Maternidade opcional x paternidade obrigatória

Já sei de antemão que o que vou dizer corre um sério risco de ser mal entendido, mas mesmo assim lá vai: defender o direito ao aborto, defender aquilo que hoje chamam de (peraí que eu vou encher a boca de farofa, porque só assim é possível falar as palavras a seguir) “empoderamento” e “direitos reprodutivos” da mulher, é defender que a maternidade é opcional. No entanto, existe um movimento no Brasil para que o reconhecimento de paternidade seja obrigatório.

Daí que, pergunto eu, não podemos considerar o abandono da mulher grávida pelo engravidador como uma espécie de aborto tácito? Veja-se, por exemplo, que o homem sequer propôs que o filho fosse despedaçado vivo ou tivesse o crânio arrebentado para que um tubo de sucção pudesse mecanicamente cumprir o resto do serviço. Ele simplesmente entregou a criança à sorte, ou à mãe. Se isso é bom ou mau, vou deixar que os seus preconceitos decidam.

Não deveria o homem também gozar de (farofa, peraí) “direitos reprodutivos”, tendo pelo menos até uma certa data para avisar à mulher se deseja ou não aquela gravidez dela, e tornar-se, segundo sua opção, responsável materialmente pela criança, ou, desculpe, por aquele monte de células? Por que os (já estou quase engasgando de tanta farofa) “direitos reprodutivos” da mulher supõem o dever do homem de arcar materialmente com a decisão que, dizem os abortistas, cabe exclusivamente à mulher?

Devo recordar que eu mesmo sou violentamente contra o aborto, mas isso não me impede de observar a tremenda incoerência naquilo que se propõe. Se a mulher puder abortar, o homem também tem de poder. Não ficam dizendo (acho que até em alguma das encíclicas publicadas por algum ministro do STF) que se homem ficasse grávido haveria clínicas de aborto em cada esquina? Então por que a lei desse país machista patriarcal patriarqueiro falocêntrico capitalista selvagem opressor fica obrigando os homens a reconhecer a paternidade de crianças que eles abandonaram quando elas ainda não passavam de montes de células sem vida indistinguíveis de um tumor?

Em suma: não dá para defender que a maternidade é opcional sem que a paternidade seja opcional também. Se a sociedade adota o caminho da ausência de responsabilidade individual, propondo até que “ausência de condições psicológicas” seja razão para uma mulher justificar o aborto, eu não sei porque é que um homem não poderia alegar a mesma coisa.

Mas enfim, mas enfim, o mais importante mesmo é que vejam a minha modesta proposta como uma especulação, e não que pensem que estou a cobrar coerência, de dedo em riste, de quem já abdicou da ideia de responsabilidade individual própria. Porque eu sou que nem o Leonard Cohen. I have seen the future – it is murder.

Não existe debate público sobre aborto

Se eu fosse professor, e quisesse ensinar meus alunos a enxergar polaridades, sugeriria que olhassem para a questão do aborto. Não existe a menor possibilidade de os defensores da legalização do aborto se entenderem com os defensores da manutenção de sua ilegalidade. E, para deixar claro de uma vez, e isso porque acho full disclosure um negócio bacana, recordo que eu mesmo faço parte do segundo grupo. Acho que o aborto deve ser ilegal e, veja que escândalo, acho que as mulheres que praticam aborto devem ser penalizadas judicialmente, porque crime sem punição é palhaçada. Acho também que dizer que eu só digo isso porque sou homem é tão legítimo & arguto quanto eu dizer que você não pode estudar matemática porque é mulher. Mas não é isso que me interessa aqui; não quero convencer ninguém, ao menos não nesse momento, da validade da minha posição.

E, por favor, durante este texto, a palavra “aborto” significará “legalização do aborto”. Tenho certeza de que você é grandinho e já aprendeu na escola uma figura de linguagem chamada metonímia. Pelo menos antes de o ministro Paulo Renato inventar seus temas transversais e de Fernando Haddad fazer sabe-se lá o quê, era isso que a gente aprendia.

Considere como os defensores do aborto se rotulam nos EUA: pró-escolha. Os que são contrários, pró-vida. Não são rótulos que se referem ao mesmo objeto. São duas formulações totalmente distintas do problema. Não existe entre elas um debate. Existe só competição retórica. (Claro que você pode achar que o “mercado de ideias” é a solução para tudo, e se você achar isso eu recomendo que recorde que o livro mais vendido de todos os tempos é a Bíblia, que a maior parte das pessoas no Brasil e provavelmente no mundo é contra o aborto etc.) Competição retórica não é debate. O fato de um assunto morrer não significa que um punhado de teses foram refutadas. O fato de alguma crença pegar mal não significa que ela é falsa. Tem gente que acha corajoso e bonito ver que outra pessoa ainda se diz comunista. Ou monarquista. Prestígio social depende do meio social. E prestígio social não é validade intrínseca, nem veracidade. Escolhemos a maioria dos nossos argumentos como quem escolhe roupas. Na melhor das hipóteses, só conseguimos examinar bem mesmo um punhadinho das nossas ideias. Esse ar de “pensamentos idos e vividos” que tentamos dar ao nosso discurso é pura pose.

Um defensor do aborto vai falar em saúde pública, em mulheres que morrem ou que sofrem consequências negativas por terem feito abortos em más condições. Nada disso é falso. Alguém contrário ao aborto vai dizer que desde a concepção existe uma vida humana, o que também não me parece falso, se você considerar que um óvulo fecundado, deixado no útero de uma mulher saudável, virá a ser um bebê.

O lado pró-escolha vai dizer que o lado “pró-vida” negligencia a vida das mulheres adultas. Esse lado pró-vida vai dizer que o lado pró-escolha negligencia a vida dos bebês. Basicamente, um lado está chamando o outro de assassino, seja de bebês ou de mulheres adultas.

Nesse momento, se você defende o aborto e chegou até aqui, talvez tenha ficado indignado porque acha que eu estou chamando uma mera massa celular de “bebê”. Na pior das hipóteses, anunciei qual era meu lado logo no primeiro parágrafo. Na melhor, você poderia ter reparado que estou tentando preservar o vocabulário de cada um dos lados da disputa.

Os dois lados, enfim, veem um ao outro como um bando de assassinos. E existe debate com assassinos? Não, né? Por isso que sempre se vai pedir para “mudar o foco” da questão do aborto. Mas essa mudança de foco é uma petição de princípio. Se a prática do aborto ilegal é ou causa um problema de saúde pública, bem, temos de resolver os problemas de saúde pública, não é mesmo? Quem é que pode dormir à noite com um problema de saúde pública? E o que fazer com essa gente que se nega a resolver um problema de saúde pública? Chicoteá-los? Por outro lado, se aborto é assassinato de bebês, bom, eu não quero que bebês sejam assassinados. Temos de pegar esses assassinos de bebês e botá-los todos na cadeia. É claro. Diga não ao assassinato de bebês parece um slogan óbvio até demais.

É por isso que não existe debate público sobre o aborto. Até as garrafas vazias de vinho na lixeira lá fora já sabem que, quando alguém vem dizer que a sociedade tem de debater o aborto / as drogas / as micaretas (peraí, elas já são legalizadas, tinha esquecido), isso significa: você tem de pensar exatamente como eu penso. De repente é preciso lembrar às pessoas que um debate começa com premissas comuns e supostamente termina com conclusões comuns, não que um debate começa com conclusões repetidas ad nauseam até convencer o outro lado. Até porque nunca vi uma pessoa chamada de assassina subitamente se convencer da posição de seu interlocutor.

Meditações demográficas

Hoje, que O Globo traz uma matéria sobre crescimento populacional, não dá para não pensar que há quem ache ecológico não ter filhos, e que se preocupe com o (ou a) carbon footprint de cada pessoa. Ao mesmo tempo, esse quem quer o protagonismo estatal, quer aposentadorias etc. — afinal, garantias sociais = civilização ocidental, não é mesmo? Mas essas garantias só podem ser pagas pelas gerações futuras, sejam elas gerações de nacionais ou de imigrantes. Agora, e o controle populacional? E a ecologia? Posso propor que a Planned Parenthood discuta a questão da previdência ecologicamente responsável?

A história que provavelmente não será escrita

Alguém – não eu – deveria desarmar-se de tudo e ir a Pernambuco conversar com a família da menina em quem fizeram o aborto. Tentar passar um tempo com a própria, mesmo prometendo não tocar no assunto. Poderia ver a tal assistente social, os “médicos”, o bispo, o padre. Poderia obter o laudo que confirma que aquela gestação em particular representava mesmo um risco altíssimo – já que até meninas de cinco anos já pariram e continuaram passando bem, ué, não custa pedir uma confirmação. Se o laudo fosse esse mesmo, e talvez mesmo que não fosse, valeria a pena consultar um especialista em direito canônico para averiguar a excomunhão. Claro que o autor da matéria inexistente também poderia explicar o que é uma excomunhão e, se tivesse um pouquinho de senso de humor, poderia ridicularizar os não-católicos que ficam chocadinhos e põem o ovo na boca para dizer: “óóóóóó, excomunhão!” Também poderia, é claro, dar alguns números sobre aborto e contextualizar a questão. Por fim, ou talvez por início, uma citação de Wedekind.

Eu acho que essa história não será escrita porque as pessoas chiques diplomadas gostam cada vez menos de histórias. Diga que eu sou desumano, canalha, sórdido: mas essa história de Pernambuco é ótima de ser contada. É comovente em todo o seu horror. Mas ninguém que tenha um diploma universitário quer ser comovido – exceto pela visão de uma versão melhorada de si mesmo numa tela de cinema. No mais, todas as histórias já são lidas em busca de teses ou, se o leitor gosta de se julgar inteligente, de “apresentações de problemas”. É verdade que o esquerdista chique médio olha a história de Pernambuco como uma apologia do aborto, e que o ditirambo “aborto não” também pode cansar (ainda que eu o defenda absolutamente). Mas os dois lados podem reduzir a história a uma questão, e uma história pode ter uma questão, ou apontar uma questão, mas uma história só pode se reduzir a uma questão se o autor ou o leitor quiserem. Alguns autores quiseram isso deliberadamente; cada personagem representa um lado e pronto. Outros sequer pensaram nesse assunto – alguém poderia me dizer que argumento um personagem como o Rei Lear estaria defendendo? Ou alguém seria estúpido a ponto de achar que “Rei Lear” é apenas a mensagem “devemos perdoar os pais” em trocentos mil caracteres? O nosso leitor / espectador chique moderno seria.

Veja a micro-sinopse: garota de nove anos é estuprada pelo padrasto e engravida. Com quatro meses de gestação, uma assistente social decide fazer um aborto e bloqueia o acesso de um padre que acompanhava a família. Assim que o aborto é realizado, o bispo da cidade anuncia que a família e os médicos estão excomungados. Tudo nessa história é terrível. Como na história de Édipo. Provavelmente as pessoas chiques querem abortar os filhos do padrasto porque, assim como o indeferenciado filho-marido, pai de seus irmãos, os bebês da menina de 9 anos ameaçam sua necessidade visceral de viver num mundo Barbie Fashion Fever – dizendo, é claro, que a menina é que “deveria ter o direito” de brincar com a boneca. Um aborto é uma catarse; junto com ele, você purga o terror de que a sua vida tenha de ser vivida em função de alguém e não de você mesmo. Não, não estou falando com a sertaneja ou favelada reaça que não tem medo de parir, estou falando com você que pode ficar lendo este blog na sua tela de cristal líquido. Você admite que pode gostar de Édipo, a peça: o cânon ocidental está aí para validar isso. Mas e a tragédia verdadeira que sem muitas mediações trata de quem é próximo no tempo e no espaço? Vamos começar imaginando a protagonista, uma menina de 9 anos que brinca de bonecas, que sabe que dentro da barriga de uma mulher grávida está um bebê vivo, e que sente pelos bebês aquilo que as meninas de 9 anos sentem…

O despertar da primavera

Recebo alguns e-mails pedindo minha opinião sobre o aborto feito na menina de Pernambuco, a excomunhão etc. Eu preferia não falar desse assunto, porque os dados que vêm pela imprensa nessas coisas são sempre muito duvidosos. Aliás, tirando o blog Tubo de Ensaio, os grandes veículos sempre nos presenteiam com textos embaraçosos; aparentemente, ignorar o que a religião diz a respeito de si mesma é obrigatório para o jornalismo religioso brasileiro. Enfim.

Vamos começar com dois links para a edificação geral:

1. Grávida de gêmeos em Alagoinha: o Pe. Edson Camargo, que acompanhou a família da menina estuprada até o ponto em que uma assistente social o permitiu, conta o que presenciou.

2. Menina estuprada de 9 anos é a mãe mais jovem do Peru: o que sugere que é possível ter filhos com essa idade. Não sei como era o caso da menina de Alagoinhas, se havia alguma complicação; mas, como não li nenhum boletim médico, eis aí ao menos algum contexto.

Agora, sobre a excomunhão, bem, não sou canonista e não tenho a mais mínima vontade de me juntar a defensores do aborto no ataque a um bispo. Quero só levantar algumas perguntas. Primeiro, até onde vai meu parco entendimento, a Igreja permite o aborto como efeito negativo de uma intervenção positiva. Assim, se um aborto for parte de uma intervenção cirúrgica que salva a vida da mãe, a Igreja o permite. Se a mãe quiser ter o filho e morrer, a Igreja admira o sacrifício, mas não o estabelece como padrão de conduta. Pelo pouquíssimo que li sobre esse caso, ele parecia cair nessa situação. Digo “parecia” porque aparentemente a gravidez era a própria causa do risco de vida, e não um obstáculo no caminho de outra coisa. E, francamente, não conheço um único especialista brasileiro em direito canônico que possa tirar a dúvida.

De todo modo, entre as condições necessárias para a excomunhão, estão 1. a consciência de que a Igreja prescreve a pena de excomunhão para
determinado ato (como a prática do aborto) e 2. a ação deliberada e suficientemente livre. Creio que 1. a mãe não sabia da pena (normalmente só os militantes anti-aborto sabem dela) e 2. a mãe estava pressionada demais pelo terror da situação e até pela assistente social.

Comme d’habitude, na grande imprensa não se ouviu nenhuma defesa dos pobres bebês que a menina gerou. O aborto é mesmo o único “bem” que nunca é advogado para si mesmo.

A violência ilimitada

Quando esteve no Brasil em 2000, René Girard falava de como as vítimas de ontem têm se tornado os acusadores de hoje; este é, em síntese, o fenômeno do “politicamente correto”. Anos depois, a situação levanta uma questão urgente. Com os puxões de orelha no Bispo Williamson, com outro bispo afirmando que o maior holocausto é o do aborto legalizado, e, por que não?, comigo mesmo recordando diversos outros massacres de inocentes – cristãos & quaisquer pessoas que desagradassem aos comunistas, armênios etc; e também não há por que não contar aí a escravidão dos negros, por exemplo – , cabe perguntar qual é a atitude correta e mais adequada para o presente e para o futuro em relação aos males passados.

Certamente uma competição para ver que grupo foi o mais massacrado não sugere um espírito razoável. Diante do espírito intervencionista moderno, de “vamos resolver tudo por meio do governo”, já poderia imaginar uma comissão da ONU responsável pela contabilidade e quem sabe até por uma proporcionalidade de recordações devidas aos massacrados do passado. Claro que haveria disputas sobre os números e sobre os grupos eleitos (a ONU não contaria os bebês abortados, por exemplo), mas acho que não haveria disputa sobre a vantagem da obrigatoriedade de uma certa atitude em relação aos massacrados. Além de criminalizar o chamado “negacionismo” do Holocausto, também seria possível criminalizar diversos outros “negacionismos”. Assim, por exemplo, seria possível bloquear a entrada da Turquia na União Européia, pois lá não se pode falar do massacre dos armênios. Perpetuar o ciclo de retribuições por meio das leis sempre tem “vantagens” – exceto a vantagem de estimular o fim dos ressentimentos (justos ou injustos).

E claro que muito do ressentimento de hoje contra o esquecimento ou obscurecimento de certos massacres vem da presença continuada do Holocausto na mídia. No entanto, os ressentidos não se dão conta de que isto acontece quase que inteiramente pela ação privada dos judeus, e que cabe a eles, ressentidos, iniciar suas próprias “campanhas” se assim desejarem. É injusto que se criminalize qualquer opinião – o direito à liberdade de expressão termina na incitação à violência imediata, não na afirmação de barbaridades – , mas o desejo de relembrar os sofrimentos do passado (ou, no caso do aborto, de sofrimentos constantes) depende sobretudo da vontade no presente.

Essa relembrança, por sua vez, vive de uma tensão: de um lado, é absurdo negar o sofrimento antigo, ou procurar atenuá-lo. Não é incomum ouvir dizer que as barbaridades perpetradas por socialistas de toda espécie (nazistas, maoístas, stalinistas etc) dependem da percepção de que o outro não é humano. Mas por isso mesmo também é absurdo, sobretudo para aqueles que vivem confortáveis nas capitais do Ocidente, negar a humanidade aos violentos. Por mais difícil que seja, cabe a nós religiosos pedir pelo perdão de todos, inclusive dos piores; e cabe não negá-lo, se por acaso for pedido sincera e contritamente. Claro que estou falando em abstrato; meus familiares, até onde sei, não foram exterminados; mas não é difícil perceber que a idéia de um “pecado sem perdão” é a justificativa perfeita para uma retribuição de violência ilimitada.

Corra que o aborto vem aí

Adaptando uma das conversas que nós, do OrdemLivre.org, tivemos com o Tom Palmer, a primeira coisa que pensei ao ler o Sergio falar em “abortofobia” foi no seguinte diálogo:

– Ei, você. Venha cá.

O sujeito dá um passo à frente.

– Você tem medo de aborto?

E o sujeito, escondendo o rosto com as mãos, responde:

– Sim… Sim!

– Seu idiota! E você nem é um bebê para ter medo de aborto!

Originalmente, aliás, brincávamos com a palavra “homofobia”.

Sei bem que não parece fazer muito sentido falar num “em si” das palavras, cujos sentidos parecem ser inevitavelmente multiplicados pelo uso, mas como a palavra “fobia” sozinha permanece com o sentido de “medo” e não de “repulsa” – por exemplo, eu detesto feijão, mas não me sinto exatamente assustado por ele; você diria que eu sou feijãofóbico? – , logo vejo um abuso no termo. Tudo bem, talvez a minha implicância tenha a mesma motivação que a minha aversão ao acordo ortográfico: o amor à língua. Afinal, quem ama quer que o objeto permaneça eternamente o mesmo, e as mulheres que fazem de tudo para conservar o mesmo corpo da juventude estão aí atestando a existência dessa expectativa. Porém, digo em meu favor que se a premissa de que o uso é que determina o sentido das palavras (ou, vejam quão chique e estruturalista, da “arbitrariedade do signo”), em vez de “abortofóbico” prefiro ser chamado de Luís Vaz de Camões.

Também tenho aversão pela fórmula “expressar sua sexualidade”. Primeiro, porque ela é ambígua. Refere-se a falar ou fazer? O obelisco de Ipanema para mim era só um obelisco, mas bem pode ser uma expressão de sexualidade. Assim como o Sauron, no filme do Senhor dos Anéis, é uma desdendata flamejante. Segundo, porque ela parece remeter à linguagem que distingue gênero de sexo. É possível distinguir os dois? Claro. Mas supor que não existe nenhuma relação entre um papel masculino ou feminino e o sexo masculino ou feminino é usar um modelo mecânico para entender o ser humano. Cobrindo cada V8 pode haver uma carroceria cor-de-rosa. O que é estranho, porque são as pessoas científicas que nem acreditam em alma (ou certamente não em alma imortal) que gostam de enfatizar que tal ou qual reação ou predisposição emocional é resultado da dosagem de alguma substância, de algo que acontece lá na máquina.

Mas a “expressão da sexualidade” precisa ser vista dentro do quadro das diversas racionalizações que tentam contornar um dos grandes tabus contemporâneos, isto é, que cópulas têm conseqüências. Tudo bem, a parada gay pode ser uma “expressão da sexualidade”, assim como Sauron e o obelisco de Ipanema, mas existe uma única “expressão da sexualidade” que contém a peculiaridade de ser responsável pela perpetuação da espécie. Eu sei que seria mais gostosinho pensar que você deu origem a si mesmo e que todos os seus desejos têm uma origem espontânea, mas até os personagens do filme Satyricon e dos clipes do Pet Shop Boys nasceram de um homem e de uma mulher. E não parece muito difícil distinguir entre finalidade subjetiva e finalidade objetiva. Acho que só algumas mulheres, em algumas idades, realmente fazem sexo para procriar, com essa motivação. De resto, só há, como repetia Dom Lourenço de Almeida Prado, “sexo recreativo”. O que não muda a finalidade objetiva do ato sexual. Eu achava que essa era uma noção fácil de apreender, mas dou um exemplo para ajudar. Se você puser açúcar em algo, algo não vai ficar salgado, mesmo que você tenha tido essa intenção. Mas, sei lá, achei que fossem as pessoas de jaleco branco que insistissem nesse tipo de raciocínio.

O fato mesmo de existir “precaução” no ato sexual, isto é, contraceptivos, mostra o desejo de contrariar a finalidade objetiva do ato, não sua finalidade subjetiva, a qual ainda se pretende atingir. Por isso acho sempre muito engraçado quando acusam o Papa de ser responsável pelo crescimento da população: só quem nunca teve uma experiência sexual poderia achar que, naquele momento, você pararia para dizer: “Camisinha? Ah, mas o Bento XVI falou que não pode…”

Esse é o ponto em que as coisas desandam retoricamente. De um lado, eu sei, estarão as pessoas que ostentam a sua “sexualidade livre” e que tratam todos aqueles que preferem não obscurecer as conseqüências objetivas dos atos sexuais como se fossem um bando de moralistas: falsos moralistas, na melhor das hipóteses, e loucos ensandecidos, na pior, pois até acreditam nessas coisas. Do lado “moralista”, gostaria só de dizer: não estou dizendo que sou santo, só que não acho legal matar bebês. O que, bem, não é algo que eu chegue a considerar um mérito. Mas os mais exaltados retoricamente nesse meu campo moralista também têm muita facilidade para tratar todos os defensores do aborto e da “expressão da sexualidade” como se fossem reencarnações de Calígula, quando eles, talvez para sua vergonha, nem são tão pervertidos assim. Os nossos moralistas querem vê-los humilhados e ofendidos, flagelados até confessar o erro de suas doutrinas, até expurgar o mal de seus corações. As pessoas que “expressam sua sexualidade” querem obscurecer um fato da natureza para aliviar a culpa universal, da qual os “moralistas” são mais culpados por fingir que não a carregam; os “moralistas” querem desumanizar seus adversários por apostar que, tendo a idéia correta, também terão a conduta correta, isto é, a inocência absoluta. E agora cabe a mim evitar a tentação de uma digressão sobre essa simetria maligna.

Depois desse prelúdio, vou olhar alguns trechos do petardo do meu amigo – é irresistível, afinal, pelo texto dele eu sou “abortofóbico” – teofóbico e religiofóbico. E, como o texto foi eminentemente retórico…

Certo, essa citação passou de todos os limites. Eu vou ter que falar alguma coisa.

Venha nos salvar, Batman!

Culpar a mãe por uma gravidez indesejada, e colocá-la contra a parede sob a pretensa responsabilidade de arcar com as conseqüências de seus atos…

Peraí. A “responsabilidade de arcar com as conseqüências de seus atos” agora é “pretensa”? Ou é pretensa quando se pode dizer: “Agora, querida, com Abortex Tabajara, nós arcamos e desarcamos com as conseqüências dos seus atos para você!”

E eu achava, também, que a responsabilidade era o corolário necessário da liberdade.

Não existe atualmente qualquer necessidade do ato sexual resultar em reprodução, mesmo com a ocorrência de gravidez. Em uma sociedade moderna essa conexão é absolutamente artificial e criada de fato em maior ou menos grau justamente pelos movimentos abortofóbicos.

Não é “essa conexão” que é artificial. Artificiais são e sempre foram os meios de impedir a concepção e realizar abortos. Falo em “artificial” no sentido de “feita com arte”, isto é, não apenas natural.

Culpar a mãe por uma gravidez indesejada é como culpar a estuprada por usar roupas provocantes, é como culpar o assaltado por usar um caixa eletrônico de madrugada. É por um dedo em riste no nariz dela e pontificar “quem mandou expressar sua sexualidade?”. Poderão tais pessoas porventura terem sido imprudentes ou pouco sábias? Possivelmente. E daí? Esse linha de raciocínio que busca proteger as pessoas de si mesmas é precisamente a que leva à proibição das drogas e outros absurdos totalitários cuja maior conseqüência prática é a opressão psicológica e a restrição das liberdade individuais.

A lógica, se superarmos a analogia repugnante, é fácil de perceber: o Teofóbico (é engraçado, vamos lá) fala das conseqüências indesejadas mas até certo ponto previsíveis de certas ações. Mas depois sugere que ser contra a legalização do aborto equivale a “proteger as pessoas de si mesmas” e aqui a repugnância se soma ao erro. Porque o estupro e o roubo são atos violentos praticados por terceiros, e a relação sexual consentida não é violenta, nem conta com a participação de alguém indesejado. Querer evitar as conseqüências do sexo consentido (isto é, filhos) não pode ser comparado a evitar uma violência provocada por uma minissaia, mas por sua natureza “auto-infligida” pode ser comparado a querer evitar as conseqüências do abuso de drogas. A tecnologia ainda não permite que você recupere seus neurônios. Mas matar bebês é uma arte que a humanidade domina desde sempre. E aí vem um ponto de discordância: o neurônio é seu para matar, mas o bebê é outra pessoa. Por isso, assim como mesmo no mais liberal dos governos o drogado deveria ser responsabilizado criminalmente por aquilo que fez de mal a outros, a mulher que faz aborto também deve ser responsabilizada. Ela não é, como a estuprada e o assaltado, vítima de violência. Ela é autora de violência.

Eu sei que o Teofóbico não falou ainda da mulher que faz aborto. Adiantei o raciocínio.

…é necessário então buscar justificativas para tal impostura, a mais forte delas vindo sob a acusação de homicídio.

A criminalização do aborto consegue ser simultaneamente retrógrada, hipócrita, uma violência contra a dignidade humana, a liberdade individual, a família, o bom senso e a realidade prática.

Não é retrógrada porque a defesa jurídica dos bebês não-nascidos é mais nova historicamente do que seu desamparo. Se o negócio é retroceder, vamos logo para a Babilônia. Não é hipócrita, porque hipocrisia é fingir que a natureza, devidamente desimpedida, não toma um certo curso. Não é uma violência contra a dignidade humana, porque pagamos às novas gerações a dívida que temos com nossos pais; violência é romper essa cadeia, fingindo-se autônomo, espontâneo. Não é uma violência contra a família porque, bem, como vou explicar? “Querido, matei nosso filho para o nosso bem”? Pode ser uma violência contra o bom senso de quem, como um sacerdote de Afrodite, acha que algo deve ser sacrificado ao prazer. E pode ser uma violência contra a realidade prática para quem pensa: “nem eu quero dividir meu tempo, nem minha paciência, nem quero acabar com nenhuma espécie de privilégio ou capricho para que você tenha uma vida. Foi mal aí.”

Depois o Teofóbico escreveu um parágrafo que contém um ambicioso pronome indefinido: “tudo que se descobriu, pensou e viveu nos últimos dois séculos”. Bom, descobrir, pensar e viver são cousas diferentes. Até porque as duas primeiras fazem parte da terceira, e a primeira e a segunda têm uma relação complexa. Mas, diante daquele “tudo”, diante de um público brasileiro e diante do “pensou”, vou citar um exemplo que tem a força de uma quantidade esmagadora: o espiritismo. Sou católico e não preciso dizer o que penso dele enquanto doutrina. O espiritismo surgiu nos últimos dois séculos e é a maior força do mercado editorial brasileiro. A escritora mais vendida (isto é, influente) do Brasil é Zíbia Gasparetto, que “psicografou” uma parte de seus livros. Os espíritas são violentamente contra o aborto. Este é só um exemplo, que ressalto sobretudo porque não é “tradicional” como a Igreja Católica.

Resumindo, é muito fácil transformar as suas conversas com seus amigos e os livros que você leu em “a experiência comum da humanidade” ou “a experiência que deveria ser a experiência comum da humanidade”. E no editorial do número zero, pueril na redação mas bom na intenção, pretendíamos justamente não usar essas grandes universalizações a nosso favor, nem falar em nome delas…

Como disse o Teofóbico, “prossigamos”.

Vamos ao hipócrita. Essa é quase uma covardia. Basta analisar as estatísticas, por exemplo num país pretensamente católico como o Brasil, das pessoas que se dizem contra o aborto e da quantidade de abortos que são de fato realizados. Essa é de goleada, então não vejo motivo para insistir no ponto.

Faltou um número aí produzido por uma entidade confiável, com métodos confiáveis etc.

…a quais entidades vamos nós agora atribuir esse estado especial de existência chamado “ser humano” cuja integridade merece ser protegida?

Essa não é uma questão muito simples de se responder.

Tudo bem que você pode ter a sua certeza de que “o feto não é uma vida humana” e eu posso ter a minha, contrária; mas, se você admite que há dúvida, então o argumento final foi dado por Olavo de Carvalho no primeiro Imbecil Coletivo: se há dúvida, não faça nada, porque ninguém daria um tiro no escuro se achasse que tem 50% de chance de matar alguém. Agora, falar em “quantidade de células” e depois de “cadáver” pressupõe outra falsidade, porque aquelas células no ventre da mãe não são uma coisa morta que magicamente passa a ter vida. Vale até observar que, no século XIII, São Tomás de Aquino não dizia que era aos 40 dias que o bebê passava a ter vida, mas alma imortal. Quando a famosa ciência declarou que todos os genes já estavam presentes na concepção é que a Igreja passou a defender a vida desde esse momento. Que obscurantismo anticientífico!

Agora, para terminar, que estou cansado (e meio doente, mas logo ficarei bem), é absolutamente falsa a idéia de que cristãos sejam contra o aborto por privilegiar a alma. Não, é por privilegiar o corpo, a vida nesse planeta. Afinal, a alma é imortal e indestrutível. E, se você for católico, o Papa Bento XVI oficializou a inexistência do limbo das crianças, o que significa que todos os bebês vão para o céu. Se os católicos realmente pensassem como o Teofóbico parece crer que pensam, seriam os mais favoráveis ao aborto.