De Marcel Duchamp a Damien Hirst

A polêmica em torno das telas de bolinhas de Damien Hirst me faz pensar em Marcel Duchamp, aquele incompreendido. Nunca esqueço de chegar ao MoMA em Nova York e ver pessoas aglomeradas em torno de uma roda de bicicleta virada para cima. Claro que, ao ver o nome do autor, lembrei do episódio do mictório no museu, e das garrafinhas com “ar de Paris”.

Falar do mictório no museu é explicar uma piada. É óbvio que a piada diz respeito a “o que é arte” x “o que é socialmente aceito como arte”. Mas também é óbvio que, se você quiser mesmo indagar o que é arte, o melhor meio para isso é um ensaio filosófico, ou um diálogo, ou uma questão disputada. Não vou entrar nessa discussão para não me alongar e para não perder de vista o que quero dizer. Se você quer falar do que é socialmente aceito como arte, é óbvio e tautológico: é aquilo que é socialmente aceito como arte, isso é, aquilo que as pessoas falam que é arte. Por “as pessoas” você deve entender o grupo ao qual você atribui prestígio.

E é pela questão do prestígio que chegamos à questão do socialmente. Toda a sociedade é organizada em torno do prestígio. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, devido ou indevido, estou dizendo que é assim. Ter diploma dá mais prestígio do que não ter diploma. Ter seu livro publicado por uma editora dá mais prestígio do que publicá-lo por conta própria. Os detentores do prestígio são sempre, e por definição, os outros. Assim, quem tem autoridade para dizer que você é artista, isso é, para conferir-lhe esse prestígio? Os outros. Assim como conhecedor de um assunto é quem é formado nele, poeta é quem tem seu livro publicado.

Você acha que é imune a isso? Que nada. Você está mais disposto a olhar com bons olhos o que você nas livrarias do que aquilo que lhe chega por e-mail. Você não contrataria um engenheiro que não fosse formado para construir sua casa. E, por favor, é claro que, em última instância, isso é uma generalização. Não venha com essa de, ao ouvir que todo mundo gosta de chocolate, vir com aquela serelepice mentecapta de dizer: “Eu conheço uma pessoa que não gosta de chocolate!”

A piada de Duchamp, então, é a seguinte: vamos colocar qualquer negócio no museu, de preferência algo escatológico, para ver um bando de manés (desses que refutam generalizações) adorando o ídolo, falando que ele “levanta questões”, enchendo a boca para discursar e para filosofar etc.

A reação a isso, que hoje é amplamente conhecida como conservadorismo, tem alguma razão: é muito melhor quando aquilo que recebe prestígio parece merecê-lo. Por exemplo, quando os museus exibem obras, e não objetos cuja função é tripudiar do público. Ou quando os diplomas concedidos pelas universidades correspondem a algum conhecimento mínimo verificável. A defesa disso, quase sempre associada ao esquerdismo, é aquele elitismo inconfessado que quer dizer: “ah, deixa, vamos rir desses otários”.

(Aliás, e eis um tema a ser desenvolvido, tendo a crer que uma diferença entre esquerda e direita está nisso: a direita defende um elitismo aberto, e a esquerda um elitismo esotérico. O sentimento de superioridade da esquerda vem de ela esconder melhor o fato de praticar aquilo que condena.)

Voltando a Damien Hirst, o que sucede é bastante simples. Após um século de confusão duchampiana & prosperidade capitalista, o público está disposto a pagar bastante pelo prestígio da arte. Existe a demanda. Por que deixar de aproveitá-la?

Obras de arte: alimento, remédio ou veneno

Este texto foi parcialmente inspirado por isto.

Quero falar sobre a questão do julgamento moral das obras de arte, mas antes preciso confessar que não sei se entendo bem a ideia de moral. Claro que entendo a ideia de moralismo, que seria o estabelecimento de um limite aparentemente arbitrário para as ações humanas. “Daqui não passarás.” Mas por quê? O que há do outro lado? O mundo mágico das pessoas esclarecidas? É fácil ver que o moralismo e o antimoralismo são duas posições igualmente pueris. Agora, isso não ajuda muito em relação à moral.

Pelo pouco que consigo vislumbrar, a moral está relacionada a certas concepções antropológicas, cosmológicas e teológicas, que todos temos; lembrando que o ateísmo é uma concepção teológica. Dado que o homem é x, que o cosmos é y, e que Deus (ou qualquer instância sobrenatural) é z, segue-se que a melhor maneira de agir é w. E no entanto não consigo não enxergar um certo aspecto utilitarista na ideia de moral. Se o tabuleiro é de um jeito, há um jeito de jogar que é vencedor, e outro que é perdedor. Claro que você pode questionar o sentido de vencedor e de perdedor, mas acho que não haveria disputa quanto a essa formulação, que pode ser expressada tanto na forma de “se o cristianismo é verdadeiro, é bom que nos sacrifiquemos pelos outros” e “se Deus não existe, o prazer, sensível ou intelectual, é o melhor bem a que podemos aspirar”.

Pior ainda, mesmo os dez mandamentos parecem-me ter um caráter utilitário. Por favor, não me condenem por dizer isso: vejam que digo que me parecem. Como entender algo como “não roubarás” sem um caráter utilitário se não consigo ver um fundamento metafísico da propriedade? Nada me liga a meu computador além de um complexo aparato social que gera nas pessoas a expectativa de sofrer violências se entrarem na minha casa e tirarem meu computador. Entendo que em última instância se chega a um fundamento metafísico: sofrer a violência é um mal, porque sobreviver, de modo saudável, é um bem; daí decorre que tudo que concorra para a sobrevivência saudável das pessoas é um bem. Mas isso não cria um elo metafísico entre mim e meu computador. Se ele fosse destruído, eu continuaria igual. Tanto é que já dei e já vendi computadores sem que nada me acontecesse.

Creio que minha inteligência é, ou tornou-se, de tipo trágico. Fico me perguntando o que acontecerá se fizermos isso ou aquilo, e tenho interesse por desejos paradoxais. Um desejo paradoxal, por exemplo, é o desejo de manter a atual estrutura jurídica e proibir o casamento gay. Uma vez que o Estado brasileiro liga o casamento a diversas interferências no direito de propriedade (como a inclusão de dependentes para fins tributários, as modalidades de pagamentos de planos de saúde etc.), não dá para defender a lei tal como ela existe, e também defender o mandamento que diz “não roubarás”, e ser contra o casamento gay. Ele decorre da lei. Ele é uma interpretação mais justa da lei do que subordinar o direito de propriedade à heterossexualidade. Agora, muitos gays também não querem aquilo que resolveria a disputa de maneira pacífica, que seria retirar o Estado da questão do casamento. Essa solução seria o equivalente a um pai retirar de cena um brinquedo que é motivo de briga entre seus filhos, porque os gays militantes querem aquilo que os heterossexuais têm, ou que eles imaginam que os heterossexuais têm, e por isso não querem que o brinquedo saia de cena a fim de garantir a paz. Eles querem o brinquedo para si, porque sabem que, para um heterossexual conservador, o casamento fica maculado se os gays agora têm acesso a ele. Daí eu volto ao que dizia: minha inteligência funciona de modo trágico, voltando-se para os aspectos insolúveis das disputas, ou insolúveis porque os dois lados aceitariam todas as soluções, exceto a única que funciona, que é sacrificar aquilo que define sua identidade.

Mas bem. Falemos de obras de arte. Diante da questão “devemos julgar moralmente as obras de arte?”, é preciso fazer várias distinções e observações. A primeira delas é: todo mundo julga “moralmente” todas as obras de arte. A pessoa que cria uma obra blasfema contra o cristianismo provavelmente considera nojentas as catedrais medievais, símbolos da dominação blá blá blá. A segunda é que essa ideia de “moral” é mítica, e se eu desmistifiquei a minha própria “moral” nos parágrafos anteriores, não vou poupar a “moral” do leitor. Observo que as pessoas chamam de moral ou de imoral aquilo de que elas gostam ou não gostam, e só. Você gostaria de trair seu cônjuge sem sentir vergonha, “culpa”, sem sofrer consequências? Então você aprovará filmes cujos protagonistas fazem isso, porque vai se identificar com eles. E depois você vai falar no direito de amar, de ser feliz, e que as situações são complicadas etc. Aquilo de que você gosta é complexo e cheio de nuances. Aquilo de que você não gosta é simples e grosseiro.

Assim como antes falei da expectativa de punição violenta que garante os direitos, também observo que há uma relação de causa e efeito no consumo de obras de arte. Já observei que ninguém discorda de que a ingestão de certos alimentos tem certos efeitos sobre o corpo (também tem sobre a alma, mas não falemos disso), e eu mesmo tomo a culinária como modelo para as artes, mas por alguma razão as pessoas acham que podem passar relativamente incólumes pelo consumo de obras de arte. E é particularmente engraçado que seja possível defender isso no mesmo momento em que vemos a maioria das pessoas de classe média urbana agir e falar cada vez mais como personagens de séries americanas. O ponto de vista irônico e cáustico das séries americanas é tão onipresente que chega a ser cansativo, sobretudo porque as pessoas acreditam que isso veio delas mesmas, não do canal da Warner ou de trezentos mil episódios de House.

Esse é um dos efeitos das obras de arte, reconhecido desde Aristóteles, que sugeriu na Poética que as plateias poderiam evitar a tentação de imitar a hybris dos protagonistas observando seus efeitos. Nelson Rodrigues também disse que mostrava horrores no palco para que não houvesse horrores na sociedade. O fato de que todos nós temos algo de Emma Bovary, querendo imitar o que vemos nas obras de arte, é um segredo protegido apenas pela teimosia de achar que somos nós os inventores de nossas atitudes, forjando destemidamente nossas personalidades, como protagonistas de livros de Ayn Rand.

Assim, diante da questão da conveniência de julgar moralmente as obras de arte, só posso observar que, se toda obra de arte tem algum efeito na alma, é razoável levar esse efeito em conta na hora de consumi-la, porque quem quer a causa vai levar o efeito no pacote, querendo ou não. Pior ainda, não existe bulimia artística, você não pode ver um filme e botar o dedo na garganta para vomitá-lo, nem pode pode suprimir totalmente uma melodia etc. Você pode, é claro, fazer uma nova digestão do que vê, ouve, lê etc., como que trabalhando seu aparelho digestivo intelectual. O que, naturalmente, não deixa de ser uma espécie de conversão, ao menos da inteligência.

É por isso tudo que a questão do julgamento moral das obras de arte no sentido de “se eu vir esse filme, irei para o inferno?” só faz sentido de maneira muito metafórica. Uma formulação mais razoável levaria em conta que toda e qualquer obra de arte depende de alguma identificação e de alguma abertura para ser apreciada. A criança que recebe goela abaixo uma colherada de uma comida qualquer não está disposta a gostar daquela comida. A pessoa que se senta para ver um filme sem aceitar as sugestões que vêm da tela, sem permitir que seja criada empatia, dificilmente gostará do filme, e estou falando de gostar, não de apreciar intelectualmente, de respeitar as qualidades etc. Como ninguém se julga eminentemente imoral em sentido negativo, ninguém vai dar empatia a algo que considere “imoral” ou ruim. Toda obra de arte depende desse elemento identificador e trabalha com ele em algum sentido, seja tentando purgar a plateia dele, como no caso da tragédia grega, seja tentando reforçá-lo, como no caso de Lost in Translation.

Uma outra maneira, talvez, de formular a questão, e que, essa sim, me interessa sumamente, é: de que maneira a obra trabalha seu elo de identificação com a plateia, e o que isso diz sobre a obra e sobre a plateia? E quais as implicações sociais disso (sempre no plano de “o que vai acontecer”, não de “o que deveria acontecer”. Nada mais fácil e simplório do que comparar algo real com algo ideal e censurar o real por não ser o ideal)?

E agora, para encerrar, vejo que poderia sintetizar essas reflexões todas reformulando a pergunta de maneira metafórica: dado o espectador x, a obra y tem para ele o efeito de alimento, de remédio ou de veneno?

Limites da fotografia de moda

Subitamente percebi que a freqüência de ambientes feios, sujos e destruídos em fotos de moda pode ser facilmente vista como mais uma projeção do que chamo de “complexo de Jesus Cristo” e como maneira de enfatizar o duplo angélico, isto é, tanto a idéia de que o sujeito individual é um puro e inocente cercado de sujeira por todos os lados, quando a idéia de que ele afeta sem ser afetado. Afinal, é a modelo linda no ambiente sujo que confere prestígio a ele, que só serve mesmo para fazer contraste. A modelo afeta o ambiente, sem ser afetado por ele. As diferenças são realçadas e o sujeito nunca questiona a si mesmo, porque está ocupado demais em questionar o mundo.

Seria exagerado, porém, sugerir que a fotografia de moda tenha alguma culpa especial ou maior do que as demais artes em, sem qualquer esquerdismo, que vocês me conhecem, vender mentiras para o famoso grande público. Até porque quase sempre a fotografia de moda está a serviço do propósito de vender roupas, e é muito melhor que as pessoas sejam inspiradas pela beleza na hora de escolher as próprias roupas do que o contrário. É quase que a finalidade própria da fotografia de moda oferecer duplos angélicos no sentido de “a melhor versão daquilo que se pode ser”. Estou apenas dizendo que a freqüência do uso de fundos feios para realçar modelos bonitas parece um sintoma da difusão do sentimento paranóico; todos, afinal, acham que são a reserva moral desse mundo vil.

Curioso é que essa bondade nunca se apresente de forma ativa. Por exemplo, nunca vi uma campanha ou um editorial em que as pessoas lindas e bem-vestidas estivessem realizando atos caridosos, como dar esmolas, servir comida aos pobres, ou mesmo dando as próprias roupas. Seria bom que essa campanha ou editorial trouxesse a bondade verdadeira, não a mera adesão ao cânone politicamente correto do dia, isto é, que mostrasse o amor ao próximo, não aquela pose de quem acha que está “contribuindo para salvar o planeta” — ou seja, de quem se acha mais um Jesus Cristo, um salvador do mundo. Agora, talvez essas fotos de moda não existam porque elas não venderiam roupas, e eu já passei da idade de ficar lamentando esse tipo de coisa.

Por outro lado, não sei se seria possível que uma campanha ou um editorial de moda questionasse diretamente a individualidade e a autonomia do desejo. É muito engraçado que trabalhos fotográficos caríssimos só sejam possíveis porque existe uma indústria da moda, que é a mesma coisa que a massificação. Mesmo que as peças nos editoriais e campanhas de maior prestígio não sejam para todos, a idéia (na verdade por trás de toda propaganda) de vender individualidade e exclusividade para as massas é engraçadíssima, sobretudo porque funciona.

É claro que ter determinados propósitos não impede a fotografia de moda de ser realmente bonita, assim como é claro que existe uma arte verdadeira ali. A qual, como qualquer arte, tem suas limitações. Se a moda é o oferecimento de modelos, talvez só mudando de ramo se possa explorar melhor certas nuances do desejo e das interações humanas. Veja-se por exemplo algumas das obras da artista Marina Weffort, obras que vêm diretamente questionar a individualidade: nelas, as figuras mantêm sua individualidade, ainda que se toquem, se contaminem, questionando suas próprias autonomias. As imagens tendem a um centro que não está exatamente em nenhuma figura específica, mas está nelas todas. Esse centro, parece-me, é o desejo. Na fotografia de moda, ele já se cristaliza como modelos a ser admirados e imitados; nas artes plásticas, pode aparecer numa representação mais direta.