que o Brasil tinha duas saídas: Galeão e Cumbica.

Velho do Restelo 1 x 0 Dilma Rousseff

lusiadas

Abro o Diário do Balneário e me deparo com a informação de que nossa presidente Dilma Rousseff ontem chamou a oposição de “Velho do Restelo” (vai o link para o Estadão porque achei primeiro). Confesso, não sou de rir sozinho diante de notícias, dou no máximo um sorrisinho, até porque o riso é mimético e demanda a presença de outras pessoas, mas essa mancada me fez gargalhar.

O Velho do Restelo é um personagem que aparece nos Lusíadas após a partida das naus de Vasco da Gama. Se é verdade que Vasco da Gama é o herói dos Lusíadas, também é verdade que Camões, que conheceu a colonização portuguesa onde ela acontecia, na África e na Ásia, e não apenas na metrópole, inseriu esse personagem para fazer um contraponto à euforia das navegações. O Velho do Restelo observa que sem as mãos jovens os velhos e as crianças ficam desprotegidos (contra invasões) e descuidados. Diz que as navegações são fruto da “glória de mandar” e da “vã cobiça”. Na verdade, o Velho do Restelo confirma avant la lettre toda a ideia de que as navegações eram uma forma maldosa de exploração, toda a narrativa da esquerda contemporânea.

Mais ainda, Os Lusíadas pode ser uma obra de ficção, mas é uma obra baseada em fatos reais, e que adquire ainda mais relevância quando colocada em seu contexto histórico e político, e não apenas literário. Se ela foi publicada em 1572, apenas seis anos depois Portugal sofreria a maior derrota de sua história, causada justamente pela euforia de Dom Sebastião, jovem monarca que se julgou capaz de enfrentar sozinho os mouros e cujo corpo desapareceu no Alcácer. Se o Velho do Restelo tivesse sido ouvido, não teria havido sebastianismo, nem União Ibérica, e o mundo hoje seria muito diferente. Nunca conheci um professor de literatura portuguesa que não observasse isso e que não demonstrasse simpatia pelo Velho do Restelo. Até por amor a Portugal.

Se quiserem me taxar de ideológico pelo que vou dizer, sei lá, mas o que eu espero de um presidente é que dê ouvidos ao Velho do Restelo. Que aja com prudência e que evite o excesso de confiança em suas políticas. E também gostaria, já que estou falando disso, que a própria oposição pudesse ser vagamente comparável àquele “velho de aspecto venerando”. Isso mostra as duas mancadas da presidente: não só ela não é Vasco da Gama nem deveria tentar ser, como falta muito fubá à oposição para merecer a comparação com o Velho.

É verdade também que Camões pode ter tido uma pequenina participação na débacle portuguesa de 1578. Afinal, foi ele quem disse, ao fim dos Lusíadas, que Dom Sebastião realizaria feitos ainda mais esplendorosos do que seus antecessores. Mas, vejam a ironia: Camões provavelmente disse isso, uma inserção considerada tardia, para ver se conseguia algo com o governo. Outra sugestão de que os poderosos não deveriam permitir que os bajuladores os deixassem cheios de si mesmos e antes procurassem a companhia dos críticos.