Um poema ateu de A. E. Housman

Meu interesse por Housman começou com a leitura da peça The Invention of Love, de Tom Stoppard (dê uma olhada no vídeo aí em cima, tem o Dr. Wilson no papel principal). Ainda não li A Shropshire Lad, mas esbarrei com um de seus poemas no finalzinho de um de meus livros favoritos, a coletânea de light verse (“verso ligeiro”) preparada por W.H. Auden, um de meus gurus. E, já que o tema esteve presente aqui há pouco, este livro foi um dos melhores presentes que já recebi.

No ano passado, tentei fazer um exercício de empatia com a psicologia atéia, e não fui recebido, digamos, com a boa vontade que esperava. No matter. Até porque o que me interessa mais é observar as reações, e eu fiquei curioso demais para saber como os ateus de hoje reagiriam ao ateu latinista de Cambridge, também poeta.

The laws of God, the laws of man,
He may keep that will and can;
Not I: let God and man decree
Laws for themselves and not for me;
And if my ways are not as theirs
Let them mind their own affairs.
Their deeds I judge and much condemn,
Yet when did I make laws for them?
Please yourselves, say I, and they
Need only look the other way.
But no, they will not; they must still
Wrest their neighbour to their will,
And make me dance as they desire
With jail and gallows and hell-fire.
And how am I to face the odds
Of man’s bedevilment and God’s?
I, a stranger and afraid
In a world I never made.
They will be master, right or wrong;
Though both are foolish, both are strong.
And since, my soul, we cannot fly
To Saturn nor to Mercury,
Keep we must, if keep we can,
These foreign laws of God and man.

A. E. Housman

Deus em minúscula, problema de auto-afirmação

Escrever “Deus” com minúscula, “deus”, é mais ou menos como escrever “estados unidos” por ser anti-americano. Imaginem se eu, que julgo que o governo não deveria manter empresas, vou passar a escrever “petrobras”. Posso deixar perfeitamente clara a minha posição sem criar um ruído comunicativo que só serve para dar a impressão de que estou falando com vozinha esganiçada e dedinho apontado, correndo e dando chutinhos na canela dos adultos. “Olha só, não acredito, não respeito, por isso ponho em minúscula! Olha! Olha! OLHA!”

Ainda que eu me sinta um professor primário por dizer isso, o “D” maiúsculo tem uma função convencional, distinguindo o Deus cristão (e judeu) dos deuses pagãos. É verdade que o Deus cristão ainda é distinto por não ser acompanhado de artigo nem de nome; basta que se diga que Deus fez isso, ou que Deus estabeleceu tal coisa, para que se saiba não se está falando do deus Indra ou do deus Apolo; mas, veja só, eu não creio nem em Indra, nem em Apolo, e consigo perceber o ridículo de escrever indra e apolo. Mesmo que se pense que o Deus cristão é apenas mais um deus como o dos pagãos — o que demonstra menos sutileza que dizer que Ayn Rand e Karl Marx não passam de autores ateus — , ué, o nome convencional do Deus cristão é “Deus”. Ou, se preferirem, “o nome convencional do deus cristão é Deus”.

Pelo menos, por uma questão de coerência, essa gente que escreve Deus com minúscula podia começar a escrever moisés, abraão, isaías. Se não crêem no maior, podiam também não crer nos menores a quem os crentes atribuem existência histórica.

A diferença entre crentes e ateus

What a piece of work is man! How noble in reason! How infinite in faculty! In form and moving how express and admirable! In action how like an angel! In apprehension how like a god! The beauty of the world! The paragon of animals! And yet, to me, what is this quintessence of dust?

Hamlet, II, ii

Em termos de experiência, pergunto-me qual será a diferença fundamental e real entre crentes e descrentes, entre religiosos e ateus. As semelhanças são muito fáceis de apontar. Ambos dirão que apenas se submetem à verdade; ambos dirão que seguem suas consciências; ambos dirão, mais ainda, que o que os diferencia do outro lado é o estar certo, o ter razão; também dirão que são humildes, uns porque aceitam Deus, outros porque aceitam os limites do conhecimento humano; e não se deve esquecer que uns considerarão os outros a praga da humanidade. Nisto tudo crentes e descrentes podem ser iguais. Mas qual será o fundamento subjetivo de sua diferença? Haverá uma atitude fundamental que distinga um grupo do outro?

Claro que falo como crente. E não posso empreender uma investigação destas sem boa vontade para com o lado descrente. Essa boa vontade me obriga ao seguinte: devo supor que um ateu é tão sinceramente ateu quanto eu sou católico; que, assim como não julgo a mim mesmo um imbecil, também não vou julgá-lo imbecil; que não serei condescendente, e que tentarei colocar para mim mesmo a pergunta: “Se eu fosse parar de crer, ou se fosse pensar que não há Deus, como chegaria a isso, sem qualquer desonestidade? O que me levaria até esse estado?” Claro que qualquer um pode apontar que provavelmente a minha consciência já não é tão pura a ponto de servir de modelo; mas eu só posso dizer que ao “amar ao próximo como a mim mesmo” vou tentar considerá-lo como eu me consideraria.

O empreendimento me parece quase impossível, para dizer a verdade. Ou melhor: parece que só é possível chegar a uma hipótese e esperar que os ateus não se sintam mal representados, como se a minha hipótese contivesse sua condenação implícita. Aliás, também admito que eu gostaria de chegar a uma enunciação dessa diferença que fosse retoricamente aceitável tanto para crentes quanto para descrentes.

O melhor que consegui até agora foi o seguinte: diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo. O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo. Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal. De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?” E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?” É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo.

E por aqui encerro por enquanto, porque o projeto pede que se caminhe lentamente.

A origem (cristã) do ateísmo contemporâneo

O que segue abaixo é um trecho da longa entrevista feita por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello com René Girard.

Não custa recordar que as origens de um movimento cultural podem não ter nada a ver com os objetos que interessam a esse movimento, isto é, o fato de o ateísmo contemporâneo ter (ou não) uma origem cristã nada diz a respeito da existência ou da inexistência de Deus. Mas pode dizer muito sobre a motivação de quem entra na guerra cultural.

***

René Girard. Um longo argumento do princípio ao fim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. pp 205-208

A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?

Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.

O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.

Em sua opinião, portanto, apesar das aparências, o mundo tem-se tornado cada vez mais cristão, ainda que a Bíblia não seja mais lida?

Sim. E, de certa forma, esse fato torna o fenômeno bem mais paradoxal, pois é mais fácil resgatarmos princípios bíblicos quando não sabenis que o são. O niilismo moderno é uma mentira. Após a Segunda Guerra e a dissolução da URSS, ou seja, com a queda do regime comunista, quando nossos intelectuais julgaram liquidado todo e qualquer princípio absoluto, estavam errados: a vitimologia ou a defesa das vítimas se tornou sagrada: é o princípio absoluto. Ninguém jamais atacará tal princípio. Então, podemos dizer que todos temos essa crença cristã. Alguma vez já viram um desconstrucionista ou um foucaultiano fazendo o tipo de genealogia que Nietzsche tinha em mente? Ele visava a uma desconstrução do Cristianismo, por ele entendido – de forma acertada – como a defesa das vítimas. Nossos niilistas modernos querem desconstruir tudo, exceto a defesa das vítimas, causa por eles abraçada. Silenciosamente, rejeitam o Nietzsche pró-nazismo. Constituem, na verdade, um tipo muito peculiar de niilistas; negam tudo, exceto a defesa da vítima. Noutras palavras, não poderiam ser mais cristãos, embora, é claro, neguem o Cristianismo, numa autocontradição cada vez mais óbvia.

Os princípios cristãos de fato prevaleceram e continuam a prevalecer?

Continuam a prevalecer muitas vezes de forma distorcida, caricatural, quando a defesa da vítima, por exemplo, gera novas perseguições. Só podemos perseguir indivíduos ou grupos quando temos a justificativa de ser contra qualquer prática persecutória, de perseguir apenas para combater perseguições! Em suma, só podemos perseguir perseguidores. Daí a popularidade da propaganda, hoje maior do que nunca. Mas se trata de um uso dessa difusão em nada relacionado ao uso feito pelo Cristianismo: a princípio, a propaganda concernia às verdades cristãs a serem propagadas. Hoje em dia, ocorre um fenômeno muito pouco cristão em seu verdadeiro propósito, pois precisamos provar que nosso oponente é um perseguidor, para justificar nosso desejo de persegui-lo. Ora, a propaganda cristã visa a abolir a possibilidade de perseguições! Daí a verdade cristã, sem a autocrítica capaz de mostrar nossas tendências violentas, ser tão inquisitorial quanto a própria Inquisição.

Trata-se de um processo muito eficiente: valores cristãos são difundidos sem provocar nenhum skándalon.

Sim e não. Sempre há o skándalon. Trata-se de um processo bastante complexo, porque o mundo moderno está ficando cada vez mais cristão, por um lado, e cada vez menos, por outro. Cumpre enfatizar amgos aspectos, e foi o que tentei fazer, por intermédio de Nietzsche. Hoje, o chamado multiculturalismo defende com veemência as minorias oprimidas. Tomando assim o partido das vítimas, os multiculturalistas convenientemente rejeitam o mecanismo do bode expiatório. Em resumo, são cristãos. Ao mesmo tempo, contudo, acreditam em vingança. Vingança contra toda a cultura ocidental. Não percebem que repetem e acentuam, em nível mundial, a metamorfose anterior da cultura, o Renascimento e o Iluminismo.

Crença, descrença e experiência de mundo

Não faz muito tempo, li um texto de uma atéia americana que discutia a percepção dos ateus pelos não-ateus e aproveitava para falar de alguns argumentos usados a favor da crença em Deus, detendo-se particularmente no I feel it in my heart, que eu poderia traduzir como “é o que percebo em meu coração”. Ela dizia que esse argumento era ridículo. Sob muitos aspectos, é mesmo. Mas ele merece um exame maior.

Acreditamos em certas coisas – quaisquer coisas – por uma mistura de, digamos, raciocínio e paixão. Buscamos uma verdade que esteja acima de nossas predisposições e inclinações pessoais, mas continuamos vivendo segundo essas predisposições e inclinações. Aliás, a própria vida cotidiana nos obriga a vivê-la automaticamente; não é a todo momento que repetimos os mesmos atos de consciência que levaram à percepção de uma determinada verdade, e essa verdade também é transformada em regra semi-consciente.

Por isso é que gosto de fazer o seguinte exercício: em vez de me perguntar simplesmente se tal ou qual proposição é verdadeira, e sob que aspecto ela é verdadeira, também me pergunto sobre as minhas motivações pessoais para adotar uma determinada posição. Ninguém, exceto talvez os que adotam a vida monástica, tem a busca da verdade como objeto perpétuo de suas atividades; caso contrário, jamais comeríamos comidas deliciosas mas pouco nutritivas, nem beberíamos além da conta, nem faríamos nada por pura recreação. Isso também vale para atividades intelectuais; é possível descobrir por que prefiro ler poesia a ler prosa, e por que prefiro ler certos poetas a ler outros, ou por que meu interesse pelo teatro é maior do que meu interesse pelo cinema, e até por que essas preferências podem mudar durante a minha vida.

Foi assim que admiti que o meu catolicismo vem de um misto de fatores subjetivos e objetivos. Eu poderia dizer que o principal fator objetivo, e por isso repetível, está nas cinco provas de São Tomás de Aquino para a existência de Deus – provas que jamais vi ser vagamente refutadas; normalmente, mudam de assunto ou até, na última tentativa que vi, a existência de uma hipótese era mencionada como prova em contrário de uma das teses. Agora, sei bem que dessas provas não se deduz a veracidade da religião católica, tão bem quanto sei que cerca de 120% dos que atacam as provas de São Tomás não percebem que ele também sabia disso. Minha crença em Deus vem de algo objetivo; meu modo de crer, por sua vez, vem de algo subjetivo: do meio em que cresci, dos livros que tive à disposição, de experiências pessoais que, francamente, não tenho por que desprezar. Tenho, para evitar pomposos termos em alemão, uma “experiência de mundo” católica.

Comecei a pensar nesses termos quando percebi que eu também era capaz de algo que chamei de “experiência de mundo atéia”. Via que a juventude é uma espécie de bênção; que ser feio pode ser uma tragédia; que é facílimo viver sem jamais pensar que algo pode acontecer depois da morte; que é possível suspeitar de diversas leituras e da sensação de “preenchimento da alma” que elas trazem (nada mais fácil, e mais demoníaco, do que confundir a vaidade de achar-se sócio-proprietário da verdade com a humildade diante do transcendente); que com facilidade posso afirmar algo porque é conveniente; que o poder de ordenar uma sociedade por meio de modelos transcendentes pode vir de qualquer religião; que olhar para todo esse ceticismo que apresentei e dizer que “prefiro uma postura menos cética” é a mera afirmação de uma preferência; que a má vontade que eu continuo a ver em muitos ateus pode estar perfeitamente presente em muitos crentes, inclusive em mim mesmo.

Ainda assim, continuo católico; não é meu objetivo aqui dar minhas razões, mas só quero dizer que, de todos os critérios que existem para rejeitar a religião, o mais vaidoso é “sou puro demais para ser religioso”.

Francamente, “a experiência de mundo atéia” que descrevi parece um tanto comum entre a gente letrada, e muitos ateus simplesmente têm a coragem de ser fiéis à sua própria experiência, em vez de adotar os termos da experiência de mundo de outras pessoas. Qualquer coisa objetiva que surja em nossas vidas ganha persuasividade pelo contexto, e seria desonesto admitir que as provas de São Tomás não ganham força para quem já crê. Isso não é uma questão teológica, mas psicológica. Trata-se de estar aberto a uma determinada sugestão, qualquer que seja seu conteúdo. Creio mesmo que muitos ateus gostem do que diz Richard Dawkins só porque ele parece uma versão mais assanhadinha de seu próprio ateísmo mísero e mesquinho, um Thomas More que não se dobra diante da pujança intelectual de todas as tias velhas do mundo.

Por isso é que eu gostaria de dizer àquela autora que provavelmente ela é atéia por razões subjetivas, exatamente como muitos de nós somos crentes por razões eminentemente subjetivas, pessoais, por experiências que não podemos repetir e nem podemos ignorar. You too are an atheist because you feel it your heart.

Tendo dito tudo isso, queria ainda observar que o “debate” entre crentes e ateus parece um tanto quanto irremediável. Ninguém quer debater com alguém que faz questão de definir sua identidade pelo desprezo por aquilo que se julga crucial. Escrevi este texto para tentar encontrar um ponto “retórico” em comum com os ateus, mas seria preciso que houvesse outros pressupostos comuns para dissipar um clima de hostilidade e malícia. Um dos pressupostos do famoso “debate”, essa entidade verdadeiramente mítica e transcendente, quase que sempre manifesta apenas na forma de uma “troca de idéias” em que um lado está sempre em desvantagem, é a ausência de competitividade e o estabelecimento de um laço fraternal entre os participantes.

Darwinices

Já declarei que o meu interesse pelo assunto “teoria da evolução” tende a zero. Antes que você se escandalize com isso, devo dizer que eu também me escandalizo com o fato de alguém não querer discutir as diferenças entre o teatro de Shakespeare e o de Chekov o dia inteiro. Ou o de Ibsen. Se eu tivesse de escolher entre A origem das espécies e Hedda Gabler, ficaria com a peça sem pensar um segundo.

Mas eu me interesso pela guerra cultural em torno da teoria da evolução. E, antes de entrar nesse assunto, devo dizer que todo assunto pode ser tratado de duas maneiras diferentes. Na primeira, chamada científica, a pessoa que investiga sacrifica suas preferências e desejos em nome do objeto investigado. Isso pode nunca ser perfeito: é uma atitude, um estado subjetivo, e portanto depende de ser mantido pelo investigador. Na segunda, dominante no jornalismo e em blogs (quase nem poderia ser diferente), os assuntos são tratados como componentes de identidade e, portanto, de auto-afirmação. “Eu possuo o melhor argumento, logo sou melhor do que você”. Um argumento pode ser ostentado em público como uma roupa, um carro ou uma namorada. Sobretudo por quem não sabe se vestir, não tem carro e nem namorada. Queremos ser ricos; queremos ser vistos como ricos.

Faço essa longa ressalva para dizer que nada sei sobre a evolução. Não sou biólogo e, francamente, não vou passar a ser. Sou leigo nisso e admito a existência de um domínio de especialistas. Não sei nem se eu saberia formular a teoria da evolução como tese. Ontem fiquei tentando e o melhor que consegui foi “ocorrem mudanças genéticas aleatórias que afetam o grau de adaptabilidade dos seres ao ambiente; os mais adaptados sobrevivem e se reproduzem, passando seus genes adiante”. Se essa tese é verdadeira ou não, não ligo a mínima. Prefiro pensar em Hedda Gabler.

O que eu não consigo entender, enfim, é como essa tese pode contradizer a tese da existência de Deus e a existência da religião. Primeiro porque a questão da origem da vida é distinta da questão da evolução ou não-evolução. É evidente que Deus poderia ter criado o mundo com leis evolutivas biológicas. O fato de os seres “evoluírem” não prova nem desprova a existência de Deus. Admitindo que Darwin era um cientista sério – sem ironias do católico aqui – os darwinistas de botequim estão apenas se apropriando de sua teoria para manifestar seu desgosto com pessoas religiosas quaisquer, e não só aquelas que seguem uma interpretação literal do Gênesis – interpretação jamais adotada ao menos pela Igreja Católica; se você não sabe, vá se informar, depois volte. Espírito científico, rapaz! Agora, consigo perfeitamente compreender o desejo de reagir contra um moralismo petulante que pretenda governar sua vida; mas também consigo ver que a teoria da evolução está apenas sendo usada como porrete, com total desprezo pela questão de os seres vivos realmente “evoluírem” ou não.

Exatamente como a religião merece ser distinguida das apoteoses de tosquice dos religiosos, tenho certeza de que a teoria da evolução merece ser distinguida dos xiitas que se julgam iluminados por não ser as pessoas de quem não gostam. Se o espírito da religião é de caridade, o espírito da ciência me parece ser de prudência. É impossível não comparar as pessoas que brandem a teoria da evolução em blogs e jornais com pregadores. É impossível não sentir que as celebrações do “ano Darwin” parecem pretender marcar uma “nova era” em que a “ciência” vai suplantar a “religião” e que Darwin, logo um velhinho barbudo, virou garoto propaganda da anti-religiosidade. Nesse sentido, não há nova era: a disputa de atitudes é tão velha quanto o mundo, e a atitude que hoje se pretende “científica” é a velha atitude prometéica. Novamente devo recordar que não estou discutindo o conteúdo da teoria da evolução, mas seu papel na criação e afirmação da identidade de não-especialistas letrados o suficiente para querer ser vistos não apenas como bonitos ou bem-vestidos, mas também como donos de certas opiniões. Até porque um dos grandes mitos modernos é que cada um deve ter a sua própria opinião, sendo deveras deselegante usar de sinceridade e admitir: “Não sei, francamente não estou nem aí, tenho outras prioridades e a vida é curta.”